Ainda falando sobre a Vera Regina, minha amiga e personagem da crônica do dia 15 de setembro, não é que ela fosse burra mas, coitada, era muito crédula e desligada. Vivia feliz na sua inocência e se o marido não tivesse largado dela para assumir o romance com a Aline, sua secretária, até hoje as duas teriam a maior amizade.
Sofreu um bocado com o abandono mas, acabou dando a volta por cima, após ter conhecido, numa boate em Campinas, o Henrique, um arquiteto gaúcho e macho pra cacete. Ela estava na cidade por conta de um curso de preparações para gerentes, chamado "Gestores do Amanhã". Pretendia sair de Brasília e trabalhar em alguma agência do interior de São Paulo.
Quando ela ouviu o nome dele, quase desistiu da paquera: _ Ah, não! Outro Henrique é demais...
Mas, aquele sotaque cantado e másculo a enfeitiçou e ela, enlevada, entrou de cabeça no relacionamento. Veio para São Paulo e assumiu uma gerência no interior. Quando havia reuniões, a gente viajava sempre juntos e por sermos amigos desde Brasília, ele confiava em mim, contando-me fatos de sua vida.
Contou-me que assim que se conheceram, foram passar o natal na casa dos pais dele, em Encantado, uma pequena cidade situada às margens do rio Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. O pai dele, um alemão grandão, estava meio esclerosado e quase não se levantava da cama. Conseguia andar, com muito custo e com o auxílio de uma bengala.
Depois da ceia, enquanto todos dormiam, os dois, meio borrachos, resolveram tomar banho juntos. A Vera, distraída como sempre, esqueceu-se de trancar a porta e apenas puxou a cortina do box, que era de plástico. De repente, ouviram o tóc tóc da bengala e os passos arrastados do velho que entrava no banheiro, rosnando consigo mesmo: _Quem foi o f.d.p que deixou a luz acesa!
Com o chuveiro já desligado, os dois tiritavam de frio, segurando a respiração, enquanto o homem fazia xixí . E o pior é que xixí de velho demora! É aquela mijadinha entrecortada e interminável. A Vera Regina teve que tapar a boca do namorado, que estourava de vontade de rir.
Assim que o pai saiu do banheiro, não sem antes apagar a luz, o Henrique correu a encostar a porta. Nisso, ouviu os passos trôpegos, voltando ao banheiro. Mal teve tempo de esconder-se atrás da porta. O velho, escorando-se no batente, virou a bunda para dentro do banheiro e soltou dois sonoros puns, daqueles bem compridos, semelhante ao som de gás saindo das bexigas. Dessa vez, a gargalhada foi inevitável.
O pobre gaúcho, meio surdo, pensou que o riso vinha do quarto e exclamou: Bah ! Ainda estão de pândega... Más que guri louco, tchê !
A receita será de uma rosca, baseada na rica culinária das colônias alemãs, do sul do país.
ROSCA ALEMÃ: 1 lata de leite condensado; 1 xícara e meia de leite morno; 2 tabletes de fermento biológico [30 gramas]; 1 kilo de farinha de trigo; 5 ovos; 250 gramas de margarina; 1 xícara [chá] de nozes ou castanhas do Pará ou de caju, moídas; 1 xícara de uvas passas sem caroço, embebidas em rum e raspas da casca de 1 limão.
Desmanche o fermento em 1 xícara de leite morno e 1 xícara e meia de farinha [consistência de mingau grosso]. Deixe fermentar até formar bolhas e dobrar de volume. Acrescente os demais ingredientes e amasse com as pontas dos dedos até desgrudar das mãos. Sove bastante [se necessário, junte mais farinha] e acrescente as nozes e uvas passas. Divida a massa em duas e faça duas tranças Deixe crescer por umas 2 horas, ou até dobrar de tamanho. Pincele com gemas e asse em forno quente [200ºC] por meia hora ou até dourar.
CALDA: misture açúcar de confeiteiro com leite ou suco de limão ou laranja e despeje sobre as roscas, ainda quentes. Se gostar, pode juntar à massa, 1 xícara de frutas cristalizadas.
Em outra crônica, já falei sobre o Ovídio, um cearense, meu colega de trabalho em Brasília. Para matar a saudade do seu Ceará amado, ele resolveu comprar uma chacrinha em pleno cerrado goiano. A propriedade ficava a mais de cem quilometros do Distrito Federal. Um lugar feio, sem nenhuma infra estrutura mas, para lá ele levava a familia em todos os finais de semana, a fim de assar uma carninha e beber todas...
Num domingo à noite, bêbado como uma vaca, ele voltava para casa, em seu Opala cor de terra, abarrotado com abóboras, mandiocas, bananas a mais a familia toda. A sogra, Dona Pura, ia no banco de trás com os três netos e a esposa Francisca, grávida de oito meses, seguia no banco da frente. De repente, surge um cavalo, em meio à escuridão da estrada. Não deu para frear...
O pobre animal, colhido pelas nádegas, rolou por cima da capota do carro e foi parar quase no colo da Francisca. Com uma costela quebrada, mais um corte que ia do alto da testa até ao supercílio, Ovídio desceu do carro, meio cambaleante e com a a ajuda da família toda, conseguiu retirar o cavalo de cima do carro. O cavaleiro estava jogado no acostamento, gemendo e bufando de dor. Ao acudí-lo, perceberam que estava completamente bêbado e com uma perna quebrada.
No final das contas, o único a morrer foi o cavalo _coitado_ sem jamais ter botado uma gota de álcool em sua boca.
Com muito custo, conseguiram chegar à Brasília e ao Hospital Santa Lúcia, bem na entrada da cidade. Os dois foram engessados e ficaram internados, para observação. A Dona Pura teve que voltar para casa em um táxi, com os três netos, já que a Francisca, sentindo fortes dores e contrações, deu à luz naquela mesma noite.
Anos mais tarde, o Ovídio voltou a esse mesmo hospital para uma cirurgia de hemorróidas. O cearense, tão valente, amarelou e não teve coragem de enfrentar o bisturi. Sofreu durante muito tempo e experimentou todos os remédios e simpatias, na tentativa de curar-se do seu mal.
Certa vez, em férias na terra natal, utilizou-se de um "receita caseira para a cura de hemorróidas" que lhe custou muito caro: baba de bananeira. Alguém lhe informou que seria a solução final. Cortou o tronco da árvore, até à altura de um banquinho e sentou-se sobre o talo gosmento, esfregando-se várias vezes, para absorver bem a seiva. Coitado! Sua bunda ficou em carne viva...
Não pode retornar à Brasilia, pois não conseguia ficar sentado mais que um minuto. Emendou as férias com uma licença e por lá ficou até melhorar um pouco. Aproveitando o descanso forçado, pediu para que o levassem até Juazeiro do Norte, a fim de inplorar a ajuda do santo Padre Cícero.
De volta ao trabalho, em poucas semanas, estava curado. Comentou comigo que não sabia se foi curado pela gosma da bananeira ou pelo poder do Padim Cicero mas que, por via das dúvidas, voltaria a Juazeiro para agradecer ao padre milagroso. Como é de costume, todos as pessoas que se julgam agraciadas pelos santos e beatos, levam uma réplica do órgão ou membro curado para ser depositada, como testemunho, na sala dos milagres.
E o Ovídio levou...
Levou um conjunto de porca e parafuso, dos grandes, daqueles utilizados em máquinas agrícolas.
Como o assunto foi o Ceará, a receita será com carne seca, ou jabá...
CARNE SECA COM ABÓBORA: Corte em cubos 1 quilo de carne seca e deixe de molho, em bastante água, de um dia para o outro. Troque a água algumas vezes. Cozinhe, em pressão, a carne com duas folhas de louro e três dentes de alho por, mais ou menos, uma hora ou até ficar bem macia. Deixe escorrer toda a água e desfie a carne. Numa panela ou frigideira grossa, frite duas cebolas, cortadas em tiras, com duas colheres de manteiga e uma colher de azeite de dendê e junte a carne seca. Quando estiver bem fritinha, acrescente uma xícara de coentro ou salsinha picada e cebolinha.
Cozinhe, em água e sal, uma abóbora, daqueles durinhas e verdes [muganga ou jerimum]. Passe-a pelo epremedor, ou liquidificador. Refogue, no azeite, uma cebola batidinha e dois dentes de alho, picados. Acrescente a massa de abóbora, um pouco de pimenta e cozinhe até virar um creme. Sirva, acompanhando a carne seca.
A carne seca pode ser acompanhada, também, de mandiocas cozidas e fritas.
Ovídio é o nome de um antigo colega de trabalho que veio para Brasília com a mulher, Francisca e a sogra, Dona Pura, uma paraibana baixinha, de menos de metro e meio. Teve uma rápida ascensão na Matriz, de escriturário para chefe de seção, de divisão, assessor e quando nos conhecemos, já era chefe de departamento central.
Durante esse período a Chiquinha, sua mulher, tivera três filhos: Washington, Jefferson e Roosevelt. Tentou mais um, que seria o Lincoln mas nasceu uma menina, da qual fui padrinho, batizada de Jackeline. Tantos filhos acabou por deformar a silhueta da esposa, que engordou e sem vaidade, "enfeiou-se" (na verdade, parecia um travesseiro amarrado ao meio).
O Ovídio tinha como secretária uma mineirinha jeitosa e suave chamada Gislaine que acabou conquistando o coração do chefe e o paixão rolou quente, a ponto de meu amigo decidir-se a abandonar mulher, sogra e filhos.
Mas, cadê coragem?! A sogra , viúva, era uma ariranha de tão brava e no fundo, no fundo, ele ainda gostava da Chiquinha, parceira de tantas lutas e conquistas. Mas, após um ultimatum de Gislaine ele resolveu-se, e às vésperas da semana santa levou a mulher e filhos para sua chácara, nos arredores de Brasília.
A sogra iria com ele no dia seguinte pois tinha que preparar a bacalhoada da sexta-feira. Pela manhã, enquanto meu amigo aguardava ao volante, Dona Pura carregava os apetrechos para o carro e após algumas idas e vindas, a velha voltou a apartamento para pegar a sobremesa: um delicioso bombocado que ela chamava de "Pudim Bãobucado" .
O Ovídio ouviu a sogra bater a porta do carro e achando que ela já estava sentada no banco traseiro, tocou o carro. Durante o trajeto começou a desfiar o rosário para a mulher; confessou tudo, do seu desgosto com o desleixo da esposa, do fim de seu interesse sexual por ela e de Gislaine, sua nova e grande paixão. Como não ouvia nenhum murmúrio ou aparte de sua sogra achou que tivesse exagerado na dose e tentou amenisar falando de sua tristeza pelo fim do casamento, da falta que faria seus filhos, das qualidades da esposa, etc.etc...
Falou tanto que começou a chorar, arrependido de seu desabafo e quando o carro chegou ao destino, ele concluiu que não queria mais abandonar a família mas, e agora? Já tinha confessado tudo para a sogra!
Parou o carro na porteira e virou-se para trás para suplicar à Dona Pura que não contasse nada à esposa, pois estava arrependido. Entre o espanto e alívio viu que no banco só estavam as batatas e o bacalhau. Demorou para compreender até que caiu na risada, feliz da vida e cheio de amor para dar a sua esposa, baixinha e gordinha mas enfim, a mulher de sua vida!
Para complementar essa história, um pouco longa e verídica, apresento-lhes o pudim da Dona Pura, um verdadeiro manjar...
BOMBOCADO DE PÃO DURO: Untar uma forma refratária com manteiga, salpicando-a com coco ralado. Colocar fatias de pão duro, sem a casca e espalhar coco ralado por cima. Fazer o creme, batendo no liquidificador: 3 xícaras de leite, 3 xícaras de açúcar e 4 ovos inteiros. Despejar por cima do pão e levar ao forno. Se quizer, sirva com calda caramelada.
Dona Olga "Peituda" ficou viúva muito cedo e não teve filho algum. Parecia ser bem idosa mas, na verdade, pelo tanto que viveu, deveria ter, então, menos que cinquenta anos. Naquela época, mulheres com essa idade eram consideradas velhas. Hoje em dia, graças às cirurgias plásticas, aos cosméticos milagrosos e aos bailões da vida, podemos ver coroas quarentonas, cinquentonas e até sessentonas bem atraentes.
Mas, Dona Olga era feia e a única coisa que chamava a atenção de nossos olhos, eram seus "peitos", enormes e empinados. Seios que nunca amamentaram ficam assim: firmes e desafiantes. Era difícil conversar com ela sem dar uma espiada naqueles gigantescos melões.
Benzedeira das boas, com suas rezas e infusões miraculosas, curava uma gama de enfermidades, desde a tosse comprida até a impotência sexual, passando pelas enxaquecas e bichas alvoroçadas (lombrigas e solitárias).
Tinha uma cadelinha pequinês chamada "Menina" que era sua coqueluche. A bichinha, sempre perfumada, com os pelos escovados e brilhantes, servia-se como uma espécie de captadora das energias negativas dos clientes de sua dona. Durante as sessões de rezas e benzimentos, a Menina ficava aconchegada naqueles enormes seios.
Dona Olga costumava fazer os passes sobre a cabeça e ombros das pessoas e, em seguida, deslizava as mãos sobre os pelos da cachorra. À certa altura, Menina dava um ganido de dor e corria, latindo, para os fundos do quintal. _ Pronto! Agora o "encosto" saiu...
A cachorrinha era virgem, condição essencial para o poder de limpeza espiritual. Dona Olga vestia-a com uma calcinha de plástico, presa com elásticos e mantinha o portãozinho do jardim sempre trancado, para que nenhum cachorro sem dono profanasse a pureza de sua Menina. Certo tarde, porém, dois acontecimentos simultâneos contribuiram para o descrédito da benzedeira:
Minha prima Aurora, sentindo-se deprimida, foi até a casa de Dona Olga em busca de energias. Esqueceu-se de encostar o portãozinho e alguns cães entraram pelo jardim, à procura de Menina. Lá no colo da dona, a cachorra, pressentindo a presença de machos no pedaço, ficou inquieta e na hora de descarregar o encosto, deu a maior mordida na mão da dona.
Algo pulou das mãos de Dona Olga, indo parar no colo de minha prima. Era um pequeno bambuzinho com uma agulha fixada na ponta.
Aurora percebeu, então, o ardil usado pela benzedeira para fazer a cadelinha gritar mas, nem teve tempo de falar nada pois, lá do jardim chegou até seus ouvidos, a algazarra que os cães faziam.
Tinha uns três ou quatro em cima da Menina e um deles, bem maior que os demais, encontrara uma folga no elástico da calcinha de plástico e conseguira engatar-se na donzela.
Dona Olga, tentou desenroscar a coitadinha mas, quanto mais batia no cãozarrão, mais firme ficava o engate. Minha prima aconselhou: _ Joga um balde de água pra esfriar a coisa!
Quando o animal recebeu o jato de água fria, pulou o muro para a rua, arrastando a Menina consigo. Dona Olga ainda gritou, com as mãos nos peitos: _ Ele levou minha Menina no reboque!
Somente à noite a cadelinha voltou para casa, toda arranhada, sem as calcinhas mas, com um olhar brilhante e satisfeito.
Já que falei tanto em peitos, a receita para hoje será:
PEITO DE FRANGO RECHEADO: Abra o peito em forma de uma bolsa. Tempere-o com sal, pimenta, alho, cheiro verde, cebola e vinagre (bata o tempero no liquidificador]. Recheie-o com fatias de linguiça calabresa e bacon em fatias, dourados no azeite de oliva. Frite o peito recheado na margarina sem sal e um pouco de azeite. Reserve-o. Na mesma frigideira, coloque um copo de suco de laranjas e deixe engrossar [mexer com uma colher de pau para desgrudar e escurecer]. Acrescente uma colher [de sobremesa] de mostarda. Cubra o peito com esse molho e sirva-o com arroz e batata palha.
Nunca vi pessoa mais distraida em toda a minha vida. Ela trabalhou comigo, em Brasília e, já no primeiro dia, percebi como era desligada! Foi comigo até a loja da SEARS, a fim de ajudar-me a escolher algumas gravatas.
Andando pela loja, de repente, ela esbarra em um manequim masculino e o derruba ao chão. Pediu desculpas e agachou-se para "acudí-lo". Somente quando tentou ajudar o "rapaz" a levantar-se, é que percebeu: _ Nossa! O braço dele saiu, é um manequim!!!
Nossa empresa costumava realizar competições esportivas entre seus empregados. A cada ano, essa evento era realizado em capitais diferentes, com delegações de vários Estados. Lembro-me que eu e a Vera Regina fizemos parte de uma delas, em Belo Horizonte. Eu para jogar "truco" e ela na equipe feminina de natação.
Já no avião, ela deu vexame: Teve uma tremenda diarréia e ficou quase que o tempo todo no banheiro.
À certa altura do vôo, enfrentamos turbulências e o avião começou a chacoalhar violentamente. A coitada nem teve tempo de suspender direito as calças de moleton e saiu correndo do toillette. Arrastava, atrás de si, um enorme rabo de papel higiênico que ficara enroscado em suas calcinhas.
Na volta, ao recolhermos a bagagem, ela e outro colega trocaram de malas, que eram idênticas. Quando a mulher do cara abriu a mala para retirar as roupas usadas, deu o maior grito: estava cheia de calcinhas usadas e mal lavadas, maiôs, secador de cabelos, cremes, soutiens, etc., etc. Deu-se o maior quiprocó e foi difícil convencer a esposa ciumenta de que os dois eram inocentes.
Nos intervalos para o almoço, a gente costumava passear pelo Conjunto Nacional de Brasília, vendo lojas e comendo alguma coisa. Um dia ela me disse: _ João, o consultório de meu marido fica aqui mesmo, neste prédio. Vamos até lá que eu tenho que devolver um brinco para a secretária dele e daí, aproveito para apresentá-lo ao Henrique..
O consultório estava fechado e a Vera Regina deduziu que o marido estaria almoçando ou lanchando àquela hora. Descemos até a praça de alimentação e, de longe, ela o avistou: _Olha, lá estão eles, meu marido e a Aline...
A secretária, jovem e bonitinha, estava sentada não de frente mas, bem ao lado do patrão e achei estranha aquela forma íntima de proximidade dos dois. Ao ver-nos chegar, ela levantou-se, toda atrapalhada, e minha amiga foi logo dizendo:
_ Aline, querida, acho que você perdeu esse brinco! Levei o carro do Henrique para lavar e o cara do lava rápido encontrou-o em baixo do banco. Pensou que era meu mas, como eu já ví você usando um igualzinho, peguei para te devolver.
A jovem e o Henrique trocaram um rápido olhar de temor que passou desapercebido para a tão distraída criatura. _ Ah, Dona Vera, esse brinco não é meu, não! Eu nem costumo entrar no carro do dr. Henrique. _ mentiu a moça.
_ Como não?! Ele me disse que sempre dá carona para você!!
Aline, na maior cara de pau, desconversou: _ O que eu posso dizer é que esse brinco não é meu e que não tenho nada parecido com ele!
Na volta ao trabalho eu, maldosamente, comentei com Vera Regina: _ Você percebeu que ela estava mentindo, né?
Num tom de astúcia, ela respondeu-me:
_ É claro que eu percebi, João! A tonta ficou com vergonha de admitir que usa bijuterias de camelô...
Vendo sua despreocupada ignorância, pensei comigo: _ Santa Maria Bernadete! Deus sabe o que faz...
Lá no Conjunto Nacional tinha um árabe que vendia um delicioso quiche de coalho. Como não sei a receita, vou passar outra, até melhor e bem fácil de se fazer:
Massa - 1 xícara (chá) de farinha de trigo; 3 colheres (chá) cheias de margarina; 1 colher (café) de sal. Misturar tudo com a mão e estender no fundo de um pirex ou forma redonda não muito grande.
Recheio: 300 gramas de mozzarella ralada;1 ovo inteiro e 1 caixinha de creme de leite (200grs). Misturar muito bem e espalhar por sobre a massa. Cobrir com uma fina camada de requeijão e salpicar com orégano. Levar ao forno médio, até dourar.
Certa vez, passei temporada em um Hotel de Águas de São Pedro/SP, e a proprietária tornou-se minha amiga. Noemy já era coroa e vestia-se de uma forma bem característica, com longas saias de tecido indiano, muitos colares, pulseiras e sandálias de couro cru. Seus compridos cabelos já estavam começando a branquear e eram amarrados numa espécie de coque, propositalmente mal preso.
Apesar do aparente desleixo, ela era bem perfumada e de maneiras finíssimas. Tinha uma voz doce e melodiosa que encantava a todos. Gostava de organizar, pessoalmente, os entretenimentos para os hóspedes. Cantava, tocava banjo, promovia bailes, jogos e gincanas, principalmente para os grupos com mais idade.
Batíamos longos papos e um dia perguntei-lhe qual o era o segredo para manter tanta vitalidade e entusiamo. Afinal de contas, pensava eu, era viúva e enfrentara uma barra pesada, com duas filhas para criar, além da responsabilidade de manter um hotel.
Era lá pelas quatro horas da tarde, intervalo em que os hóspedes costumavam tirar uma soneca, para alisar as rugas e ela, então, resolveu contar-me sua hisória. Sentou-se num sofá do Hall, ajeitou os fios de cabelos que teimavam em escapar do coque e confidenciou-me: _ João, eu não sou viúva... Aliás, não sou viúva, nem casada e nem solteira. Há cerca de vinte anos, meu marido saiu para comprar um quilo de linguiças e não retornou até hoje!
Enquanto ela retirava os enormes brincos indianos das orelhas, pude observar os rasgos ocasionados pelo uso contínuo daqueles pesados balangandãs. Assim, distraído, perguntei-lhe: _ Mas, ele largou de você, foi isso?
Massageando, delicadamente, os lóbulos vermelhos, ela continuou:
_ Não sei te dizer! Era naqueles tempos da ditadura, de prisões e perseguições e um tio meu, que era militar, procurou por ele até nas dependências do DOI-CODI e... nada de encontrar o homem!. Às vezes penso que juntou-se à alguma seita religiosa ou esotérica e deve estar em algum lugar dos Andes, mastigando coca com as lhamas...
Querendo esticar conversa, eu voltei a perguntar: _ Mas, por que você pensa assim, ele era espiritualista, hippie?
_ Mais do que isso, era completamente doido. Quando a gente começou a namorar, eu era bem novinha e fiquei encantada com as loucuras que ele aprontava. Filho único, seu pai era dono deste hotel, com muito dinheiro. O velho tinha o maior desgosto, já que o filho não assumia responsabilidade alguma. Só queria saber de farras e festas, onde a bebida e maconha rolavam soltas.
Apesar disso tudo, Noemy, definiu-me seu primeiro amor com boas expressões da época: _ Era um pão, um verdadeiro pedaço de mau caminho!
_ Como nossos parentes não queriam nosso casamento, optamos por fugir. Ele pegou um tanto de dinheiro e a mercedes novinha do pai e lá fomos nós, estrada afora, rumo à São Tomé das Letras. Pelo meio da noite, paramos para descansar e ali, ele esvasiou uma garrafa de gin e fumou vários cigarros de maconha. Quando amanheceu, lá estava eu, desesperada e ele em estado letárgico... até que a polícia mineira chegou e levou-nos para a delegacia.
Acabaram por se casar, mas os pais não compareceram à Igreja. O sogro dela consentiu em deixá-los morar no hotel, em um pequeno apartamento, todo arrebentado, ao lado da cozinha. No mesmo dia do casamento, enquanto realizava-se a cerimônia religiosa, o velho resolveu trocar algumas telhas do apartamento. Quando os noivos e alguns amigos retornaram ao hotel, encontraram aquela balbúrdia...
_ Meu sogro escorregou do telhado, caiu e quebrou o pescoço. Morreu na hora e nossa lua de mel foi no velório. Assumimos o controle do Hotel, tivemos nossas filhas, vivemos relativamente felizes por oito anos, até que aconteceu o episódio da linguiça.
Muitos anos depois, conheci o Ariel, numa reunião esotérica, e estamos juntos até hoje. Sou vinte anos mais velha do que ele, mas nos amamos demais!
Mais tarde, ela apresentou-me ao Ariel, um rapaz bem alto, com cabelos lisos e compridos. Usava umas roupas esquisitas, com tiras de couro cru, penduradas no peito. Toda romântica ela perguntou-me: _ Ele não é lindo? Parece até Jesus cristo...
Olhando para aquele tipo diferente, eu pensei: "Tá mais pra índio comanche..." Em tom de brincadeira, cochichei para ela: _Esse daí nunca foi ao açougue?
Com uma gostosa gargalhada ela respondeu, orgulhosa: _ Que nada! Ele é vegetariano, só come da minha horta...
Falando em horta, vou ensinar como se faz um cabrito assado:
PERNA DE CABRITO ASSADA: 1 pernil de cabrito novo, com ossos; 1 cebola grande; 2 ramos de alecrim; 3 folhas de louro; salsa e cebolinha desidratadas; 8 dentes de alho; 1copo de azeite de oliva, 1 copo de água; meia garrafa de vinho branco seco; 1 limão grande; 1 vidro de molho inglês; bacon cortado em cubinhos; 3 colheres de manteiga; sal e pimenta do reino.
MODO DE FAZER: Com uma faca larga, faça talhos profunfos em todo o pernil. Esfregue por toda a carne, o sal e a pimenta. Bata no liquidificador, o suco do limão, a cebola, os dentes de alho, o louro, a água, o molho inglês, a salsa e a cebolinha. Joque ese tempero batido sobre o pernil. Enfie em cada buraco feito com a faca, um cubo do bacom. Por último, besunte com o azeite e o vinho. Leve ao fogo a manteiga e os raminhos de alecrim e dê uma rápida fritada. Despeje no cabrito e enrole a carne em papel alumínio. Assar por umas duas horas e meia. A cada meia hora, descubra o assado regue-o com o molho que se forma na assadeira.
Sirva com batatas e brócolis, cozidos e ligeiramente dourados em manteiga.
O corpo da Geny era gozado! Parecia uma pera: estreito em cima, grande e redondo em baixo... Era diarista, daquelas bem preguiçosas que somente trabalhava quando dava vontade ou quando estava com alguma prestação atrasada. O marido, Divino, carregava sacos em um lavador de batatas.
Antes de se casar, ela ainda era interessante, tipo "boazuda", com a cintura bem fina e quadris largos. Seu apelido era Geny tanajura (aquela formiga bunduda). Por isso, ninguém entendeu quando se casou com o Divino, tão raquítico e sem graça. Com o passar dos anos, seu rosto ainda mantinha algo de beleza, mas o corpo virou aquele brejo, com celulites até no dedão do pé...
Tiveram um filho, bem lourinho, muito embora o casal fosse moreno. O povo comentava coisas, mas o Divino não se importava e foi um bom pai. Seu único defeito era beber demais nos finais de semana.
Passava o sábado inteiro no bar e aos domingos, bebia todas, enquanto assava alguma coisinha para a família. Acomodava o isopor, com cervejas geladas, sobre o tanquinho da esposa e ali ficava até o final da tarde, grelhando tudo quanto era inho ou inha: asinha, fraldinha, coraçãozinho, linguiçinha, costelinha...
Numa dessas tardes, enquanto ele bebia no quintal e a família assistia ao programa do Sílvio Santos, um ladrãozinho entrou pela janela do quarto. Quando a Geny percebeu o vulto, começou a gritar: _ Divino! Pega o ladrão... Tá levando minha bolsa!
O pivete passou rente ao Divino, sem que o mesmo desse conta do que estava acontecendo mas, ao pular o muro, enroscou a bermuda no arame, deixando cair um de seus chinelos. Quando a mulher chegou no quintal, avistou o marido enfiando o chinelo no pé do larápio e ajudando-o a pular o muro.
O Divino perdeu o emprego, recebendo bastante dinheiro com a indenização e o Fundo de Garantia. A Mulher comprou um computador e guardou o resto do dinheiro na poupança. A partir de então, enquanto o marido ficava quase todo o tempo no bar, ela navegava na Internete.
Pelas salas de "bate papo", acabou por conhecer um turco, chamado Aziz. Ele ficou interessado pelo rosto da Geny, chamando-a para passar uns dias em seu apartamento. Doida por aventuras, ela sacou todo o dinheiro do marido e num domingo, mandou-se para São Paulo.
Antes de sair com as malas, ainda foi dar uma última espiada no marido, que acendia a churrasqueira. Ele, já bebum, olhou bem para ela e pediu: _ Ô bem, vá fazer um vinagrete, bem caprichado!
O Aziz somente conheceu a Geny do pescoço para cima, pois ela nunca abaixava a Câmera para mostrar o corpo e quando ele abriu a porta, levou o maior susto: _ Você não ser Geny... Aziz non gostar de ser enganada!
Além de tarado, o turco era esquizofrênico e sádico. Prendeu a mulher no quarto por uma semana, a pão e água. Com uma faca afiada, ele ameaçava cortar-lhe o nariz e os seios. Toda tarde, ela era amarrada, nua, aos pés da cama e levava a maior sova de chicote: _ Mulher mentirosa e adúltera, tem que levar chibatada bára abrender!
Ela quase foi morta, em nome de Alah... Numa manhã de domingo, depois de ter torrado todo o dinheiro dela, em um cassino clandestino da Avenida Rio Branco, Aziz colocou-a em um ônibus, de volta às origens.
Geny chegou em casa, com a mesma roupa no corpo, completamente zonza e debilitada. Ficou mais de uma hora, na esquina, com medo de enfrentar o marido: "Meu Deus, escapei do turco mas, agora, o Divino me mata!"
Criou coragem e entrou, bem de mansinho. O marido estava lá, da mesma maneira em que ela o viu da última vez: bêbado e assando linguiças. Ele olhou para a esposa, piscou duas vezes e enrolou as palavras: _ Buta que bariu, ainda não fez esse vinagrede!!
Em vez de torrar as coxinhas de frango na grelha, é melhor fazê-las no forno, crocantes, anote aí que é bem fácil:
COXINHAS DE FRANGO CROCANTES: tempere as coxinhas (sem as asas) com sal, azeite, molho inglês, pimenta, cebola e alho batidinhos e meio copo de água. Deixe pegar tempero. Disponha as coxinhas na forma, com um pouco do tempero. Espalhe farinha de trigo por cima de todas, e deixe assar, em fogo médio, até ficarm douradas e crocantes.
Descobri o nome das três morenas da paineira: Alzira, Elmira e Elvira. A do meio é a Tia.
No último aniversário do Ciro Ney, nós fizemos Tia Elmira tomar quase uma garrafa inteira de cachaça. Até colamos, no rótulo da bebida, um papel escrito: "da Tia". E ela bebeu... a noite toda! Disse-nos que estava chateada pois seu dia havia sido muito complicado, por força das limitações que a idade lhe impunha e pela incompreensão das pessoas.
Após meia garrafa de cachaça, ela contou-nos a razão de suas mágoas: Naquela manhã ela acordara bem contente, pois iria almoçar na casa do Landão, um antigo amigo. Estranhou o fato de estar sem a dentadura de cima e não se lembrava de tê-la tirado para dormir. Procurou na gaveta do criado mudo, na penteadeira, na pia do banheiro e nada!! Desesperada, ligou para o amigo, mentiu que estava com uma forte enxaqueca e cancelou o almoço: Jamais sairia sem dentadura...
Mais tarde, quando foi arrumar e alisar as cobertas da cama, sentiu algo saliente. Era a dentadura que escapara de sua boca, enfiando-se num buraco do velho edredom. Retornou para o Landão, confirmando sua presença, "já que a enxaqueca havia passado."
O amigo serviu feijoada e tomaram várias caipirinhas. A sobremesa foi uma espécie de torta de chocolate, chamada Tiramissú, deliciosa mas que, definitivamente, não combina com feijoada e cachaça!
De repente, a dor de barriga apertou... Percebendo que a "explosão" seria terrível, não quis usar o banheiro de Landão e foi despedindo-se às pressas. Morava no final da avenida mas, já no começo, sabia que não daria tempo de chegar.
Pelo meio do caminho, entrou numa loja das Casas Pernambucanas, mas a balconista ruiva, "com unhas de puta", foi categórica: _ O toilette é só para funcionários!
Percebendo que não adiantava insistir, branca como os lençóis que a balconista dobrava, Tia Elmira saiu da loja, cambaleante: _ Meu Deus, não vou aguentar!
Um pouco mais adiante, ela topou com uma jovem, com roupas de enfermeira que saía de sua casa, com as chaves na mão. Enquanto a moça encostava o portãozinho do corredor, a Tia agarrou seus braços, desesperada: _ Filha, pelo amor de Deus! Deixe-me usar teu banheiro?
_ Ah, larga do meu braço sua velha doida! Eu já estou atrasada e não vou abrir a casa para ninguém... A Tia, com as pernas cruzadas e as mãos na barriga, ainda insistiu: _ Por favor, estou quaze fazendo nas calças! A enfermeira respondeu-lhe com a bunda e assim que dobrou a esquina, Tia Elmira empurrou o portãozinho e correu para uma pequena varanda, no fundo do quintal.
Agachou-se e foi aquela pororóca! Sentiu até os pelos dos braços arrepiarem-se de tanto alívio. Como não achou papel, limpou-se com um lençol branco que encontrara no varal. Saindo dalí, retornou à Loja da Pernambucanas e procurou a mesma balconista ruiva que lhe recusara o toillete. _ Pegue para mim dois lençóis brancos, dos mais caros que tiver na loja.
Após a venda, a moça perguntou-lhe: _ A senhora vai usar o crediário?
A Tia, com ar de desdém, respondeu-lhe: _ Não, filha... eu compro com cartões de crédito. Quem usa crediário são as balconistas ou enfermeiras!
Pediu papel e caneta emprestados, escreveu um bilhete e voltou à casa da enfermeira. Olhou para a varanda e riu-se do estrago que aprontara. Estendeu os dois lençóis novos no varal e deixou, preso ao arame, o seguinte recado: _ Sou velha, mas honesta!!
Tudo bem, não deveria mas...vou deixar a receita da sobremesa italiana:
TIRAMISSÚ: 4 ovos; 4 colheres de açúcar; 300 gramas de requeijão firme (mascarpone); 1 lata de creme de leite (sem soro); 1 pacote de biscoito champagne; 1 colher (de chá) de baunilha; 1 colher (sopa) de licor de cacau ou brandy; 1 xícara grande de café e 100 gramas de chocolate meio amargo raspado ou chocolate em pó.
Bater as gemas com o açúcar, adicionar o requeijão, o creme de leite e bater mais. Misturar com as claras em neve, até ficar um creme uniforme. Juntar o licor (ou brandy) ao café, molhando os biscoitos nessa mistura. Forrar uma travessa com os biscoitos molhados e espalhar metade do creme por cima. Dispor outra camada de biscoitos e o resto do creme. Alisar bem e espalhar o chocolate (raspado ou em pó). Levar à geladeira.
Prá falar a verdade, no momento, esqueci-me do nome dela. Mas é Tia da Marlene, mulher do Ciro Ney, meus amigos. Aliás, nós todos a chamamos por Tia e ela é uma figura ímpar, um verdadeiro barato!
Muito embora já tenha passado a casa dos setenta, é uma mulher vaidosa e bem bonitona. Não aparenta a idade que tem... Disse-nos que na juventude, ela e as irmãs foram famosas bela beleza. Eram conhecidas como as "morenas da paineira", pois moravam numa chácara, pertinho da cidade e na porteira de entrada, havia uma árvore dessa, bem grande.
Pelo gosto do pai, elas deveriam casar-se com doutores ou fazendeiros e preparou-as para isso. Todas sabiam tocar piano, receberam aulas de etiqueta e falavam o francês fluentemente. Mas, designos do destino... nada disso aconteceu! A mais velha casou-se com um violeiro, a Tia, com um caminhoneiro e a mais nova, tornou-se professora e solteirona.
A mulher do violeiro ficava acordada, noites e mais noites, à espera do marido, o qual, invariavelmente, chegava bêbado e com a viola fora do saco. E, ai dela, se reclamasse! Levava violada na cabeça... Bebeu tanto, até morrer com cirrose hepática.
O marido da Tia era um romântico e ela, apaixonada, não se cansava de elogiar o maridão. Sujeito trabalhador, passava semanas e semanas na estrada, a fim de trazer conforto para ela e aos filhos! Toda a vez que retornava de Belém do Pará, trazia-lhes pupunha, cupuaçu, açaí e outras frutas típicas daquelas terras.
O que ela não sabia é que quando ele para lá voltava, também levava jabuticabas, uvas, pinhão e goiabada cascão para a família que mantinha em Belém: mulher e dois filhos...
Acabaram contando para ela e a Tia ficou desarvorada, sem saber o que fazer. A irmã solteirona dizia-lhe para abandonar o marido. A viúva, aconselhava: "Fica com ele, pois eu sei o que é solidão... É melhor dividir um bife do que comer agrião!"
Mulher ferida não raciocina e... o homem foi-se embora. A coitada ficou com uma pensão tão merreca, que mal dava para pagar o aluguel. Aos poucos, vendeu tudo o que tinha. De valor, mesmo, só lhe restaram o fusca vermelho e um anel de brilhantes. Já no fim do poço, a irmã deu-lhe a idéia: "Vamos até Aguaí, lá tem um macumbeiro dos bons e com a a ajuda dele, teu marido volta para casa. Foi ele quem fez meu finado parar de beber..."
A Tia estranhou aquele papo: "Mas, se teu marido morreu com cirrose?!" A irmã ponderou: É, morreu... mas, uns dias antes, ele tinha largado da bebida!
O "pai de santo" afirmou-lhe que o marido voltaria para casa, dentro de três semanas, em troca do anel de brilhante que ela trazia no dedo. Ela concordou e aguardou. Passaram-se duas, três, quatro semanas e... nada!
De volta à Aguaí, dessa vez, o homem conduziu-as a um ranchinho no quintal, cheio de imagens com chifres e capas vermelhas: _ É, minha filha, os exús de Belém são bem fortes! A outra mulher fez um trabalho dos grossos, para segurar teu marido. Vai ser preciso muito dinheiro para quebrar as correntes. Quanto você pode pagar?
Acabou deixando o fusca, levando a promessa de que, antes de dois meses, o marido estaria entrando em sua casa: _ E pela porta da sala!
Numa tarde, lá pela hora da "Ave-Maria", a Tia viu estacionar à porta, uma perua de resgate. Dois homens entraram pela porta da sala, transportanto o corpo de seu marido. O caminhão, carregado de laranjas, havia tombado numa curva, próxima à Atibaia e o único endereço que encontraram nos documentos do acidentado, foi aquele, o da casa da Tia.
Dessa vez, a macumba deu certo e, naquele momento, veio-lhe à mente, as palavras do "pai de santo": _ Muito cuidado com o que pedes aos espíritos, pois eles poderão atender-lhe...
Acho que aí no texto, eu falei sobre pinhão e então, lembrei-me dessa receita muito boa:
ARROZ MORENO COM PINHÕES: 2 copos de arroz, 4 colheres (sopa) de óleo, 4 dentes de alho picados, 1 cebola pequena picadinha, sal, água e pinhões (já cozidos e cortados em lâminas bem finas). Lave o arroz e espere secar bem. Frite no óleo a cebola e o alho, até ficarem queimados. Junte os pinhões e frite mais um pouco. Acrescente o sal (pouco) e o arroz. Misture até ficar moreninho. Junte a água fervente, abaixe o fogo e espere secar.
Não tenha medo de queimar, pois o segredo está aí. Use pouco sal, pois o sabor fica a cargo do alho e da cebola queimados.
A Genoveva morava ali por perto de casa. Era até rosada, de tão loira e ninguém sabia, ao certo, a sua idade. Ela ficava muito brava quando alguém lhe perguntava mas, como ela foi colega de trabalho de minha prima mais velha, acho que as duas regulavam de idade.
Quando moça, ela vivia com o pai, seu Noel e dois irmãos, mais velhos. A profissão de seu Noel, hoje, não existe mais: era capador. Com a maestria de um cirurgião formado, muito requisitado pelos sitiantes e fazendeiros da região, castrava touros, cavalos e porcos. Os touros capados, viravam bois e serviam para puxar carros ou engenhos de cana; os cavalos, ficavam mansos para as selas ou carroças e os porcos, ou cachaços, viravam capados e desandavam a engordar.
Genoveva era uma moça direita e trabalhava, conforme eu disse, com minha prima na fábrica de palha. Ainda me lembro delas, sentadas naqueles montes de palhas de milho, cantando e dando risadas, enquanto trabalhavam. Eram umas 20 mulheres, todas com enormes saias rodadas, blusas com mangas até ao punho e lenços amarrados à altura do nariz, para evitar coceiras ou alergias. As palhas de milho eram trazidas das roças, numa caminhonete com grades, dirigida pelo Jorge Lincol, um negro alto, alegre e bem despachado. Munidas de canivetes, com lâminas bem largas, elas cortavam as palhas em pedaços regulares, as quais eram alisadas, várias vezes, com as costas das lâminas. Dobrados e empacotados em saquinhos transparentes, esses invólucros eram, posteriormente, comercializados para a confecção de cigarros de palha.
O chefe delas era descendente de alemães, cabelos e bigodes bem amarelos e por isso, seu apelido era "Pão com Ôvo". Ele era meio tarado e vivia molestando as moças. Minha prima, inclusive, pediu as contas, num dia em que ele, deixando a porta do mictório meio aberta, balançou o negócio pro seu lado.
Depois ela contava para a gente: _ Ainda se fosse grande coisa! Mas o negócio dele mais parecia uma salsichinha coquetel, pendurada em dois caroços de macaúbas...
E ele acabou ficando sem os dois caroços de macaúbas _ tudo por culpa da Genoveva.
Um belo dia, a familia percebeu que a moça "não era mais moça". Bem que ela tentou esconder a gravidez, apertando a cintura das saias rodadas com um cinto bem largo. Mas, numa manhã em que estava lustrando o assoalho com um escovão daqueles antigos, de ferro e bem pesado, caiu desmaiada. Chamaram o Dr. Durval, que deu o diagnóstico: _ Grávida de seis meses... E se não ficar de repouso, a criança nasce de repente, pois foi muito judiada!
O céu desabou... seu Noel queria matar a filha e só não o fez, porque os filhos levaram Genoveva para Mauá, na casa da irmã mais velha. Sob pressão, confessou aos irmãos que o pai da criança era o "Pão com Ôvo", que havia feito mal pra ela, em cima do monte de palhas.
O alemão que já era casado, negou, com veemência, ser o "estuprador da palha". Mas, coitado! Foi capado assim mesmo e sem anestesia...
Teve os caroços retirados, com precisão cirúrgica. O invólucro foi cuidadosamente costurado e desinfetado com água oxigenada e Lepecit (um desinfetante próprio para ferimentos em animais de grande porte). O Seu Noel ainda deixou-lhe um frasco, com 300 ml do produto, e a profissional recomendação de que fosse aplicado três vezes ao dia.
Desesseis a dezoito anos depois, Genoveva voltou para a cidade, instalando-se na antiga casa que herdara, após a morte do pai. Quando ficou ciente de que o "Pão com Ôvo", também já "batera com as botas", trouxe seu filho para morar com ela. Um baita rapagão, batizado de Jorge Uóxito, alegre, despachado e ... bem mulato!
Como dizia meu avô: "João de barro, muitas vezes, choca ovos de periquito..."
E a receita, apropriada para hoje, será:
ENROLADINHOS DE SALSICHAS: juntar e levar ao fogo (só para amornar) os seguintes ingredientes: 1 copo de leite, 1 copo de água, 1/2 copo de óleo, 1 colher (sopa) de açúcar e 1 pitada de sal. Desmanchar 2 tabletes de fermento (30 gramas) nessa mistura morna e acrescentar: 2 ovos, 2 colheres (sopa) de margarina e 1Kg de farinha de trigo (ou o tanto que der para sovar). Deixar crescer até dobrar de volume. Abrir a massa bem fina, com o rolo e cortar em tiras estreitas. Enrolar as tiras em salsichas pequenas ou tiras de queijo mozzarella. Pincelar com gemas e salpicar queijo ralado. Polvilhar a forma com farinha de trigo e levar para assar.
ATENÇÃO; Leiam, primeiro, a CREUZA I
Ainda sobre a Creuza, seus pais morreram no mesmo dia...
Era um domingo de feira e Dona Delfina acabara de vender a última galinha, quando caiu aquele toró de arrombar riacho. A Feira era no largo da estação e como eles moravam num bairro próximo, o Augusto Caparrão resolveu voltar para casa, debaixo da tempestade, contrariando a esposa que morria de medo de raios e trovões.
A cada trovoada mais forte, o burro dava um pulo, empinando a carroça. A mulher, apavorada, punha-se a suplicar: _ Me ajude, Santa Bárbra! E a amaldiçoar o marido: _ Mardito, lazarento, freia o burro que eu quero descer!
Ao chegarem à baixada da Vila Operária, viram que o rio estava vasando por cima da ponte. O Augusto, teimoso como todo português antigo, açoitou, fortemente, o animal, obrigando-o a enfrentar a força das águas.
Dona Delfina ainda tentou arrancar as rédeas das mão do marido mas, levou uma forte cotovelada na boca. Literalmente, deram com o "burro n'água": a correnteza fez tombar a carroça, bem no meio da ponte e quebraram-se os varais que prendiam o burro. Livre do peso, o animal conseguiu safar-se, relinchando morro acima, como doido.
As pessoas que assistiam à enchente, contam que a mãe da Creuzinha ficou presa, por alguns segundos, no madeiramento da ponte, gritando para os que tentavam salvá-los: _ Deixa o Augusto rodá e acóde eu!!!
De nada valeu aquele último apelo egoístico, que demostrava o grande amor que tinha pelo marido. Horas mais tarde, os dois foram encontrados e velados na mesma noite. Como a sala de dentro era muito pequena, ficaram naquela varanda, onde a vó Nicota mascava seu fumo e o papagaio cantava seus hinos.
A voz da velha portuguesa era muito fina e estridente. Lembro-me, direitinho, que durante o velório, enquanto gritava: _ Delfiiiiina, Ah, minha fiiiiilha... que fizeram contiiiigo! _ os perus, lá no galinheiro respondiam, em bando: "gru-gru-gru-gru..." A gente não sabia se ria ou se chorava!
Cá entre nós, acho que a Creuza até ficou aliviada com a morte dos pais. Internou a avó no asilo e as crianças menores na creche. De casa, levou apenas o papagaio, indo morar e trabalhar no bar do Euzébio.
O Euzébio tinha uma clientela fixa, fiel as suas frituras deliciosas. Filés de tilápia, leitoas à passarinho, moelas na páprica picante e o carro-chefe, que era o famoso torresmo pururuca, grande e carnudo, cuja receita ele guardava à sete chaves. No passado, quando o bar era bem maior, sua mãe cuidava das frituras, enquanto ele ficava no balcão.
Era filho único, de mãe solteira e Dona Francisca não queria que o filho se casasse, pois tinha medo de ficar sozinha na vida. Dizem que, para "apagar o fogo" do rapaz, ela misturava salitre na comida e bebida do filho. A estratégia parece que deu certo, pois o Euzébio nunca namorou ou saiu com mulher alguma... nem com homem. Era completamente assexuado.
Ele e a creuza deram-se muito bem. Ela convenceu-o a alugar uma daquelas máquinas de músicas e a construir três "reservados" no fundo do bar. O Negócio prosperou tanto que abriram uma filial, o "Euzébio II", na saída da cidade e a clientela dobrou.
Certa noite, enquanto guardava umas caixas de cerveja, o Euzébio teve um mal súbito e foi levado às pressas, para o hospital. Durou poucos dias mas, como prova de reconhecimento, antes de morrer, resolveu-se a casar com a Creuza e, em seu leito de morte, foi oficializado o ato civil.
A amiga herdou não somente os dois bares mas, também, algumas casas e terrenos que o Eusébio possuia e que ninguém sabia. Dizem que, agonizante, ainda teve tempo de passar para a Creuza a receita de seus famosos torresmos. Ela, porém, vendo-se rica, nunca mais quis saber de fritar torresmos.
Vendeu o bar da cidade e reformou o "Euzébio II", rebatizando-o de "Blue Moon". No novo estabelecimento, que tornou-se no "point" da população masculina, não se servia mais tilápias grelhadas _ apenas piranhas perfumadas...
Se vocês pensam que vou ensinar o famoso torresmo do Euzébio, esperem sentados, pois que eu não sei... Mas, não deixem de fazer a receita de moelas all sugo, que eu adoro:
MOELAS ALL SUGO:
1 Kg de moelas de galinha; 6 tomates grandes e bem maduros, 1 colher (sobremesa) de páprica picante, 1 colher (sopa) de extrato de tomate; 3 colheres de azeite, 5 folhinhas de manjericão, 1 folha de louro, 1 colher (sopa) de molho inglês, três dentes de alho, 2 cebolas, 1 copo de água, 1/2 copo de vinho tinto seco (opcional) e sal a gosto.
Limpe bem as moelas, retirando a pele amarela interna e as pelancas externas. Cozinhe em água e sal. Escorra bem e frite-as no azeite, alho picado e meia cebola picada. Junte os tomates picados e sem sementes, refogue bem, acrescentando o copo de água (e o vinho) com os demais ingredientes. No final do cozimento, quando o molho estiver bem encorpado e a moela super macia, acrescente o resto da cebola, cortada à juliana (de comprido).
Sirva com torradas.
POS SCRIPTUM: Ok, já que reclamaram a receita do torresmo, eu perguntei à "Creuza" e ela disse-me que se lembra, mais ou menos assim: Temperar com pouco sal e alho espremido, as fatias bem largas de toucinho, daqueles bem carnudos. Depois, congela-se tudo. Pouco antes de servir, mergulhar as fatias, ainda congeladas, em um tacho com bastante óleo fervente. O Euzébio utilizava aqueles coadores de arame de fritar batatas (não sei o nome).
Vou fazer um experimento e depois digo se fica bom, ok?
Coitada da Creuza... Sofreu tanto na infância e adolescência!
A mãe, Dona Delfina, tinha um filho atrás do outro e os mais velhos cuidavam dos pequenos pois, a mulher mais parecia uma cabrita arisca _ paria e depois dava coices nos filhotes.
E o pai, então...nem se fale! O Augusto Caparrão era galinheiro e fazia seu comércio pelas ruas e feiras. Tinha uma carroça com um enorme engradado, onde carregava aves de todos os tipos; desde perus, até patos e angolas. Costumava gritar, anunciando seus produtos: _ Tenho ganso, marreco, galinha e peru e só não vendo o danado do urubu!
Às vezes, fazia piadinhas sem graça: _ Eh, Dona Maria, apruveita o ganso, que a muié do Zé Amaro ficou ca gansa...
Era um brutamontes, que vivia batendo nas crianças e na esposa. E o pior, era que a danada da mulher, gostava de apanhar. Um dia, minha tia Beatriz, que era vizinha deles, foi apartar a briga. Mesmo gemendo, sob a sova do marido, a bruaca teve a coragem de dizer: _ Deixa, Dona Beatriz, eu gosto!
Na família, tinha, ainda a avó portuguesa, da Ilha das Canárias, chamada Dona Nicota e um papagaio, que foi trazido, ainda pequeno, por um dos irmãos de Creuza. Ao retirar a avezinha do ninho, o moleque acabou por quebrar-lhe uma das pernas. Cresceu com o pé torto e por isso, foi apelidado de mané garrincha.
A avó só ficava na varanda, mascando e cuspindo fumo. De tanto a velha cantar "Táva na Peneira", uma música de sucesso na época, o papagaio aprendeu o estribilho e, quando ficava excitado, cantava estridentemente, com sotaque português: "Táva na puneira (peneira), ôi, táva puneirando, (peneirando)..." O irmão mais novo de Creuzinha, que era coroinha de igreja, também ensinou a ave a cantar um hino.
Nos dias em que a briga familiar pegava fogo, o "mané garrincha" desandava a gritar, repetidamente: _ No céu, no céu, com minha mãe estareeeei... Táva na puneira, ôi, táva puneirando, ôi....
Era uma loucura! E nessa bagunça toda, a familia nem percebia que a Creuzinha era diferente. Não gostava de lavar pratos, de brincar de casinha e nem de usar vestidos. Passava o dia no meio da molecada, laçando os porcos do chiqueiro, secando bolinhas de barro para matar pardais no estilingue ou trepando em árvores.
Enquanto as irmãs confeccionavam roupinhas para as bonecas de sabugo, ela juntava lacinhos de fitas coloridas, para amarrar no seu bichinho de estimação _ um leitãozinho, órfão e que ela criava na mamadeira. Batizou-o de Laurinho e andava com o suíno no colo, prá baixo e prá cima. Chorou muito, numa manhã em que o porquinho amanheceu amassado, com o peso de seu corpo. Podem nao acreditar mas, ela dormia com o Laurinho na cama!
Apesar de terem, no galinheiro, várias aves e ovos, as crianças só comiam carne de frango quando estavam doentes. No lanche da escola, havia sempre a mesma coisa: pão com ovo. Ainda por cima, o ovo era repartido; se um levava a gema, o outro ficava com a clara. A Creuza, em criança, nunca comeu um ovo inteiro... Um dia, ouvi a menina reclamando com a mãe: _ Não tem nada no pão! O que é que eu levo de lanche, mãe?!
Dona Delfina gritou, em resposta: _ Leva pão com merda, sua f.d.p.!
Ali pelos doze anos, a molecada começou a chamá-la de Creuzinha "sapatão". Nem ela entendia, ainda, as razões de ser diferente das demais meninas. Quando alguém a chamava pelo apelido, virava uma fera e "rolava pelo chão", dando socos e pontapés no desafeto. Numa briga dessas, quebrou o nariz e, como herança eterna, ganhou aquelas feições de boxeador.
Deixou de ser Creuzinha, após a morte dos pais. Passou a trabalhar em um bar, limpando as mesas e servindo bebidas. Sentiu-se mais feliz, naquele ambiente, mesmo sendo chamada de Creuzona...
Já que temos ovos na estória, segue a receita de:
FIOS DE OVOS: Passar 12 gemas numa peneira fina (com o auxílio de uma colher). Fazer uma calda rala, juntando algumas gotas de baunilha, sem deixar ferver. Colocar as gemas em uma bisnaga com bico fino (eu utilizo bisnagas vasias de mostarda). Separar os fios com auxílio de um garfo e assim que estiverem cozidos (meio esbranquiçados), retirá-los da calda, repousando-os numa peneira para escorrerem. Proceder da mesma maneira com o restante das gemas. Se a calda engrossar, acrescentar mais água quente. Colocar os fios de ovos numa compoteira e depejar o restante da calda por cima. Guardar as claras para o pudim de claras, cuja receita está por ai...
Foram 25 anos de agonia e êxtase... Sentada num promontório rochoso, selvagem e completamente isolado da pequena urbe, Maria da Paz repassava mentalmente todas as alegrias e tristezas vivenciadas naquele fim de mundo, tão estranho para ela, mesmo depois de tantos anos.
Ela e a sogra sempe se destestaram mutuamente. O primeiro "pega" deu-se, já, no primeiro dia em que ficou sozinha, naquela casa sombria que abrigara várias gerações da família Hornblower, desde o século XVII. Jan saira com a mãe, a fim de comprar algumas roupas decentes para a jovem. Maria da Paz, sem tem o que fazer e querendo agradar àquela mulher fria e sizuda, começou a arear algumas panelas escuras que encontrara na cozinha.
Pensando que eram pretas de tanta gordura e fumaça de fogão, juntou um punhado de areia a uma palha de aço e esfregou que esfregou, até deixar os utensílios brilhando como prata. Quando a sogra viu aquilo, soltou um grito de horror e raiva. Começou a esbravejar para o filho, dizendo que passara vários meses juntando dinheiro e coragem para comprar aquelas panelas caríssimas. Era um conjunto de Teflon negro, recém lançadas no mercado europeu. "E, agora, essa selvagem estragara tudo!"
A baianinha, sem entender nada, desandou a choramingar e a balbuciar, num inglês terrível: "Mas, Jão, passei a tarde todinha areando essas panelas, estou até com a mão dura!"
Afora as oportunidades em que acompanhava o marido em suas viagens mar adentro, sua vida era muito triste e a sogra fazia de tudo para torná-la pior. As duas tiveram que separar a casa ao meio e cada uma tinha seu território.
Essa divisão deu-se após uma tarde em que, aproveitando-se da ausência da nora, Miss Daphne desmontou o altar dos orixás que a nora mantinha em seu quarto. Destruiu todas as imagens, jogando-as no mar. Para o filho, a mulher justificou-se:" É vodu dos bravos, coisas do demônio!" Em represália, Maria da Paz, armada de um atiçador de lareira, quebrou todas as porcelanas da sogra, salvando-se, apenas, uma chávena de chá "Companhia das Indias", herança da avó ou bisavó de Jan.
E foi através dessa xícara remanescente que, muitos anos depois, Maria da Paz deu o golpe final de desforra sobre a sogra.
A Internete já havia chegado àquele rincão desolado e na casa havia dois computadores, um para cada mulher. Foi por essa época, também, que "da Paz" ficou viúva, após o naufrágio de um dos barcos pesqueiros que levou Jan consigo, para o fundo do Canal da Mancha.
A solidão tornou-se insuportável. Já nem se importava mais com a presença da sogra, a qual, aliás, passou a tratá-la com mais suavidade, talvez, com medo de ficar sózinha, caso a baianinha resolvesse voltar para o Brasil. Frequentemente convidava a nora para partilhar de seu chá ou de seus bordados.
As vezes, enquanto Maria da Paz bordava, Miss Daphne entrava na Internete e ali ficava, batendo bapos com outros internautas, usando o pseudônimo de ESTRELA DO ORIENTE. Enquanto teclava, bebericava goles de chá, naquela única xícara que lhe restara.
Foi então, que surgiu a idéia maquiavélica: De seu computador, Maria da Paz acessou a mesma sala de bate papo que a sogra frequentava e com o apelido de TUAREG, começou a "paquerar" a ESTRELA DO ORIENTE. Dizia ser um advogado, aposentado e viúvo. Morando em Londres, com um único filho, sentia-se tão solitário quanto ela. Em poucos dias, Miss Daphne estava apaixonada e dizia para a nora que o tal de TUAREG, profundo conhecedor da alma feminina, conseguira reimplantar em seu coração, aquele sentimento que há décadas não mais sentia...
Desenvolveu-se o namoro on-line, até o ponto em que marcaram um encontro para se conhecerem. Miss Daphne contratou faxineiras para deixar a casa brilhando e preparou um jantar especial para compartilhar com o amado. Porém, terminou a noite sorvendo xícaras e mais xícaras de chá, frente ao computador, tentando encontrar o amado e saber o por quê do "cano".
Passaram-se semanas de silêncio até que o TUAREG deu o ar da graça, dizendo que estivera na UTI, vitimado que fora por três infartos seguidos. Escreveu ainda que se o pior acontecesse, ela seria notificada, através de seu filho.
Certa noite, Miss Daphne, aborrecida com o desaparecimento misterioso de sua xícara de chá, recebeu um e-mail, do "filho" de TUAREG, comunicando-lhe o falecimento do pai. Na mensagem, solicitava que a mulher informasse seu endereço pois que o pai, em seus últimos momentos, pedira que fosse-lhe enviada sua foto, com um presente_ um objeto pessoal que ele estimara muito.
Dias depois, sob o olhar curioso e malévolo da nora, Miss Daphne abriu uma linda caixa, recebida pelo "Express Postal Service", contendo um xícara idêntica à que perdera e mais a foto de um anão, com uma "dedicatória" de TUAREG...
Já que falei tanto em chá, seguem umas dicas básicas de chás (sempre na forma de infusão) e suas propriedades medicinai.
CHÁS - Carqueja (digestivo); Erva Cidreira (gases, calmante); Alecrim (insônia e depressão); Hortelã (máu hálito, insônia e calmante); Louro (dor de estômago); Sálvia (dor de garganta e resfriado); Endro (espasmos digestivos); Poejo (má digestão, arrotos); Funcho (calmante e asma); Malva (bexiga); Losna (cólica, diarréia e náuseas); Boldo (indigestão) e Alfazema (enxaqueja e indigestão).
A Costa do Dendê, situada entre o Recôncavo Baiano e o Rio das Contas, no litoral sul da Bahia, era ocupada pelos indios Tupinambás, quando do descobrimento. Essa tribo foi dizimada pela varíola, abrindo espaço para os Aimorés e, posteriormente, para os jesuítas portugueses que a colonizaram.
Bem próxima à Costa, está situada Boibeba, uma ilha deslumbrante, distante 100km de Salvador, com um clima excelente e praias luxuriantes. O povoado, apesar de pequeno, é um dos locais de colonização mais antigos da Bahia (1537).
E foi ali que nasceu Maria da Paz. Criada e crescida no meio dos mangues, a catar siris e caranguejos, que seus pais vendiam aos turistas, num boteco à beira mar.
Ali pelos dezesseis anos, Maria da Paz foi-se embora para Salvador, a trabalhar como faxineira diarista, por um tempo e, posteriormente, como garçonete. Dava um duro danado, mas jurava nunca mais voltar ao povoado natal: "Não nascí prá aquilo", dizia ela.
A Cornualha é um condado britânico, com pouco mais de 500 mil habitantes, situada ao extremo sul da Inglaterra. Uma inóspida região, açoitada pelos ventos costeiros e referendada como sendo a lendária terra perdida de Lyonesse, nas aventuras do rei Arthur e seus cavaleiros da távola redonda. Tem em seu nome _Cornwall_ antiga origem galesa da palavra "corno".
Numa ponta da península, avançando pelo Canal da Mancha, situa-se a pequena cidade de Land's End (traduzindo-se para um bom português, "cu de Judas"). A cidadezinha medieval, no topo das escarpas rochosas, quase que se debruça sobre mar revolto e violento.
E foi alí que nasceu Jan Hornblower, criado e crescido no meio de peixes, já que seu pai era dono de uma pequena frota de barcos pesqueiros.
Aos 21 anos, após a morte do pai, o rapaz assumiu o comando da frota, o que o obrigava a ficar longas semanas distante de casa, numa solidão tremenda. Uma vez por ano, costumava viajar para lugares bem distantes, preferencialmente exóticos e diversos de sua triste terra natal.
Nos finais de semana, Maria da Paz fazia questão de não trabalhar, alegando que era o único tempo disponível que tinha para achar seu futuro. Com esse intento, ficava horas na praia, fingindo ler um volumoso romance e tostando-se ao sol. Sem coragem de usar biquini, "da Paz" vestia, sempre o mesmo maiô, tipo "arrastão", com duas peças e uma espécie de redinha que unia a parte de cima com a parte de baixo, deixando, apenas, uma visualização do umbigo.
Foi vestida assim que, na Praia do Forte, Jan Hornblowar a conheceu. Ela, uma mulata alta, sangue mestiço, pernas bem longas e cabelos da cor do carvão. Ele, um britânico alto, puro sangue celta, pernas bem longas e cabelos da cor do milho.
Em férias no Brasil, já estava meio enjoado das presas fáceis que encontrara pelas praias do nordeste, porém, encantou-se com aquela trigueirinha de sorriso espontâneo, dentes brancos e corpo de deusa. Cheia de dengos e fazendo-se de difícil, em poucos dias, Maria da paz conquistou o coração do gringo.
De volta à terra, Jan chorava a separação, medindo com o coração as longas cinco mil milhas que o separava da amada. Após muitas cartas e telefonemas, capitulou ante à paixão e para lá chamou nossa baianinha, após um apressado casamento por procuração.
Como Jan lhe contara que Land's End era cercada por mar, levou na mala, dentre quase nada, seu maiô arrastão, duas "piranhas" de prender o cabelo e um pote de "Hené Maru" para alisar as caraminholas. Não se esqueceu dos patuás e nem das imagens de seus orixás protetores. Desceu em Londres, numa manhã fria e brumosa, quase em pânico. Deu um grito quando avistou seu amado "Jão", como ela o chamava. Correu a abraçá-lo, tascando-lhe um beijo, daqueles de desentupir pia, sem ao menos perceber que Jan estava acompanhado de uma senhora alta, extremamente branca e ainda bonita.
Era a sogra, Miss Daphne Hornblowar que, vestida num longo manteau preto, a tudo assistia, dando claros sinais de reprovação, ante àqueles arroubos, para ela incabíveis.
Com os olhos brilhantes, Maria da Paz abriu ali mesmo, um pequeno isopor, lotado de acarajés, fritos e acondicionados há mais de vinte horas atrás. Entregou o pacote ao rapaz, dizendo: _O que você mais gostou na Bahia, alem "de eu"...
O saguão do aeroporto ficou impregnado pelo forte odor do dendê. A sogra tapou o nariz com um lencinho de seda e ordenou ao filho que jogasse aquilo no lixo.
Foi antipatia mútua e instantânea.
ACARAJÉ: 1 Kilo de feijão fradinho (aquele que tem um "olhinho" na barriga); 3 cebolas grandes; 3 dentes de alho; 300 gramas de camarões secos; sal e 1 litro de azeite de dendê. Deixe o feijão de molho de um dia para o outro. Esfregue-os e lave-os em várias águas, para soltar a casca. Passe em moedor ou processador, juntamente com a cebola e 300 gramas de camarão seco e bata, com colher de pau, até ficar uma massa leve (Quanto mais bater, mais leve fica). Tempere com o sal (cuidado), pimenta e dendê. Coloque o azeite de dendê em frigideira bem quente e frite às colheradas, virando-os apenas uma vez. Abra os acarajés e sirva bem quente, recheado com vatapá ou com o seguinte molho de camarão: Refogar em uma xícara de azeite de dendê, 3 cebolas, alho a gosto e 700 gramas de camarão defumado sem casca, cheiro verde e pimenta a vontade.
É hoje! Não deu para fugir... Bem que fiquei acordado até de madrugada, a fim de esticar meus 56 anos mas, amanheceu e completei 57. A solução, então, é preparar a festa e deixar o barco seguir ...
Nasci a 10 de junho de 1952, logo após o término de duas guerras miseráveis (Guerra Mundial e da Corea). Era parte da "geração pós guerra", cheia de esperança em um futuro de paz, mas ainda assombrada pelos relatos das grandes tragédias que assolaram o planeta, nas primeiras décadas do século XX. As duas grandes guerras, mais a gripe espanhola, literalmente, dizimaram a população jovem da face da terra (quase duzentos milhões de vítimas). Então, fazia-se filhos com muito prazer, pelo nobre objetivo de repovoar a terra...
Lá em casa não foi diferente e a família era grande. Dormíamos em cinco no mesmo quarto e somente minha irmã, por ser mulher, tinha o privilégio de um cômodo separado. Era uma confusão danada, onde ninguém dormia sossegado, pois toda noite acontecia um show pirotécnico de roncos, tosse, espirros e puns. Para piorar a situação, um de meus irmãos era sonâmbulo.
Costumava conversar e andar pela casa, dormindo. Frequentemente, acordávamos com seus tapas e o que era pior: às vezes, desandava a "matar aranhas" com nossos chinelos. Era engraçado ouví-lo repetir, à noite, as lições de geografia e história que aprendia, à tarde, na escola: "Falésias são formações rochosas, moldadas pela erosão dos ventos e das marés... O infante D. Henrique foi quem fundou a Escola de Sagres... Após a morte de César, Marco Antônio procurou vingá-lo..." E assim por diante.
Sem mais nem menos, levantava-se da cama e ia direto para a cozinha; abria a geladeira e enchia um prato com as guloseimas que minha mãe guardava. Sentava-se à mesa, comia...comia e depois voltava para o quarto. No dia seguinte, não se lembrava de nada!
Resolvemos esconder as chaves da casa, após uma noite em que ele saiu pela rua, somente de cuécas, indo parar na casa da namorada, dois quarteirões abaixo. Por sorte, atolou os pés numa poça d'água e despertou, antes de apertar a campaínha.
Ainda, numa noite, meu querido irmão foi "co-participante" de uma tentativa de assalto ao nosso barracão do quintal, onde eram guardadas as bicicletas, a moto, o carro e vários outros objetos. Acordamos com um vento frio, vindo da janela. Ele, com as venezianas escancaradas e em transe sonambulístico, acenava para alguém no quintal, dizendo: "Vocês vão cair daí...é melhor pegarem a chave do cadeado que está no buraco do muro!"
Os caras, que tentavam entrar pelo telhado, ficaram assustados e trataram de descer às pressas. Um deles, bem azarado, quebrou uma perna, mais algumas costelas. Foi preso em flagrante e levado numa maca!
Hoje, meu irmão é médium de centro espírita e vive num transe constante...
Vai aí, uma receita, super saborosa, que minha mãe fazia em noites de inverno: Sopa de inhame; esse tubérculo milagroso que além de fortalecer nosso sitema imunológico, elimina as toxinas e impurezas do organismo, servindo-se, ainda, como excelente moderador dos sintomas de TPM das mulheres.
SOPA/CREME DE INHAME: Descascar e cortar em pedaços 3 a 4 inhames. Cozinhar em panela de pressão, por uns 40 minutos, com 1 litro de água, sal, 3 dentes de alhos e 2 cebolas cortadas ao meio. Bater tudo, em liquidificador e voltar ao fogo. Acrescentar um ou dois tabletes de caldo de legumes, deixar engrossar até ficar um creme liso e servir bem quente, com torradas.
Variações: A) Pelo meio do cozimento, antes do liquidificador, acrescente alguns pedaços de abóbora madura; B) Depois de quase pronto, acrescentar 1 lata de creme de leite, sem deixar ferver; C) Quase no final, juntar couve picadinha; D) Já no prato, salpicar queijo ralado ou bacon picadinho e frito., etc...etc...
A Glória Regina foi minha amiga de infância e estudamos juntos até o colegial. Ela era muito romântica e sonhava com o casamento, à moda antiga: igreja florida, grinalda de pérolas, músicas românticas e um príncipe valente à sua espera, no altar. Desde adolescente, começou a preparar seu enxoval; a maioria das peças confeccionadas e bordadas por ela mesma.
Lembro-me, perfeitamente, dela costurando umas bananas gorduchinhas, de feltro amarelo, num pano de prato alvíssimo e com pregas xuleadas nas beiradas. Em outro pano ela havia bordado as palavras: "Felis o Homem Que Tem Uma Esposa Prendada". Obriguei-a a refazer o bordado para corrigir o Feliz...
As peças prontas, eram, cuidadosamente, guardadas num móvel enorme, chamado de "mala de pau". No meio das roupas, ela juntava algumas bolinhas de naftalina para espantar as traças e duas caixas dos sabonetes "Alma de Flores", para perfumar.
Depois disso, Glorinha mudou-se para um sítio e nao soube mais dela. Voltamos a nos encontrar, há pouco tempo e pude constatar, com tristeza, como as folhas do calendário foram cruéis com minha amiga... Daquela menina tão meiga e suave no passado, nada restou. Deparei-me, apenas, com uma mulher embrutecida, cabelos sem brilho, gorda e com o pescoço grosso.
Conversa vai, conversa vem e inevitavelmente, começamos a relembrar de nosso passado feliz. Lembrei-lhe de seu enxoval, do bordado que corrigira, das bananas amarelas e ela acrescentou, com amargura: "Pois é, perdi tudo e daquela merda não sobrou nada... Ai, João! Você nem imagina, mas se eu fosse contar minha vida para um carroceiro, acho que até o burro ia chorar!"
Aguçei meus ouvidos, pois pressenti que dali ia sair prosa boa. Dai, contou-me que sua mãe tinha uma gata que não saia da cozinha e num belo dia, a bichinha sumiu, aparecendo uma semana depois, magra e com as tetinhas cheias. A mãe comentou: "Essa gata deu cria em algum lugar, precisamos encontrar os filhotes!" Procuraram no paiol, no forro da varanda, no curral, dentro do forno a lenha e ...nada. Vigiando mais de perto, perceberam o animal entrando pela janela do quarto da Glorinha.
Olharam em baixo da cama, do guarda roupa, da penteadeira mas nenhum sinal à vista. Resolveram empurrar a mala de enxovais e notaram que havia um buraco no fundo de madeira compensada. Ao abrirem o móvel, aquela surpresa! A gata resolvera dar cria alí dentro e todas as peças do enxoval estavam irremediavelmente perdidas com as sujeiras e xixi da felina e de sua ninhada. " Chorei muito, mas a partir daquele momento, jurei que só me casaria se o cara fosse um milionário para me dar todo o enxoval do mundo e uma vida de rainha!"
"Putz!"_ exclamei, eu_ mas você casou-se? Encontrou seu príncipe valente, afinal?" Com as mão cruzadas sobre o colo, ela disse:
"Um só, não...encontrei três! Meu primeiro marido era um fazendeiro de Casa Branca, muito rico. Tinha fazendas aqui, em Goiás, várias casas e caminhões. Parecia ser um homem muito bom e eu casei-me apaixonada. Mas, com o tempo, descobri que era um frouxo, ruim de cama. Ficava semanas em Goiás e me deixava sozinha, até que nos separamos. Fiquei com uma fazenda, duas casas e três caminhões.
O segundo, inventou de criar búfalos em Goiás e torrou a fazenda e os animais nos puteiros de Goiânia. O terceiro era vinte anos mais novo que eu e acabou com o resto dos meus bens comprando carros, motos caras e cocaína, além de bater em mim... Peguei nojo de homem!"
Fiquei sem palavras, ante tanta desgraça e só consegui comentar: "Êta vida mardita! Mas como você está agora?" Ela respondeu-me que estava feliz e que finalmente encontrara a metade de sua laranja. Curioso, perguntei-lhe quem era o príncipe da vez, ao que ela esclareceu-me, toda radiante:
"É uma princesa... Finalmente, conheci a Denise, que conseguiu fazer-me feliz!"
Realmente, dos panos de prato à Denise, foi uma longa trajetória que transformou o destino de uma vida... tudo por culpa da gata!
GELÉIA DE LARANJAS COM MAÇÃS: 1 litro de suco de laranjas (pera ou baiana); 1/2 kilo de açúcar; 2 ou 3 maçãs verdes (ácidas). Ferver o suco até reduzir à metade. Juntar o açúcar e as maçãs, sem a casca e cortadas em filetes. Cozinhar, em fogo baixo por mais ou menos 1 hora ou até ficar com a consistência pastosa. Guardar, na geladeira, em potes esterilizados.
Mamãe nasceu em 1919 e foi a caçula dos cinco filhos do casal lisboeta José Maria e Adelaide. Perdeu a mãe aos sete anos e o pai, aos quinze. Foi criada pelas irmãs mais velhas, doces de criaturas e pela cunhada Marina, uma portuguesa brava e neurótica que só atazanava a vida da família. No entanto, eu que convivi com essa tia, depois de velha, gostava muito dela.
Contou-me ela que por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932, o sítio onde moravam foi palco de refregas entre soldados paulistas e mineiros. Meu tio e meu avô, que ainda era vivo, proibiram as mulheres de sairem da casa, com receios de balas perdidas ou, talvez, dos soldados que viviam de tocaia nos matos. Minha tia Marina ficou encarregada de vigiar as meninas.
Certa noite, o tiroteio foi particularmente intenso e até de madrugada ouvia-se aquela barulhada tremenda. O fogo cruzado foi tão forte que, pela manhã todos sairam à procura de mortos ou feridos. Mas, para a alegria de todos e infelicidade de minha mãe, o único cadáver encontrado foi o de sua égua, por ela batizada, carinhosamente, de estrela. Aprontou o maior berreiro e virou uma fera quando ouviu sua cunhada comentando: "Bem feito...pelo menos é um animár a menos prá tratá!"
Mais à tardinha, minha mãe saiu às escondidas, a fim de recolher os cartuchos de balas vasios, espalhados pelos pastos. Conseguiu encher uma latinha, até ser encontrada pela furiosa cunhada! Foi levada de volta para casa, aos safanões e já na cozinha, para fazer pirraça, jogou o conteúdo da latinha no braseiro do fogão, onde a tia Marina cozinhava o jantar.
Parece mentira, mas não é que ainda havia dois cartuchos intactos e a explosão foi tão grande que até as trempes de ferro do fogão voaram longe! Apesar do estrondo, a única que saiu machucada foi minha mãe, mais pelas mordidas de ódio que a cunhada lhe aplicou...
Hoje, mamãe faz 90 anos! Fiz para ela, um bolo de 6 formas mais dois corações, todo confeitado, super brega, mas lindo... Depois de uma solenidade na Igreja, faremos um churrasco para 90 convidados, no sítio de meu sobrinho. A velha está animada e já pensa em guardar o vestido para os 100º aniversário! Depois da ressaca, volto para contar...
... Então, curado da ressaca, posso dizer que a festa foi uma maravilha! Na igreja, foi emocionante: O tenor tinha uma voz divina e até o padre dançou ao som da música!
Minha mãe estava linda! Com um vestido longo, cor "rosa velha"; uma elegante écharpe fúcsia (!!!), caindo pelos ombros; sandálias douradas; colar e brincos de pérola... parecia a rainha da Inglaterra. Meu bolo fez maior sucesso e dançamos até a noite, ao som de um conjunto musical muito bom e uma sanfoneira animadíssima...
Voltando ao bolo do aniversário, fiz três recheios diferentes: 1º) Doce de leite com nozes; 2º) Creme de leite com manteiga e chocolate branco; 3º) Creme de maizena com doce de abacaxi. Vou ensinar o terceiro:
Fazer um creme de maizena com 1/2 litro de leite; 1 gema (desmanchada no leite frio);4 colheres (sopa) de açúcar; 4 gotas de baunilha. Quando estiver quase fervendo, acrescente 2 colheres (cheias) de maizena, previamente diluída em leite frio. Espere engrossar.
À parte, fazer o doce com 1 abacaxi bem maduro; 1 xícara de água e 2 xícaras de açúcar. Bater no liquidificador e levar ao fogo até ficar pastoso e douradinho. Misturar ao creme de maizena.
Obsequioso demais, bajulador demais... Sabem aquele tipo puxa-saco, grudento que nos vigia o dia todo com o olhar, esperando a primeira oportunidade para demonstrar o quanto é indispensável? Durante os longos anos em que fui gerente, chefe disso, chefe daquilo, convivi com vários desse tipo; posso até dizer que em todas as agências e departamentos por onde trabalhei, tive o desgosto de identificar, ao menos, um deles.
De todos, com certeza, o que ficou com o troféu foi o José Ronaldo, apelidado de "Zé Bodinho", por conta de seu bigodinho obsceno e cuidadosamente aparado com tesourinha de nenén. Magro e inquieto, de uma jovialidade falsa e insidiosa, mexia com meus nervos, tanto pelos rapapés e salamaleques com que me brindava, como pelos alertas sub-reptícios e maledicentes que tentava repassar-me a respeito dos demais colegas.
Deplorava tais atitudes e imaginava que assim deveriam ter sido os dedos duros e alcaguetes nos tempos da Resistência francesa ou italiana, do MacCarthismo americano ou mesmo da nossa ditadura.
A Agência era pequena e ficava difícil isolar-me de seu olhar ardiloso. Portanto, aloquei-o para o Caixa. Atendendo à fila imensa, ele não teria tempo de causar maiores males, pensava eu.
Pelo movimento intenso, ocorria, às vezes, de perdermos o horário da perua que transportava o malote para a central de processamento, distante uns 100 km de nossa cidade. Toda vez, o Zé Bodinho prontificava-se a levá-lo: "Pode deixar que eu levo, chefe...dexá comigo!" Normalmente recusava sua oferta, pois não queria ficar devedor de uma pessoa que só me inspirava desconfiança.
Porém, certo dia, particularmente cansado, aceitei a sua ajuda e lá foi ele, estrada afora em seu Chevetti verde.
No meio do caminho, resolveu dar carona a duas "senhoras" pertencentes à confraria do "lavou tá novo". Safado do jeito que era, foi logo pedindo à mais nova que sentasse no banco da frente. Conversa, vem, conversa vai e logo está ele, peladinho, peladinho no meio de um canavial com as duas mulheres. Jogou suas roupas para colo da mais velha, que estava no banco de trás, enquanto fazia estrepolias com a parceira da frente.
De repente, seu êxtase transformou-se em agonia, pois sentiu algo apertando seu pescoço. Estava sendo estrangulado pelo próprio cinto, de couro inglês, que a mais velha retirara de suas calças. Do banco de trás ela laçou-lhe garganta, disposta a matá-lo sufocado: "Não tem um tostão na carteira, seu miserável! Pois agora vai morrer aqui mesmo..."
Ele tanto se contorceu que acabou por se livrar do cinto mas, quando estava para abrir a porta do carro, sentiu o cano frio em sua nuca. Dessa vez era aquela doce criatura que segundos antes lhe acariciava e agora rosnava, ameaçadora: "Fica quieto, seu f.d.p., ou estouro teus miolos aqui mesmo!"
Tinha pouco a perder e resolveu arriscar tudo. Deu uma cotovelada na "boca do estômago" da mulher, ao mesmo tempo em que jogou o peso do corpo contra a porta. Rastejando, completamente pelado, conseguiu rolar o barranco da estradinha. As folhas de cana cortavam seu corpo porém, mais afiadas eram as balas que silvavam rente as suas pernas e orelhas. Correu a esmo, até reencontrar a pista de asfalto e mais um pouco, um posto da Renovias.
No Boletim de Ocorrência, fez constar que os assaltantes eram homens mas, quando no final da noite as mulheres foram caçadas _ nem notaram que o malote estava no porta malas _ o vexame veio à tona. E olha que o Zé Bodinho era casado!
Falando em cana, lembrei-me de açúcar mascavo e daí hoje a receita é de:
PÃO DE MEL - 1 xícara (chá) de açúcar mascavo; 1 xícara de leite; 1 xícara de mel; 3 xícaras de farinha de trigo, 2 ovos; 1 colher (sopa) de pó royal; 1 colher (sobremesa) de bicarbonato, 1 colher (chá) de canela moída; 1 colher (chá) de cravo da Índia moído. Misture o leite, ovos e o mel e bata na batedeira com os demais ingredientes. Asse em forma untada e enfarinhada, por cerca de 20 minutos ou até dourar.
Cobertura:1 lata de creme de leite e 1 barra de chocolate meio amargo. Derreta o chocolate em banho-maria, misture o creme de leite e aplique sobre o pão de mel ainda quente.
A Ofélia Lang, uma velha amiga da família, solteirona e sempre virgem, era dona de uma voz de contralto que fazia sucesso no coro da Igreja de Nsª Srª do Perpétuo Socorro. Naquele tempo, as missas eram totalmente rezadas e cantadas em latim e eu, ainda uma criança, ficava embevecido ao ouví-la cantar, em solo, o “Tanto Ergun” (Tanto Ergun, saacraameeento, ve-ne-rê-mus neste altar...).
Anos mais tarde, já bem adulto, trabalhei em Poços de Caldas, na serra mineira, e às vezes no ônibus em que eu viajava, seguia também nossa amiga. Pressentia sua presença assim que eu subia no veículo, por conta do perfume que exalava, forte e doce. Ela sempre reservava a poltrona a seu lado para mim.Um suplício, pois, além do forte perfume, era convocado para ajudá-la a rezar seu terço diário: "Joãozinho, eu rezo as Ave Marias e você fica com a Salve Rainha."
Certo dia, não agüentando mais, perguntei-lhe: “Ofélia, que raio de perfume é esse que você usa?!” Ela, meio que ofendida respondeu: “Não é perfume não, é o talco Casmére Boquéti! Não pude segurar o riso ante a forma engraçada dela pronunciar a marca do famoso cosmético Cashmere Bouquet e tentei explicar-lhe, sem muito sucesso, a forma correta da pronúncia (algo próximo a “caximir buquê”).
Ela era muito solitária, sem parentes ou grandes amigos e resolveu eleger-me seu confidente. Acabou por confessar que tinha um namorado em Poços de Caldas: "Sabe João, namoramos faz muito tempo mas é só amor platônico... Afinal, o Norberto é, bem mais velho que eu." Naquela idade, ela ainda ficava toda ruborizada ao falar sobre seu namoro escondido! "Ningúém sabe mas, quando eu não apareço em Poços, ele liga para mim, todo preocupado, achando que eu estou doente..."
"Ou morta!", emendei eu, só para chateá-la. Ela corria a me dar um tapinha, gritando: "Credo, João...vire essa boca prá lá!"
Boca perigosa a minha, pois não é que dali uns dias ela resolve morrer, sem avisar ninguém! Faleceu sem dar um pio, numa linda manhã de sábado, sentada no vaso sanitário. Só descobriram na segunda-feira; isso porque uma visinha estranhou o fato de ouvir, por várias vezes, o telefone de Ofélia a tocar desesperadamente...
Além de cantora e rezadeira ela era também uma ótima doceira e dentre as muitas receitas que me passava no ônibus, transmito para vocês o delicioso
BOLO DE FUBÁ DA OFÉLIA: 4 ovos; 1copo grande de leite fervendo; 1 pitada de sal (1/2 colherzinha de café); 2 copos de açúcar; ½ copo de óleo; 1 copo de fubá mimoso; 1 copo de farinha de trigo e 1 colher (sopa) de fermento em pó.
B Bater as claras em neve, misturar as gemas e ir acrescentando os demais ingredientes aos poucos, misturando bem. Assar em forma de buraco no meio, untada com margarina e farinha, em forno médio. Depois de desenformado, espalhar açúcar e canela por cima. Se gostar, ponha erva-doce na massa.
Aprendi a dançar muito cedo e eu e minha esposa somos considerados exímios dançarinos. Já recebemos vários troféus de dança e até na Argentina, certa vez, fomos premiados. Adoro o ambiente de um salão bem decorado e uma orquestra afinada que não toque apenas o "Besame mucho"(bom, bororóm...). Estamos sempre acompanhados por algum ou outro casal de amigos.
Nos tempos em que morávamos em Poços de Caldas, o casal da vez era o Dr.Bráulio e sua namorada Bernadete (a esposa legítima morava em Belo Horizonte, para onde ele ia somente no Natal).
O salão do Palace Hotel, para quem não conhece, é uma maravilha. Construção quase centenária, com decorações e lustres caríssimos e lá aconteciam os Bailes de Gala que frequentávamos, tudo muito chic. Numa ocasião em que a Bernadete havia brigado com o namorado, fomos a um desses bailes e nossa amiga sentou-se conosco em mesa de pista.
O Dr. Bráulio também compareceu com outra mulher, uma viúva rica e elegante, cujo nome quero declinar-me de dizer. Ela vestia num traje longo e suntuoso, todo esvoaçante, com uma alça que saindo de seu braço direito, era presa às saias. Nos rodopios que dava, a alça levantava o tecido fino, dando a impressão que a dama ia levantar vôo. A Bernadete ficou "fula" de raiva e despeito vendo o casal dançando todas as seleções, desde o samba até a rumba e o chá-chá-chá.
Perto da meia noite a orquestra começou a tocar valsas e poucos foram os casais que se aventuraram nesse rítmo muito difícil mas a coroa foi... A fim de provocar a rival, fez questão de rodopiar bastante quando se aproximava de nossa mesa.
Num desses corrupios, ao som da valsa "A Bela Adormecida" de Tchaicovsky, algo caiu por debaixo das saias da dançarina e fez "ploft" no chão: era um fraldão que a pobre viúva usava, pois sofria de incontinência urinária. O pano, todo ensopado, foi deslizando e parou quase aos pés de nossa amiga, que deu um grito de surpresa.
Os casais pararam de dançar e Bernadete aproveitando aquele momento divino, chutou o fraldão de volta e gritou para o ex: "Ei, Dr. Bráulio, põe o tampão na véia que ela tá vazando!!!!" A viúva correu para o toilete, chorando de vergonha, só saindo após o Baile acabar.
Quando Bernadete completou 40 anos, fizemos um jantar para ela; num mês de Junho e o frio era tão intenso que os convidados compareceram enrolados até em mantas e cobertores. Preparei um cassoulet (espécie de feijoada branca) bem caprichado, do qual passo e garanto a receita:
CASSOULET: 1 kg de frango (sobre-coxas e peito); 300 gramas de bacon; 1/2 kg de linguiça calabreza; 1 ou 2 paios; 1 kg de costelinhas de porco frescas; 1 lombinho defumado; 1 kg de feijão branco; 1/2 kg de tomates ou molho de tomates; louro, salsa, cebolimha, alho, cebola, mangerona ou manjericão, tomilho; sal; caldo de galinha e pimenta (a gosto).
Deixe o feijão de molho de um dia para o outro. Cozinhe-o com o bacon, paio, calabreza, louro e o caldo de galinha. Quando estiver quase cozido mas ainda firme, acrescente as costelinhas (temperadas com sal e limão e fritas previamente), o frango cru (também temperado da mesma forma) e deixe cozinhar tudo junto. Quando estiver quase pronto, bata os tomates no liquidificador com um pouco do caldo do feijão; refogue esse molho à parte com cebola, alho e sal e junte-o à panela do cassoulet. Verifique se está bem de sal, acrescente a pimenta e os temperos verdes. Sirva cm arroz e batatas-palha.
Não sei...mas hoje veio-me à cabeça a palavra "escroto". De repente _ acho que é coisa da idade _ deu-me um branco e eu não conseguia me lembrar a origem da palavra! A única conecção que me ocorreu foi com indivíduo chato, nerd ou grosseiro. Procurei o dicionário e encontrei: saco que envolve os testículos. Começei a rir, sozinho...como fui esquecer isso!!!
Partindo dessas profícuas meditações, lembrei-me de meu amigo Francisco, já falecido. Aliás, foi um dos grandes amigos que tive...bem mais velho que eu mas, companheiro de verdade! Ele vivia tendo problemas com o saco... acho que era comprido demais e isso atrapalhava o pobre coitado.
Uma vez, ele e a esposa acompanharam-nos num cruzeiro marírimo e durante uma festa, com cerveja à vontade, ele ficou completamente bêbado. Numa de suas idas e vindas ao banheiro, voltou com a calça toda molhada. Quando a esposa ficou brava, ele explicou que ao fazer xixi, tirou o saco para fora pensando que era a outra coisa e molhou-se todo.
Doutra vez, fizemos um churrasco em minha casa e lá vai o Francisco, novamente, para o banheiro. Era um WC na área de serviço, pouco usado por nós. De repente, ouvimos um uivo e em seguida vimos nosso amigo sair gritando de dor e pedindo um litro de álcool. Não é que um casal de marimbondos inventou de fazer seu ninho bem dentro do vaso, pendurado na beirada interna e quando ele sentou-se... foi aquela ferroada! Ficou um bom tempo com o embornal inchado.
A gente ia muito para uma fazenda em Minas Gerais, situada aos pés da Serra da Canastra e certa vez, ao apanhá-lo em sua casa para uma ida dessas, ele entrou na Saveiro, com um bermudão bem largo e sentou-se, pesadamente, no banco. Deu um grito e um pulo para cima, batendo a cabeça no capô. Vendo ele gemer, eu exclamei: "Tá louco Francisco...Que gritaria é essa?!" Com uma mão na nuca e a outra no meio das pernas, ele respondeu: "Aiii, cara, sentei em cima do saco e ainda por cima, quase destronco o pescoço!"
Parece mentira minha mas não é não... e ainda tem mais! Chegamos ao nosso destino jà noite fechada e o pessoal preparava-se para ir a uma Festa do Divino, em outra fazenda, bem no alto da serra. Nem bem descemos da Saveiro e já partimos, montanha acima... uns 15 quilômetros de subida. Pelo caminho íamos contando as cruzes fincadas na beira da estradinha (ainda é costume, lá em Minas) indicando os locais onde ocorreram desastres com mortes.
O frio era inacreditável mas a festa estava animada, com muita comida, bebida, sanfona e pandeiro. Já de madrugada, meu amigo tirou-me do baile e pediu para irmo-nos embora: "Tista, tô com a maior dor de barriga e aqui não tem banheiro e nem papel!" Interrompi, de chofre: "Pode ir tirando teu cavalinho da chuva, pois vou esperar amanhecer; nem morto eu deço essa ribanceira no escuro! Vá no corguinho..." Hoje eu sinto remorso mas, o coitado foi, naquele frio danado e agachou-se no pequeno córrego, pouco distante da casa. Eu fiquei vigiando para ninguém ali chegar e ouvindo ele xingar: "Lazarento! a água tá tão gelada que vai acabar trincando meu saco!!!"
Eu jurei que não contaria para ninguém mas, infelizmente, agora tanto faz...
Meu amigo, também, era um excelente cozinheiro e fazia a melhor dobradinha do mundo; vou tentar passá-la para vocês.
Dobradinha do Francisco: 2 kg de bucho bovino, cortado em pequenas tiras; 1 paio; 1/2 kg de costelinhas defumada; 1 linguiça portuguesa; 300 gr de bacon; 3 tomates bem maduros; 1 colher (sopa) de extrato de tomate; 1 colher (sopa) de páprica picante; 2 cebolas; 5 dentes de alho; 2 folhas de louro; algumas azeitonas pretas; salsa e cebolinha; azeite; sal e tutano bovino para engrossar o caldo.
Limpe o bucho e esfregue as tiras no caldo dos limões. Deixe de molho na água com limão por umas duas horas. Lave novamente e afervente duas vezes, em bastante água. Cozinhe na panela de pressão em água com sal, 3 dentes de alho e 1 folha de louro.
À parte, faça o molho: frite, no azeite, a cebola e 2 dentes de alho picadinhos. Junte os tomates sem sementes, 1 folha de louro, o extrato de tomate e a páprica e refogue um pouco. Junte 1 copo de água quente e as azeitonas. Quando o molho estiver apurado, coloque o bucho pré-cozido, o bacom em pedaços, a costelinha, o paio e a linguiça cortados em rodelas. Junte, aos poucos o tutano até engrossar o molho da dobradinha. Depois de pronta, desligue a panela e junte a salsa e cebolinha. Espalhe queijo parmesão ralado e sirva com arroz branco e couve, bem fininha e refogada.
Se não encontrar o tutano pronto, tem que preparar bem antes: compre ossos da canela bovina, cozinhe até o tutato desprender dos ossos. Passe o tutano por uma peneira fina ou bata no liquidificador e estará pronto para o uso.
Quando lhe perguntei seu nome, ela respondeu, destacando sílaba por sílaba: "Ma-ri-lan-di..." Apesar do stress do momento, não consegui segurar o riso.
Tentei explicar que Maryland era um Estado norte-americano mas, daí, ela ficou mais brava ainda: "O senhor não venha mangando com meu nome! Não tenho nada de americano, só puro sangue negro!" Apontando o indicador para o meu nariz, ela completou: "E viemos aqui para saber quais providências o senhor vai tomar para resolver nossos problemas..."
Já pela manhã, um funcionário me alertara: "Sr. João, a coisa tá feia lá no conjunto habitacional, choveu muito ontem à noite e foi um estrago só! Tem barrancos desmoronados, casas rachadas, lama pra todo lado e... a turma vem marchando para cá!" Pouco mais que dez horas, o banco acabara de abrir, quando aquela turba de mulheres invadiu a agência e subiu as escadas, rumo a minha mesa. Eram moradoras do "Jardim Veneza", um conjunto habitacional com cerca de 300 casas, financiadas por nossa empresa e construídas, sem muitos cuidados, aos pés de um morro.
Mariland era a lider do movimento. Chamando-a de lado, com muito jeitinho, consegui convencê-la a ficar só com duas"auxiliares", dispersando-se as demais. Obrigaram-me a ir com elas até ao bairro e chegando lá, compreendi porque o conjunto foi apelidado de"Veneza": tudo alagado, água e brejo por todo lado... até dentro das casas. Dava pena de se ver!
Após a vistoria, fui à casa da Mariland, quartel general do bairro, a fim de anotar as reinvindicações. A moradia ficava na esquina da praça e notei, com espanto, que era toda pintada de verde e rosa. O muro, um escândalo; em faixas largas e alternadas, também com as mesmas cores. Ela foi logo explicando: "São as cores da Mangueira, a maior Escola de Samba do mundo!"
O rapaz, deitado num sofá maior que a sala, nem olhou para nós, quando passamos por ele, em direção à cozinha. Como aparentava ser bem mais jovem que ela, perguntei, distraidamente: "É teu filho?" Ela respondeu com um muxoxo de desprezo: "É meu amigado, mas já estou dispensando ele... É um porco que nao gosta de tomar banho e quando entra no chuveiro, tem a mania de mijar no box."
Enquanto comíamos um Quibebe (de véspera e requentado), as "auxiliares" iam anotando as providências que pretendíamos tomar para resolver os problemas do bairro: falar com o prefeito sobre a construção de muros de arrimo nos barrancos e canalização das águas; falar com a construtora responsável para a reforma das casas trincadas; conseguir, junto à Matriz de minha empresa, condiçoes especiais para renegociação das prestações em atraso, já que a inadimplência, então, era muito alta (mais de 45%).
A duras penas conseguimos tudo isso e em poucos meses os muros foram construídos e as casas consertadas. Com a ajuda inestimável de Mariland e das amigas do bairro, renegociamos todos os contratos e a inadimplência do Conjunto baixou para menos de 3%.
Organizou-se uma grande comemoração no Centro Comunitário do Jardim Veneza. O churrasco foi patrocinado pela construtora e prefeitura (era ano eleitoral) e a música ficou por conta do novo "amigado" de Mariland, um pagodeiro dos bons. As autoridades foram chegando e a certa altura, interrompi a música para chamar ao palanque a "mais importante figura do evento".
Ao som de um samba enredo da Mangueira, ela subiu ao palco vestida de baiana; no peito trazia um broche enorme de pedras azuis que prendia uma capa cor de rosa, longa e esvoaçante. Olhando para mim ela perguntou: "Tô bonita, Seu João?" Com o microfone na mão eu respondi, emocionado:
"Tá mais linda que a Rainha do Congo!"
O barracão quase veio abaixo de tantos aplausos e ovações. Mais tarde, ela comentou que esse foi o momento mais sublime de sua vida e a partir daí, passou a ser conhecida pelo apelido que eu inventei.
QUIBEBE DA MARILAND: 1 kilo de carne seca (jabá); 3 cebolas grandes; 6 dentes de alho picadinhos; 1 abóbora jerimum (daquelas de casca grossa); 3 colheres (sopa) de azeite de oliva; 2 colheres (sopa) cheias de manteiga ou margarina sem sal; 1 folha de louro; salsinha e pimenta cumari a gosto; 1 lata de creme de leite e 1 pacotinho de queijo parmezão ralado.
Corte a carne seca em cubos e deixe de molho por 12 horas (troque a água umas três vezes). Cozinhe-a na pressão, com bastante água, o louro e 2 dentes de alho, por 1 hora, mais ou menos. Escorra e desfie a carne. Frite no azeite duas cebolas em tiras (à juliana) e 2 dentes de alho picados. Quando murcharem, acrescente a carne desfiada e deixe fritar. Noutra panela, frite na manteiga, 1 cebola e 2 dentes de alho picadinhos. Acrescente a abóbora, sem casca nem sementes, cortada em cubos. Junte um pouco da água que cozinhou a carne seca e deixe refogar, em fogo baixo. Amasse a abóbora com uma colher grande até virar um purê, junte a pimenta, o creme de leite e o queijo ralado. Misture bem e desligue o fogo. Sirva com a carne seca, espalhando por cima a salsinha picada.
Olha, eu pensei muito se falaria sobre o Sílvio, meu ex-amigo e chequei à conclusão que vou falar sim, já que ele foi bem sacana, tanto para os colegas quanto para a família, enganando a todos...
Era um cara muito alto, gordo e branquelo. Tinha os cabelos avermelhados e parecia mais um porco "duroc" daqueles bem grandes.
Muito educado, tinha a mansuetude de um cordeiro e religiosidade irritante. Era evangélico dos roxos e cheio de compromissos com a Igreja dele. No início tentou, em vão, me converter, presenteando-me com fitas cassetes contendo discursos do pastor e palavras do evangelho. Logo percebeu que se ele era crente fanático, eu também era firme em minhas crenças e convicções. Deixou-me em paz, alegando que nao tinha mais salvação.
Ficava "fulo" de raiva quando eu criticava os adesivos que ele grudava no seu Vectra com aquelas mensagens piegas, do tipo: "Sou apenas motorista, o proprietário é JESUS".
Nós trabalhávamos em uma cidade de Minas e almoçávamos juntos todos os dias, num restautante self-service. Ele sempre me punha à frente, pedindo: "João, você que conhece bem as coisas de cozinha, mostre-me o que é carne de porco pois eu não posso comer, a Igreja não permite!"
Sou contrário a todos os dogmas radicais, de qualquer espécie que seja e assim, defronte a uma bandeja com suculentos bifes de lombinho de porco, eu dizia: "Pode comer, Sílvio, é peito de frango grelhado". E ele comia e até lambia os beiços, pois que era muito guloso.
Um dia, meio envergonhado, ele veio pedir-me conselhos: "João, você que é um cara bem vivido, pode dar-me algumas dicas?" Titubeou um pouco mas continuou: "Sabe, minha mulher não tem mais atração por mim... As vezes, ligo a TV e fico só de cuecas na cama, esperando ela sair do banho mas, faz tanta onda que quando vem se deitar, eu já estou roncando. Ontem, enquanto ela estava no chuveiro, eu entrei na banheira, peladão, mas ela ficou brava e saiu logo do banheiro! O que você acha que eu devo fazer? "
Meu Deus, o que eu poderia dizer para um cara desses?! Optei por ser cruel e repondi assim:
"Sílvio, se você já é feio com roupa, imagine-se pelado numa banheira: deve parecer um suíno na lama! Não se mostre, nunca, sem roupa para ela... Fique no escuro, por baixo das cobertas e espere ela dormir. Depois você vai se achegando de mansinho para ela pensar que está sonhando, daí, quem sabe, dá certo!"
Ele ficou na dúvida se eu estava falando sério ou brincando mas nunca mais tocou no assunto.
Certo dia, após suas férias, o Sílvio não voltou mais para o trabalho e nem para sua casa. Passadas algumas semanas, foi descoberto que ele, utilizando-se da senha de um outro colega de trabalho, fez uma série de falcatruas com empréstimos e transferências de numerários. Fugiu para os Estados Unidos, levando uma bolada de dinheiro nas malas. Para a mulher, deixou apenas um bilhete e penso eu, ela deve ter dado graças a Deus.
Com o passar do tempo, ouvi dizer que ele havia alugado uma garagem em Mont Vernon/NY e para sobreviver, "pregava a palavra de Cristo" a uma comunidade de brasileiros.
Baita safado!!
Muita gente vai torcer o nariz mas para quem mora em sítio, como eu, talvez seja interessante a receita de minha avó Vitta para conservar carne de porco...
CARNE DE PORCO NA GORDURA: Tudo bem, não vou pedir para você matar e limpar o porco! Portanto compre no açouque alguns kilos de toucinho, outros kilos de pernil desossado e cortados em cubos grandes, costelas cortadas em pedaços (uns 7 cm) e bastante suã (lombo com a vértebra). Tempere as carnes (menos o toucinho) com sal, bastante alho espremido, louro e pimenta (cumari ou do reino) e reserve. Frite os pedaços de toucinho, com pouco sal, num tacho ou panela bem grande até ficarem amarelinhos. Coe, numa peneira grande e esprema um pouco o torresmo, separando-o da gordura. Volte a gordura ao tacho e frite os pedaços de carne até amarelarem bem. Eu guardo a carne, submersa na gordura em baldes grandes de plástico (manteiga) ou de de folha de Flandes (óleo) que eu compro nas padarias ou confeitarias. Proceda da mesma forma com o torresmo. Assim conservados, a carne e o torresmo duram por vários meses. Na hora de servir, é só dar uma leve fritura....delícia!
Quero ver quem se habilita!!
O “Beco dos Pães”: Ah, que saudade daqueles tempos... Viejos tiempos! Jovem, bonito e bom dançarino, eu era muito requisitado pelas garotas e coroas nos bailes dos clubes da cidade. Mas na hora de ir embora, nenhuma ficava comigo, pois meu único veículo era o guarda-chuva. Tinha inveja do Amadeu, com seu Jeep, do Jair com seu Sintra Gordini do Zé “Areia Branca” com sua perua Kombi, do Oscarzinho com seu Karmanguia ou mesmo do Vagner “Pássaro Preto”com seu fuscão azul cobalto.
Eles, apesar de não terem meu charm, tinham um perfume que endoidecia as poucas meninas “dadivosas” da época: a gasolina.
Era uma meia dúzia só, para atender a rapaziada toda. Num tempo em que não existiam motéis nas redondezas, era na estrada do Gerivá, ou do Bairro Alegre ou nas “praias” do rio Jaguarí chamadas de Paradouro e Areião, que os programas aconteciam. Quando a menina voltava para o salão, com capim nos cabelos, era porque já tinha estado numa das estradinhas.
Se as barras das calças estivessem sujas de areia, o motel teria sido uma das “praias”. Ocorria muitas vezes de vermos alguma com as duas coisas e isso era sinal que já saíra mais de uma vez . Aconteceu até de uma delas, de longos cabelos pretos, voltar com palhas de arroz enroscadas nas melenas.
Bem, eu só tinha vez quando estava com meu amigo Zé “Areia Branca”. Sua perua kombi, que durante o dia era utilizada para entregar pingas e refrigerantes, tinha, por assim dizer, dois ambientes e um casal não atrapalhava o outro. Fora isso, ia embora sozinho, de madrugada, balançando o guarda-chuva (peguei tanto trauma disso que hoje em dia ninguém me faz sair com um deles; prefiro me molhar).
Mas, tornando ao “Beco dos Pães” do início da conversa, certa madrugada chuvosa, após ter dançado num baile de gala (a orquestra chamava-se Sylvio Mazzuca ), encontrei a Mercedinha saindo da padaria com duas baguetes debaixo do braço. Não era lá muito bonita mas, quase vizinha de casa, vivia me paquerando e me provocando. Já com bastante “Cuba Libre” e Steinhaeger na cabeça, dei uma cantada nela e fomos para um beco que existia, encostado à padaria,
Joguei o paletó nas costas dela e começamos o “frege” mas, não tínhamos onde enfiar o guarda-chuva, a sombrinha, os pães, enfim, onde enfiar nada! Colocamos os pães dentro do guarda-chuva fechado e o depusemos em cima do muro.
Ao final do “entrevero”, já quase amanhecendo, cadê o guarda-chuva? Cadê os pães? Escorregaram para o terreno vizinho e ali, meu guarda-chuva foi completamente dilacerado e os pães da Mercedinha devorados pelo pastor alemão, cão de guarda do padeiro.
A menina, toda molhada, começou a chorar: E agora, minha mãe me mata! Como vou chegar sem os pães?!
Meditei um pouco e ponderei: “Bem, pelo menos você não perdeu a sombrinha e vou dar um jeito de arrumar outros pães”.
Naquele tempo, todo mundo era honesto no bairro. As famílias mantinham uma conta-caderneta na padaria e os pães, entregues nos domicílios. Eram depositados, ainda quentinhos, nos embornais (pequenas sacolas de pano) que ficavam pendurados nos trincos das portas externas.
Ninguém roubava ninguém, mas eu roubei... Roubei minha própria mãezinha!
A coitada, assim que se levantou da cama, deu por falta dos pães: “Estão faltando dois!”
Enquanto ela foi até a padaria reclamar, tomei um banho bem quente para não me resfriar e caí na cama, dormindo o sono dos justos...
Tudo o que se faz com pães fica gostoso e econômico. Aprendi com D. Judite, minha querida vizinha, essa farofa que recomendo:
FAROFA DE PÃO: Frite uma cebola, bem batidinha em uma colher (sopa) de manteiga. Quando murchar, acrescente um punhado de presunto picadinho. Refogue com um tomate grande, sem pele , picado. Ponha o sal e pimenta a gosto. Tire a casca grossa de dois ou três pãezinhos e deixe de molho em um pouco de leite, Esfarele bem esse pão amolecido e misture-o ao refogado. Junte umas seis ameixas pretas picadas e um maço de salsinha miudinha. Retire do fogo, bata duas gemas e misture ao refogado quente,
Amanhã o País todo ficará impregnado pelo afrodisíaco aroma do bacalhau. Apesar dos preços proibitivos, em quase todo lar brasileiro o peixe estará presente à mesa. Houve um tempo, porém, em que o bacalhau era muito, muito barato. Havia até um dito popular que dizia: "Para quem é, bacalhau basta!", uma forma de depreciar alguém.
Nos "empórios" ou "Vendas", espécies de supermercados d'outrora, vendia-se de tudo um pouco: farinha, arroz, fumo, querozene, mortadela, pinga, peneiras, jacás, panelas, botinas, sardinhas, bacalhau, etc...etc...) e as mantas de bacalhau ficavam penduradas,aos montes, sobre o balcão ou do lado de fora das portas dos empórios.
Minha mãe costumava contar às suas comadres a centenária piadinha do ceguinho que ao passar defronte a um empório, sentindo o cheirinho do bacalhau, educadamente, levantava seu chapéu e cumprimentava: " Boa Tarde, minhas senhoras!"
Prá quem nao entendeu, vale explicar que nossas adoráveis avozinhas, imigrantes italianas, portuguesas ou espanholas não eram muito chegadas ao banho. Era uma vez por semana e olha lá!
Pois, pois... minha avó portuguesa, Adelaide, tinha um irmão - o Manoel Mendes de Oliveira - que trazia de Portugal caixas e mais caixas de bacalhau, sardinhas e tonéis de vinho. No início, ele vinha uma vez por ano e depois, mais amiúde. A mulher dele, Maria Cardoso, ficava lá em Coimbra com os dois filhos adolescentes, enquanto ele aqui se esbaldava, vendendo suas mercadorias e se divertindo com as raparigas do bordel "Castelões", situado na rua Riachuelo.
Numa dessas, ele apaixonou-se por uma mulata cujo apelido era "Rita do Cubatão" e montou casa para ela. Passou a estar mais tempo no Brasil e quando a amante ficou grávida, foi morar com ela numa casa de colonos na Fazenda Capituba ("Peituva", como ele dizia). Após o nascimento do "trigueirinho", ele voltou mais duas vezes para Portugal e depois não deu mais notícias para a família d'além mar.
Passados dois ou três anos, Maria Cardoso com os dois filhos à tiracolo, aportou ao Brasil e munida do endereço de minha avó, veio dar com as caras em nossa cidade. Cientificada do paradeiro do marido, não teve dúvidas: com a ajuda dos filhos, deu uma surra na Rita e escorraçou-a da fazenda, juntamente com seu rebento. A familia, assim reunida, instalou-se numa casa no "Largo das Cabritas", perto da Igreja do Rosário e ali montou um empório de "secos e molhados". Enquanto ela e o marido ficavam no balcão, os filhos encarregavam-se de trazer mercadorias, de São Paulo e de Lisboa.
Juntou uma boa grana, durante alguns anos de dura labuta, nunca se esquecendo da traição do português. Certo dia, limpando as burras do dinheiro aquinhoado com o comércio, partiu com os dois filhos para São Paulo, sem dizer adeus e nem sequer o endereço.
Nunca mais voltou e o coitado do Manoel acabou seus dias morando com uma tia minha, já que nem a mulata o quis mais, amigada que estava com um fazendeiro da cidade.
Desses parentes de minha mãe, nunca tivemos notícias, restando-nos apenas uma foto da robusta Maria Cardoso, ao lado de um de seus filhos.
Para quem não tem condições de comprar o bacalhau ou seja sovina demais, vai aí uma receita de um peixe de forno que fica até mais saborosa:
Filés de Merluza (ou de Pescada) ao Forno: 1 Kg de filés, 1 Kg e meio de batatas, 6 tomates médios, 1 cebola grande picada, 1 copo de leite, azeitonas, louro, 1 colher (de sopa) de azeite de dendê,1 pacote de creme de cebola (em qualquer supermercado tem), azeite de oliva, nós moscada ralada, queijo parmezão ralado e 1 vidro de leite de coco.
Fritar a cebola, acrescentando os tomates e o louro. Refogar até desmanchar os tomates.
À parte, desmanchar o creme de cebola com o leite e o leite de coco, juntando à panela. Acrescentar o dendê, a pimenta, o cheiro verde e as azeitonas, mexendo até o creme dar a consistência. Por último acrescentar a nóz moscada ralada (1 colherinha de café bem rasa). Desligar o fogo e reservar.
Em uma forma ou pirex grande, dispor camada de fatias grossas de batatas, camada de peixe (temperado previamente com sal, limão e alho), camada do creme, camada de batatas e o restante do creme. Levar ao forno quente até cozinhar e secar um pouco a água que sempre surge.Espalhar queijo parmezão ralado por cima e levar novamente ao forno apenas para gratinar.
Tô meio zonzo ainda pois, é difícil acreditar que hoje foi o últimos dos 12.775 dias trabalhados em estabelecimento bancário! Foram 1.413 dias como escriturário em São Paulo, 4.015 como assessor de diretoria em Brasília e 7.351 como gerente geral em várias cidades.
Vocês conseguem imaginar o que vem a ser isso? Durante a inquietante carreira, fui transferido por 14 vezes. É melhor nem comentar já que nenhuma forma de escrita poderia descrever tudo o que passei de bom ou de ruim. Só posso dizer que a única coisa que fiz ao sair hoje do Banco, foi entrar na primeira Igreja que encontrei e ficar lá, sozinho, agradecendo a Deus pelas oportunidades por mim recebidas através de Sua vontade.
Carreira bem sucedida mas, também passei por muitas "dores de barriga", no sentido figurado. No sentido real, lembro-me de duas que foram decisivas na minha vida profissional. A primeira aconteceu em 1973, quando fui prestar o concurso para ingresso na empresa. As provas seriam realizadas em Poços de Caldas/MG, bem próximo a minha cidade, porém, antes de embarcar no ônibus, uma forte diarréia deixou-me prostrado no banheiro da Rodoviária, sem chances de seguir viagem...
Dois anos depois houve outro concurso e desta vez realizei as provas, conseguindo uma boa classificação. Faltavam os exames médicos, psicológicos e de laboratório que seriam feitos em São Paulo, na manhã de uma segunda-feira.
Na véspera partimos para a capital, eu e o Lúcio, um amigo meu, meio matusquela e completamente gago que também era candidato. Hospedamo-nos na casa de uma tia dele que morava no Brás, famoso bairro de italianos da cidade. Na noite de domingo a coroa levou-nos a uma cantina, onde nos fartamos com pizzas e vinho. Ao final da ceia, ela inventou de furtar os talheres da mesa enfiando-os no bolso das calças do sobrinho.
O que ela não sabia e nem ele se lembrou, era que o bolso estava furado e ao sairmos da cantina, só se ouvia o tinir dos garfos e facas quicando no chão... Foi aquele vexame! Fomos arrastados para a cozinha e só nao deu cadeia porque a tia convenceu a italianada que o sobrinho tinha problemas mentais ( pelo jeitão dele, era fácil acreditar)
Fiquei tão assustado que não consegui dormir e pela manhã, tínhamos que "colher o material" para os exames de laboratório. O xixi eu consegui encaçapar na garrafinha mas o outro "material" eu não conseguia fazer.
Mais de uma hora com a latinha de Pomada Minâncora vasia nas mãos e ... nada! Acho que tanta pizza, vinho e o susto da véspera me deixou ressecado. O Lúcio, com a lata cheia, ficava na porta do banheiro, gaguejando, apressado: "Anda Jo-jo-joão, vamos perder a ho-o-o-ora!" Ficava mais nervoso ainda e daí que nao conseguia mesmo...Apesar de meio bobo, meu amigo teve a brilhante idéia: "O-o-olha, dá aqui-qui tua lati-tinha que eu vou cu-cu-cuidar disso." Saí do banheiro e ele, munido de um palito de sorvete, repartiu o conteúdo de sua latinha, meio a meio, comigo.
Na mesma manhã fizemos todos os exames, inclusive a entrevista com uma psicóloga. Voltamos pra nossa cidade e uns dez dias depois, saiu o edital com o resultado do concurso. O Lúcio foi o primeiro a ler e ligou, muito triste, para mim: "Jo-joão, eu fu-fui repra-provado!" Eu, egoisticamente pensei: "Nussa, se ele não passou nos exames, devo ter dançado também!"
Disfarçando minha ansiedade, fingi solidariedade e comentei: "Ô, meu amigo, que pena! Mas, porque você não passou?" Com voz envergonhada ele respondeu: "Fui ba-barrado no per-perfil ps-ps-psi-cológico."
Aliviado, não consegui segurar meus pensamentos: "Ufa! ainda bem que não foi por causa da me-merda..."
Bom, depois dessa, nem sei que receita colocar mas, acho que vou passar para vocês a receita de uma massa de pizza que minha mãe fez durante toda nossa infância:
PIZZA DA DONA ALZIRA: 1 colher (sopa) de fermento biológico; 1 ovo inteiro, 1 colher (chá) de sal; 1 colher (café) de açúcar, meio copo de óleo; meio copo de água morna e farinha de trigo até o ponto de sovar (desgrudar das mãos). Misture tudo e amasse bastante com as duas mãos. Espere crescer e estique a massa com um rolo até formar um disco de mais ou menos 30 cm, deixando as bordas mais grossas (pode ser um retângulo, também).
Cobertura de carne-seca: pique a carne em pequenos cubos e deixe-a de molho na água por umas 12 horas (troque a água pelo menos umas três vezes). Cozinhe-a em bastante água. Espere escorrer e desfie totalmente a carne. Refogue-a no azeite de oliva, com bastante cebola, alho, tomates picados, pimenta a gosto e cheiro verde. Espalhe sobre a massa da pizza e cubra-a com azeitonas pretas e mozzarella ralada. Asse em forno quente.
A cobertura pode ser, também, com calabresa moída, atum ralado, sardinhas ou peito de frango cozido e desfiado. Refoga-se da mesma forma acima, acrescentando orégano, palmito e ervilhas.
Ela trabalhou lá em casa por um bom tempo. Chegou, aos quinze anos, diretamente de uma roça do interior de Goiás, recomendada por sua irmã, que era babá dos filhos de nossa vizinha, lá em Brasília. Não sabia ler e nem escrever e morria de medo das pessoas... tão xucra que dava dó!
Para se fazer uma idéia, já no primeiro dia, a minha esposa foi ensiná-la a lavar o vaso sanitário e quando apertou o botão da descarga, a garota saiu correndo e gritando, assustada. Nunca tinha visto uma privada em sua vidinha de sertaneja goiana...
Quando pedimos para que fosse até a padaria comprar pão para cachorro quente, ela deu um sorriso, meio que envergonhada: "Mas, Dona Heliana, o homem vai rir de mim... além do mais a senhora nem cachorro tem!"
O primeiro salário foi totalmente utilizado na compra de mantimentos para a família (pai, mãe e mais oito ou nove irmãos menores). O sítio ficava a uns 150 km de Brasilia e o ônibus chegava até certo ponto. A partir dalí ela tinha que caminhar mais uns 10 km até a casa dos pais. Como a compra era grande, ela amoitou tudo sob uns arbustos e durante a noite, veio de carroça, com o pai para buscar os mantimentos... não achou mais nada pois haviam roubado tudo!
Fiquei com dó e na segunda-feira fiz outra compra, voltando com ela, no meu carro. A estrada era intransitável e não houve condições de eu chegar até ao sítio. Ela, novamente, seguiu a pé enquanto o "tonto aqui" ficou esperando com as compras no carro, debaixo do sol escaldante de Goiás e morrendo de medo. Jurei nunca mais fazer esse tipo de caridade!
O tempo foi passando e a Lubiana, que por sinal era bem bonitinha, começou a ficar inquieta, querendo passear à noite. Lá em Brasília não existe isso de uma menina sair sozinha, a pé, para passear. Não tem como... somente de carro! Daí ela pegou amizade com outra empregada do prédio e nos finais de semana iam para a casa da mãe da moça, numa das cidades satélites próximas à Brasília. No início elas voltavam juntas e depois, a Lubiana começou a voltar de táxi. Só que o motorista era sempre o mesmo...
Eu ainda comentei com minha esposa: "Nesse samburá tem truta! Ela não tem dinheiro para pagar tantas corridas..." Alertamos a irmã dela e o que ouvimos foi: "Não tem perigo não, é um namorado que ela arrumou lá no Sotoró (Setor Ó, um bairro afastado de Brasília) e toda vez que eles saem, eu dou uma pílula para ela tomar..."
Quando a barriga começou a crescer, chamamos novamente a irmã que dessa vez afirmou, tranquilamente: "Deve ser fibroma... eu já tirei um, enorme, do útero!" Passados alguns meses, o "fibroma" nasceu, com quase 4 kilos e o motorista do "Sotoró" não quis assumir nada, pois já era casado.
Lubiana retornou para a casa dos pais, foi obrigada a casar-se com um viúvo, 40 anos mais velho que ela e nunca mais saiu da roça. As maiores emoções que a pobrezinha teve em sua vida foram: assustar-se com a descarga de uma privada e andar de táxi.
GALINHADA GOIANA (com meu retoque): Cortar em pedaços 1 galinha caipira e desprezar o pescoço. Temperar com sal, vinagre, alho, cebola, azeite, salsa, 1 folha de louro (ou sálvia) e 1 colherinha (café) de molho de pimenta cumari (ou dedo de moça). Levar ao fogo juntando 3 a 4 caroços de pequi (fruto típico de Goiás) ou, na falta deste, 1 colher (sopa) de açafrão. Refogar a carne em óleo e alho até ficar douradinha. Juntar 3 tomates picados, sem sementes e cozinhar, acrescentando água fervente, aos poucos. Quando estiver quase no ponto, acrescentar 2 cenouras em rodelas, 5 batatas (cortadas em quatro) e 3 xícaras de arroz lavado e escorrido. Acrescentar mais água fervente (uns dois dedos acima do refogado) e 1 pacote de ervilhas frescas, semi congeladas, (ou 1 lata em conserva). Verificar o sal, tampar a panela e terminar o cozimento em fogo baixo. Espalhar cheiro verde por cima e servir bem quente e úmido, acompanhado de salada de folhas.
2º ANIVERSÁRIO DE MEU BLOG! NÃO PENSAVA EM CHEGAR TÃO LONGE...
OBRIGADO A TODOS...
TISTA
Lady, a faxineira da casa de meu sítio é uma mulher muito "chic"que adora bailões, roupas extravagantes, brincos e sapatos bonitos. Tem umas unhas bem compridas e outro dia desandou a chorar porque quebrou uma delas ao abrir uma lata de cera. Há algum tempo separou-se do marido e foi morar com um rapaz bem mais novo que ela, boa pinta e trabalhador.
Sossegou o facho, está feliz mas morre de ciúmes do novo amor. Acha que todas as mulheres vizinhas estão a fim do maridão, principalmente a Beth, a cabelereira que tem um salão encostado a sua casa. Por força dessa desconfiança, não dá tréguas prá ele na cama: "Não quero que sobre nada prá ninguém".
Lá no sítio nós criamos toda a espécie de aves (avestruz, pavão, faisão, perus, cisnes, galinhas, patos, angolas, marrecos e gansos exóticos). Toda vez que morre alguma ave, sem motivo aparente, eu costumo congelá-la para que o veterinário faça sua análise, nas visitas semanais, a fim de diagnosticar o motivo do óbito.
Há poucas semanas atrás, morrreram alguns filhotes de pavão, já grandinhos e eu congelei dois deles, numa sacolinha de supermercado. Naquela mesma semana, dei para a Lady um pernil de porco caipira que estava no freezer e também uma sacolinha com os pés do suíno para que cozinhasse no feijão.
Só que ela retirou do freezer a sacolinha errada, que continha os pavãozinhos congelados e levou para casa, toda contente com a ceia que iria preparar. Guardou a sacolinha no congelador, descongelou e temperou o pernil. Dias depois, esquecida dos pés de porco, estranhou aquela sacolinha no congelador e foi abrí-la. Levou o maior susto: "Julianoooo, tem macumba na geladeira! Olha aqui, duas pombinhas mortas!"
O bom rapaz, sem saber o que dizer, gaguejava: "Quem será que colocou isso aí!?" A coitada da cabelereira levou a culpa e a Lady, com as mãos na cintura sentenciou: "É claro que foi aquela safada da Beth, ela sempre esteve a fim de você, elogiando tuas pernas e tudo o mais. Ela veio aqui hoje e trouxe a macumba prá lhe conquistar ... Vou jogar esses bichos lá dentro do salão dela!"
Juliano mais pacato ponderou: "Se é macumba mesmo, é melhor jogarmos tudo em água corrente." Durante a noite foram os dois, pé ante pé, até um córrego próximo e virados de costas, jogaram a "macumba" na água, não sem antes se benzerem.
Hoje, segunda-feira, foi dia de faxina no sítio e pedi a ela para descongelar e limpar o freezer. Fazendo isso, ela descobriu os pés de porco que alí ficaram e de repente começou a dar risadas sozinha: "Sr. João, o que é que tinha naquela sacolinha azul que levei na semana passada?" Esclarecido o conteúdo, ela contou-me da palhaçada que aprontou e demos boas gargalhadas juntos.
Não poderia deixar de colocar essa em meu Blog mas fica difícil manter minha tradição de sempre colocar uma receita ligada à crônica e por isso vou ensiná-los a fazer o cordeiro que assei no dia de Ano Novo, cujas sobras a Lady também levou para casa.
PERNIL E PALETA DE CORDEIRO: Bem, primeiro é preciso explicar que cordeiro é um carneiro bem novo, sem muita gordura. Tempere-o com sal e azeite (esfregue em toda a carne) e deixe por dois dias na seguinte marinada: Bater no liquidificador 3 cebolas grandes, 1 cabeça de alho, um maço de cheiro verde, 2 folhas de louro, um ramo de manjericão ou manjerona, um ramo de hortelã, 1 vidrinho de molho inglês, pimenta, 1 copo de vinho branco seco, 1 copo de vinagre branco, 1 copo de água e 1 copo de suco de laranja azeda. Cubra e deixe na geladeira, virando por umas duas vezes. Asse em formas separadas o pernil e a paleta, cobertos com papel laminado, acrescentando água na forma de vez em quando. Depois de umas duas horas, descubra a carne para que fique dourada. Regue com o molho que ficou na forma. Sirva com farofa, arroz e batatas cozidas. Prepare um molho (servido à parte) com 3 colheres de mel (ou Karo), 3 colheres de azeite, suco de 3 limões tahiti, um pouco de água e folhas de hortelã picadinhas.
Para meu gosto, esse é o melhor assado que existe!
(para melhor compreensão, leiam a LÔLA I e LÔLA II)
O espírito da Dona Neiva (aquela que foi chifruda, em vida) era criterioso em sua missão naquele lar e afirmava, com toda a convicção: "Lôla, o bode, teu marido, continua a lhe trair. Precisamos fazer um bom despacho e dessa vez, será com um vaso de comigo-ninguém-pode.
Minha amiga, receosa, disse, num tom agoniado: " Ai, Dona Neiva, da última vez a senhora encheu tanto minha cabeça que eu quase morri sufocada naquele carro... Não quero que isso aconteça novamente e de mais a mais, essa planta é muito venenosa!"
A entidade tanto insistiu que a Lôla acabou por fazer o despacho recomendado: Pegou uma cueca usada do marido e pisou nela por sete vezes, com o pé esquerdo. Colocou a cueca no fundo de um vaso, juntamente com uma vela vermelha, quebrada ao meio, dois bulbos (batatas) da planta e completou com terra. Enquanto regava a terra, repetia as palavras cabalísticas:
"Que o vaso lhe guarde os bulbos;
Que o pano lhe embrulhe a mandioca;
Que a água lhe regue a terra, mas
Que não lhe molhe a minhoca."
"Pronto, disse o espírito, o negócio está feito! Se o comigo-ninguém-pode brotar e enquanto tiver folhas, teu marido não mais lhe trairá... É tiro e Queda!"
As folhas brotaram e cresceram viçosas. Até que um dia, o Adroaldo percebendo o vaso, exclamou: "Nussa! Essa planta é muito venenosa e se os cachorros comerem dela, vão morrer na certa..." Sem falar nada com a esposa, comprou uma muda de outra planta, chamada pau-da-felicidade, para a substituição e quando desterrou o vaso, foi aquele fuzuê danado!
No dia seguinte, Lôla, com um olho roxo, desabafou com a entidade: "Olha, Dona Neiva, acho melhor que não apareça mais... eu só levo fubeca com seus conselhos e o Adroaldo ainda vai acabar me matando. Prefiro continuar chifruda do que morta, como a senhora!" O espírito retrucou, de pronto: "Eu já lhe disse uma vez e vou repetir: só vou-me embora quando teu marido parar com as fornicações dele. É minha missão..."
Bem, passados alguns meses, meu amigo aposentou-se, finalmente e resolveu viajar com a esposa, para conhecer o mundo.
Estavam eles em Manhattan/NY, numa tarde gelada de Janeiro, quando Lôla avistou aquela mulher com o indefectível vestidinho preto e avental de algodão beige. Dona Neiva lhe acenava, amigavelmente, enquanto atravessava a 5ª Avenida, em meio aos carros. Lôla comentou baixinho: "Que louca... vai ser atropelada!"
Adroaldo, que estava arroxeado de tanto frio, perguntou: "Quem?"
Ela respondeu: "A Dona Neiva."
Alcançando o casal, o espírito foi logo comentando: "Nossa, o trânsito está horrível! Isso aqui mais parece uma Sao Paulo melhorada..."Olhando para o Adroaldo ela alertou: "Lôla, começe a gritar...o bode vai ter um treco!" Enquanto Adroaldo ia amontoando-se na neve, com as mãos no peito, sua mulher começou a gritar: " Socorro...Socorro, meu marido está tendo um infarto!"
Dona Neiva, friamente, esclareceu: "Aqui não é socorro! Você tem que gritar é help! "
O resgate acudiu em poucos minutos e enquanto seguiam para o hospital mais próximo, Lôla ainda avistou, pela janela do veículo, a figura escura do espírito de Dona Neiva. De princípio, em forte contraste com o a neve e aos poucos, desvanescendo-se... até desaparecer por completo.
Por consequência do infarto, José Adroaldo ficou sexualmente impotente. O ciúme de Lôla não tinha mais razão de ser e a tal de Dona Neiva, tendo sua missão cumprida, pode descansar em paz.
Já que falei em New York, vou ensinar a vocês o feijão a minha moda. Os brasileiros que por lá habitam adoram e sempre que vou para NY, eles pedem o meu feijão com arroz.
FEIJÃO NOSSO DE CADA DIA: Lavar dois copos de feijão carioquinha ou rosinha. Colocar na panela de pressão com água (três dedos acima dos grãos); 3 a 4 pedaços de bacon; três dentes de alho inteiros; 1 folha de louro (ou manjerona) e 1 colher (sopa) de extrato de tomates (daquela latinha antiga). Tampar a pressão e deixar cozinhar por uns 15 minutos ou até ficar macio, sem desmanchar. Noutra panela ou frigideira, frite meia cebola batidinha em 3 colheres de óleo; acrescente uma concha de feijão com água do cozimento e 1/2 colher ( sobremesa) de sal. Amasse um pouco os grãos e junte à panela do feijão. Espere engrossar e sirva. O arroz eu faço com bastante alho picadinho, água fervente (dois dedos acima), sal e 1 colher de suco de limão (que é para ficar bem branquinho).
LÔ (para melhor entendimento, leiam a LOLA I -13/02)
No final das contas, o Adroaldo não conseguiu morar sozinho por muito tempo. Era um relaxado assumido, a casa de Alphaville virou um pardieiro e não conseguia arrumar empregadas. O Condomínio era muito chic mas longe de tudo. Chegou à conclusão que se a vida era ruim com a Lôla, sem a Lôla era pior. Ciumenta, não sabia cozinhar, mas em matéria de limpeza, não havia outra igual.
Ainda por cima, havia os cachorros que sentiam muito a falta da dona.
Capitulou, por fim e trouxe a mulher para São Paulo mas com as seguintes condições: cenas de ciúme nunca mais e quanto ao espírito da tal de D.Neiva, que fosse enterrado de vez.
Passou-se um tempo de relativa tranqüilidade e o Adroaldo, ainda trabalhando, chegava sempre tarde em casa, devido à distância entre a Avenida Paulista e Alphaville. Daí, o danado do ciúme recomeçou a corroer o coração da esposa, perturbando seu raciocínio lógico.
Por essa época, numa triste manhã de inverno, estava o casal à mesa do café, quando os cachorros começaram a latir, inquietos. Lôla acudiu à porta para ralhar com os animais e ao abrí-la, deu de topo com o espírito de Dona Neiva (aquela que em vida fora muito traida). Soltou um gemido de surpresa: “Ah, meu Deus! Ela está aqui...”
Voltando-se para o marido, acrescentou, em tom de lamúria: “Eu não tenho culpa...”
Já irritado, Adroaldo perguntou: “Culpa do quê? Quem está aí?”
Lôla respondeu, baixinho: “A Dona Neiva!”
Sem pensar no que dizia, o marido gritou: "Quem mandou você dar o novo endereço para ela!"
Lôla ainda perguntou para o espírito: "Por quê a senhora voltou, o Adroaldo não pode nem ouvir falar em teu nome..."
A entidade, ajeitando o decote do vestidinho preto, respondeu: "Enquanto você tiver razões para ter ciúme dele, eu não vou embora: essa é minha missão!"
Num sábado de verão, o marido levantou-se muito cedo e começou a vestir-se para sair. Lôla, anda na cama, estranhou o fato e comentou: "Por quê essa roupa? Hoje é sábado!" Adroaldo, já prevendo a cena de ciúmes, rosnou-lhe: "Olha, não dê palpites pois eu já estou com o saco cheio por ter que trabalhar hoje... é que os técnicos vão mudar as máquinas e eu preciso estar presente para ver se tudo vai dar certo."
É lógico que Lôla nao acreditou, ainda mais pelo fato de que, lá do espelho do closed, a Dona Neiva fazia provocações, com os dois dedos na testa, em forma de chifres. Enquanto José Adroaldo dava ração e água para os cães, ela meteu-se, ainda com camisolas, dentro do porta malas do Chevrolet Opala do marido (era daqueles que tinham uma tampa interna). Ficou quietinha alí espremida, enquanto o carro rodava São Paulo adentro. Apesar do desconforto, ela já antevia o momento da desforra..."Hoje eu pego essa bruaca".
Quando o carro, finalmente, estacionou, ela levantou uma fresta da tampa do porta-malas e qual não foi sua surpresa quando percebeu que estava no estacionamento externo da empresa e que o marido já conversava com alguns técnicos que estavam à espera. Sem coragem de sair do veículo, pois estava de baby-doll, ela ali ficou, trancada o dia todo. Sol escaldante e o calor era insuportável. Bem tarde, quando Adroaldo voltou para o veículo, encontrou a esposa em seu interior...desmaiada.
Dessa vez, ela só não apanhou porque foi levada, às pressas para o pronto-socorro.
Dona Neiva ensinou Lôla a fazer um bolo chamado "Prende Marido", o qual, como o próprio nome indica, serve para amarrar de vez o coração de infiéis, com a recomendação de ser servido na cama, enquanto a vítima ainda estiver com roupas íntimas.
É melhor anotarem, mesmo aqueles que não tenham o problema de minha amiga, pois fica muito bonito e saboroso.
Fazer duas receitas de bolo, um amarelo e outro negro com os seguintes ingredientes:
Bolo Amarelo - Bater bastante no liquidificador: 2 cenouras com 1/2 xícara (chá) de óleo e 1/2 xícara de leite. Misturar numa tigela com 3 ovos inteiros; 2 xícaras e meia de farinha de trigo; 2 xícaras de açúcar e 1 colher (sopa) de pó Royal. Assar em forno médio e reservar.
Bolo Negro - Misturar: 2 xícaras (chá, cheias) de açúcar; 2 xícaras (cheias) de farinha de trigo; 1 xícara (cheia) de chocolate em pó; 4 ovos inteiros; 1 xícara (mal cheia) de óleo e uma pitada de sal. Por último, juntar 1 xícara de água fervente; 1 colher (sopa) de pó Royal e 1 colher (café) de bicarbonato. Bater bem, com colher de pau. Assar em forno moderado e reservar.
MONTAGEM: Corte cada bolo em 10 tiras iguais, no sentido horizontal. Passe doce de leite cremoso ou goiabada nas laterais de cada tira. Em cores alternadas, vá grudando uma tira na outra. Faça duas camadas e para a camada de cima, besunte as superfícies das tiras com o doce e proceda da mesma maneira, sempre alternando as cores para formar um xadrez. Cubra com glacê de claras ou de chocolate.
Então... a Lôla era uma pessoa extremamente ciumenta.
O marido dela, José Adroaldo, foi diretor em nossa empresa e já estava quase para se aposentar quando nos conhecemos.
Os dois brigavam muito pois ela achava que ele era-lhe infiel e que saía com todas as colegas de trabalho.
Quando se referia às mulheres que com ele trabalhavam, ela sempre usava a expressão "as piranhas do gabinete".
Ao marido ela apelidou de bode e era muito engraçado quando ia lá em casa contar suas mágoas para minha mulher:
"Sabe, Heliana, ontem o bode chegou as dez da noite em casa! Veio com a desculpa que depois da reunião da diretoria ele e a Gecylda, ficaram revisando os assuntos e fazendo a ata do que foi discutido."
Batendo os punhos fechados no joelho ela rosnava raivosa: "Mentira, aqueles dois estão de caso, tenho a certeza!"
Minha mulher, ouvindo com toda paciência, procurava, em vão, acalmar a amiga.
"Mas tem uma coisa _ continuava ela _ hoje eu só apareço em casa à noite e se ele quiser almoçar, que coma merda pois dei folga até para a empregada."
Lôla era altamente espiritualizada. Achava que era médium clarividente, sempre rodeada de espíritos, e até conversava com alguns.
A mais chegada das entidades era uma tal de Dona Neiva, cujo espírito batia longos papos com ela.
Essa senhora, em vida, fora muito traída pelo marido e por isso dava-lhe frequentes conselhos...
Certa manhã, bem cedo, instigada por Dona Neiva, ela ligou para o escritório do marido e a secretária atendeu: "Diretoria de Programas, Gecylda, bom dia!"
Fora de si, Lola começou a gritar: "É você sua piranha? O que está fazendo ai a essa hora, você não entra às dez?"
A secretária respondeu com toda a polidez: "É a Dona Lola? Um momento que vou passar para o Dr. Adroaldo. Ele está no..."
Foi interrompida pelos berros do outro lado da linha: "Eu sei onde ele está sua p...; você é quem não deveria estar no escritório a essa hora. Estou indo até ai e se te encontrar, vou rachar a tua cara!"
Desligou o telefone e falou para o espírito: "Vamos comigo, quero testemunhas!"
Em poucos minutos, a esposa endoidecida irrompia no gabinete do marido e ao ver que a pobre secretária ainda estava lá, desandou a esmurrar a moça, sem piedade.
Arrancou o telefone dos fios, jogou o vaso de flores na parede e qual "ninja assassina", começou a chutar a porta da sala do marido.
Adroaldo que estava em outro andar, numa reunião com o presidente da empresa, foi avisado e veio correndo, escadas abaixo.
"Para com isso, Santinha (esse era o meigo apelido que ela tinha em casa), que escândalo horrível!" E tentava, debalde, segurar as garras da esposa que já fizera estragos no rosto da rival.
O que Lôla nao sabia era que, na verdade, a bela Gecylda mantinha um "caso" com o presidente da empresa e não com seu marido.
Tempos antes, para não dar muito na vista, o "chefão" havia transferido a moça para a diretoria do Adroaldo com a função de secretária e o meu amigo era cúmplice do romance.
Em fim, o que resultou da tragédia foi que, o presidente, com medo de sobrar para ele também e não querendo prejudicar o José Adroaldo, transferiu-o para uma Superintendência em São Paulo.
Ele foi morar sozinho, numa grande casa em Alphaville, deixando Lôla a ver navios.
A Lôla nunca fritou um ovo em sua vida e quando estavam sem empregada, só comiam marmitex ou em restaurantes. Por isso, não tenho nenhuma receita dela mas vou ensinar uma rosca deliciosa que eu fazia muito lá em Brasília e da qual minha amiga gostava muito. (Putz, esta receita está em meu caderno desde ABRL 1980!!! - tô ficando velho rsrsrs):
ROSCA DE NOZ - MOSCADA-1 lata de leite condensado; 4 tabletes de fermento fleshmann (60 gramas); 1 copo de água morna; 5 ovos inteiros; 1/2 copo de óleo; 1 colher (sobremesa) rasa de sal; 1/2 noz - moscada ralada; farinha de trigo que dê o ponto de enrolar as roscas (pouco mais de 1 kg)
Bater tudo no liquidificador (menos a farinha) e despejar sobre a farinha de trigo, em uma bacia grande. Misturar bem com as duas mãos. Sovar bastante (socar com raiva mesmo).
Deixar crescer, dentro do forno, coberta com algum pano grosso. Cortar em 4 partes (4 roscas). De cada pedaço, fazer três cobras e enrolar em forma de trança. Deixar crescer, novamente, até dobrar de tamanho.
Pincelar com gema e polvilhar com açúcar cristal. Assar em forno médio (duas roscas em cada forma) e comer.... (nao deixe de mandar uma para a vizinha, pois o aroma vai chegar até a casa dela).
O João de Mello tem, mais ou menos, a idade de meus irmãos mais velhos (José e o Roberto). Eram muito amigos e deles recebeu o apelido de “João Maverick” pois que possuía um automóvel dessa marca, amarelo e cheio de enfeites.
O carro era horrível, enorme e estava sempre sujo de barro de tanto rodar pelas roças da redondeza, levando seu dono, um exímio sanfoneiro, muito requisitado para animar os bailes e forrós da zona rural.
Certa vez, numa exposição de gado leiteiro, ocorrida em Goiás, os três amigos compareceram, levando cerca de 40 cabeças de vacas “girolandas” com a finalidade de vendê-las em leilão. Ficaram hospedados em dois cômodos alugados, nos fundos de um restaurante gaúcho.
Os proprietários, gaúchos parrudos e grandões, eram casados e uma das esposas, uma goiana bonita e fogosa, engraçou-se com o João, tanto pelos seus dotes artísticos quanto pelo porte espigado que o mesmo apresentava, já que media quase dois metros de altura.
Já estavam por lá há quase uma semana, sem vender uma rês sequer e o João não conseguira nem uma chance de ficar a sós com a mulher. Até que numa sexta feira armou-se o maior barraco no restaurante com os dois gaúchos brigando e as mulheres se arranhando. No meio da confusão, enquanto os casais rolavam pelo chão, João, fingindo apartar a briga, puxou a goiana para o fundo do quintal e “deu um trato” nela, meio às pressas.
Acalmado os ânimos, confidenciou aos amigos que a mulher iria encontrar-se com ele após fechar o restaurante e para tanto, teria que ficar sozinho no quarto. Meus irmãos ficaram meio despeitados e armaram uma vingança: Enquanto o Roberto ficou com o João, bebendo umas e outras, o José foi até ao pequeno quarto do companheiro com a desculpa de trasladar seus pertences para o outro cômodo.
Trocou o estrado da cama por algumas varas de bambus, bem frágeis, recolocando o colchão no lugar. Não satisfeito, encheu uma lata de água e ajeitou-a cuidadosamente sobre o batente superior e a porta semi aberta.
Logo depois que o gaúcho foi dormir, sua mulher fechou o restaurante e veio, pé antepé com o João que já antevia,com prazer, a noite de farra que rolaria. Com a mulher à frente, foi abrindo devagarzinho a porta do quarto e deu-se aquela gritaria quando a lata de água fria caiu sobre a coitada...
Trancaram a porta e ficaram ali assustados, no aguardo de algum movimento externo. Não havendo manifestações, a mulher tirou a roupa molhada e começaram as carícias.
O golpe final veio quando os dois procuraram a cama... Os bambus ainda agüentaram o peso da amante mas quando o João partiu pra cima dela, vestido apenas com as cuecas “samba canção”... foi aquele estrago!
Histérica, a mulher desandou a esmurrar nosso amigo. Saiu do quarto, com as roupas na mão, não se preocupando nem com a possibilidade de o marido ter percebido algo.
Os três tiveram que fugir, de madrugada, levando consigo as vacas não vendidas mas, nem por isso, a amizade entre eles se acabou...
Já que falamos em vacas leiteiras, hoje a receita será de docinhos de leite,feitos à moda antiga, com puro leite, não industrializado:
2 litros de leite in natura; 6 copos americanos (aqueles de bar) de açúcar; 2 colheres (sopa) de manteiga; 1 pitada de sal; amendoím ou leite de coco.
Levar ao fogo em panela grossa (menos o amendoim ou leite de coco). Mexer, sem parar, com uma colher de pau, até dar o ponto de desgrudar da panela (demora bastante). Um pouco antes de dar o ponto, acrescente o amendoim ou o leite de coco. Desligue o fogo e bata bastante até ficar vidrado. Despeje na pia untada de manteiga. Espere esfriar e corte-o em pequenos retângulos.
OBS: para melhor verificar o ponto, despeje um pouco do doce numa xícara com água fria; se ficar duro, desligue o fogo.
(para melhor entendimento, leiam a 1ª parte, dia 13/10/08
Após a tentativa frustrada de suicídio, Pedro tornou-se outro homem: passou a valorizar a vida, a abraçar árvores, a sorrir para as flores e até mesmo a gostar de si mesmo. Apesar de ter ficado sem um pedaço da orelha e de ter que usar o velho par dAe óculos de uma perna (ou braço?!) só, não se sentia mais um injustiçado por Deus.
A partir de então, quando ia à cidade entregar lenha, seguia conversando, alegremente, com a mula recentemente adquirida e batizada de Serafina:
“Vamos ligeiro, minha amiga! Quem sabe não será hoje que conhecerei a mulher de minha vida.”
Passou a reparar nas pessoas, a ficar falante e a “tirar linha” com as mocinhas da cidade. Percebeu que algumas delas “davam corda” e isso fazia o jovem sentir-se como um Rodolpho Valentino ou um John Barrymore, galãs da cinematografia d’antão. Usava sempre o chapéu meio que do lado, um tanto para dar pinta de herói e mais para esconder a orelha mutilada.
Seu Joanicão, dono da casa de moagem e torrefação de farinhas, tinha uma filha chamada Helena. Filha única, já pela casa dos vinte e tantos mas ainda solteira. Pedro começou a cortejá-la de longe.
Não era muito novinha, devia até ser mais velha do que ele, mas era uma “mocetona”, de corpo grande e forte, bonita de se ver!
As noites do rapaz passaram a ser povoadas de sonhos inquietantes sendo que, muitas vezes, acordava no meio da noite com o “coração na boca”, peito palpitante e o corpo suado. Estava apaixonado...
Mais afoito ficou quando percebeu que sua paixão fulminante estava sendo correspondida, de leve a princípio e mais forte a medida em que os olhares iam perdendo o pundonor inicial. Fugidia que era, a moça foi-se deixando levar ao sabor daquele enlevo e toda a vez que ouvia o trotear compassado de Serafina, corria à janela, com as faces afogueadas e as pernas bambas.
Enquanto seu pai ajudava a descarregar a carroça, a embarcar sacos de farinha ou de fubá em troca da lenha, os dois jovens cruzavam olhares cúmplices e maliciosos.
Numa manhã, pela ausência do pai, Helena teve que atender ao enamorado. Pedro seguiu-a até ao moinho de fubá, meio anestesiado pela emoção, e enquanto ele segurava o saco de aniagem, ela, munida de uma concha grande, de alumínio batido, recolhia o fubá de um caixote baixo para o saco.
Vendo o abaixar-se e o levantar-se contínuo da moça, Pedro ficou extremamente excitado e num rompante de insensatez, grudou-se nos quadris da amada. Helena, tensa que estava, deu um berro assustado e numa reação automática, meteu a concha de ferro na cabeça do rapaz, cortando-lhe um pedaço da outra orelha, a que era perfeita...
Quando seu Joanicão chegou e viu a filha curando a orelha de Pedro, quis saber a razão e a explicação que ouviu foi que ao apertar a cinta “barrigueira” da mula, o rapaz levou um coice certeiro do animal. Pedro ainda acrescentou: “Pois é, seu Joanicão, essa mula é uma desgraça de brava e traiçoeira!”
“A Mula não é brava não _ replicou Helena, com toda a calma maliciosa _ Você é que pegou ela no susto...”
Anos mais tarde, sempre que alguém lhe questionava o porquê de usar sempre um gorro "atolado" na cabeça, ele dizia para a esposa: "Conta ai, Helena!"
A gorda senhora, em entremeios a sonoras gargalhadas, não se cansava de repetir a mesmas estórias, decisivas na vida do marido..
O receituário para o fubá é extenso, principalmente na cozinha mineira e escolhi para hoje uma receita, que aprendi quando morei em Poços de Caldas/MG, de broinhas mineiras que não é qualquer um que tem "saco" para fazer e lanço o desafio:
BROINHAS DE FUBÁ: (Usar como medida um copo grande) - 1 copo de leite; 1 copo de água; 1/2 copo de gordura vegetal; 1 copo de fubá; 1 copo de farinha de trigo; 1/2 copo de açúcar; 2 pitadas de sal; 1 colher (sopa) de erva-doce; 1 colher (sobremesa) de fermento em pó e 6 ovos inteiros. Levar ao fogo uma panela com o leite, a água e a gordura. Quando levantar fervura, acrescentar os demais ingredientes (menos os ovos). Mexer (colher de pau) vigorosamente, até desgrudar do fundo da panela. Tirar do fogo e deixar amornar. Juntar o fermento em pó e misturar bem. Por último, acrescentar os ovos, um a um, misturando com as mãos. Umedecer uma xícara (chá), de fundo arredondado, com água e polvilhá-la com fubá. Jogar porções de massa na xícara e agitá-la até formar pequenas bolas. Despejar cada bola em tabuleiros untados e enfarinhados. Assar em forno quente. Sirva com café preto da hora.
''Vamos Falar de saudade, que eu hoje estou prá chorar...”
Assim cantava Nora Ney, grande sucesso do final dos anos 50 e inicio dos 60.
E é dessa época que me veem as melhores lembranças de minha querida irmã, Maria Adelaide, cuja vida, na semana passada, foi tragicamente ceifada sob as rodas de um veículo qualquer.
Lembro-me dela cuidando de nós, seus irmãozinhos mais novos, de uma forma extremamente carinhosa e alegre. Sempre cantando e sorrindo, dando-nos o banho diário, penteando nossos cabelos, vestindo-nos e levando-nos à Igreja ou para passeios.
Recordo, nitidamente, o dia em que me levou ao “Foto 5 minutos” para “tirarmos” o retrato que ilustra esta crônica. Para frustrar sua intenção, eu peguei uma tesoura e cortei um pedaço de minha franja (reparem o detalhe na foto), mas não houve desculpas e fui contrariado. Saí de cara feia, ainda mais por que ela não quis comprar-me um sorvete, alegando que poderia sujar a camisa nova: _Só depois da foto!
Lá em casa, era chamada de “Maria Força e Luz” e ganhou esse apelido após ter subido em um banquinho para tentar consertar uma luminária da cozinha. Levou o maior choque, estatelando-se no chão, sob a vaia de todos os irmãos.
Após a adolescência, seus problemas começaram: Acometida de uma enfermidade auditiva, sofreu muito com as dores e seqüelas das cirurgias pelas quais passou. Casou-se com o único namorado que teve, separou-se ainda nova e voltou para casa com os três filhos pequenos, já com os transtornos que a atormentaram por muitos anos e que tanto fizeram sofrer, também a nós, que a amávamos tanto.
Não obstante seus males, os quais, muitas vezes, deixavam-na alienada da própria existência, era um ser humano maravilhoso e bondoso a ponto de doar tudo o que tinha para os mais necessitados. Fazia visitas diárias aos asilos, velórios, enfermos e amigos. Pela cidade toda, levava a alegria de seu grande coração.
Sua religiosidade não tinha nada das convenções impostas e professava a espiritualidade de uma maneira própria e eclética, freqüentando, com a mesma fé, tanto as igrejas católicas como as evangélicas ou espiritualistas. Onde tinha hinos e orações, a Daide estava presente!
Foi, nesta vida, uma presença marcante para nós e para seus amigos, e creio que sua missão maior foi cumprida: três filhos e netos, exemplares e honrados, que nos deixou para engrandecer ainda mais seu nome e suas lembranças.
Em fim; ela não nos abandonou...apenas foi na frente!
Perdoem-me os leitores mas, pelo menos desta vez, não tenho crônicas divertidas para publicar pois só me ocorrem os versos que a Nora Ney cantava...
O “Seu” Pedro Maturano era míope de muitos graus e até onde vão minhas lembranças, sempre usou um gorro enfiado nas orelhas e o mesmo par de óculos “fundo de garrafa”, meio esverdeado. O peso da armação era tanto que lhe deixara uma marca profunda no nariz e as lentes estavam sempre embaçadas de pó amarelo, visto que era um “farinheiro” (moia e torrava farinha de milho e fubá).
Nasceu e foi criado na roça, perto da Fazenda Santa Helena. A família vivia dos parcos recursos que conseguia “catando” e rachando lenhas, vendidas para as padarias, olarias e fecularias da cidade.
Pedro, rapaz ainda, era encarregado de levar para a cidade os paus de lenha, numa carrocinha puxada por uma égua de uns três anos, chamada Esmeralda. O animal era muito bonito e saudável e as pessoas, na cidade, sempre ofereciam bom dinheiro para a compra da égua; ofertas prontamente recusadas por Pedro, que alegava não ser seu dono.
Um dia porém ele capitulou ante a quantia oferecida pelo dono da Padaria Estrela: vinte contos de réis! Voltou para casa com o volumoso pacote de notas no bolso e puxando, ele mesmo, a carroça. Pelo caminho vinha pensando no quanto seu pai ficaria feliz com aquele dinheiro: “dava para comprar duas mulas!”, meditava ele.
Seu pai, espanhol de Málaga e “bravo como o capeta”, ao saber da venda de Esmeralda, deu-lhe uma sova de chicote, obrigando-o a voltar à cidade a fim de desfazer o negócio. Pedro, envergonhado até à alma, implorou ao comprador para devolver a égua mas que nada... “Negócio feito era sagrado!”
O velho espanhol comprou outro animal mas, a partir daí, era Pedro quem catava e trazia a lenha dos matos, puxando a carroça, qual um burro de carga. A mula comprada servia-se apenas para a entrega da mercadoria aos comerciantes.
Trabalhava como um "asno de engenho"e não podia freqüentar o jardim ou ir ao cinema pois não tinha tempo nem dinheiro. Além disso, por achar-se feio e “cegueta”, não cogitava em arrumar namorada.
Lá pelos seus 23 anos, decidiu acabar com a miséria de vida que levava: Numa manhã de segunda feira, saiu com a velha garrucha espanhola, herança do avô e começou a maquinar seu suicídio. Enquanto caminhava, antevia, com certo prazer amargo, o desgosto e remorso que sua morte iria causar a seu pai. Já de caso pensado, levou consigo um comprido barbante que lhe seria útil para a consecução do ato final.
Numa grota não muito distante da colônia, ele enroscou o cano da cartucheira num feixe de lenha, amarrou o barbante no gatilho e postou-se a alguns metros, bem na mira da arma. Primeiramente, resolveu “ensaiar” o suicídio e para tanto, amarrou a outra ponta do barbante no dedão do pé, o qual serviria como acionador da engrenagem.
Ao flexionar a perna direita, ele desequilibrou-se e enquanto tombava para um lado, o gatilho disparou vindo a bala passar rente a sua cabeça, arrancando-lhe o pedaço superior da orelha.
Quando os colonos acudiram, ele estava meio que desmaiado, com a cara toda preta e ensangüentada. Ficou surdo do ouvido direito e por muito tempo usou óculos com uma “perna só”, amarrada com elástico mas... nunca mais pensou em suicídio!
E como o assunto hoje é farinha, segue aí uma receita de farofa, deliciosa e muito simples para acompanhar os churrascos da vida:
FAROFA FRIA DA ROSALI: 2 copos de farinha de milho torrada; 2 copos de farinha de mandioca crua; 1/2 copo de óleo ou azeite; 1/2 copo de limão Tahiti; sal e´pimenta a gosto. Esfregue com as mãos até as farinhas ficarem uniformemente misturadas. Acrescente 2 dentes de alho picadinhos; 1 cebola bem picada; azeitonas; tomates; ovos cozidos picados e cheiro verde batidinho. Não mexer muito.
Certo dia cheguei na casa de minha sogra em Paracatu e a encontrei atendendo um consulente. Era um japonês miudinho, muito cortês e sorridente, chamado Mario Okamura.
Enquanto ela traduzia os sortilégios e premonições das cartas, ele gravava tudo num pequeno aparelho portátil.
O japonês, ou nissei, dizia ter uma fazenda no município e estava pensando em trazer seus pais e irmãos, que moravam em uma chácara em Jaboticabal. Enquanto ele falava, não tirava os olhos da Carla, filha mais nova de minha sogra e solteira ainda. O baralho foi cortado, por três vezes até que as cartas começaram a falar:“Você deve trazer apenas teus pais, se os irmãos vierem também, vão trazer-lhe infelicidades!”
Enquanto a Carla servia um cafezinho, o japonês perguntou, ruborizado: “A Bassam quer trazer uma moça que gosta de mim, pra casar, veja nas cartas se vai dar certo. Cybelle, percebendo a paquera cerrada entre a filha e o rapaz, perguntou quem era a Bassam.“É minha mãe, ela acha que já passei do tempo de arranjar uma esposa e quer trazer a Mieko pra cá...”
Mais uma vez as cartas foram embaralhadas e abertas sobre a mesa: “Diga à dona Bassam que teu casamento está próximo e não será com japonesa e nem descendente. Vai ser com moça daqui mesmo.”
Quando o japonês foi-se embora eu ainda disse, intrigado: “Mas Cybelle, dessa vez você exagerou...Olha que o rapaz gravou tudo!” Minha sogra fez um muxoxo e afirmou: “Fica tranqüilo que eu sei o que estou fazendo.”
Daí a alguns dias, o Mario voltou meio preocupado dizendo que os bezerros da fazenda estavam doentes, com umbigos inflamados e diarréia e queria que ela fosse até a propriedade para benzer os animais. No dia seguinte lá foi ela mais a Carla na boléia da caminhonete do japonês, levando consigo seus ungüentos milagrosos .
Enquanto ela fazia as rezas secretas, o retireiro esfregava a solução de ervas nos animais. Carla e Mario saíram para conhecer a propriedade e quando voltaram já estavam de mão dadas e sorridentes.Mais uns dias de visitas e o namoro estava consolidado, com o maior apoio de minha sogra.
Quando Mario resolveu-se a buscar seus pais, minha cunhada foi junto, voltando de ônibus-leito, em companhia da futura sogra. Lá para o meio da noite, a dona Bassam sentiu vontade de fazer xixi mas, quando, com muito custo, abriu a porta do minúsculo banheiro, deu um gritinho envergonhado e voltou, apressada, para a poltrona: “Tem outra japonesa lá dentro, né! E eu não agüento segurar, né!”
Percebendo o desassossego da mulher, minha cunhada acompanhou-a de volta ao WC. A porta estava apenas encostada e lá dentro não tinha ninguém; apenas um grande espelho que ia do teto ao chão. Mirando as duas imagens refletidas, Carla perguntou: ‘É aquela a japonesa que a senhora viu?”Meio abobada a senhora balbuciou: “Nossa, eu confundi eu com eu mesma, né?!”
Aquilo serviu de piada por muitos anos e pouco tempo antes de se casar, minha cunhada descobriu que o Mario era apenas o administrador da fazenda de outros japoneses ricos. Mesmo assim o casamento se consumou e eles tiveram duas filhas lindas, mistura de sangue japonês com espanhol e italiano.
Em fim: O japonês mentiu mas “as cartas não mentem jamais...”
Cybelle ensinou-me a fazer pão aromático de batatas muito saboroso.Vale a pena conferir.
PÃES DE BATATAS E MANJERICÃO: 1 ½ kg de farinha de trigo; 50 gramas de fermento; 4 colheres de manteiga derretida; 1 colher (sopa) rasa de sal; 2 colheres (sopa) cheias de açúcar; 3 ovos inteiros; 1 kg de batatas (ou mandiocas), cozidas e amassadas ou espremidas; 2 colheres (sopa) de manjericão fresco, picado e leite morno (suficiente para dar o ponto de amassar o pão). Desmanchar o fermento em meia xícara de leite morno. Misturar com 1 colher de açúcar e 1 xícara de farinha. Deixar fermentar por uns 10 minutos. Acrescentar os demais ingredientes, aos poucos, sendo que o manjericão deve ser previamente misturado na manteiga derretida e morna. Amassar e sovar muito a massa, até ficar homogênea e leve. Deixar crescer por 1 hora. Enrolar os pães e deixar crescer até dobrar de tamanho. Pincelar com gemas ( 2 gemas desmanchadas em 1 colher de água). Assar em forno não muito quente.
Minha sogra, quando morou em Paracatu/MG, abriu um restaurante num grande posto de gasolina da saída da cidade. Lembro-me que o fogão era enorme, com oito bocas e ficava no centro da cozinha. Além do restaurante ela alugava alguns quartos, contíguos ao posto, para os inúmeros viajantes que por ali passavam, rumo à Brasília, Goiânia ou Unaí. Era uma vida muito dura, ganhava um bom dinheiro mas levava bastante calotes, também.
Eu, que morava em Brasília, distante uns 200 km, adorava passar os finais de semana na casa dela; uma casa antiga dos tempos coloniais. Aliás, a cidade toda é um verdadeiro museu a céu aberto com casario e igrejas dos áureos tempos da mineração. Gostávamos de ir até as margens do rio Paracatu e seus pequenos afluentes para bater peneiras ou bateias.
Nosso intento não era pegar peixes e sim tentar “garimpar” pó de ouro, metal ali abundante nos século XVIII e XIX, tempos de Ana Jacinta de São José, a famosa Dona Beija, sua mais ilustre moradora. Ainda guardo um pequeno frasco cheio do valioso pozinho dourado, fruto de nossas aventuras garimpeiras.
Minha sogra resolveu fechar o restaurante após ter levado calote de um cearense muito alegre e falante que “levou a velha no bico” e por ali ficou por mais de um mês, comendo, bebendo e dormindo. Fugiu sem pagar a conta, deixando umas sacolas no quarto onde dormia e quando minha sogra foi “confiscar seus bens”, só encontrou duas redes velhas e várias bermudas e camisetas sujas.
Passou a fazer bolos doces e salgadinhos para festas, pois não queria sair da cidade e muito menos morar conosco em Brasília. A bem da verdade, eu dava graças a Deus pois sempre fui partidário daquela máxima que ensina: “a sogra não deve morar tão longe a ponto de vir com malas e nem tão perto a ponto de vir só de chinelos...”
Para complementar sua renda, passou a ler sorte e eu fui o causador dessa transmutação da excelente cozinheira que era para uma esperta “Buena Dicha”...Ela era descendente de espanhóis, da Catalunha, e sua sala era lotada de objetos relacionados à Espanha: touros, castanholas, dançarinas de flamenco, leques e quadros de toureiros.
Olhando tudo aquilo, certo dia, tive a brilhante idéia: “Cybelle; já que você está nesse aperto danado, porque não começa a ler sorte. É só arrumar um baralho de tarô, decorar o significado das figuras e fazer cenas de mistério”. Ela adotou a idéia na hora, lembrando-se de que sua avó, Assunción Mariño, sabia ler as cartas.
Comprei-lhe os apetrechos, inclusive um livro que ensinava os segredos da quiromancia. Em poucos dias ela estava “afinada”na leitura das mãos e no tarô. No início, anotava nas costas das cartas a primeira letra dos presságios: Nas costas do valete de copas ela escrevia “A” de amor ou amante apaixonado. Na dama de espadilha, era a letra “R” de rival; no reis de ouro era o $, de marido rico; no reis de espada, o “V” de vingança ou marido ciumento e assim por diante.
Resultado disso tudo foi que durante anos, com o pseudônimo de Madame Zohra, ela ganhou seu dinheiro na maciota e foi uma cartomante de sucesso até o fim da vida. Criou e manteve os sonhos de muita gente e falando em sonhos, vou transcrever uma receita dela que é uma doçura:
SONHOS DA CYBELLE: 2 colheres (sopa) de margarina ou manteiga; 2 colheres cheias de fermento (ou 3 tabletes); 20 colheres de açúcar; 2 ovos inteiros; 1 copo de leite morno; 1 pitada de sal e farinha que dê para amassar. Enrolar os sonhos e cobrir com um pano grosso, para crescer. Ponha uma bolinha da massa em um copo com água:quando subir, pode fritar os sonhos em óleo nao muito quente. Espalhar açúcar por cima e rechear com geléia ou com CREMINHO DE MAIZENA (meia lata de leite condensado, meia lata de leite comum; meia lata de creme de leite 1 gema e 1 colher de maizena, levar ao fogo até engrossar).
Em outra ocasião tive a oportunidade de falar sobre Elza Camacho, a mulher do prefeito de um município vizinho, muito aloprada mas perfeitamente atuante nos eventos e festas promovidos na cidade.
Por ocasião do Natal, ela agitava a cidade inteira, arrecadando dinheiro e doações junto aos empresários e fazendeiros do município. O produto da arrecadação era, integralmente, utilizado na decoração das ruas e prédios públicos da cidade, bem como na compra de brinquedos para presentear as crianças carentes dos bairros de periferias.
Semanas antes do Natal, ela tomava a perua da prefeitura e seguia, somente com o motorista para São Paulo a fim de comprar os brinquedos diretamente nas fábricas e alguns dos materiais que seriam utilizados nas decorações. Saiam de madrugada e só voltavam bem tarde da noite com a “Komby” abarrotada.
Numa dessas ocasiões, após ter comprado todos os brinquedos, o motorista deixou-a na Rua 25 de Março para comprar veludos e poás para a roupa do Papai Noel, enquanto ele seguia até o posto de gasolina mais próximo para abastecer o veículo. Por infelicidade, numa das esquinas da Baixada do Glicério, a perua foi violentamente abalroada e arrastada por um troleybus . O pobre motorista, inconsciente, foi levado para o Hospital das Clinicas e ali ficou por horas, até recobrar os sentidos.
Terminadas as compras, já bem no final da tarde, Dona Elza seguiu em direção ao “mercadão”, local onde o motorista combinara de esperá-la. Passada as 5 horas, passada as 6, chegada as 7 e nada de a perua aparecer. Lojas fechadas, nenhum transeunte para socorrê-la; a coitada ficou apavorada, refugiando-se na marquise de um dos vetustos prédios da região sinistra.
Ali pelas 8 da noite aproximou-se dela um mendigo, com várias sacolas na mão, que foi logo lhe dizendo: “Olha, Dona, esse lugar é meu...Se a senhora quiser se acomodar, ajeita o outro canto pois neste aqui é onde eu estendo meu cobertor!”
Dona Elza, assustada e meio nauseada com o forte cheiro acre/rançoso que exalava do mendigo, encolheu-se do outro lado, junto com suas sacolas. Quase chorando, não sabia se rezava ou se amaldiçoava o motorista. O mendigo arrancou da sacola um marmitex, todo amassado e perguntou , com voz enrolada: “Quer dividir a comida? O rango é pouco mas parece que a senhora não comeu nada ainda hoje... tá com o zóio fundo!”
Realmente, ela estava morta de fome pois não comera nada , por conta do corre-corre das compras. Quando, mais tarde, o homem sacou de dois pãezinhos e algumas bananas, ela não agüentou e aceitou o sanduíche de pão com banana. A noite ia avançada e fria, quando ela começou a chorar baixinho.
Lá pelas dez horas da noite, horário previsto de chegada, os parentes de Dona Elza começaram a preocupar-se com a demora. Ao celular que ficara na Perua, ninguém atendia e daí começaram a ligar para a polícia, necrotérios e hospitais até que descobriram o paradeiro do motorista, já consciente mas completamente “zureta”, não se lembrando de nada.
Resumindo a ópera, a primeira dama somente foi resgatada por volta das 5 da matina, dormindo, sentada no cobertor do mendigo e enrolada nos veludos do Papai Noel. Foi uma noite do cão mas, reconhecida pela bondade do companheiro, levou-o consigo para sua cidade, convencendo o marido/prefeito a contratá-lo em “serviços gerais” no pátio da prefeitura.
Naquele Natal, o Papai Noel foi um mendigo resgatado das ruas de São Paulo.
E já que falei em Papqi Noel e Natal, vou passar uma receita de rabanadas de minha tia Olívia:
RABANADAS: Uma bengala de pão amanhecida de 3 dias e cortada em fatias; 1 litro de vinho tinto seco; 1/2 kg de açúcar; 2 colheres (de chá) de canela em pó. Misturar tudo e passar as fatias de pão neste melado (dos dois lados). Fritar numa panela ou frigideira tefall (dos dois lados). Colocar, em camadas, numa travessa e espalhar por cima açúcar e canela. Com o vinho que sobrou, apurar uma calda rala, esperar amornar e despejar sobre as rabanadas. Levar à geladeira.
Depois do incidente do circo, a mãe da Irene “deu ela para a madrinha”. Em troca de casa e comida, ela, já adolescente, limpava a casa e lavava a louça. A madrinha que era professora, ensinou bons modos e religião para a menina.
Aos domingos ela tinha o direito de ir à matinê do único cinema existente na cidade e o dinheiro recebido da madrinha dava para o ingresso e mais uma pipoca ou sorvete. Conta ela que as luzes do cinema não se apagavam nem na hora da exibição da película, para evitar “sem vergonhices” dos casais de namorados.
Na igreja, era ela quem passava a sacolinha das ofertas e num domingo aprontou o maior escândalo em pleno ofertório, quando um rapaz mais afoito, fingindo depositar o dinheiro na sacola, roçou as mãos em seus peitinhos de menina moça.
O padre, chamando a madrinha, avisou: “Se a menina não usar soutiens, não poderá mais ajudar na missa!” Foi daí que ela ganhou seu primeiro soutien, azul claro, de bojo, costurado com pontos em espiral.
Num domingo de carnaval, estava ela a varrer a calçada da madrinha, quando passou um caminhão, cheio de pessoas animadas cantando músicas carnavalescas, ao som de tambores, pandeiros e cuícas. “Eu mato...eu mato...quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato!” (música sucesso dos carnavais no início dos anos setenta).
O caminhão parou bem ali em frente. O que chamou a atenção de Irene foi um negrão de quase dois metros de altura que cantava, acenando para ela: “...minha cueca tava lavada...foi um presente que eu ganhei da namorada!” Cantando esse refrão, o rapaz fingia que ia abaixar as bermudas, mostrando partes de suas cuecas.
Irene ficou doidona...Jogou a vassoura longe e pulou para a carroceria do caminhão, ajudada pelo morenão provocante. Voltou somente na quarta-feira de cinzas, exausta mas feliz e de mãos dadas com o novo namorado, falando em casar-se.
A madrinha ficou desesperada: “Mas ele é negro, Irene...você tem que se casar com um branco!”
“Que branco, que nada...sou neta de índios e quero povoar essa terra de cafuzos!”.
E assim, cumpriu-se o seu destino, três filhos, segundo suas palavras “cor de cabaça”, os quais lhe trouxeram muitas alegrias na vida.
Irene disse-me que ela não podia servir-se nas panelas pois, tinha que aguardar o prato feito pela madrinha. pegou trauma e nunca comeu em restaurante com serviço "a la carte". Só se sente bem comendo em self-service ou churrascaria. Deu-me uma receita de costela empanada que é uma delícia!
COSTELA DE PORCO EMPANADA: Compre uma manta inteira de costela de porco. Quebre-a no sentido horizontal, sem cortar a carne. tempere com sal, limão, alho, azeite, pimenta e molho inglês. Coloque para assear em forma forrada com papel alumínio. Espalhe por cima farofa de mandioca pronta e temperada. Bata bem com as mãos para empaná-la (como bife à milanesa). Vire-a e proceda da mesma maneira. Cubra com papel alumínio e leve ao forno quente. Retire o papel, depois de 1 hora e deixe dourar por mais ou menos 1 hora, até ficar crocante.
Morando na beira da cidade, Irene expandiu seus horizontes! Coisa rara naquela época era a televisão mas uma família vizinha comprou um daqueles aparelhos pequenos com duas antenas que pareciam dois chifres de ET. A menina, em troca de lavar a louça para a família, era autorizada a assistir aos programas da tarde e começo de noite porém, não tinha autorização para sentar-se no sofá. Levava de sua casa uma das latas de mantimentos da mãe para servir de banquinho.
Seus programas favoritos era a série "Alô Doçura", com Eva Vilma e John Herbert (na época, marido e mulher, ainda jovenzinhos) e a novela mais comprida da estória da televisão: "O Direito de Nascer" de Félix Caignet. Voltava para casa com os olhos inchados e nariz escorrendo de tanto chorar ante o drama da Mamãe Dolores, Izabel Cristina e Albertinho Limonta.
O barraco da família era de taipa (bambus trançados e preenchidos com uma mistura de barro, esterco de vaca e cal) e era pintada com água e cal para evitar proliferação do bicho barbeiro. O chão, de terra batida, também recebia uma camada de esterco e cal que era sempre respingado de água antes de ser varrido, para não levantar poeira. Se não tinha um bom aroma, pelo menos era bem fresquinha.
Dividida ao meio por uma parede bem mais baixa que os caibros sustentadores do telhado permitia que fosse ouvido tudo o que se dizia de um lado ou do outro. A família de Irene morava em dois cômodos e no outro cômodo um senhor solteirão e já bem velhinho, chamado Azarias.
Era um benzedor dos bons que, invocando São Cosme e são Damião, curava de tudo, menos a própria tosse comprida e irritante que não deixava os vizinhos de parede dormirem. Numa tarde muito fria de Julho, o velho arrebentou-se de tanto tossir e morreu! Quando os vizinhos deram por conta, o defunto já estava duro e com os braços esticados e por isso, não conseguiram cruzar suas mãos. Foi velado assim mesmo.
Irene percebeu que na dispensa do vizinho havia várias latas cheias de mantimentos e como a carestia em sua casa era muito grande, resolveu surrupiar todo o suprimento. Bolou que bolou até que surgiu a idéia: durante a noite, enquanto o pessoal estava na cozinha esquentando-se no borralho do fogão à lenha, ela e mais dois irmãos amarraram ambas as mãos do defunto com uma linha de anzol bem fina. Passaram as linhas, com carretel e tudo por de cima da parede baixa.
Na manhã seguinte, enquanto todos rezavam o terço da despedida, Irene preparou-se para a "grande performance de sua vida". Aos pés do esquife ficou atenta e quando os irmãos, do outro lado da casa, começaram a puxar as linhas do anzol, levantando as mãos do morto, ela deu um grito de horror:
" Ah... geeeente, o morto tá vivo!".
Foi aquele frejo danado e o barraco quase veio abaixo... A porta da sala era tão pequena que mal cabia uma pessoa mas o desespero era tanto que conseguiram sair de dois a três ao mesmo tempo. Irene, tranquilamente, escolheu o que quis na cozinha e com a ajuda dos irmãos trasladou tudo para sua casa. Até os vidros de pimenta cumari que o velho temperava para vender, não foram poupados.
E já que falei em cumari (erroneamente chamada de cumbari) vou ensiná-los a temperar um molho de pimenta que dura anos e anos, sem perder o sabor ou se deteriorar:
De picância média a forte, a cumari ( capsicum baccatum) é muito encontrada, em forma silvestre, nos pastos dos estados do sul e sudeste do Brasil. Além de servir-se como excelente tempero para carnes, molhos e feijão, medicinalmente ela tem a funcão de antioxidante e bactericida. Dependendo de seu estado de maturação, ela pode ser encontrada nas cores verdes, alaranjadas ou vermelhas. Eu prefiro as verdes pois duram mais e são mais mansas. Depois de colhidas elas devem ser lavadas, sem os cabinhos verdes, e bem enxutas ao sol ou com um pano limpo. Devem ser colocadas em potes de vidro, até à metade do vasilhame e completada com pinga pura e sal. Não acrescentar mais nada pois, assim temperadas elas duram décadas, sempre muito saborosas. À medida que o líquido for se acabando, misture mais cachaça e um pouco de sal.
A Irene foi, durante um bom tempo nossa copeira, lá no Banco. Era uma batalhadora e criou os três filhos sozinha. Botou o marido para fora, ao saber que ele tinha outra mulher e a partir daí, não quis mais saber de "bicho homem".
Quando criança, Irene não gostava de andar com meninas e esse negócio de brincar de casinha ou nanar bonecas não era com ela. Como presente de natal, a mãe confeccionou-lhe uma boneca com um sabugo de milho, saias de palha e colou na cabeça os cabelos do milho cobertos com um lencinho.
Quando as amigas viram aquilo começaram a zombar dela e a vergonha foi tanta que ela jurou nunca mais brincar de bonecas e nem com meninas. Passou a brincar com os moleques, jogando bola, biroscas, apostando corridas, pescando, soltando papagaio e trepando em árvores.
Numa tarde de verão, após ter jogado umas duas partidas de futebol com a molecada, ela chegou em casa morta de sede. Não tinha água na moringa de barro, teria que ir até à mina para beber. Foi então que ela avistou um copo sobre a mesa, cheio de guaraná e num gole só, sorveu todo o líquido. Quando percebeu que aquilo era puro querosene, já era tarde demais.
Quase morreu envenenada e a partir desse dia, passou a ter desmaios e a sofrer convulsões. Sempre que ficava muito agitada ou nervosa, a coitada desmaiava ou tinha ataques. Muitos de seus ataques eram fingidos, para fugir de alguma surra ou repreensão e a mãe nunca tinha certeza se podia bater ou não. Teve uma vez que ela não conseguiu enganar a mãe e foi assim:
Eles moravam numa tapera de um sítio próximo à cidade. A dona da propriedade chamava-se Abadia e criava porcos num cercado enorme que era chamado de “mangueirão”. Além dos chiqueiros, havia várias árvores frutíferas, inclusive umas três ou quatro mangueiras. Aquele local também era utilizado como privada, já que naquele tempo eram poucas as residências que tinham banheiros.
Numa manhã de dezembro, Irene e um amigo estavam trepados numa das árvores, chupando mangas, quando avistaram a dona do sítio agachada, segurando as saias, a fazer xixi. As crianças começaram a jogar caroços do fruto na mulher e um deles acertou bem na bunda branca da velha. A pobre senhora era míope e tentava, sem sucesso, enxergar o autor da arte. Até que Irene gritou: “Bom dia, Dona Abadia! Ta fritando toicinho!” (quem já fez xixi direto na terra sabe que o barulhinho é idêntico ao frigir do torresmo em óleo quente). E desataram a rir sem parar...
Reconhecida a voz, dessa vez não houve desmaios que a salvassem e Irene apanhou muito. Como conseqüência da diabrura feita, a família toda teve que se mudar do sítio, indo morar num casebre na beira da cidade.
A fim de compensar a parca refeição que servia para os filhos, a mãe de Irene costumava fazer sempre fígado e tutano de vaca, bem como espinafre e brócoli como fonte de ferro e vitaminas. Por isso, a receita de hoje será à base de brócolis.
Fritar bacom bem picadinho em azeite de oliva. Juntar alho e cebola batidos até murchar e em seguida, misturar pimentão verde em pedacinhos. Por último, acrescentar o brócoli (pré-cozido em água e sal) picado bem fininho. Experimentar o sal e deixar fritar mais um pouco. Misturar, levemente, ao arroz já cozido.
Contou-me, a Irene que sua mãe era descendente de índios e teve vários filhos, com pais diferentes. Para criar os bacurizinhos, ela "recebia" homens em sua casa. Apesar disso, Irene tinha muita pena da mãe a ponto de, certa noite, defendê-la de um freguês mais embriagado. A menina queimou as nádegas do homem com um tição em brasas (um toco de madeira grosso) que pegou do fogão à lenha. Como as calças do marmanjo eram de tergal (um tecido sintético), as brasas incandescentes ficaram grudadas no tecido, deixando a bunda dele em chagas.
Eram muito pobres e a medida em que cresciam, os irmãos iam dispersando-se pelo mundo, ficando apenas as mulheres. Apesar de ter pena da mãe, a Irene tentou fugir de casa várias vezes. Aos sete anos, refugiou-se numa casa de órfãos, dizendo que não tinha pais e quando a mãe descobriu seu paradeiro, escondeu-se dentro do grande caldeirão de sopa, cobriu-se com a tampa e ficou ali quietinha, até a mãe ir-se embora.
Doutra feita, escondeu-se num vagão de trem e foi parar lá em Tanquinhos, uma estação ferroviária próxima à Campinas. Caminhou por mais de vinte quilômetros até chegar ao sítio onde morava uma conhecida de sua mãe. A mulher acolheu a menina e enquanto a distraía com agrados, mandou avisar sua mãe, por intermédio do maquinista.
Em poucos dias, a policia apareceu no sítio levando-a de volta para casa.
Seu sonho era ser contorcionista, e desde pequena vivia fazendo malabarismos para uma platéia seleta de irmãos e amigos. Por ocasião da chegada de um circo de variedades na cidade, Irene fez amizade com a filha do dono do circo, Kátia Elaine, a qual, por uns três meses, estudou em sua classe (as escolas eram, ou ainda são, obrigadas a aceitarem as crianças circenses em qualquer época do ano). Sabedora dos sonhos de Irene, a amiguinha mambembe ajudou-a na montagem de uma carta de autorização, com a assinatura falsificada da mãe . Numa segunda-feira, de madrugada, a garota foi-se embora com o circo.
Ficou uns dois meses rodando com a troupe circense, mas o máximo que conseguiu foi ajudar a levantar as lonas e puxar cordas para armar o circo. Até que um dia, em Poços de Caldas/MG, enquanto o pessoal esticava a lona que estava presa somente ao mastro central, Irene e Katia Elaine treinavam "salto estrela" (essa acrobacia consiste em dar um salto para trás, apoiar as mãos no chão e impulsionar o corpo para cair em pé). Na primeira tentativa, Irene foi de encontro ao mastro central que chocou-se, violentamente, na "forquilha" de suas pernas. Com hematomas na periquita e duas costelas quebradas, foi levada, mais uma vez, de volta para sua mãe.
Irene não pode ver carne-seca na frente; não suporta nem o cheiro te tanto que comeu durante sua infãncia mas eu adoro e vou ensinar como é que se faz um delicioso croquete de carne-de-seca:
CROQUETES DE CARNE-SECA: 500 gramas de carne seca; 1 xícara (chá) de leite; 1 colher (sobremesa) de farinha de trigo; 2 ovos; sal e salsa picada; 1 colher (café) de fermento em pó e farinha de rosca.
Deixe a carne seca de molho por 12 horas (trocando a água várias vezes) para tirar o excesso de sal. Leve ao fogo, com bastante água, para cozinhar em panela de pressão. Escorra a água e desfie a carne seca. À parte, leve ao fogo brando, o leite, a farinha de trigo e o sal, cozinhando tudo até encorpar. Retire do fogo e espere amornar um pouco, misturando em seguida 01 ovo, a salsa, o fermento e a carne seca. Modele os croquetes com as mãos untadas com margarina ou óleo. Passe-os no outro ovo (batido com 1 colher de água) e na farinha de rosca, duas vezes. Frite em óleo bem quente. Dá uns 30 croquetes.
Noutras ocasiões, (dias 16 e 22 /02 /08 ) pude falar sobre o meu amigo Ciro Ney; de seu nascimento, casamentos e outras acontecimentos. Surgiu, agora, outra oportunidade de fazê-lo protagonista de meu Blog, junto com sua terceira mulher, a Marlene. A Marlene estranhou o fato de a esposa do outro não ter vindo cumprimentá-la também e ainda comentou: "Como a Neide é antipática..." Minha mulher emendou: E o marido está bem bonitão... Acho que é por isso que ele bota chifres nela!" Daí a Marlene arrematou: "E você reparou como ela emagreceu! Até parece outra pessoa..." Encontraram-no, semi deitado, com um babador no peito, tomando sopa de mandioquinhas. Sua dedicada esposa tentava administrar-lhe o caldo com cuidados para que o mesmo não escorresse por seu queixo, sem muito sucesso, já que o AVC o deixara com a boca torta. Então, a Marlene escorregou na banana e deu o grande fora de sua vida... Com as feições contritas e a mão nos peitos, disse:"Ai, Neidinha, como foi acontecer isso?! No sábado vocês estavam tão bem lá no baile... o Ruberval até veio a nossa mesa para bater um papinho com a gente e estava tão alegre!" A mulher que estava com a papinha a meio caminho da boca do marido, socou a colher de uma só vez na goela dele e esclamou: "Que mesa? Que baile?! Faz anos que este lazarento não me leva a um baile!" A Marlene ficou muda e o Ciro que já é meio rosado, ficou rubro... E mais pasmos ficaram quando a mulher, amaciando o tom da voz, sussurrava maquiavelicamente: " Ah, meu amorzinho, então você levou tua mulherzinha ao baile, né? Toma a sopinha, toma!" E batia, histericamente, com a colher nos dentes cerrados do marido. "Abra a boquinha, néném, abra!!" Resumindo: O garanhão voltou para a UTI e desta vez, o AVC veio forte! Normalmente, a Marlene não costuma ser fofoqueira. É uma dona de casa bem resolvida e que sabe cozinhar como ninguém. Vou passar uma de suas receitas: Num desses sábados, eu e minha esposa fomos com o casal a um baile numa cidade vizinha. Era baile de casais, com orquestra, pouca luz e tudo o mais. Dançamos e bebemos cuba-libre a noite toda e lá pelas tantas, avistamos um conhecido nosso, Ruberval, sentado em uma mesa mais afastada do salão, acompanhado da mulher. Acenamos de longe e logo depois ele veio a nossa mesa para bater um papo com o Ciro Ney e a Marlene.
E assim continuaram naquela conversa viperina que só as mulheres detêm o domínio, dançamos mais um pouco e lá pelas 3 da matina resolvemos ir-nos embora. O casal de conhecidos continuou no salão.
Pelo meio do domingo o Ney ligou para minha casa dizendo que o Ruberval havia sido acometido de um AVC (derrame cerebral) e estava na UTI. Ficamos impressionados com o incidente porém, já na terça-feira, ele tinha se recuperado bem e saído da UTI para o quarto do hospital, apto a receber visitas. O Ciro e a Marlene, mais chegados na amizade, foram visitá-lo.
Minha amiga, percebendo que a esposa do Ruberval, ao contrário do que pareceu-lhe na véspera, continuava gordinha como sempre, pensou com seus botões: ""Amanhã mesmo vou ao oculista!" O Ciro Ney, olhando o estado do amigo, também pensou, não sem uma ponta de despeito: "Bonitão, bonitão mas está aí com a boca torta!"
Num rompante, Neide levantou-se da cadeira e jogou o prato na cara do Ruberval, gritando: Morra, seu f.d.p., pois nem em teu velório eu vou!" E saiu do quarto, espumando de ódio.
CUPIM RECHEADO: Cozinhar um cupim com água e sal, acrescentando 2 tabletes de caldo de carne e pimenta. Deixar firme e esfriar. Com uma faca fina e longa, furar bem o cupim colocando em cada buraco, pedaços de muzzarella e bacon (em cubinhos compridos). Passar bastante manteiga e enrolar em papel alumínio. Levar ao forno ou churrasqueira, deixando-o um pouco firme.
Minha mãe era a mais nova dos filhos do português José Maria. Eram em quatro irmãs e apenas um irmão, mais velho, que passou a tomar conta das mulheres, após a morte precoce de minha avó.
Meu tio Manoel já era casado e sua mulher, a tia Marina, outra portuguesa nervosa, morria de ciúmes das cunhadas e fazia a cabeça do marido contra as irmãs.
Moravam todos na mesma casa,. num sítio que era parte da antiga “Fazenda Conceição”, adquirido por meu avô tão logo chegou de Portugal. Tia Marina era responsável pela cozinha e valia-se dessa prerrogativa para judiar das cunhadas. Se uma delas chegasse atrasada à mesa, ficava sem comer pois a refeição era dividida e servida em pratos individuais, de acordo com o número de pessoas presentes.
Os doces e compotas que fazia, divinamente, aliás, eram guardados “à sete chaves”, no guarda roupas do casal, para que ninguém metesse a colher. Tudo o que fazia de bom ela guardava para o “Manuéll” (como ela chamava o marido), a quem adorava de paixão.
Os queijos que fazia, os ovos que colhia e os frangos que matava eram levados para a cidade, vendidos para o empório e o resultado das vendas servia para abater a conta que a família mantinha no estabelecimento. Somente quando recebiam visitas as coitadas podiam experimentar das iguarias e das carnes que eram, então, postas à mesa.
Certo dia, enquanto Tia Marina dispunha para secar ao sol os doces de mamão, abóbora e laranja cristalizados, minha mãe, sentada à beira da cisterna, ficava observando as abelhas que desciam, às dúzias, sobre as peneiras açucaradas. Sabia que não iria experimentar daqueles doces e ficava torcendo para que alguma daquelas abelhas picasse a cunhada.
De repente, olhando para as latas de folha-de-flandres (recipientes de ferro estanhado, parecidas com essas latas de panetones gigantes) recém lavadas e que serviriam para guardar os doces, teve uma idéia maquiavélica...
Pela manhã, ela mesma havia sido picada por um pequeno marimbondo vindo de um enxame que fizera sua caixa pendurada na folha de uma bananeira. Sem que minha tia percebesse, ela pegou de uma das latas e cuidadosamente cortou a folha da bananeira, derrubando o vespeiro para dentro da lata, rapidamente tampada. Ali ficaram os bichos, a tarde toda, fechados e sob um sol escaldante.
Secos os pedaços de doces, Tia Marina começou a destampar as latas... De repente, um uivo lancinante cortou o silêncio da tarde, ecoando pelos pastos, rios e montanhas do Sitio Conceição. Os “marimbondos de fogo”, endoidecidos pelo calor no interior da lata e querendo foder o mundo, desandaram a ferroar as mãos, braços, rosto e pescoço de minha tia. Desesperada pela dor, a mulher corria às tontas, com o enxame em seu encalço. O martírio só teve fim após ter-se trancado na casinha de fazer queijo, cujas janelas eram equipadas com telinhas nas janelas.
Minha tia costumava servir no café da manhã uma espécie de bolo que ela chamava de "Kúf", coberto com fatias de bananas e uma farofa doce. Então, desde a infância, essa torta constou em nossos cadernos de receita com um título que era motivo de muita piada lá em casa. E será com este título (se é o correto, eu nao sei...), que passarei a receita para vocês:
Bater: 3 colheres (sopa) de manteiga com 3 xícaras (chá) de açúcar e 4 ovos inteiros. Juntar 3 xícaras (chá) de farinha de trigo; 1 xícara (chá) de maizena e 1 colher (sopa) de pó Royal. Bater tudo com 1 xícara (chá) de leite. Despejar numa forma grande, untada e cobrir com fatias de bananas nanicas maduras e queijo ralado. Espalhar por cima a seguinte farofa: 1 xícara de açúcar; 1/2 xícara de farinha de rosca; 1 colher (sopa) de manteiga e 2 colheres (sopa) de canela em pó. Assar em forno médio.
Pode-se substituir as bananas por mação mas neste caso, não acrescentar o queijo ralado.
A Dra. Eneida, uma “carioca da gema”, era neta de imigrante português com mulata brasileira e ocupou um cargo muito importante na Diretoria de nossa empresa, em Brasília.
Seu pai, um respeitável coronel na antiga capital, criou suas três filhas (Ilíada, Odisséia e Eneida) no maior rigor espartano e como não foi possível fazê-las seguir sua carreira, formou-as em Direito. Naquela época não havia concursos e na base do "pisttolão", conseguiu colocar as três na mesma empresa.
A Dra. impunha respeito a qualquer pessoa, portava-se e vestia-se impecavelmente com os cabelos sempre arrumados, sem nenhum fio fora do lugar. Como seus cabelos eram ralos, ela os desfiava para dar volume e os fixava à base de muito “laquê”.
Parecia uma caixa de marimbondos!
Ela tinha muita pose mas poucos conhecimentos e numa manhã chamou-me a seu gabinete, desesperada: "João, o ministro Maciel (Marcos Maciel, na época, ministro da Educação), convocou o nosso presidente para dar uma entrevista coletiva à TV sobre os Convênio que vamos assinar com o ministério. Acontece que o presidente e nem o diretor estão em Brasília!"
Olhou firme em meus olhos e arrematou: "Eu não entendo nada desses Convênios e queria lhe pedir para você ir à entrevista. O motorista do ministério está lá em baixo a tua espera."
Lá fui eu esplanada afora, lendo às pressas algumas folhas do enorme processo que ela me entregou. Final das contas, a entrevista foi um sucesso e acabei pegando amizade com aquele ministro, extremamente educado e atencioso.
Coisa rara era ser presenteado com um sorriso seu mas, como gostava de mim, sempre me convidava para recepções e jantares em seu apartamento.
Certa sexta-feira, acompanhei-a a um compromisso “sigiloso” fora de Brasília, juntamente com um casal de amigos seus que levaram três cestas cheias de bugigangas. Eram pais-de-santo contratados para fazerem um “despacho” numa das encruzilhadas da periferia.
Foi engraçado ver a Dra. em meio a velas, imagens, corujas, garrafas, etc e ainda mais quando, a certa altura do ritual, visualizei-a agachada no meio de uma roda de pólvora na qual foi ateado fogo.
Foi aquela explosão e uma nuvem de fumaça envolveu minha amiga deixando-a completamente chamuscada e com o cabelo todo queimado (acho que o laquê ajudou na combustão).
Resultado: daí a uns três dias, quando ela voltou ao trabalho, o chamuscado da pele fora disfarçado com cremes e cosméticos mas os cabelos!
Estavam quase raspados, bem curtinhos (tipo o cabelo que a cantora Elis Regina usava nos últimos anos de sua vida).
Aproveitei para vender-lhe um par de brincos, caros, de argolas de ouro “ para que ela ficasse com um visual afro”.
É lógico que não contei a ninguém sobre a aventura noturna de nossa chefe mas duas das receitas que aprendi com ela, servidas em seus jantares eu vou repassar agora pois são fáceis e deliciosas:
TORTA DE MAÇÃS: 2 latas de leite condensado; 4 gemas; 2 maças fatiadas no ralador de legumes e 1 colher (sopa) de caldo de limão. Desmanchar e mexer as gemas com um garfo e misturar bem com os demais ingredientes. Despejar em um refratário pequeno e levar ao forno brando. Quando estiver quase assada, jogar por cima as claras em neve e voltar ao forno até as claras amarelarem um pouquinho.
MOUSSE DE CAMARÃO OU ATUM: 300 gramas de camarão ou 2 latas de atum; 1 lata de creme de leite (sem o soro); 1 colher (café) de sal; 1 vidro (pequeno) de maionese; 5 folhas de gelatina sem sabor, dissolvidas em ½ xícara (chá) de água; 2 colheres (sopa) de catchup; 2 colheres (sopa) de molho inglês e 1 colher (sopa) de mostarda. Misturar tudo e levar à geladeira em forma de pudim ou de flan.
As mulheres, naquele tempo, sofriam muito. Suas vidas eram só de trabalho e gestações; um filho atrás do outro...Minha mãe ficou grávida por doze vezes, criando 6 filhos, minha tia Beatriz, 17 vezes. Porém, o recorde da nossa rua foi a “Comadre Luzia Mineira”, que gerou 21 filhos, todos vivos. Se não me falha a lembrança, apenas um de seus filhos morreu, já adulto, ao cair da bicicleta, batendo a cabeça na sarjeta.
Uma vez, no dia das mães, teve uma festa na barraca da Igreja Nsa. Sra. Do Perpétuo Socorro e ela foi homenageada, recebendo um rosário de contas douradas, vindo diretamente de Roma. Aliás, todos os rosários vendidos no saguão da Igreja eram, hipoteticamente, vindos de Roma e benzidos pelo Papa! Tinha lá minhas dúvidas...
A mesma dúvida tenho com relação aos relicários, muito comuns na idade média, contendo ossos de santos ou “pedaços da verdadeira cruz”. Acho que se fossem recompostos, os pedaços, dariam para muitas cruzes!!
Mas, como tudo é uma questão de fé, voltemos à Comadre Luzia: O marido dela, seu Arlindo, criava porcos numa chácara na baixada da Vila Zaneth e os filhos recolhiam, pelas casas, os restos de comida e verdura (lavagem) para a ajudar na alimentação dos suínos. Vinham numa carroça, puxada por um burro chamado “Despacho”.
Quando eles venderam a chácara para loteamento, trouxeram todos os animais para o terreiro de sua casa e imaginem como era aquele lar, com 21 filhos, porcos, galinhas, cachorros e o burro!
O velho usava à guisa de cinto, uma cordinha que lhe segurava as calças e quando ele passava na frente de nossa casa, nós arremedávamos, por detrás da cerca, uma modinha que deixava o homem bravo: “Seu Arlindo aperta o cinto, ponha a calça no lugar...”
Tinha muita amizade com a Geny, uma de suas filhas que estudava na minha classe e tornou-se minha namoradinha.Como eu vivia na casa dela, minha mãe sempre me recomendava: “Filho, não coma nada na casa da Comadre Luzia pois aquilo tudo é uma sujeira danada!” E eu morria de vontade de comer dos torresmos e chouriços que a velha fritava mas recusava, polidamente, as porções que me eram oferecidas.
Eles tomavam banho no tanque, quer dizer, aquilo nem era banho pois lavavam somente os sovacos e os pés. Apenas as mulheres tomavam banhos de assento (na grande bacia de alumínio), primeiro a mãe e depois as filhas...acho que na mesma água!
Certa tarde, minha mãe foi chamada às pressas pois a Comadre Maria Mineira, tivera um “piripaque”. O Dr. Pirajá veio e diagnosticou: “Acidente Vascular Cerebral!”.
A Geny, que estava no quarto, chorando, redargüiu: “Mas minha mãe não sofreu acidente nenhum, uái... Ela estava sentada, descascando vagens!”
Bom, enfim, a velha sofreu um derrame que a deixou paralisada na cama por uns dois anos. Era um sofrimento ver a coitada daquele jeito, sem mover um dedo e emagrecendo rapidamente.
Eu tinha muito medo de ir até o quarto pois, quando a gente entrava, Dona Luzia queria falar conosco mas só sabia mover os olhinhos “pra lá e pra cá”.
Numa manhã de muita chuva, Comadre Luziaa “acordou” morta (como o povo dizia) e o velório, como era de costume, foi feito na sala principal da casa. Tentem visualizar a cena, sala pequena, flores cheirosas, velas queimando e 21 filhos gritando...
Lá pelo meio da noite, estávamos eu, a Geny e minha prima Aurora sentados na varanda dos fundos, quando começaram a servir café e sanduíches. Passou por nós uma peneira cheia de pães com carne moída, eu recusei; passou uma cesta de pãezinhos doce com mortadela, peguei um; passou uma bacia de alumínio, enorme, com cachorros quentes e minha prima pegou logo três.
Quando minha prima foi colocar o terceiro lanche na boca, ouviu a Geny falando baixinho comigo: “Bem-ê, não pega do cachorro quente não, que a gente usava aquela bacia para lavar a bunda da mãe.”
A Aurora deu um grito de nojo e saiu correndo, com ânsias, para a chuva e escuridão do quintal...
Uma única coisa eu nao recusava em comer na casa da D.Luzia era seu pão de torresmo e eis ai a receita que eu costumo fazer:
PÃO DE TORRESMO: 1 kg de farinha de trigo (mais um copo para a fermentação); 3 ovos inteiros; 50 gramas de fermento flexchman (próprio para pães); 1 colher (sopa) rasa de sal; 1 colher (sopa) cheia de açúcar; 300 gramas de torresmo frito e espremido; 2 colheres (sopa) da gordura do torresmo ou de manteiga; 1/2 litro de água.
Temperar o toicinho com pouco sal e alho, fritar e espremer bem (no espremedor de batatas ou numa peneira); reservar.
Fermentação: Diluir o fermento com o copo de farimha em um pouco de água morna e a colher de açúcar. Misturar bem e deixar fermentar por uns 5 a 7 minutos, em lugar quente. Misturar a gordura (ou manteiga), os ovos, o torresmo e o o sal. Vá acrescentando, aos poucos, a farinha e o leite até a massa desgrudar das mãos. Sovar bastante a massa (com as duas mãos) até ficar bem macia e leve. Cobrir com um pano grosso e deixar crescer até dobrar de tamanho. Dividir a massa em 4 partes e enrolar os pães, pousando-os em assadeiras enfarinhadas. Deixar crescer novamente (mais ou menos 1 hora ou pouco mais) e levar para assar em forno médio (180º).
Hoje, 29 de Junho, é o dia de São Pedro: o santo das chaves, o santo pescador, o santo do galo da meia noite, o santo que negou conhecer o Cristo por três vezes, o santo apóstolo, enfim... o santo que era pedra e que sobre uma pedra fundou a Igreja de Cristo. E por causa desse santo, cortei profundamente minha mão e até hoje trago a cicatriz! Foi assim...
Lá nos cafundós de Minas Gerais, meu amigo resolveu festejar S.Pedro e convidou o padre da cidadezinha para conduzir as rezas. O padre trouxe junto os membros da comunidade, ou seja, grande parte da cidade pois que, lá, não havia mais que 2 mil habitantes. Vieram em 3 caminhões, o primeiro lotado de mesas, cadeiras e barris de chopp e os outros, com as pessoas e respectivos cachorros.
Haviam sacrificados dois garrotes (boi novo); assaram as costelas e com o restante da carne fizeram almôndegas (armonga, como se dizia por lá). Também tinha macarronada (de carne moída) e salada de alface com cebola.
A comida era tanta que foi cozida em grandes tachos, sobre vários fogões de cupim (arrancaram os cupinzeiros do pasto, cortando um tampo e fazendo um buraco por debaixo para acenderem a lenha)... e o chopp corria solto!
O padre era desses moderninhos, sabia tocar violão e cantar muito bem. Já meio zoadão, vestiu uma bermuda larga e sentou-se num toco de árvore para dedilhar o violão, cantando mansamente. Conforme foi juntando gente, o pároco foi se animando e emendou-se a cantar músicas profanas, sambas, boleros, aché, etc. Bebeu e cantou tanto que ao final, não aparecia para fazer o terço.
Finalmente foi encontrado na casa da caseira, escarrapachado na varanda, com as pernas abertas, saco à mostra, saindo pelas bermudas. A caseira, chamada Rosa, era uma mineirinha miúda e despachada, muito amiga minha. Quando viu o padre naquela situação, piedosamente, empurrou o saco dele para dentro da bermuda e cobriu as pernas do coitado com a capa de um tanquinho "Colormaq" que ela tinha na varanda.
O Pedro, marido dela, era um caseiro muito bom e trabalhador mas se bebia, "virava um corisco". Quando viu o ato da mulher, deu-lhe um safanão que a jogou longe. Ao mesmo tempo, pegou da cozinha uma faca ameaçando cortar a garganta da esposa e de quebra, o saco do padre! Tivemos que segurá-lo e quando eu tentava arrancar a faca de suas mãos, levei o maior corte sendo que até hoje,não tenho sensibilidade no polegar da mão direita.
"Mangia Bambino!" Quando éramos crianças, minha avó Victa costumava fazer uma macarronada com molho de almôndegas (ela dizia "polpettas") que era uma desgraça de tão boa e hoje, almoçando no "CIA DE MINAS" em Casa Branca, a Leila, dona deste restaurante divino, ensinou-me a fazer o mesmo prato que vou passar para vocês:
TAGLIERINE OU FETUCCINE AO MOLHO DE POLPETTAS:
Cozinhar um pacote do macarrão em água, sal grosso, algumas folhinhas de sálvia e manjericão. Não acrescentar azeite, pois esse dificulta a adesão do molho à massa.
Para as almôndegas -700 gramas de carne moída; 1 cebola média; 4 dentes de alho; 1 ovo inteiro; 2 colheres (sopa) de farinha de trigo; 1 paio (ou calabresa); 1 colher (sopa) de azeite; 1/2 limão; salsinha, sal e pimenta a gosto. Bater no liquidificador a cebola, o alho e a salsinha. Juntar o paio e dar uma leve batida (para moer apenas). Misturar (em uma tijela) com a carne moída e demais ingredientes (a farinha serve para dar liga). Enrolar as polpettas em bolas do tamanho daquelas de ping pong. Fritá-las em óleo bem quente e reservar.
Para o molho: 6 a 8 tomates maduros, sem sementes e sem pele (espete os tomates em um garfo, encoste-os na chama do fogão que a pele sai com facilidade). Pique-os em quatro e refogue em óleo, 1 cebola grande, picadinha, salsa e uns 4 dentes de alho amassados. Acrescente água fervente, 2 colheres de molho inglês e 1 folha de louro. Tempere com sal e pimenta a gosto deixando no fogo até apurar bem( se quiser mais cor, acrescente 1 colher de extrato de tomate ou de colorau). Junte as almôndegas ao molho e jogue sobre o macarrão pré-cozido. Espalhe queijo ralado e sirva bem quente
Hoje é dia de São João! Não sei se é o São João Batista ou o São João Evangelista. Acho que é o "Batista" pois lembro-me de uma lenda católica afirmando que Santa izabel (mãe de S.João) acendeu uma fogueira num monte bem alto para avisar sua prima, a Virgem Maria, de que seu filho, João Batista, havia nascido. Por isso, em sua festa, acende-se muitas fogueiras
Existem, ainda, outras versões sobre as fogueiras, relacionadas às festas pagãs, mas prefiro acreditar nesta, já que também me chamo João, um nome curto, forte e honesto. Nasci, na verdade, às vésperas do dia de Santo Antonio e como já tinha um irmão chamado Antonio, graças a Deus, safei-me de ser chamado de "Tonho" ou "Tunico".
Sempre gostei de fazer festas juninas, terços, quadrilhas, fogueiras, bailes, etc... tendo organizado muitas dessas festas. A que mais marcou em minha lembrança foi aquela feita na fazenda de um amigo, perto de Passos/MG, município chamado São João do Glória _ ou seja: prá lá do "fiofó" de Judas!
Contratamos um casal de rezadores (ele com a sanfona e ela com o terço e a imagem do santo) e enfeitamos um carro de boi com bambus e bandeirolas, o qual serviu-se para carregar os noivos, padrinhos, padre e coroinha.
Montamos um altar com o santo e começamos a rezar o terço; era um terço cantado à moda antiga e enquanto seguiamos com as orações, a sanfona nos acompanhava naquele tom monocórdio:..." glória seja o Pai, glória seja o Filho, glória o Esprito Santo" e teu amor também..." Nós, ajoelhados, não víamos o que acontecia lá atrás, onde o povo "mandava ver" no quentão, pinga e vinho quente.
De repente, o rezador parou com a sanfona e puxou a mulher: "Vâmbóra, o povo daqui nao arrespeita nada!" Olhei para trás e vi o Dérso, meu amigo, com uma enorme cenoura saindo pela braguilha da calça e ameaçando as mulheres. Pedi para a esposa do Dérso levá-lo para o quarto e convenci o homem a continuar com o nhéc...nhéc da sanfona.
Lá para o meio da reza, outro incidente interrompeu de vez o terço: Os moleques que brincavam em volta da fogueira, resolveram amarrar nos rabos dos cachorros da fazenda, vários fios de barbantes com bombinhas e busca-pés acesos.
Os pobres animais, endoidecidos com os estouros e faíscas foram esconder-se por debaixo do altar improvisado ganindo de dor. O casal de "rezadô", enfiou a sanfona no saco e se mandou. Coube a mim terminar de puxar o terço, já que o meu amigo fizera a promessa de realizá-lo por sete anos seguidos.
Segue uma receita característica para o evento, a qual eu faço há mais de 20 anos:
QUENTÃO (OU GROGUE): 1 litro de pinga ou vinho tinto seco; 3 limões cortados em rodelas; 2 copos de água; 6 cravos da Índia; 50 bramas de gengibre picada; 3 paus de canela e açúcar a gosto. Ferver tudo em um caldeirão. Deixar em fogo baixo enquanto for servindo, em pequenas xícaras, pois deve-se apreciá-lo bem quente.
Já contei para vocês que durante alguns anos fui um vendedor de jóias, com grande sucesso. Minhas freguesas eram todas de primeira classe, a maioria de solteironas, funcionárias públicas em Brasília e com alto poder aquisitivo. Eram tantas que eu não dava conta de vender para todas e muitas vezes acontecia de alguma de minhas peças ser furtada dos mostruários (panos, como se dizia por lá). Numa ou noutra ocasião, eu até que percebia mas como a freguesa era boa ou influente eu “deixava quieto”.
Uma das técnicas por elas usadas era a de levar para o banheiro três ou quatro peças para experimentar diante do espelho, retornando com uma a menos e a frase era sempre do mesmo tipo: “Ah, hoje não gostei de nenhuma...” Ou então: “Hoje não estou inspirada para comprar...” Com o tempo, aprendi a reconhecer as “cleptomaníacas” e o fato de vigiá-las o tempo todo me deixava tenso, fazendo-me perder a boa atenção para com as demais. Vai daí que eu comprei um espelho portátil, bem bonito, para que elas “experimentassem” na minha frente.
Certo dia, estando eu sentado defronte ao Hospital Sarah Kubstichek, reparei num mascate, com uma banquinha improvisada, vendendo bugigangas. Em meio àquela miscelânea de objetos, a mercadoria que mais chamava a atenção das mulheres era o batom; vários deles, de todas as cores. Uma pequena lousa verde anunciava em garatujas: “Vendem-se os lejítimos batão Boka Loka” (marca de um cosmético muito em moda na década de 80).
Muito além dos erros ortográficos, o que mais me prendeu a atenção naquele ambulante foi sua facilidade de comunicação e a esperteza, pois que conseguia contagiar os fregueses, vender e ao mesmo tempo, vigiar a mercadoria. Com simpático sotaque nordestino convencia uma garota a levar seu batom: ”Moleca, tu ficas linda nessa cor!” Ou chamando a atenção de uma senhora mais indecisa:
“Puta que pariu, madame, já que esfregou na boca, tem que comprar...”. Mais alguns dias de observação resolvi-me a convidar o rapaz para trabalhar comigo. Gildázio, esse era seu nome, aceitou na hora, perguntando-me apenas se teria “rezistro”.
Mesmo sem o registro começamos a atuar em conjunto. Comprei-lhe gravata e uma camisa de mangas e assim me acompanhava em todos as Repartições Públicas, recebendo 20% das vendas que efetuava. Muitas vezes, só com a venda de uma peça, lucrava mais que o ganho de um dia de sua “banquinha”. Meu único conselho foi o de moderar a linguagem e não dizer palavrões ou expressões chulas com minhas freguesas.
Assim trabalhamos, com sucesso, por alguns meses até que na visita ao gabinete de uma diretora do BNH (Banco Nacional da Habitação), Gildázio “escorregou na maionese”. Enquanto distraia-se, arrumando o “pano” de anéis, a coroa escondeu, no decote, um par de brincos custoso. O rapaz deu um pulo, exclamando: “Puta que pariu, madame! O brinco não é para pendurar nos peitos, não...” A coroa ficou furiosa e expulsou-nos do gabinete, sem admitir o furto.
Perdi uma grande clientela naquele Banco e para não deixar meu companheiro na mão, passei a trazer-lhe, toda semana, uma muamba de bijuterias que adquiria, a preço de atacado, numa loja da 25 de Março, em São Paulo, onde minha prima era a gerente. Ele voltou para a “banquinha” que em pouco tempo virou uma grande banca de sucesso.
Eu costumava comprar as jóias mais caras em uma fábrica na capital de Sao Paulo, onde só trabalhavam japonesas (na verdade, nisseis ou sanseis). O gerente da fábrica dizia-me que elas eram mais delicadas para tratarem com as jóias, Elas me adoravam pois eu era considerado um excelente cliente (cliente "boi") e por isso eu sempre compartilhava de suas refeições, feitas alí na pequena fábrica mesmo. Empanturrava-me se sushis, sashimis, moyahi e yaksoba.
E, como hoje, dia 18/06/2008, comemora-se o centenário da chegada ao porto de Santos do navio Kasato Maru trazendo as primeiras 165 famílias de imigrantes japoneses; vou homenageá-los apresentando uma receita e yaksoba que minha esposa costuma fazer:
YAKSOBA: 1 pacote (1/2 kg) de macarrão próprio p/yacosoba; 1/2 maço de acelga; 8 buquês de brócolis; 1 cenoura (em fatias bem fininhas); 8 buquês de couve-flor; 1 pimentão vermelho; 1/2 kg de miolo de alcatra (ou filé mignon, ou filé de frango) em tiras bem finas; 1 cebola; 1 dente de alho; 1 tablete de caldo de carne Knorr (melhor que o Maggi); 1 xícara (chá) de shoyo; 1 e 1/2 xícara (chá) de água quente; 1 colher rasa (sopa) de farinha de trigo; 1 colher (sobremesa) de açucar e óleo.
Doure a carne no óleo, acrescente a cebola e o alho picados. Esfarele o caldo de carne ou de galinha e refogue a carne. Juntar todas as verduras e legumes (menos a acelga) cortados em pedaços de mais ou menos 2 cm. Tampe a panela para cozinhar no bafo (5 minutos). Adicione a água quente misturada com o shoyo e o açucar. Junte a acelga cortada em pedaços (2 dedos de largura). Deixe mais um pouco no fogo até engrossar um pouco o molho.
Numa travessa, misturar em camadas, o macarrão (pré-cozido em água e sal) e o molho.
O Carlitão sempre foi um “cara galinha”. Era casado com minha prima Eunice e por mais de trinta anos ele pôs chifres na coitada. Não sei se posso chamá-la de coitada, pois apesar de tantas traições, brigas, e escândalos, ela nunca teria largado dele se não fosse pela pressão feita pelos filhos, já adultos e cansados de tantas desavenças no lar.
Eu mesmo assisti a muitos rolos dos dois e até protagonizei um deles, quando a Eunice intimou-me a acompanhá-la numa batida no sítio do marido, para um flagrante. Eu tinha uns 11 anos e fomos de táxi, numa noite fria de maio. Enquanto ela foi até a casa, que estava com as luzes acesas e portas abertas, eu fiquei esperando na cerca do quintal, morrendo de medo.
De repente, foi aquela gritaria e ela saiu da casa correndo, com o Carlitão em seu encalço. Antes de me esconder no táxi, ainda consegui vê-la enroscada na cerca. Lembro-me como se fosse hoje: sua blusa de “Ban Lon”, verde limão, prendeu-se no arame farpado e ela não conseguia ir pra frente e nem pra trás... Então, eu gritei: ”Arranca a blusa!”
Conseguiu desvencilhar-se em cima da hora e entrou correndo no carro. O motorista, que até então era um inocente, tornou-se cúmplice e acelerou a máquina, pois que o marido já acionava sua caminhonete para perseguir-nos. Deixaram-me a algumas quadras de minha casa e não me lembro se ela apanhou ou não.
Certa vez, ele arrumou uma amante, jovem ainda e vivia dando-lhe presentes. Um deles ela não recebeu: sapato caríssimo, da Arezzo, embrulhado para presente e cuja caixa foi encontrada pela Eunice atrás do banco da caminhonete. Ela desembrulhou o pacote cuidadosamente e no lugar dos sapatos, colocou um par de sapatões bem sujos e surrados do marido.
Numa noite de sábado, como o Carlitão não aparecia, a filha pôs a mãe no carro e foram até a entrada do único motel, então existente na cidade, na saída para Águas da Prata. Lá chegando, a jovem ensaiou um pranto desesperado e disse à garota da portaria: “Eu sei que você conhece o Carlitão, meu pai e não precisa dizer se ele está aí ou não... Apenas dê o recado de que minha mãe teve um infarto e está agonizando na U.T.I.”.
Não deu outra: Logo após elas chegarem à porta do hospital, viram a caminhonete estacionar e o Carlitão descer, esbaforido. Armaram o maior forrobodó na frente do Hospital, até que a polícia apareceu, levando todos para a delegacia e dessa vez, a vergonha foi tão grande, a ponto do próprio marido propor a separação. Forçada pelos filhos, a Eunice acabou capitulando.
Hoje ela vive sozinha, fazendo festas de aniversário, para sobreviver e ele casou-se novamente com a última amante, que o trás preso no cabresto, comendo no cocho... Enquanto minha prima faz cocadas pra vender, a ex-amante toma água de coco!
COCADAS DA EUNICE: 1 kg de coco (fruto); 1/2 kg de açucar; 1/2 lata de leite condensado e 1/2 litro de leite. Descascar o coco e ralar em fitas. Misture tudo em uma panela grande (menos o leite condensado). Mexer sempre, até desgrudar do fundo da panela; juntar o leite condensado e mexer mais um pouco até dar o ponto. Com uma colher, pegar porções da massa e colocar, uma a uma. em assadeira pré-untada.
Delícia!
Dos 11 filhos de “seu” Guerino, 7 eram mulheres e todas tinham os nomes começando com a letra “Z”. A primeira chamava-se Zulmira e por ser a mais velha, ajudou a criar os irmãos mais novos, cuidando dos pais até morrerem. Ficou, por conta disso, solteirona. As demais, se bem me lembro, eram: Zuleika, Zenaide, Zilda, Zoraide, Zélia e Zelinda (a mais nova, mãe do Amaral).
Zoraide, desde mocinha foi, a contragosto, internada em um convento, destinada a ser freira e assim que vestiu o hábito, foi mandada para Portugal, a serviço de Cristo. Lá ficou, por muitos anos, em terras de Alentejo, até que numa tarde de verão, sentada à janela do velho convento e bordando uma nova toalha para o altar de Santa Adelaide, pegou-se a admirar o jovem jardineiro que cuidava dos canteiros de rosas. Sentindo um "fuxico" na barriga, suspirou: “Não suporto mais essa merda de vida!”
Jogou para longe o bastidor de bordar e desandou a chorar, histericamente.
Na mesma tarde, comunicou à superiora sua decisão: “Vou voltar ao Brasil e me casar!” Por mais que a Madre tentasse persuadi-la foi tudo em vão; devolveu o hábito e a aliança de “esposa de Jesus”, voltando para casa “pelas asas da TAP”.
Lembro-me de sua chegada, numa roupa meio fora de moda, um lenço na cabeça para esconder os cabelos ainda tosados e _ o que mais marcou em minha lembrança _ a marca branca na testa, sinal do hábito que usara durante mais de 20 anos. Aquela marca precisou de algum tempo e bastante sol para desaparecer...Mas, antes que a marca desaparecesse de vez, ela já estava de namoro com um primo meio distante e também solteirão, chamado Orlando: o “Landão Pé de Mesa”.
A família deu graças a Deus pois a situação da moça incomodava a todos, carolas que eram! O rapaz comprou uma casa perto do hospital, mobiliou-a inteiramente e “seu” Guerino providenciou o enxoval às pressas. A festa de casamento prometia ser muito boa mas quando minha mãe recebeu o convite das mãos de Dona Rosa “Bolacha”, escutou a recomendação da velha: “Dona Alzira, a festa é só para os adultos, ninguém pode levar crianças!”
Minha mãe tinha 6 filhos, Tia Beatriz outros 6 e a Tia Deolinda mais 8. As três irmãs, portuguesas de quatro costados, sempre moraram bem perto uma das outras, inseparáveis e a família, quando se juntava: era um “Deus nos acuda”. Logicamente, elas ficaram revoltadas com a imposição da vizinha e resolveram não comparecer ao casamento e nem mandar presentes.
Mas, nós ficamos “aguados”; minha prima Terezinha chegou até a ter febre com vontade de ir. Daí, então, nossas mães combinaram um plano de desagravo: “Nós não vamos, mas eles irão!” Na hora da festa, os 20 primos, vestidos com “roupas de missa”, foram invadindo o imenso quintal de “seu” Guerino, todo embandeirado e iluminado.
O Amaral, neto dos velhos e meu amigo, correu para nos dar o recado: “Minha avó falou para vocês irem embora porque a festa é só prá adultos...” A Lilá que era a mais velha dos primos, tomou a dianteira e rosnou; “Quero ver ela tirar-nos daqui... A gente apronta o maior escândalo!” Bom, resumindo, o bolo não deu nem “pro cheiro”.
Para terminar a estória, posso dizer que o casamento da Zoraide não durou nem dez dias, ao final dos quais, o “Landão Pé de Mesa” devolveu a moça, virgem como sempre foi. A união não se consumou pois quando a coitada, inocente, percebeu a razão do apelido do marido, desandou a gritar de medo e nem o deixou encostar-se nela...
Com o tempo, transformou-se em “ministra da eucaristia”, levando aos doentes o conforto da oração e o consolo da comunhão.
A ex-freirinha aprendeu, lá no convento, a fazer diversos tipos de confeitos e passou a ser a doceira de nosso bairro. Com ela aprendi as “balas de noiva” (alfenins) e uns pasteizinhos de Natal que até hoje fazem sucesso. Vou transcrever a receita dos pastéis, já que as balas alfenins são mais difíceis..
PASTEIZINHOS DOCES DE NATAL : Recheio – ½ litro de leite; 1 kg de batatas inglesas cozidas e passadas no espremedor; ½ kg de açúcar; 1 noz moscada ralada, casca de 1 limão ralada e uvas passas.
Cozinhar tudo junto (menos as uvas passas), mexendo sempre, até soltar-se do fundo da panela.
Massa – 3 ovos; 1 kg de farinha de trigo; ½ kg de açúcar; ½ litro de leite; 1 colher (sopa) de pó Royal. Misturar tudo e sovar até o ponto de abrir com o rolo.
Fazer os pastéis pequenos, rechear, acrescentando 2 uvas passas em cada recheio. Fritar em óleo bem quente.
É interessante a gente perceber como nossa memória é uma caixa de mágicos, sem fundos! Começo a falar sobre um personagem de minha vida e as lembranças vão despertando, devagar...cheias da poeira do tempo e de repente, as imagens catalépticas tornam-se nítidas e bem vivas em minha mente. Segue, portanto, mais uma crônica sobre Dona Rosa "Bolacha", muito engraçada e que vale a pena registrar:
Dona Rosa “Bolacha” era hipertensa e sempre que tinha algum contratempo, passava mal; sua pressão batia na casa dos 20 e ela ficava quase roxa, com tremeliques e suando em bicas. Muitas vezes as vizinhas tinham que acudi-la, esfregando álcool em seus pulsos ou enfiando-a numa tina de água fria. Naquele sábado dos cabritinhos (vide post abaixo), quase matamos a velha...
Pois é, seu marido chamava-se Guerino e era paraplégico. Ficava o dia todo, por debaixo do caramanchão de primaveras, mastigando amendoins e fumando um charuto atrás do outro, em sua cadeira de rodas. Debruçado na cerca baixa, de madeira ele conversava com todo mundo que por ali passava. Com o tempo, descobri que na verdade, ele recolhia o “jogo do bicho” para repassar ao bicheiro do bairro.
O casal de velhos tivera 11 filhos e a mais nova era a mãe do Amaral, meu amigo, que morava numa casa dos fundos. Às vezes eu ficava imaginando como conseguiram fazer tantos filhos com as limitações físicas de “seu” Guerino... da mão de obra e malabarismos que Dona Rosa deve ter feito para engravidar-se tantas vezes!
Tinham um cachorro, destes “luluzinhos”, chamado “Whisky”, de rabo enrolado para cima com o “fiofó” à mostra e um macaco “prego”, daqueles bem sem vergonhas, de cognome “Chico” (como todo macaquinho). Os dois animais ficavam ali, em volta de "seu" Guerino, brincando na maior amizade. “Chico” adorava os amendoins e sempre que seu dono jogava amendoíns ou o toco do charuto aceso no chão, ele descia da primavera, comia o amendoím, catava a bituca de fumo e terminava de fumar. Era a atração do jardim.
Certa tarde, porém, essa amizade canino-simiesca, quase humana, acabou-se de uma forma tragicômica: “Whisky” cochilava, tranqüilamente, no colo do dono quando o macaquinho desceu da primavera para pegar mais um toco do charuto do seu Guerino. Deu algumas puxadas no fumo e acercou-se da cadeira, bem de mansinho; ergueu o rabinho do cachorro e socou, sem dó, a brasa ardente no “fiofó” do amiguinho.
Num uivo desesperado, o pobre animal deu um salto tão grande que fez “seu” Guerino desequilibrar-se da cadeira e rolar pelo chão. Dona Rosa, que estava placidamente debruçada na janela da pequena varanda, acorreu desesperada, com as mãos no peito e prestes a ter um ataque apoplético. Foi aquela anarquia, com a velha gritando, o cachorro uivando e o macaquinho guinchando, assustado com tanto barulho.
Naquele tempo não existia a pomada hipoglos e então, por um bom tempo, eles emplastavam o “fiofó” do cãozinho com maizena umedecida em mel, para refrescar.
Já que falei em amendoins: anotem a receita de uma torta deliciosa:
TORTA DE AMENDOÍNS: 1 xícara (chá) de açúcar; 2 colheres (sopa) de manteiga; 2 gemas; 2 latas de creme de leite; 2 pacotes de bolachas maisena; 300 gramas de amendoins torrados e moídos. Para umedecer as bolachas, misture numa xícara de leite, 2 colheres de Nescau e 2 colheres de açúcar.
Bata as gemas com o açúcar e a manteiga. Juntar o creme de leite e bater mais; acrescentar o amendoim, misturando bem. Umedecer as bolachas na mistura de Nescau. Forrar um pirex com as bolachas e alternar camadas de bolachas e de creme (a última camada é de creme). Levar à geladeira.
A Dona Rosa "Bolacha" era nossa vizinha de frente...Não sei se ganhou esse apelido pelo fato de vender bolachas ou se era pela cara cheia e antipática que tinha. Ela penteava os cabelos brancos em um coque alto e usava um par de óculos redondo, parecidíssima com a Vovó Donalda, personagem das revistinhas do Pato Donald. Era avó do Amaral, meu melhor amigo e colega do Grupo Escolar Antonio dos Santos Cabral, lá perto da antiga caixa d’água.
O Amaral nasceu com uma doença chamada "simioto". Era muito fraquinho e tinha feições simiescas (procurem o dicionário) e sua avó, muito religiosa, fez uma promessa não sei pra que santo, de vestir o garoto de branco até os 10 anos, se conseguissem sua cura.
E não é que o pobre coitado curou-se! E teve que se vestir, inteiramente, de branco até àquela idade combinada com o santo. Enquanto todos os moleques iam à escola de azul marinho e branco, ele vestia-se como um anjo! Era alvo de toda a espécie de gozação e morria de ódio da avó, por conta da promessa.
Bom, crescemos juntos e eu adorava brincar na casa dele, pois tinha um quintal enorme, com várias espécies de animais e árvores. A frente da casa era bem afastada da rua, com uma cerca baixinha do lado da calçada.
Tinha um jardim maravilhoso, forrado de flores, amoras e morangos; muitos morangos, vermelhinhos e viçosos. Enquanto a avó ficava tricotando por debaixo de uma primavera e vigiando-nos por de cima de suas lentes, nós tentávamos apanhar os frutos às escondidas mas a velha era mais esperta do que nós, então, na maioria das vezes, ficávamos na vontade.
A cerca da frente era de tábuas, com algumas frestas e nós dois costumávamos ficar ali, agachados mexendo com as pessoas que passavam. Lembro-me de uma vez em que o Urbano, outro menino de nossa idade que era evangélico, passou com seus pais em direção à Assembléia. Ia com a Bíblia debaixo do braço, de paletó e gravata e nós começamos a arremedar o hino que eles sempre cantavam na igreja: "A Tenda de Jesus jamais me faltará no coração..." Só que inventamos uma paródia, trocando a letra do hino para: "A Tenda de Jesus, dá um peido e apaga a luz..."
O pai dele virou uma fera, arrebentou o portãozinho do jardim e foi bater na porta da casa, furioso. Nós ficamos escondidos no imenso quintal mas fomos encontrados e o Amaral apanhou bastante naquela tarde. Quando D. Maria Bolacha foi contar pra minha mãe, ela não deu muita bola não (minha mãe, ignorância de católica ferrenha, sempre foi intolerante com evangélicos).
Numa sexta-feira santa, no entanto, demo-nos muito mal com essa mania de mexer com as pessoas. Estávamos ali de tocaia, quando passou a Gloreti, uma cabeleireira muito bonita (e que já foi personagem de uma crônica minha, no dia 14 /08 /2007 ) com sua saia de tergal xadrez, toda pregueada. Começamos a cantar uma paródia da música "Jambalaya" muito famosa à época : "Jambalaya levanta a saia que eu quero vêê, o que tem debaixo de vocêê..."
Nossa! Dessa vez eu apanhei demais; meu pai me pegou de "rabo de tatu" (uma espécie de chicote em forma de espada, de couro cru, com três línguas sobrepostas) que fiquei com as costas cheias de vergões. Apanhamos tanto que juramos vingança...uma vingança maligna!
Meu pai nasceu em um domingo de páscoa e mesmo sendo móvel o data do dia santo, era sempre nesse domingo que ele comemorava seu aniversário. Um grande almoço à moda italiana, com comida farta e toda a família e amigos reunidos. Naquele ano ele havia trazido frangos, leitoa e dois cabritinhos para o "banquete" e os pobres chifrudinhos ficaram amarrados no fundo do quintal numa dieta de água e folhas de manjericão (para perfumar a carne).
Durante a noite, os adultos foram para a Igreja, fazer a vigília do corpo do Cristo e lá ficariam até de madrugada, em jejum e orações.Tão logo nossos irmãos foram dormir, pegamos os dois cabritinhos famintos e os soltamos no jardim da Dona Rosa. Pastaram quase a noite toda e comeram tudo o que tinham de direito, desde os morangos e amoras até as dálias ordálias e hortênsias.
Manhã seguinte, acordamos cedo e, inocentes, fomos soltar papagaios...
Poderia ensiná-los a fazer um cabrito à espanhola ou recheado com castanhas mas como vocês não vão comprar cabritos mesmo, hoje a receita será à base de morangos:
RECHEIO DE BOLO OU PAVÊ (MORANGOS) : 1 litro de leite; 5 colheres (sopa) de maizena; 10 colheres (sopa) de açúcar; 1 lata de creme de leite; 3 a 4 colheres de groselha. Levar ao fogo até ficar um mingau grosso (creme). Deixar amornar e misturar o creme de leite (sem o soro) e a groselha (o gosto). Passar sobre o bolo e espalhar morangos picados sobre o creme. Esse creme também pode ser usado para fazer um pavê com biscoitos "champagne": umedecer os biscoitos numa mistura de leite, açúcar e licor de cacau (ou Nescau). Faça camadas de biscoitos, creme frio e pedaços de moranguinhos.
O “Zéca Lavanca” tinha esse apelido porque trabalhou a vida toda como coveiro no cemitério local. Desde antes de eu nascer ele já atuava nessa profissão mórbida e suas ferramentas de trabalho eram a enxada, a pá e uma alavanca. Esta última era utilizada para levantar as tampas pesadas dos túmulos mais antigos.Daí derivou seu apelido de “Zéca Lavanca”.
Ele foi casado com Dona Matilde, uma espanhola brava, a quem “seu Zéca”amava de paixão. Dizia-se que apesar de serem primos-irmãos, desde a infância os dois se gostavam e acabaram se casando. Por conseqüência da consangüinidade, a metade dos filhos do casal tinha problemas físicos ou mentais. Então, aquela era uma família meio sinistra e morava na minha rua.
A Dona Matilde criava patos e galinhas que vendia para a vizinhança e certa vez minha mãe comprou dois patos dela para fazer no almoço de domingo (lá em casa tudo tinha que ser de dois, pois a família era grande). Enquanto a água fervia, ela decapitou a primeira ave e ficou segurando o bicho até que o soltou no chão, já inerte. Não é que a ave levantou-se e começou a andar, às tontas, pelo quintal... sem cabeça!
Eu e meus irmãos ficamos apavorados e por mais que minha mãe explicasse-nos que os patos demoram a morrer, nós achamos que a ave da mulher do coveiro era enfeitiçada. Naquele domingo, sobrou muito pato com laranjas; um prato delicioso que minha mãe sempre fazia.
Passaram-se os anos; “Zéca Lavanca” ficou viúvo e, coerente a sua paixão, mandou construir um belo jazigo para a falecida, todo de granito, o qual ele lavava diariamente, já que ficava o tempo todo no cemitério. Ainda me lembro dele, de manhãzinha, indo ao trabalho, sempre com o chapéu “Prada” de feltro cor de cinzas e o inseparável guarda-chuva preto.
Numa tarde, vésperas de finados, fomos eu e meu irmão limpar o túmulo de meu pai e enquanto ele esfregava e limpava, aproveitei para fazer um “tour turístico” pelo cemitério (quem não tem mania de olhar fotos e ler nomes nos jazigos, que atire a primeira pedra!) e deparei-me com o túmulo da mulher do ex-coveiro.
A foto dela estava lá “Matilde de Alcalá” e para minha surpresa, na mesma foto estava o marido. Pensei comigo: “Ninguém, nunca, me falou que o seu Zéca tinha morrido!”.
Estava eu, olhando as fotos (tinha mais três dos filhos também) quando senti a presença de alguém ao meu lado. A primeira coisa que percebi foi o guarda-chuva preto; olhei para cima e vi o inconfundível chapéu cor de cinzas... Quando firmei os olhos, reconheci aquele rosto envelhecido e exclamei, num gemido espantado:
“Meu Deus, é o espírito do homem!"
Saí dali com todos os pelos do corpo arrepiados e corri para onde estava meu irmão:
“Toninho, acho que estou doido pois acabei de ver o espírito do“Zéca Lavanca” lá em pé, no túmulo da Dona Matilde!!”
Meu irmão, com toda a calma redargüiu: Você não está doido e nem viu espírito algum, pois o homem ainda está vivinho, vejo-o quase todo dia na padaria “. Ainda insisti, incrédulo: "Mas se a foto dele está lá no túmulo, ao lado da mulher!"
“Pelo que me disseram _ continuou meu irmão _ eles não tinham outra foto dela, então mandaram colocar aquela em que aparecem os dois juntos”.
Isso aquietou meu espírito mas o susto foi tão grande, que ao chegar em casa, tomei meio “Lexotan”
Tudo bem, mas a receita nao pode ser outra! rsrsrsr
PATO NA LARANJA: O pato tem que ser novo, cortado em pedaços, pelas juntas e temperado de véspera (azeite, cebola, alho, molho inglês, vinagre, louro, salsa, cebolinha e meio copo de água). Refogue bem os pedaços com todo o tempero. Quando secar, vá acrescentado água fervente (aos poucos) e cozinhando devagar. Quando começar a ficar macio, acrescente 1 copo grande de suco de laranjas e termine o cozimento. Corte mais uma cebola em rodelas grossas e sirva com arroz branco, polenta mole e salada de folhas. Não fique com receios; pode fazer que eu garanto. Ah, pode ser marreco novo também.
AVISO: Prezados amigos: para que vocês possam entender a crônica abaixo, é necessário que leiam antes as seis anteriores, a começar pelo dia 24 /março de 2008.
Na volta, quase sem dinheiro, só comíamos melancias que eram vendidas à beira da estrada.
A certa altura do campeonato, tivemos que furtar as melancias: enquanto o Valter levava o vendedor para ver os frutos que estavam do lado de lá da estrada, eu e o Tininho, enfiávamos algumas por detrás do banco do fusca. Deus foi testemunha e confesso que errei! Até hoje cumpro a pena de ir ao
cemitério, todos os anos, no dia de finados, a fim de comprar melancias...
Passando por Cananéia, resolvemos conhecer a famosa “Caverna do Diabo”. Chovia muito e a estrada, no meio da mata fechada, era íngreme e precária mas conseguimos chegar até lá. Valeu a pena pois é um conjunto impressionante de grutas e cavernas milenares, com suas estalactites que ao longo dos séculos foram se formando e adquirindo formas das mais diversas e assombrosas, fazendo jus ao nome que leva.
À tarde, quando nos preparávamos para o retorno, veio a notícia que havia caído uma barreira naquela bendita estrada, BR 116 e enquanto não parasse a chuva teríamos que ficar por ali. Armamos a barraca mas, quem disse que dormimos! O precário abrigo quase foi arrastado pela enxurrada e nos escondemos na varanda de uma lanchonete. Assim passamos a noite, tiritando de frio.
Pela manhã, morrendo de fome e frio, negociamos com o dono da lanchonete: ele ficaria com todas as bugigangas que nos restavam, lampião de gás, botijão, lanterna náutica e até mesmo a barraca, em troca de refeições e um canto para a gente dormir nos dois dias que ali ficamos... horrível!
No sábado cedo, chegamos à São Paulo e apesar de o Valter queixar-se muito de dores na mão inchada, raspamos os fundos das carteiras e ainda fomos assistir ao filme “O Terremoto” que estreara naquela semana, estrelado por minha dupla favorita de atores: Ava Gardner e Charlton Heston (aliás, ele faleceu no mês passado, aos oitenta anos).
Finalmente, chegamos em nossa cidade no início da noite de um sábado de carnaval, 45 dias após termos dado início àquela aventura de loucos; extenuados, magros e bronzeados mas, com fôlego o bastante para vestirmos as fantasias de nosso bloco carnavalesco, que já estavam prontas e confeccionadas à nossa revelia.
Quando a namorada do Valter, já preparada para o baile, apareceu com a fantasia para o coitado vestir, ele desandou a gemer, febrilmente:
“Não, não... essa fantasia não, por favor!”.Naquele ano, nosso bloco saiu fantasiado
de... ciganos!!!
Esqueci-me de contar que na volta, em Sao Paulo, só o Valter teve direito de almoçar, pois estava fraco e enquanto ele saboreava uma enorme posta de salmão com legumes, nós comíamos...pipócas! Por desaforo, vai uma receita de salmão...
SALMÃO NA GRELHA: Uma posta de salmão de 500 gramas; sal a gosto; 6 colheres (sopa) de azeite de oliva; 4 dentes de alho espremidos; 3 colheres de manteiga e 3 colheres de alcaparrase 2 colheres (sopa) de salsinha desidratada. Esfregue o sal na posta de salmão e grelhe por mais ou menos 10 minutos, virando-a, com cuidado, no meio do tempo Frite os demais ingredientes por 4 minutos e despeje sobre o salmão, servindo imediatamente, com arroz à grega e batata palha.
No dia seguinte, ressaca brava e a notícia: “Vamos embora desta terra! E a partir de agora, nada de hotel pois o dinheiro está curto....” Sobre o capô do carro estava a barraca de três compartimentos que o Valter levou para alguma eventualidade e chegando em Camboriu, fomos logo procurando um camping.
Nosso vizinho de barraca era um argentino chamado Hector que, coisa rara entre os argentinos, era muito simpático e convidou-nos a compartilhar de seu churrasco: bife chouriço na grelha e salsichas. Comemos tanto que ele, arrependido, nunca mais nos convidou para compartilhar de seus grelhados.
Foram dias de muita diversão em Santa Catarina, rincões que abrigam a mais bela espécime de brasileiros. As meninas eram lindas e o balneário de Camboriu, àquela época, não era tão freqüentado, mais selvagem e despojado. A inflação na Argentina estava muito alta e então, as praias de Santa Catarina ficavam lotadas de porteños. Como as meninas gostavam mais de sair com eles, comecei a falar em castelhano e obtive relativo sucesso até que escorreguei na maionese quando falei para uma delas:
Niña, anda qué ya viene la chuva!. Ela, escolada, me disse: “Você é argentino de araque, guri: Em espanhol, o certo é lluvia e não chuva!“.
O dinheiro acabava e paramos de almoçar e jantar. Comprávamos um frango recheado (muito barato por lá) e comíamos a metade no almoço e a outra metade à noite, mas passeamos muito, Brusque, Florianópolis, Blumenau, etc...
Em Balneário, tentamos entrar numa colônia de nudistas mas fomos barrados devido ao alto teor alcoólico no sangue. Inconformados, subimos em uns rochedos que rodeavam a colônia para dar uma de voyers mas não conseguimos ver nada.
O mar ali era violento e as grandes ondas vinham quebrar nos rochedos, causando estrondos assustadores. O Valter, então, deu a idéia: “Vamos tirar umas fotos pelados e daí a gente diz lá em São João que estivemos na colônia de nudismo.” Ele bateu uma foto minha e do Tininho e quando fomos fotografá-lo, estourou uma grande onda por trás dele que o carregou, rochedo abaixo. Com muito custo conseguimos resgatá-lo, todo esfolado e sangrando.
Levou vários pontos nas mãos e cabeça e não podendo mais dirigir, com a mão que bateu na cigana, toda enfaixada, deixou o fusca sob meu comando.
E para relembrar os grelhados do argentino, segue uma receita bem simples e saborosa:
FRANGO GRELHADO DO ARGENTINO: Corte um frango ao meio, na horizontal (despreze toda a parte das costas); tempere-o com o molho argentino "Chimichurri"hidratado ( receita do dia 24/03/2008), acrescentando mais 4 colheres de azeite; 4 colheres de água e 3 colheres de vinagre. Deixe no tempero por várias horas, ou de um dia para o outro. Deixe grelhar por 10 minutos de um lado e 10 minutos do outro. Sirva com batatas sautè ou legumes levemente refogados na manteiga (batata, palmito, ervilhas e salsa).
Naquele mesmo sábado, fomos a uma boate, chamada “Blue Moon”, onde conheci uma guria chamada Emmanuelle (nome de um filme de grande repercussão à época), loira linda que naquela noite completava 19 aninhos. Disse-me que eu seria o seu grande presente e ao final iríamos apagar velas juntos mas que enquanto isso, tinha que trabalhar. E como trabalhou... Enquanto eu tomava um Whisky atrás do outro, vi que ela saiu acompanhada umas quatro ou cinco vezes. Ao final da noite eu estava “prá lá de Bagdá”, quando ela veio com graça dizendo que poderíamos “apagar a velinha e desembrulhar o presente”. Bêbado e aborrecido, fui ríspido: “Minha filha, nem tente puxar a fita pois o presente tá quebrado e a vela já se apagou...”
O Valter teve melhor sorte, aparentemente... Logo de cara grudou-se com uma loira, alta, de fechar o comércio, de codinome “Beija”. Ela vestia uma saia de lamê prateada, justíssima e umas meias lurex, listradas e brilhantes. Era um show de mulher!
Dançaram a noite toda e ele, que não bebia, arriscou-se a esvaziar umas três garrafas de vinho com a loira.
Ficou tão encantado que quis levá-la para nosso quarto de hotel e, logicamente, eu e o Tininho teríamos que dormir no carro. Apesar de nossos protestos, ele enfiou a “moça” no fuscão e pediu para eu ir guiando enquanto ficava no banco de trás, dando amassos. Fiquei imaginando a madrugada horrível que iria passar, de ressaca e espremido no carro. Olhei para o Tininho e vi que já estava roncando. “Esse aí só sabe dormir e peidar!”, pensei, com despeito.
Do banco de trás vinham os gritinhos e sussurros: “Deixa, deixa...”; “Ainda não, espera chegar lá!” E de repente não mais que de repente, ouvi o Valter gritar furioso: “F.D.P. por que não me avisou?!” Num tranco, que fez o Tininho acordar, parei o carro e perguntei assustado: “Mas o quê está acontecendo aí atrás!”
O Valter estava possesso: “Enchi minha mão, o lazarento é homem, boiola, bicha, traveco!!!”.
Respeitamos a vergonha dele e nada comentamos até a chegada ao hotel, porém, antes de pegar no sono, não pude resistir e comentei: “Tu te lembras da cigana? Tua mão vai secar...”
Ainda lembrando-me de "Santa Felicidade", o bairro italiano de Curitiba, vou passar uma receita especial, que vocês não podem deixar de fazer:
RONDELLI COM RECHEIO DE NOZES: Comprar a massa pronta (Rondelli ou Canelloni) cozinhar em água, sal e azeite. Colocar para enxugar em um pano de prato (ficar bem enxuta). RECHEIO: 1 ricota fresca, 1 copo de requeijão, 1 pitada de pimenta branca e 3 pitadas de nós moscada (pitada é o quanto você consegue pegar com os dedos polegar e indicador, rsrssr). Passar a ricota na peneira, misturando os demais ingredientes. Por último, acrescente 70 gramas de nozes, esmagadas em pedacinhos. Rechear e cortar os rondelles (como rocambole); se for canelonni, é só rechear e enrolar. MOLHO BRANCO: Derreter, em fogo baixo, 3 colheres (sopa) de margarina, acrescentar, aos poucos, 4 ou 5 colheres de farinha de trigo, mexendo bastante para não empelotar. Juntar, aos poucos, 1 litro de leite, sem parar de mexer; 1 colher (sobremesa) rasa de sal e 1 pitada de nóz moscada ralada. Deixar engrossar, jogar sobre a massa, salpicar queijo ralado. Levar ao forno para gratinar.
É especial!!!!
Nesse meio de tempo, o Valter chegou e narrei-lhe o fato. Ficou uma arara de bravo, montamos no fusca e saímos ao encalço das gitanas. Ficamos no carro enquanto ele partiu para cima delas, agarrou a buena dicha e por força de uns safanões e tapa na cara, ele conseguiu recuperar a grana. Ficamos horrorizados com a violência do colega e com as maldições que as ciganas nos lançavam. Só compreendi quando pronunciaram mala suerte!...malo hado! ...manos marchitas! Durante todo o trajeto de volta à Porto Alegre, o Tininho quase não abriu a boca, de tão assustado. Chegando ao Hotel, o Valter deu-lhe um abraço, pediu desculpas e tudo se assossegou.
Então... os dois ficaram sem conversar por uns três dias e eu no meio tentando apaziguar. Num sábado, porém, fomos até Gramado e fiquei encantado com aquela cidade. Até então eu não conhecia a Europa e nem a América do Norte e imaginei que assim seriam as cidades naqueles continentes frios, com suas casinhas de madeira, jardins coloridos e tetos inclinados para o escorrimento da neve.
Estávamos eu e o Tininho a tirar fotos, enquanto o Valter abastecia o carro, e nem percebemos a aproximação de três ciganas que se dirigiram a nós com aquela fala aguda e extravagante, cheia de chiados. Eu que nunca gostei dessas estórias de ler a sorte, videntes e cartomantes, fui afastando-me aborrecido mas o Tininho ficou enroscado com a mais velha delas que lhe pediu a nota mais alta que ele tinha na carteira pois com ela faria um sortilégio que no futuro, tornaria-o milionário.
Sem coragem de safar-se, ele entregou para a mulher uma nota de quinhentos cruzeiros (valia bastante) e enquanto tagarelava apressadamente com as outras duas, deixando-o meio zonzo, ela sacou um crucifixo da faixa amarela que trazia à cintura e começou uma espécie de benzimento sobre o dinheiro. Ao mesmo tempo em que benzia, ia dobrando a nota em quadrados cada vez menor até que a mesma desapareceu de suas mãos. Guardando novamente o crucifixo, elas foram se afastando apressadamente.
O Valter perguntou-me o que elas diziam e respondi: “que tuas mãos vão ficar secas...”
Arroz Cigano: 2 copos de arroz lavado e bem escorrido; 4 colheres (sopa) de óleo; 4 dentes de alho bem picadinhos; 1 cebola pequena bem picadinha; 1 colher (de sobremesa) rasa de sal; água fervente para o cozimento. Frite o alho e a cebola no óleo até ficarem queimadinhos (marrom mesmo). Junte o arroz e frite bastante, mexendo sempre. Acrescente o sal e frite mais um pouco. Ponha a água fervente (até uns dois dedos acima dos grão de arroz). Abaixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar
É ótimo, não leva muito sal e com um sabor irresistível
Partindo de Curitiba, fomos diretos, sem escalas, para Porto Alegre. Chegamos à noite e o único hotel do centro onde encontramos vagas ficava (ou fica) bem defronte a um quartel do exército, numa rua feia e escura. Mas era estratégico e barato, considerando-se que somente nos serviria para dormir.
Como não tinha estacionamento, o Valter deixava o fuscão em frente ao portão do quartel , próximo às guaritas e mesmo assim, não dormia direito com medo de que sua condução fosse roubada.
Aliás, ele tinha um luxo tão grande com o veículo que tínhamos que entrar descalços para não sujar os tapetes e a cada passeio ele punha-nos a limpar e a lustrar o fusca. Imaginem o desespero dele quando, numa visita à Caxias do Sul o Tininho aprontou a maior cáca dentro do carro... e foi assim:
Apesar de ser um grande polo de tradição italiana e conservar muitos dos ícones daquela antiga colônia de vênetos, Caxias é uma cidade bem cosmopolita, com inúmeros edifícios e arranha-céus. Não se vê um pássaro na paisagem da cidade, nem mesmo o prosaico pardal, existente em quase todos os continentes. Diz a lenda que isso se deu devido a uma velha prática dos italianos chamada de “passarinhada” que consistia na caçada e degustação de toda a espécie de pássaros de pequeno porte.
Passamos um dia todo na cidade; visitamos adegas e mais adegas, almoçando em um restaurante com comidas típicas, ou seja, comida pesada. Enquanto eu e o Valter ficamos no galeto al primo canto, radici com bacon e polenta frita, o Tininho exagerou nas morcelas e codeguins (espécies de lingüiça feitas com a pele, carne ou sangue de porco). Essas iguarias, aliadas aos canecos de vinho tinto transformaram o estômago de nosso amigo num autêntico vulcão em erupção.
Na volta, descendo a serra gaúcha, do banco traseiro do carro, irromperam as lavas... Não podíamos parar, pois eram só curvas e mais curvas. Quando encontramos um local de parada, à beira de uma bica d`água, o Valter arrastou o Tininho para fora aos tapas e o jogou dentro do pequeno tanque da bica.. Os assentos e tapetes foram retirados, lavados e esfregados mas, o parfun fedegaise impregnou-se de tal forma que por alguns dias só fazíamos passeios curtos, evitando o interior do carro.
Os dois ficaram “de mal” por algum tempo e somente voltaram a conversar na visita à Gramado por força dos sortilégios de um trio de ciganas, estória essa que deixarei para contar-lhes depois.
E agora, adivinhem que receita eu vou passar???
CODEGUIM AO FEIJÃO : 500 gramas de carne de porco (lombo ou pernil); 500 gramas de couro de porco; 7 colheres (sopa) de sal; 1 colher (café) de caldo de pimenta cumari; 1 colher (café) de pimenta calabresa seca; 1 colher (café) rasa de nóz moscada ralada; 2 colheres (sopa) de vinho branco seco; 1 cabeça de alho bem socada (ou batida no liquidificador com o vinho). Comprar as tripas já limpas, frescas ou desidratadas (deixá-las na água por algumas horas para reidratarem). Cozinhar o couro até ficar macio. Moer a carne e o couro (ainda quente) na máquina, com o disco de furos maiores (sai em pequenos cubinhos de meio centímetro) Temperar com os demais ingredientes e encher as tripas com essa massa. Amarrar com barbante, em fomos de mais ou menos 10 cm cada um (dá uns 8). Furar cada codeguim com uma agulha bem fina e colocá-los para cozinhar junto com o feijão. Separá-los somente depois de cozidos. Servir, individualmente com molhe vinagrate. It's Wonderfull !!!!
Dando sequência a nossa aventura "On the Road By Fusca", paramos no Parque Estadual de Vila Velha que fica a 80 Km distante da capital do Paraná. A atração do parque são os blocos de arenitos alí existentes há mais de 300 milhões de anos e esculpidos, ao longo dos séculos, pela ação da água e dos ventos. As "esculturas" de arenito avermelhado são maravilhosas e tomam as mais diversas formas; essa da foto é a famosa "Taça de Vila Velha". Foi na lanchonete do parque que conheci uma paulistinha linda, chamada Celeste que viajava acompanhada de sua mãe e da irmã mais nova.
Por entre as trilhas e cavernas, demos alguns "amassos" (gíria da época) e ofereci meus préstimos como motorista até Curitiba, já que a pobrezinha aparentava cansaço. Meus amigos ficaram de nos esperar na entrada de Curitiba: "Naquela entrada cheia de hortências", instruiu-me o Valter. Mas o que ele não disse foi que a cidade é rodeada dessas flores e ficamos procurando-os até o anoitecer. Como elas tinham que seguir viagem para São Paulo, deixaram-me no centro, preocupadas comigo e para acalmá-las, menti que sabia onde era o hotel em que ficaríamos hospedados, podendo chegar até lá de táxi.
Lá fiquei eu, sem lenço nem documento, sentado num banco de ferro da famosa Avenida das Flores e entregue à Providência Divina. O quê fazer?! Não sabia o nome do hotel e naqueles bons tempos não existia essa "praga necessária" chamada de celular. Àquela hora, o calçadão estava lotado de turistas que entravam e saiam das lojas e bancas. Apesar de minha aflição, pude notar, dentre um bando de turistas idosas, uma pessoa semi-agachada que levantava algumas sacolas do chão.
"Meu Deus, parece-me que eu já ví aquela bunda!", pensei. Quando aprumou-se, tive a certeza:
"É a bunda do Caruzzo."
Ele, solteirão aposentado, promovia excursões com a turma da "Velha Guarda" de minha cidade. A caminho de seu hotel, arfante pelo peso das sacolas e de seu enorme traseiro, ele me dizia: "A mais velha das coroas está aniversariando; se você quizer, poderá participar da festinha e tentar descobrir, ainda hoje, o paradeiro do seus amigos, pois amanhã cedinho partiremos para Foz do Iguaçu."
Após alguns telefonemas às recepções dos hotéis do centro, consegui localizar meus colegas que chegaram putos da vida comigo mas logo relaxaram e entraram na festa.
Ficamos quatro ou cinco dias em Curitiba, onde engordei uns dois quilos de tanto degustar as massas nos restaurantes de "Santa Felicidade", um bairro de imigrantes que preserva muito da cultura dos italianos vindos, principalmente das regiões de Vêneto e Trento, no norte da Itália. E para relembrar aqueles dias de fartura, vou apresentar uma receita muito fácil, de sabor marcante
CONCIGLIONI AO MOLHO ESCURO:1 kg de maminha ou lagarto; 1 cerveja Caracu (cerveja preta); 1 lata de molho de tomate(tipo pomarola); a mesma lata com água; 1 pacote de "sopa de cebola" e 1 caixa pequena de polpa de tomate (tipo pomodoro). Refogue a cerveja, a água, o molho de tomate, e a "sopa de cebola". Acrescente a peça de carne inteira, a polpa de tomate e deixe na pressão por cerca de 40 minutos. Quando estiver macia, retire a carne (que é servida à parte) e deixe o molho apurar mais um pouco. Na hora de servir, despeje o molho sobre o conciglioni (aquele macarrão que parece um caramujo) pré cozido em bastante água e sal. Espalhe queijo parmezão ralado por cima.
Meu Blog... hum ano de existência com mais de 10 mil acessos. Agradeço a todos que vêm prestigiando-me com a leitura de minhas crônicas, ou "causos". Grande abraço a todos.
Em janeiro de 1975, eu e mais dois grandes amigos, Valter e Tininho, resolvemos fazer uma viagem “easy rider” (sem destino) no fuscão novinho do Valter. Vendemos umas porcariadas que tínhamos e conseguimos juntar uma boa grana, que ficou aos cuidados do Vagner, o mais responsável do trio.
Era uma sexta-feira à tarde quando saímos de São João, com a intenção de chegarmos a Foz do Iguaçu pela manhã mas, dormimos em Cascavel, na única pensão decente que encontramos, onde o Tininho conheceu e encantou-se com a dona da pensão. No dia seguinte anunciou que não seguiria viagem: “Fico esperando por vocês, na volta!” Nada o demoveu da idéia e seguimos viagem. Hospedamos-nos no hotel Monalisa, muito chic, e situado próximo às cataratas.
Dois dias depois, nosso amigo juntou-se a nós, meio jururu pois que a mulher desencantou-se rapidamente de seus dotes, despachando-o, via rodoviária, para Foz.. Ficamos por ali durante uma semana, como gente rica e aconteceu de conhecermos três hóspedes argentinas; morenas vistosas e dadivosas: Viviana, Mônica e Sara Cláudia. Logo rolou romance entre nós, menos com o coitado do Tininho.
Escolheu a Sara Cláudia que o apelidou de tomatito putrefato (ele era gordinho e vermelho) e só queria sua companhia para jogar baralho, a dinheiro: “Ahora vamos a juegar veinte e uno, o entonces, casita robada (rouba monte)” _ determinava ela. Ou então: “Ola, tomatito mio, esta noche quiero irme al casino de Ipacaray a girar la roleta!”. E o Tininho acompanhava, pagando-lhe todas as jogadas e as taças de Gancia,
uma bebida fortíssima e horrível, que ela tomava como se fosse água.
No sábado, pela madrugada, deixamos o hotel, rumo à Curitiba mas, na saída, encontramos as três castellanas esperando-nos com as mochilas prontas para seguirem conosco. Queriam conhecer um pouco do Brasil, diziam elas. “Puedem llevarnos hasta Curitiba, después quedaremonos allá, por favor!”
Não sei o que deu em nossa cabeça mas enfiamos as três mulheres no carro e partimos. Não andamos nem cinco quilômetros quando ouvimos a sirene da polícia atrás de nós. Pudemos perceber que junto com o policial vinha o japonês, gerente do hotel, acenando para que parássemos.
Fomos todos para a delegacia e lá soubemos que as três eram aventureiras, deixadas no hotel pelos amantes que fugiram sem pagar a conta. Elas estavam detidas no hotel há quase um mês, juntando algum dinheiro, em programas, para pagarem o japonês.
Desfeito o rolo, seguimos viagem rumo à Curitiba, entre assustados e divertidos. O resto das aventuras, conto depois e como o "causo" de hoje foi meio picante, vou acrescentar uma receita de um tempero, também picante, utilizado para temperar carnes grelhadas ou o famoso bife de chorizo argentino.
CHIMICHURRI : 6 dentes de alho picados; 1 colher (sopa) de salsinha picada; 1 colher (sopa) de tomilho; 1 colher (sopa) de orégano; 1 colher (sopa) de manjericão; 1 colher (café) de pimenta calabresa seca ou páprica picante; 1/2 colher (café) de pimenta-do-reino moída; 1/2 colher (café) de estragão; 1 colher (café) de colorau e 1 colher (chá) de sal grosso triturado.
Misture todos os ingredintes, podendo ser consumido seco ou hidratado (1 colher de azeite de oliva, 1 colher de água e 1 colher de vinagre tinto). Deixar descansar por algumas horas e esfregar sobre a carne antes, durante ou depois de grelhada.
"Mas, você não acompanha nada?!", perguntei admirado."Não, _ respondeu_ a Luciana sabe mais do que eu e está fazendo a seu gosto, inclusive, quer colocar aquecedor solar e banheira de hidromassagem Bom, terminado o prazo do cronograma e para a liberação da última parcela seria necessária a apresentação da Certidão de Quitação do INSS, referente aos encargos recolhidos a favor do pedreiro mas nenhum dos dois aparecia com o documento. Telefonei para o Donizete umas três vezes até que ele apareceu, meio ansioso e envergonhado, dizendo que não iria, em hipótese alguma, pagar o INPS daquele safado!. Fui logo perguntando: "Mas por que, meu amigo?! Sem a Certidão não vai ser possível liberar o resto do dinheiro e você não vai poder nem instalar a banheira e o aquecedor para a noiva?" Ele, bem ruborizado, rosnou: "Não tem mais banheira, aquecedor e nem noiva..." Intrigado, ainda arrisquei a perguntar: Mas, cadê a Luciana? Essa estória de pedreiro fez-me lembrar de quando, no início da década de 60, meu pai demoliu nossa casa, velha mas respeitável, para construir uma outra modernosa com lajes, linhas retas e de mau gosto. Nos meses que se prosseguiu a construção, tivemos que morar em 4 cômodos nos fundos do quintal e minha mãe, além de cozinhar para o marido e seis filhos, ainda tinha que fornecer alimentação para os pedreiros. Ela juntava, numa panela grande, tudo o que sobrava de nosso almoço e servia aquele "mexidão" para os trabalhadores. Eu, com sete ou oito anos, em vez de sentar-me à mesa com os familiares, preferia dividir com eles aquela mistura bem mais saborosa e para matar a saudade daqueles velhos tempos, de vez em quando eu preparo um arremedo daquela refeição ao qual eu batizei de:
No ano passado, entrevistei um casal de noivos, Donizete e Luciana, que buscava um financiamento para a construção de sua casa. Ele, de boa aparência, tipo fortão porém, muito tímido e educado, quase não falava nada. Ela, bonita, vistosa e extremamente falante, tomava a iniciativa das perguntas e questionamentos. Boa renda, sem restrições cadastrais, o financiamento foi concedido ao casal e a construção iniciada. Contrataram um construtor, na verdade um pedreiro, que entendia de tudo, desde levantar as paredes até a pintura...
Durante os meses em que duraram as obras, somente ela aparecia para cuidar dos papéis, pagamentos, liberações de parcelas e tudo o mais. Lembro-me de tê-lo visto apenas uma vez quando lhe perguntei sobre o andamento das obras. "Olha _ disse-me ele _ eu não tenho tempo de acompanhar nada. Mas, minha noiva vai todo santo dia até lá e a cada vez volta mais contente com o trabalho do pedreiro; diz que o homem entende de tudo, de ferragens, encanamentos, cobertura, brochas e pincéis." mas, para isso, tenho que deixar de fazer o muro e a garagem. Estou pensando... lá para o final da construção eu resolvo."
Mexidinho Mineiro: 2 xícaras de arroz cozido; 1 xícara de feijão cozido; 200 gramas de linguiça frita ou sobras de carne desfiada; cheiro verde picadinho; 2 tomates picados (sem sementes); 2 ovos; 1 colher (sopa) de óleo; 1 cebola média ralada, pimenta a gosto e farinha de mandioca. Fritar, em óleo, a cebola e os ovos mexidos. Acrescentar os demais ingredientes (a farinha, por último e aos poucos para dar consistência).
A esposa era costureira, a única em Brasília que costurava para os crentes das Assembléias e demais igrejas evangélicas. Tinha, pois, muito trabalho e sua máquina de costura era a principal peça do pequeno apartamento do casal. Tirou férias e licenças-prêmio para poder acompanhar as obras de construção do mausoléu para a esposa, coisa completamente fora do comum no cemitério de Brasília, onde os túmulos são, na maioria, bem rasos. "Seu João, se eu ditar as idéias que eu tenho para gravar no epitáfio, o senhor escreve para mim, na forma correta?" Eu que sempre fui amigo dele, concordei: "Vamos lá, Jesus, como vai ser o negócio?" Aprumando o corpo franzino ele estendeu os braços: "Quero pregar, bem em baixo da tesoura, um livro de bronze com frases relacionadas à profissão dela e ao quanto ela trabalhou na vida. Quero começar com o nome dela, em letras maiores, TIÚCA."
Outrora existia, na minha empresa, o cargo de auxiliar de gabinete. O nome era pomposo mas a função era quase que insignificante e seus ocupantes eram pessoas mais humildes, sem letras . Na nossa diretoria, o auxiliar era o Jesus, um carioca de uns 60 anos que veio para Brasília com a mudança da Matriz, do Rio para a nova Capital. Era o funcionário mais antigo e, coitado, quando estava próxima a sua aposentadoria, ficou viúvo. Jesus já se acostumara com o barulhinho e a luzinha da máquina até altas horas da noite. Tão logo ela morreu, mandou instalar um dispositivo que, a pequenos intervalos, acionava os pedais da costura, ficando a pequena luz acesa a noite toda.
Não contente, gastou grande parte de sua poupança na aquisição de vasos de bronze, bancos de ferro, um postinho de iluminação e até mesmo uma grande tesoura de cobre que foi fundida bem na porta da tumba. Faltava apenas o epitáfio e para isso, procurou minha ajuda:
Eu o interrompi, perguntando: "Mas, por que Tiúca, o nome dela não era Maria Aparecida?" Meio envergonhado ele confidenciou-me: "Ninguém sabe mas, na intimidade, só chamava ela de Tiúca: era a minha Tiuquinha!". Não consegui demovê-lo da idéia e na página do livro de bronze, além do apelido, foram gravadas mais algumas frases, relacionadas à confecção de véus e mantos para os anjos lá no céu.
Passados alguns meses, ele aposentou-se mas, sempre aparecia na Diretoria para "bater um papinho e matar a saudade". Certo dia veio acompanhado de uma mulata, bem mais moça, apresentada como Imaculada, sua nova namorada. A moça vestia uma mini-saia curtíssima que deixava à mostra suas lindas pernas, bronzeadas e lisas, como duas berinjelas maduras. Conversa vem, conversa vai, disse-nos que estava voltando para o Rio de Janeiro. "Estou montando uma lanchonete para a Imá tomar conta, lá em Cachoeira do Macacu. Com o dinheiro de meu FGTS e da aposentadoria, aquilo vai ficar uma graça!"
Coitado! Assim que torrou todo o dinheiro dele, Imaculada deu-lhe um ponta-pé na bunda e lá veio o Jesus de volta à Brasília e para seu diminuto apartamento. Um dia perguntei-lhe sobre o túmulo da esposa, tão ricamente decorado.
Ele, envergonhado admitiu: "Seu João, acho que foi castigo de Deus, depenaram o túmulo da Tiúca... O senhor acredita que só sobrou a tesoura! Daí eu mandei arrancar, pois aquilo vale uma nota..."
Estou cá pensando com qual receita vou completar o post e, já que não tenho nenhuma associada aos personagens da crônica e lembrando-me das pernas de Imá, vou passar uma receita, tão gostosa quanto:
Doce de Berinjelas: 4 berinjelas, cortadas em cubos de, mais ou menos, 3 cm; 1Kg de açúcar; 250 ml de água, cravos e canela em pau. Dar uma leve cozida, no vapor, nos pedaços de berinjelas. Fazer uma calda grossa (ponto de fio) com o açúcar e a água. Acrescentar as berinjelas, deixando-as cozinhar por uns 20 a 30 minutos.
OBS: Essa receita foi-me dada pelo Joaquim, "chef de cuisine" do Hotel Jurubiaçaba, em Águas de São Pedro. É uma iguaria ímpar e de idêntica maneira, pode-se fazer o doce de jilós (uns 15, cortados em quatro).
Meu irmão Toninho morava no 31º andar do edifício COPAN, no centro de São Paulo. Morava sozinho e a solidão faz coisas estranhas ao ser humano. Apaixonou-se por uma pombinha... É verdade!! Dessas pombinhas de cidade que sujam estátuas e janelas, além de soltarem piolhos por todos os poros. Batizou a ave de Julieta porque ela vivia na sua sacada, tal qual a heroína de Sheakespeare, a espera de seu amante, que no caso da pomba, nunca apareceu.
A pobrezinha punha seus ovos no ninho, por ela construído, mas não nascia nada, pois os mesmos não eram “galados”, ou seja, fecundados por um pombo macho. Tanta desilusão deixou a avezinha tão estressada que começou a bicar os ovinhos, na esperança de tirar dali um filhote. Meu irmão, condoído, resolveu fazer uma experiência: arranjou, não sei onde, um ovo de galinha garnisé, daquelas pequenas e colocou-o por debaixo da pomba.
Pasmem, dali 21 dias nasceu um pinto!! Era um tiquinho de nada mas, já no dia do nascimento, quase caiu da sacada pois queria andar atrás de comida. Toninho comprou uma gaiola grande, pendurou-a na sacada e ali alojou o bichinho. Toda hora, sua mãe de aluguel voava e voltava com alguma forma de alimento; o que encontrasse no centro de São Paulo: pedaços de pão, pastel, batatas, pipoca, chicletes, crack, etc...
A ave foi crescendo, crescendo e quando meu irmão foi dar-se conta, não conseguiu mais tirá-la pela portinha da gaiola. Eu, que trabalhava em São Paulo mas viajava todo final de semana para minha casa, em São João, sabedor do grande dilema do mano, ofereci-me para levar o franguinho para o interior. Acomodamo-lo numa caixa, com vários furos, e lá fui eu, com o pinto na mochila de roupas sujas, em direção à rodoviária.
Ao subir no ônibus, o bichinho resolveu-se a piar... O motorista, descobrindo a mutreta, obrigou-me a retirar a caixa da sacola. Com muita dor no coração, depositei-a numa lixeira que estava por perto, na esperança de que alguma alma caridosa o adotasse. Durante toda a viajem, meu coração, contrito pelo remorso, fazia-me ouvir os lamentosos piados da avezinha.
Desci do ônibus, perto de minha casa, logo atrás de um rapaz que também portava uma mochila e eu ouvi, nitidamente, o piado do pintinho. Daí, eu perguntei-me, ensimesmado: “Como foi que ele conseguiu e eu não?!” Pensei em abordar o cara mas, como não o conhecia e já era madrugada, achei melhor deixar quieto.
No outro dia, logo pela manhã, minha mulher acordou-me, danada da vida: “Bem, por que você trouxe aquela porcaria para casa? Venha ver a sujeira que ele fez nas suas roupas!”Quando olhei para dentro da mochila, lá estava ele, todo amassado mas vivinho da silva.
Havia escapado pela tampa semi aberta da caixa, antes de eu tirá-la da mochila...
Finalizando a história, levei-o para o sítio, onde cresceu, forte e viril, deixando uma larga descendência para a posteridade.
COXAS DE FRANGO EMBEBEDADAS: 2 kg de coxas e sobre coxas (separadas) de frango; 2 cebolas; 4 dentes de alho; 1 colher de alecrim picados; sal; 2 folhas de louro; 1 lata de cerveja preta (tipo malzbier) e uma lata de cerveja clara. (compre mais outras três para você beber enquanto cozinha (é ótimo)
Rale as cebolas e os dentes de alho e esfregue nas coxas (eh,eh,eh) juntamente com o sal. Esmigalhe as folhas de louro e junte ao frango, com o alecrim picadinho. Acrescente as duas cervejas e deixe marinando por 1 hora mais ou menos. Disponha as coxas em uma forma ou pirex grande e jogue um pouco do molho da marinada por cima de cada coxa. Deixe cozinhar por 1 hora (forma descoberta) em fogo alto (200°) e abaixe o fogo, deixando por mais uns 20 minutos, até ficar bem dourado e a pele crocante.
Sirva com arroz branco, farofa pronta e uma salada de folhas.
O Ciro Nei veio de uma família humilde, seus pais eram colonos na fazenda "Paraíso" e já tinham 9 filhos quando, após uma gravidez normal, Dona Noêmia começou a sentir as dores do parto. O marido trouxe a parteira e em poucos minutos nascia um garotão, de mais de 4 quilos e ao qual deram o nome, previamente escolhido, de Augusto Roberto.
Foi-se embora a parteira e Dona Noêmia, prontamente refeita, começou a preparar o almoço. De repente, começou a sentir umas cólicas estranhas que se repetiam, a ponto de fazê-la voltar para a cama. Meio inquieta com as dores, falou para o marido: "Volta lá buscar a Dona Quita porque eu acho que ela deve ter deixado algum resto da placenta sem tirar!
Seu Evaristo correu para a cidade mas não encontrou a parteira em casa. A vizinha, maldosamente, comentou: "Ela deve ter parado na casa do amigado, lá perto do "Morro da Bomba" e quando é assim, só volta à noite." O homem, sem saber o que fazer, bateu na casa do veterinário, Sr.Cironey, que atendia à fazenda e pediu: "Dr. Ciro, o senhor tem que acudir minha mulher. Ela acabou de parir e já está sentindo as dores de novo; a parteira sumiu!"
"Mas, Evaristo, eu só faço parto em animais!", ponderou o veterinário. "Olha doutor, vaca, égua, cabra e mulher é tudo a mesma coisa e precisamos ir ligeiros pois ela tá gemendo muito... Pior que eu vim de carroça!" O Dr. Cironey, vendo o desespero do homem, resolveu cooperar:
"Tudo bem, amarra a égua por aí e vamos de motocicleta."
A motocicleta era daquelas que a gente vê muito em filmes da Segunda Grande Guerra, com uma espécie de canoa grudada ao lado, utilizada para carregar o passageiro. Quando a irmã de Dona Noêmia, da janela, avistou a moto, disse: "Uai, o Evaristo em vez de trazer a parteira vem vindo na bicicleta do Dr. Ciro!"
A sobrinha, irmã mais velha de meu amigo, retrucou: "Não é bicicleta, tia, é suletra..." Dona Noêmia, lá da cama, gemeu: Vocês são burras, mesmo, não é bicicleta e nem suletra, o nome certo é subcleta.
Após um exame rápido, o veterinário concluiu: Não é resto de placenta não, Dona Noêmia, é outra criança que está vindo! E nasceu mais um menino, com apenas 1 quilo e meio, meu futuro amigo.
Quando a mãe viu aquele tiquinho de gente, lamentou-se: "é muito fraquinho; não vai vingá ! Acho melhor eu cuidar só do outro..."A irmã mais velha, já casada e com uma menina recém-nascida, falou para a mãe:"Dá ele pra mim que eu crio, tenho leite suficiente pra dois". A mãe concordou e assim ficou.
Antes de ir embora, o veterinário ainda perguntou: Que nome vão dar para o menino? A mãe respondeu: "Não sei não, tinha na cabeça apenas o Augusto Roberto e agora não tenho idéia... Como é o nome inteiro do senhor?" O homem, respondeu: "Cironey." E, então, meu amigo foi batizado por Ciro Nei Roberto, criado pela irmã, sempre conhecido por Ciro e por mim apelidado de "resto de placenta".
O Ciro é doido por uma galinha de angola ao leite (aquelas que piam tô fraco, tô fraco...) e sempre que faço uma aqui no sítio, convido o casal. Pode parecer meio exótico mas é um prato de se tirar o chapéu.
Corte uma ou duas angolas (tem que ser novas) pelas juntas, esfregue sal nos pedaços e deixe marinar, por umas duas horas, no seguinte tempero, batido no liquidificador: 3 colheres de molho inglês; 2 colheres de azeite de oliva; 4 dentes de alho; 2 cebolas médias; um maço de salsinha, manjericão, louro, sálvia (opcional); ½ noz moscada ralada; molho de pimenta ou páprica picante(opcional); 1 copo (na risca) de vinho branco seco ou vinagre branco e 1 copo de água.
Frite os pedaços (separados do molho de temperos) em óleo quente. Acrescente 1 caixa pequena de purê de tomate (ou 3 tomates inteiros, sem sementes); 1 copo de água quente e um pouco do molho de temperos. Conforme for secando o líquido, vá acrescentando, aos poucos, ½ litro de leite ou o suficiente para terminar o cozimento e deixar a angola bem macia. Se quiser, no final, misture ervilhas frescas, favas pré-cozidas, cogumelos ou palmito. Sirva com arroz e polenta.
Eu tenho um amigo, grande amigo desde os 16 anos, chamado Ciro Nei (Ciro) que já se casou por três vezes. O primeiro casamento, finais dos anos 60, foi com a Lucy e tiveram duas filhas. O segundo, meados dos anos 80, foi com a Lina e tiveram um casal de filhos. Por último, finais da década de 90, casou-se com minha amiga Marlene, também divorciada e com dois filhos, já formados. Gasta tanto com pensões alimentícias que ao aposentar-se, teve que arrumar outras atividades para fazer frente às despesas.
É uma pessoa extremamente alegre e de bem com a vida. Depois dos cinquenta anos, entrou para uma escola de violão e toca muito bem mas, canta razoavelmente, de soquinhos, como a Nora Ney: "...de ci...ga...rro em ci...ga...rro, o... lhan...do a fu...ma...ça no ar se per...deeeer..." (os mais antigos sabem do que estou falando).
Ele trabalha como gerente em três postos de gasolina diferentes e por isso, no final da tarde, está mais cansado do que burro de olaria mas, mesmo assim, não perde o bom humor. Outro dia, fui com ele, de moto, até uma igreja evangélica para cobrar do pastor, dois aluguéis atrasados do barracão onde se realizam os cultos.
O pastor que naquele momento pregava sobre a "taça de José na saca de Benjamim", vendo-nos na porta da igreja, mudou para a parábola do devedor implacável: "...semelhante a um rei que resolveu acertar contas com seus servos... e trouxeram-lhe um que devia dez mil talentos..." Em seguida, continuando com Mateus: "Vendei vossos bens e dái esmola".![]()
Emendou ao sermão o questionamento do fariseu a Jesus, no tributo a César: É lícito a nós pagarmos o tributo a César ou não?". O pastor, ressaltando aos fiéis a importância de dar a César o que é de César, apontou para nós dois: "Olhem alí, eis à porta dois irmãozinhos que vieram buscar o que é de César.
Por isso, meus irmãos, os "obreiros" passarão mais uma vez os alforjes (sacolinhas) para recolherem a quantia necessária ao pagamento dos dois meses de aluguel de nosso templo." Ao final do culto, o pastor trouxe-nos o dinheiro e ao pegar os recibos, comentou: "Vocês chegaram na hora certa: deu para pagar os aluguéis e ainda sobrou para outras obras!"
Marlene, a 3ª e atual esposa do Ciro, cozinha muito bem e faz uma panqueca, que de tão boa é covardia esconder a receita de vocês:
PANQUECAS DA MARLENE: Massa: 1 copo de leite, 1 copo de farinha de trigo, 1 ovo inteiro e 1 colherinha (café) de sal. Bater tudo no liquidificador até desmanchar bem. Em uma frigideira, colocar um pouco de óleo, apenas para untar a frigideira. Fritar do dois lados e por o recheio, bem no meio da panqueca. Dobrar uma ponta até ao meio e em seguida, a outra ponta, apertando bem.
Recheio: 1 cebola e 1 tomate picados miudinhos; palmitos em rodelas finas. Refogar em óleo ou azeite, em fogo baixo. Acrescentar 1/2 copo de água com 1 tablete de caldo de galinha dissolvido. Continuar a refogar até o tomate desmanchar. Juntar 1 colher (sobremesa) de farinha de trigo, desmanchada em um pouquinho de leite. Mexer bem, até engrossar o molho. Por último, junte 1 lata de ervilha.
Ao servir, pode-se cobrí-las com molho de tomates, molho branco ou com molho rosé e espalhar queijo ralado por cima.
Fiquei conhecendo o "Café de Bugre" lá em Bandeirantes, Paraná. É um arvoredo que, acho, não serve para muita coisa, muito menos para fazer café. A molecada usava a goma de seus frutos como cola para encapar cadernos ou fazer pipas. Pois foi por baixo da saia de um Café de Bugre que uma parenta minha desgraçou-se e... Vou contar como é que foi:
A Lídia era casada de pouco e tinha um garotinho lindo como um anjo, lourinho e de olhos bem azuis. Só que tanto ela como seu marido Caetano eram descendentes de italianos da Calábria, cabelos pretos e olhos castanhos; porém, quando o garotinho nasceu, alguém se lembrou de que a bisnonna (bisavó) Doloratta tinha olhos claros e assim ficou.
Lá na roça, principalmente no sertão do Paraná, as famílias demoravam em registrar ou batizar seus filhos. Às vezes batizavam de dois ou três irmãos de uma vez só para economizarem viagem à cidade e como a Lídia demorava a engravidar-se novamente, o Caetaninho somente foi registrado e batizado três anos depois, quando aproveitaram a carona de um colono vizinho que também levava dois filhos para serem registrados. O padrinho do moleque foi o próprio vizinho, um alemão bem alto, de olhos azuis, chamado Willi e que era o responsável pelo transporte do leite da região, em seu Ford "Pé-de Bode".
A amizade que já existia, estreitou-se mais ainda e as duas famílias estavam sempre reunidas; era um tal de "cumprade Willi prá cá e cumadre Lídia prá lá" que dava gosto de se ouvir.
Aos domingos, o almoço em conjunto, era sagrado, assim como os jogos de tômbola, bisca, bocha ou maia.
A casa que o Caetano construiu ao se casar era bem alta, toda de madeira, sobre um porão de pedras. Bem ao lado do quarto do casal germinou e cresceu em belo pé de Café de Bugre e era por debaixo dele que, à noite, a família fazia suas necessidades, pois a "casinha" que servia como banheiro ficava um pouco distante da casa.
O marido estranhava o fato de a esposa sempre usar o pé de café por volta das quatro da manhã, mas nunca perguntou nada. Enquanto ela ficava lá em baixo, ele, da janela alta, ficava com um lampião "alumiando o pedaço", sem poder avistar nada devido ao clarão da luz em seus olhos. Antes de o casal tornar a dormir, ouviam o ronco do "Pé-de-Bode" indo para a cidade e ainda comentavam: "Lá vai o cumpádi Willi chacoalhando o leite!".
Certa madrugada, a mulher desceu e demorava para voltar. Caetano, já com os braços doloridos por segurar o lampião, gritou para a esposa: "Ô Lídia, prá que essa demora toda!" Ao que ela respondeu, meio que gemendo: "Ai, bem, é que hoje eu tô ressecada! Aguenta aí mais um pouquinho que eu já vou." O marido, preocupado, deu um jeito de pendurar o lampião na tranca da janela e foi verificar.
Desgraça das desgraças: lá estava a Lídia, grudada no tronco do Café de Bugre e o comprade Willi mandando ver! Foi aquela luta danada e o alemão, dois palmos maior que o italianinho, levou a melhor e também a mulher, pois que os dois acabaram fugindo para Maringá, levando junto o Caetaninho, de olhos azuis como o pai...
Lá nos sertões do Paraná comia-se muito carne de porco, queijo e batatas. Batatas de toda maneira e vou ensinar-lhes a fazer uma receita com batata, super fácil e divina:
BATATAS À TIROLEZA: Cozinhar em água e sal as batatas descascadas e cortadas em cubos regulares (como se fosse para batata sauté). Numa panela fritar ligeiramente, em azeite de oliva, uns 4 dentes de alho picados. Acrescentar páprica picante, colorau e Kumell (1 colher de sobremesa de cada um). Juntar as batatas, tampar a panela e apagar o fogo. Sacudir a panela, tampada, até que as batatas fiquem bem misturadas ao molho.
"Nao há Mal que sempre dure e nem Bem que não se acabe" e o meu namoro com a Lurdinha do post abaixo, para minha tristeza, uma noite se acabou e de uma forma cômico/trágica. Como já disse em outra ocasião, sempre gostei de bailes e dançar era e ainda é minha diversão preferida.
Os chamados "Bailes Havaianos" de hoje, nem de longe fazem lembrar o charme e a importância que tinham esses eventos para nós, adolescentes dos anos 70. Eram anuais, sempre em Setembro e a preparação começava semanas antes com a confecção dos colares multicoloridos (de papel crepon) e das roupas que, obrigatoriamente tinham que ser a camisa solta, estampada e calças brancas para os homens e os "sarongs" para as mulheres.
Naquele ano de 1970, o Baile aconteceria na sede social do Palmeiras. Minha prima, costureira havia confeccionado para mim a camisa estampada azul e flores brancas e uma calça de cambraia de linho branca bem apertada e com "boca de sino"(era moda na época).
Iríamos à pé até ao clube pois meu carro era meu guarda-chuva. Já há dias estava com problemas intestinais, uma diarréia que remédio nenhum curava e mesmo assim fui, pois já tínhamos a mesa comprada e roupas prontas. Saí de minha casa por volta das 22 horas para apanhar a Lurdinha e na subida do "morro do São Lázaro", a vontade apertou; começei a andar depressa mas não deu para segurar...
Que desespero, meu Deus! Voltar para casa não podia pois já estava longe. Chegar até a casa da namorada, nem pensar!
Lembrei-me que minha prima, a costureira, morava bem perto e corri para lá mas ninguém atendeu à campainha. Pulei o muro e fui até o quintal. Enchi de água o tanque de lavar roupa, tirei a roupa e lavei-me com um sabão de cinzas que encontrei. A calça branca estava completamente perdida e fiquei alí, pelado, tremendo de frio, esperando ela chegar o que demorou umas três horas. Levou-me para casa e como já era tarde e nem roupa havaiana tinha mais, fui dormir.
No outro dia soube que a Lurdinha, p... da vida comigo foi ao baile, com alguns amigos, dançou a noie toda e lá conheceu aquele que veio a ser seu futuro marido. Até hoje ela não sabe o motivo do meu "cano" mas se chegar a ler este "post" vai ficar sabendo, mais de trinta anos depois.
Desde rapaz eu faço um café que todo mundo elogia. Aprendi com Dona Rita, a mãe da Lurdinha e vou ensinar minha técnica:
2 copos grandes (daqueles de requeijão) de água; 2 colheres bem cheias de pó de café (o pó tem que ter uma cor castanha escura, não pode ser preta); 3 colheres cheias de açúcar. Coloque a água para ferver e assim que começar a levantar bolhas, acrescente o açúcar. Misturar bem, espere um pouquinho e desligue (se ferver com açúcar, fica ruim). Despeje sobre o pó (coador de papel pois aqueles de pano deixa gosto). Ponha uma tampa sobre o coador para o café não esfriar. Feche bem a garrafa e sirva.
Conheci Lurdinha, minha primeira namorada numa quermesse (festa de igreja) de Santo Antonio. Tinhamos uns 15 anos, só que ela aparentava mais pois era um mulherão, linda de morrer! Quase não acreditei que estivesse me paquerando. Percebi que ela estava fumando e mandei alguém entregar a ela uma maço de cigarros MINISTER onde escrevi o número de meu telefone. Ela mandou o maço de volta com seu número escrito, também.
Eu era tão tímido que esperei que ela ligasse primeiro, dois dias depois e a partir daí, começou nossa paixão que rolou por mais de dois anos.
Além de tímido, era ingênuo também. Antes de nosso primeiro contato íntimo ela me alertou que nao era mais virgem, pois quando era pequena "machucara-se" ao pular uma cerca de bambús. Acreditei piamente e dei graças ao bambu...
A mãe dela, Dona Rita me adorava: "Até que enfim minha filha arrumou um moço direito!" e fazia de tudo para me agradar, principalmente comidas bem deliciosas.
Discretamente ela ficava o tempo todo na sala, tricotando e assistindo à TV, em som bem alto para não atrapalhar nosso namoro na área da frente. Esticávamo-nos em uma espécie de sofá e ali ficávamos trocando calientes carícias; no tempo da mini-saia as distâncias eram curtas...
O murinho da área era alto o suficiente para que ninguém nos visse da rua. Numa certa noite muito fria, enrolados em um cobertor estávamos naquele "mucumucu-vucuvucu" quando Lurdinha deu um grito: "Dérso, que você tá fazendo aí?!" Dérso era um rapaz meio idiota/tarado que andava pelas ruas amolando as pessoas. O Rapaz disse com sua voz fanhosa: "Tua tia mandô avisá que o Sô Varisto morreu e que ela precisa da ajuda docêis pra arrumá o morto..."
A Lurdinha abaixou as saias e levantou chorando: "Mãe, o Tio Evaristo morreu!" Foi aquela choradeira e corre-corre. Quando nos preparávamos para sair (a tia dela morava dois quarteirões acima) minha namorada me falou: "Perdi minhas calcinhas, não está no cobertor e nem no chão da área, acho que o "Derso" pegou ela!"
Chegamos na casa da tia e lá estava o rapaz com aquele olhar bobo/safado. O caixão veio e enquanto as mulheres lavavam o morto, fui conversar com o rapaz: "Dérso, devolva a calcinha que você pegou se não vai levar pau..." Ele, mostrando a ponta da lingerie que estava em seu bolso, repondeu: "Só se você me der dez conto." Dei a ele os únicos dez cruzeiros que eu tinha mas recuperei a peça. Escondi-a no bolso da calça e fui ajudar a arrumar o defunto.
Eu e o Dérso fomos encarregados de apanhar as margaridas do jardim para cobrir Tio Evaristo e enquanto ajeitávamos as flores, o safado voltou à carga, falando baixinho: "Óia aqui, se você não me der mais dez conto eu te entrego prá Dona Rita. Falo que a carcinha tá no teu borso..." Não tinha mais dinheiro nenhum e vociferei para ele: "Cachorro, sem vergonha! Vou buscar mais flor e depois eu vejo se arrumo o dinheiro." Ele repondeu: "Vai não, se você sair lá fora, vai se livrá da carcinha..." Sem alternativa, propuz a ele: "Então vai você e traga bastante margaridas"
Enquanto ele estava lá fora, ocorreu-me uma idéia: sem que a pessoas percebessem, enrolei e enfiei as calcinhas por baixo dos pés do defunto. Caprichei na decoração dos pés, cobrindo-os totalmente com as margaridas. Saí lá no jardim e mostrei para o "Dérso" que o plano dele havia furado pois me livrara do objeto do crime. Pequei um pedaço de pau e puz ele para correr: não voltou nem para o enterro.
Enquanto durou o velório e a cada vez que um parente ia chorar aos pés do caixão, eu, piedosamente o conduzia para a cabeceira... Grande alívio quando fecharam o caixão. Somente contei para Lurdinha quando suas calcinhas já estavam na cova.
A Dona Rita era mestre em cuscuz e vou passar a receita original com alguns incrementos de minha autoria
CUSCUZ DE CAMARÃO: 250 gramas de camarão miúdo (sete barbas); azeite de oliva; 1 cebola grande ou 2 médias picadas; 3 dentes de alho; 1 caixa pequena de molho de tomate; 1 colher (chá) de páprica picante ou pimentão vermelho refogado; 1 cubo de caldo concentrado de peixe ou de camarão; sal e pimenta a gosto; 3 colheres (sopa) de molho inglês; salsa ou coentro picadinhos; 1 prato (fundo) cheio de farinha de milho (3/4) e farinha de mandioca crua (1/4); azeitonas picadas; ervilhas ( frescas ou em lata); 1 vidro pequeno de palmito picado em rodelas (deixe algumas para decorar); 4 ovos cozidos; rodelas de tomates para decorar.
Refogue a cebola e o alho no azeite (5 colheres) até que a cebola fique transparente. Junte o molho de tomate e deixe ferver. Junte o caldo de peixe, a páprica, a pimenta , o sal e o molho inglês. Prove o tempero, lembrando-se que o sal do molho terá que salgar também as farinhas. Deixe ferver por 5 minutos e acrescente a ervilha, o palmito e o camarão. Deixe cozinhar por mais 7 minutos (mais que isso, o camarão perde a textura). Junte a salsa e as azeitonas e pique um ou dois ovos cozidos, mexa bem. Despeje as farinhas sobre o molho e mexa bastante (use uma panela de boca larga). Vá acrescentando água morna, aos poucos, até dar o ponto e a farinha tenha gosto de cozida. Acrescente mais azeite para dar liga. Unte uma forma de buraco no meio com azeite e decore o fundo e os lados com rodelas de ovo cozido, tomates, palmito, ervilhas e azeitonas. Coloque a massa na forma, comprimindo bem com as mãos para ficar bem consistente. Vire o cuscuz numa travessa e sirva.
OBS: no lugar do camarão, pode-se usar atum ou sardinha ou linguiça, ou berinjela ou frango desfiado e refogado.
Os 10 anos em que eu morei em Brasília foram a base de tudo o que se seguiu em minha vida particular e profissional. Mesmo passados tantos anos, a influência desse período é muito forte fazendo-me pensar que tudo aquilo ocorreu ainda recentemente. Fui prá lá com 25 anos, nomeado para um cargo importante que para muitos era um sonho impossível. Conheci muitos personagens interessantes, tanto na Capital Federal como no Brasil todo, pois viajava muito. Lembro-me de Glaucyra Beltrão, uma coroa carioca, feia como a caipora mas respeitadíssima; não pela função que ocupava, assessora não sei de que, mas pela função que exercia, a de cafetina de luxo dos meios político e social de Brasília. Ninguém ousava contrariá-la pois todos tinham "o rabo preso com ela".
Promovia festas quase todas as noites a pedido dos diretores, empresários, deputados, etc...Seu papel nessas festas e jantares era o de arregimentar garotas bonitas e disponíveis para distrairem os figurões convidados.
Meu amigo Tadeu, um gaúcho irreverente e "bon vivant" era frequentador assíduo dessas recepções. Dono de um bigodinho e cavanhaque indecentes, estava sempre se intrometendo nas festas, mesmo quando não convidado.
Uma certa ocasião, a Glaucyra foi contratada como "promoteur" de uma recepção séria, aniversário de nosso presidente, e dessa vez, estariam presentes todas as esposas dos convidados. Tadeu, recém chegado de uma de suas viagens, soube da festa mas nem perguntou o motivo: compareceu e tentou, o tempo todo, estar ao lado do presidente para "puchar o saco". Lá pelo meio da noite, já meio "banzé", percebendo que as mulheres não tinham nada de gatas, comentou com o presidente e com alguém mais que estava ao lado: "Putz, que mulherada feia! Desta vez a Glaucyra castigou, hein?"
Apontandou para uma mulher gordinha e baixinha que vestia uma roupa estampada, disse:"Olha aquela perua alí, mais parece um porquinho da India!" A Glaucyra, que estava por perto, ouviu o comentário e acorreu, toda nervosa: "Tadeu, você é mesmo um intrometido e inconveniente... pois fique sabendo que aquela senhora é a Dona Florinda, justamente a esposa de nosso presidente!"
O presidente não comentou nada, limitando-se a ficar vermelho mas já na segunda-feira seguinte, meu amigo perdeu a função e foi despachado de volta aos pampas gaúchos, de onde nunca deveria ter saido...
Sempre fazíamos churrasco no clube de nossa empresa e o Tadeu tinha a mania de querer comandar a churrasqueira. Dizia que só os gauchos eran especialistas nisso mas era um desastre pois bebia muito e deixava queimar tudo. Certa vez preparou uma manta de costela envolta em farinha que acabou virando carvão. Mais tarde, aprendi uma costela de porco empanadas na farinha que fica uma delícia e dou a receita:
COSTELA DE PORCO EMPANADA: Compre uma manta inteira de costela suína. Peça ao açougueiro para quebrar. horizontalmente. os ossos em dois ou três lugares (sem separar da carne). Tempere com bastante alho, cebola, azeite, sal, louro, limão, molho inglês e pimenta e deixe pelo menos por 1 hora. A seguir, estenda uma folha de papel alumínio (que dê para embrulhar a costela)sobre uma assadeira grande. Espalhe bastante farofa temperada (aquelas de pacotinho) sobre o alumínio, coloque a costela por cima e vá envolvendo-a na farofa, dos dois lados (como um bife à milanesa). Embrulhe-a no papel alumínio e leve para assar em forno médio. Quando estiver macia, retire o papel e deixe dourar. Sirva com arroz, feijão e batatas fritas. Agrada a todo mundo, com certeza!
Ainda bem que temos o amanhecer. FELIZ 2008!!!!!! [ 5 comentários aprovados]
No Reveillon de 2001, estava nos Estados Unidos, na casa de minha filha. Havia dias que nevava e ventava muito, fazendo um "frio de congelar rabo de cachorro!" Fui incumbido de preparar o assado e a sobremesa para a ceia e logo de manhã comecei os preparativos. Enquanto eu assava o bolo, saia a todo momento para fumar (sou inveterado) e admirar os enormes flocos de neve que caiam mansamente.
Antes de sair para o trabalho, minha filha deu-me duas recomendações: não falar com os vizinhos pois que eles não se "bicavam" e tomar cuidado com o sistema de alarme pois qualquer fumaça ou calor maior acionaria o corpo de bombeiros e se o alarme fosse falso, teríamos que pagar uma multa de 300 dólares.
Lá pelo meio dia, o bolo já estava pronto, lindo, todo enfeitado com glacê e morangos. Coloquei-o numa bancadinha de granito, bem debaixo da vidraça da cozinha e fui cuidar do assado. Liguei o forno no máximo pois o pernil era dos grandes e saí para fumar novamente. Por lá é costumeiro ter duas portas na cozinha, uma de madeira e outra "mosquiteiro". Como as tragadas seriam rápidas, saí sem o casaco, apenas com um cachecol. Aconteceu que a porta se fechou, com o trinco de trava virado e lá fiquei eu trancado prá fora, num frio de 30 graus negativos.
"Maldito vício, e agora, que fazer?!" Forcei todas as portas e janelas mas estavam perdidamente cerradas para mim. Tentei proteger-me num chalezinho do quintal onde meu genro guarda seus apetrechos esportivos mas, sem aquecimento, era mais frio que lá fora.
Sai pela rua e entrei no Duty Free da esquina. Comprei um Malboro Light, tomei um café horroroso servido num copo enorme e fiz horas por alí até quando a dona começou a olhar feio. Saí, mesmo porque não tinha mais dinheiro para comprar nada.
Bem; encurtando a estória, depois de umas três horas fiquei desesperado pois os pés estavam formigando, o nariz e orelhas não podiam ser tocados com perigo de se quebrarem. Olhei para o pequeno vitrô da cozinha e pensei: é melhor comprar outra janela que morrer congelado. No momento em que ia bater a barra de ferro na vidraça, ação que iria me salvar mas inevitavelmente, destruir meu bolo que estava bem embaixo, ouvi o alarme disparando: "Meu Deus, o assado deve estar queimando e enfumaçando a cozinha!"
Assim como Marta, pensei eu, abaixando o ferro: "relaxe e goze..." Em questão de minutos os bombeiros (eram em seis) chegaram, naquele estardalhaço. Antes que esticassem as mangueiras, consegui explicar o ocorrido. Com suas ferramentas, abriram a porta, desligaram o alarme e acionaram o sistema de ventilação. Antes que eles me dessem uma lição de moral ou multa, ofereci um pedaço do bolo que realmente tinha uma aparência apetitosa. Não só aceitaram como devoraram quase o bolo inteiro.
Enquanto entrava na banheira de água quente pensei, aliviado: "Dessa eu me safei mas e agora, como fazer com a sobremesa?" Resolví fazer às pressas um pudim de claras e com as gemas, preparei um quindão que ficaram prontos quando os convivas já estavam chegando.
De qualquer forma foi um sucesso e vou passar as receitas:
PUDIM DE CLARAS COM DAMASCOS: 12 claras; 24 colheres de açucar; 1 colher (chá) de pó royal; 2 colheres (sopa) rasas de maizena; damascos ou raspinhas de limão. Bater as claras em neve (numa vasilha grande), colocar o açúcar aos poucos, o fermento, a maizena e os damascos (afervente-os, antes, em água com açucar e bata no liquidificador até formar uma massa) ou as raspinhas de limão. Bater bastante, por uns 10 minutos. Unte uma forma grande (de buraco no meio)com margarina e açúcar. Assar em "banho-maria" e desenformar ainda quente, espalhando por cima um creme de baunilha. Creme de baunilha: 1/2 litro de leite; 1 gema desmanchada no leite frio; 4 colheres de açúcar, 4 ou 5 gotas de baunilha e 2 colheres de maizena desmanchada em um copo de leite frio e acrescentada à mistura um pouco antes da fervura. Mexer bem.
QUINDÃO: 12 gemas mais dois ovos inteiros; 3 colheres cheias de manteiga ou margarina sem sal; 2 xícaras de açúcar; 1 pacote de coco ralado (ou Flococo). Misturar todos os ingredientes, sem bater e levar ao forno em forma untada com bastante manteiga e polvilhada com açúcar. Assar em "banho-maria"
Como eu disse na crônica abaixo, as comadres Gilda e Laura (minha tia) eram íntimas amigas e vizinhas de muitos anos. Eram tão amigas que quando foi inaugurada a segunda etapa do cemitério local, resolveram comprar túmulos vizinhos. Três: um para a Gilda, outro para a Tia Laura e o terceiro para o Tio Joaquim. Mandaram construir uma espécie de altarzinho (com local para fotografias) nas cabeceiras dos túmulos, encimados por um cruz.
Mas, como não há mal que sempre dure e nem bem que não se acabe", certo dia essa forte amizade acabou-se e de forma trágica. Surgiu, não me lembro como, na casa de meus tios, um novo morador chamado de Toniquinho. Parece-me que era um conhecido antigo que ficou sozinho na vida e sem ter onde morar, foi acolhido pelo meu tio e adotado pela família. Era muito educado, fino mesmo e nem tão velho assim...
Para compensar a boa acolhida, ele fazia de tudo na casa, inclusive ajudava minha tia a arrematar as roupas; cerzia os bolsos nas camisas, pregava os botões e caseava (fazia aqueles buracos de enfiar os botões). Tanta eficiência acabou por despertar ciúmes na comadre Gilda que começou, maldosamente a espalhar no bairro que sua comadre e Toniquinho eram amantes...
Tamanha "fofoca" girou rápido e logo chegou aos ouvidos de minha tia. Prá quê!! De repente, aquela santa mulher virou uma "serial Killer" e armada de uma enorme foice foi tirar satisfações com a vizinha. Gilda estava na janela, aliás, parecia-me que ela nunca tinha nada para fazer pois, se não estava na casa dos outros, ficava de braços cruzados na janela.
Minha tia, da calçada, riscava o corte da foice no cimento até soltar faíscas e chamava a outra para fora: "Vem cá, sua vaca, eu vou cortar tua língua! Saia aqui fora se for mulher." A Gilda de lá respondia: "Vaca és tu... Vaca de dois touros! Tia Laura azulou, pulou o muro disposta à carnificina. A mulher fechou a janela apressadamente mas minha tia estraçalhou a madeira com a foice.
Enquanto tentava pular a janela, meu tio e mais alguns vizinhos tentaram segurá-la mas ficaram com as saias nas mãos. Tia Laura entrou e lá de dentro só se ouviam gritos desesperados. Quando conseguiram conter minha tia, encontraram a Gilda esparramada no chão, deitando sangue pela rosto. Fora atingida com o cabo da foice, num golpe tão forte que abriu-lhe um "rombo" na testa.
Chamaram a perua do SAMDU (ambulância da época) e levaram a Gilda que voltou mais tarde com um vários pontos e um curativo enorme na testa. As duas nunca mais se falaram.
Morreu minha tia, morreu o Toniquinho e alguns anos mais tarde, foi-se também o meu tio Joaquim. A Gilda sobreviveu, ainda, por mais de trinta anos e morreu daquela maneira que eu relatei na crônica do dia 17/11. Fui ao seu enterro e o que me chamou a atenção, além do episódio do velório, foi o fato de que seu túmulo fora transformado: O altarzinho saiu da cabeceira do túmulo e foi reconstruído nos pés, de costas para as fotos de seus antigos desafetos.
Como receita de hoje, em homenagem às sopas que minha tia fazia para "seus velhos" vou passar a:
SOPA DOURADA (DE ABÓBORA) : 2 kg de abóbora madura e picadas; 2 cubos de caldo de galinha; 1 peito de frango; 2 colheres (sopa) de margarina; 1 cebola picada; 1 lata de creme de leite (sem o soro); folhas de couve rasgadas. Cozinhe o peito de frango em 1 litro de água e 2 tabletes de caldo de galinha. Desfie, grosseiramente, o peito e reserve. Na água do caldo, cozinhe os pedaços de abóbora (10 minutos na panela de pressão). Bata a abóbora no liquidificador com um pouco do caldo e volte ao fogo. À parte, refogue o frango desfiado com 2 colheres (sopa) de margarina e a cebola batidinha. Junte o refogado de frango ao caldo de abóbora. Rasgue algumas folhas de couve e misture na sopa. Acrescente mais sal, se necessário e quando a couve estiver cozida, acrescente o creme de leite. Misture levemente e sirva com torradas ou queijo ralado. É divina!!!
Lembro-me da Gilda (aquela que morreu duas crônicas abaixo, dia 17/11) desde eu criança.
Era vizinha e comadre de minha tia Laura. As duas, nas horas de folga, costuravam para os pobres. Tia Laura cortava e costurava as peças e a comadre Gilda arrematava, enquanto tagarelavam e ouviam as novelas de rádio. Nós, crianças ficávamos à volta, brincando com as tiras de panos e prestando atenção às novelas: "...sob o patrocínio de Colgate-Palmolive, ouviremos agora Anita, a Italianinha" ou então:´...do original de Felix Caignet, O Direito de Nascer." Terminada uma novela elas mudavam para outra Radio (Nacional, Mayrink Veiga, Tupi) e assim transcorria a tarde toda até a hora que meu tio Joaquim chegava da "Sub-Estação de Força e Luz", onde trabalhava.
Antes do banho ele costumava ir ao quintal, enorme e cheio de jaboticabeiras para tratar de seus frangos, seus não, de Santa Terezinha do Menino Jesus, já que ele os criava apenas para ofertar como prendas na quermesse da Santa. Todo ano, na semana da quermesse, minha tia matava, recheava e assava em seu forno elétrico, 12 frangos que seguiam para a barraca da igreja. Assim, douradinhos, com as coxas enfiadas no rabo e enfeitados com rodelas de tomate, ovo cozido e azeitonas davam água na boca mas não tínhamos direito sequer a um pedacinho; iam todos para a Santa.
Numa manhã de sábado estávamos nós brincado de jogar pedras nas jaboticabeiras quando meu primo acertou uma pedrada na cabeça de um dos frangos. O bicho deu um pulo e caiu, estrebuchando-se no chão. Começamos a gritar mas quando minha tia e a comadre Gilda acudiram, a ave já estava morta. Minha tia ficou apavorada: "Meu Deus, um dos frangos de Santa terezinha! O Joaquim vai ficar possesso, é até capaz de matar o menino por causa disso..."
A Gilda, mais prática e fria disse: "Comadre, vamos enroscar o pescoço do frango na forquilha da jaboticabeira e dizer ao compadre que o frango escorregou durante a noite e se enforcou." Meu tio ficou bastante aborrecido mas, o quê fazer?! "Laura, mande os meninos enterrarem o frango, não dá para aproveitar, a gente não sabe há quanto tempo ele está morto..." A Gilda fez um sinal para nós, dando a entender que era para levar a ave para sua casa.
Enquanto ela depenava o bicho, dizia: " O frango está fresco ainda, vamos comê-lo, ensopado mas não conte nada para a cumadre Laura, hein!" Minha tia havia feito um delicioso quibe de forma que nós recusamos, para seu espanto e mais à tarde pudemos matar a vontade que sempre tivemos de comer um dos "frangos de Sta. Terezinha". A receita de hoje será o delicioso quibe de forma da Tia Laura.
QUIBE DE FORMA: 200 gramas de trigo; 1 kg de carne moída; bacon ou toucinho picado miudinho; folhas de hortelã; cebola picadinha ou ralada; azeite de oliva; sal e pimenta a gosto. Deixar o trigo de molho (pelo menos por duas horas). Espremer bem e misturar os demais ingredientes. Assar em forma ou pirex. Servir com fatias de limão ou coalhada.
O grande trauma da vida de Virgínia foi o de não poder usar papel higiênico durante toda a infância. O pai achava que era supérfluo e a família toda tinha que usar papel de embrulhar pão ou jornal, os quais ficavam pendurando em um fino arame ao lado do vaso sanitátio. Contou-me ela que saia do banheiro com a bunda manchada de tinta preta dos jornais vagabundos e como ela era bundudinha, às vezes com o decalque de manchetes inteiras dos jornais.
Cresceu, ficou moça e bonita... Passou num concurso federal e fez carreira como fiscal do governo, com ótima remuneração. Nunca se casou, aposentou-se relativamente jovem e sempre morou sozinha. Viajou e namorou muito, sabendo aproveitar os prazeres da vida. Seu apartamento era um primor em matéria de conforto e decoração e talvez, como reflexo de seu trauma de infância, comprava pacotes e mais pacotes de papel higiênico, todos coloridos e perfumados.
Se as toalhas de rosto e de banho eram azuis, o papel higiênico também era azulzinho; se salmão, o papel era cor de pêssego, ou verdinho, ou rosinha e assim por diante. Ela gostava de comer bem e frequentava todos os restaurantes da cidade variando, assim, os tipos de comidas e temperos. Ocorreu que, sem mais nem menos, ela começou a sentir pruridos anais, ou seja, coceiras no "fiofó". Ficou exasperada, a ponto de passar a visitar todas as cozinhas dos restaurantes para especular sobre os temperos que os cozinheiros usavam, pois achava que alí estaria a origem de seus problemas. Reparou também que quando ia à Sao Paulo ou à Campinas, na casa de seus irmãos, as coceiras sumiam.
Num final de semana recebeu a visita de uma amiga e ambas foram almoçar em um restaurante de comida mineira, cuja especialidade era diferentes pratos suínos. À noite, sua amiga reclamou de coceiras no "fiofó" dela também e Virgínia deduziu: "Só pode ser a carne de porco". Noutro dia, foram jantar num restaurante macrobióticos mas, que nada! Na segunda-feira, ambas estavam esfoladas de tanto se coçarem.
Seu irmão de São Paulo, clínico geral, receitou-lhe remédios para tudo quanto era protozoários flagelados ou "bichas" (oxiúris, Taenia, Áscaris, Giárdia,etc...) e nada! Ela chegou até a roer carvão pois um amigo, veterinário, disse-lhe que ajudava a limpar o aparelho digestivo.
Seu irmão de Aguaí, protético/dentista, tinha uma secretária muito esperta que acabou dando o diagnóstico certo para minha amiga. Ouvindo as lamúrias de Virgínia para seu irmão, intrometeu-se na conversa e perguntou: "Dona Virgínia, de que cor é o papel higiênico que a senhora usa?" A princípio os dois ficaram admirados com a pergunta, mas Virgínia respondeu: " De todas as cores, tem verdinho, tem rosinha, tem azulzinho... todos perfumados!"
A moça foi categórica: "Tá aí a causa; a senhora é tão informada e não sabe que a ANVISA proibiu a comercialização desses papéis?! Ficou provado que provocam irritações e outros danos."
Resolvido o problema, minha amiga foi até ao supermercado, devolveu os diversos pacotes que ainda tinha e obrigou o gerente a recolher todo o estoque das prateleiras, sob pena de denúncia. Conseguiu, finalmente, deixar as unhas crescerem...
Bom, acho que vou ensinar algumas formas de se fazer rabos... de porcos! São bem mais higiênicos e saborosos do que os pastéis que vocês comem nas feiras ou os quibes das esquinas da vida.
RABO COM MANDIOCA: Cozinhe os pedaços de mandioca à parte, com água e sal, reserve. Numa travessa de vidro, tempere os rabos de porco (cortados nas juntas) com sal, limão, alhos espremido, cebola batidinha, azeite, louro e pimenta à gosto. Numa panela de pressão, frite os pedaços em azeite e vá pingando água fervente, aos poucos até ficar bem amarelinhos. Acrescente 4 tomates picadinhos, 1 colher de extrato de tomate (aquela antiga, da latinha pequena) o resto do tempero que ficou na travessa e água fervente até cobrir os pedaços. Tampe a pressão e cozinhe por uns trinta minutos. Junte as mandiocas pré cozidas (pode ser mandioquinha salsa, também), um pouco de cheiro verde 1 cebola à juliana e misture bem (tem que ter um pouco de caldo). Sirva com arroz branco e couve picadinha, cozida.
RABO AO VINAGRETE: Cozinhe, na pressão, os rabos e pés de porco (peça ao açougueiro para cortar os cascos) em água, sal e folhas de louro, até ficarem bem macios. Escorra bem e tempere com vinagrete (cebola e tomates picadinhos, salsa, azeitonas picadas, azeite de oliva, vinagre e água e sal a gosto).
RABO NO FEIJÃO: Corte os rabos pelas juntas e cozinhe-os com o feijão e 2 folhas de louro. Depois de cozido, tempere normalmente o feijão.
E CHEGA DE RABO!
A Gilda morreu por volta das 3 horas da manhã de um domingo. Havia dançado a noite inteira no forró da velha guarda e, à pé, subiu o morro do São Lázaro até chegar a sua casa. Não teve tempo nem de remover a pesada maquilagem ou de tirar o vestido de soirée.
A Zilda, por sua vez, morreu por volta das 7:30 da manhã daquele mesmo domingo. Havia rezado bastante na missa das seis e, à pé, subiu o morro do Perpétuo Socorro até chegar a sua casa. Não teve tempo nem de lavar a louça do café ou de tirar o discreto vestido de "ver Deus".
Gilda casou-se muito jovem, levada pelo "furor uterino" que sempre a acompanhou, desde a menarca (lembram-se dessa palavra?). Após o nascimento de seu quarto filho, o marido faleceu, eletrocutado em cima de um poste, pois que trabalhava na "Cia. de Força e Luz".
Nunca mais arrumou outro marido mas teve vários amantes até a sua morte, aos 82 anos. O último deles,o Dodô Goiaba (vendia goibas na rua, com um carrinho de pedreiro) era um pouco mais novo e alcoólatra, batia nela e ainda torrava toda a pensão que a mulher recebia do finado marido. Os filhos viviam brigando com a mãe e enxotavam o velho safado da casa deles. Tanto fizeram que Gilda largou tudo e foi morar com o amante numa casinha de dois cômodos.
"Faço de tudo mas não vivo sem homem" dizia ela.
A Zilda, por sua vez, demorou muito para se casar; seu desejo era ser freira, porém, lá pelos 25, cedeu à insistência de seu Jacinto, viúvo com três filhas e dono de um pequeno açougue. Tiveram mais quatro filhas e ela deu um duro danado na vida para criar as 7 meninas, cuidar da casa e ainda ajudar o marido no açougue. Pior ficou quando "seu" Jacinto morreu com uma chifrada de boi que lhe furou o pâncreas.
Ela resolveu tocar o açougue sozinha e assim, levantando todo dia às três da matina, destrinchando bois, enchendo linguiças e fazendo torresmos ela conseguiu criar as filhas até o ponto em que elas conseguiram ajudá-la também.
Bom, mas as duas senhoras morreram no mesmo dia e foram vizinhas de velório.
Na sala onde estava o esquife de Gilda, tudo era gritaria e choro exagerado. Só se ouvia imprecações contra Deus e discussões entre os 4 filhos e netos, os quais quase derrubaram o caixão em demonstrações exageradas de desespero.
Na sala onde estava o esquife de Zilda, tudo era silêncio e respeito. Apenas se ouvia de vez em quanfo um murmurejar de orações, um suspiro ou choro calmo de alguma das 7 filhas e netos, os quais não desgrudaram do caixão.
De repente, irrompe na sala de Zilda o velho Dodô Goiaba, tão bêbado que nem percebeu que entrara no velório errado. Abraçou o caixão de Zilda desandou a gritar: "Gilda, meu amor! O quê aconteceu com você, minha velha?! Ainda ontem nós dançamos prá burro e agora tá aí, branca como um bicho de pau-podre!" As filhas da santa defunta ficaram pasmas, quase que sem ação. A mais velha recuperou-se mais rapidamente e disse, de uma forma educada, ao bebum: "Meu senhor, essa defunta é a Zilda,minha mãe, o velório da Dona Gilda é na sala ao lado."
O velho, num olhar estrábico-etílico contestou, babando: "Como não é a Gilda? Se fui amigado dela por cinco anos não vou reconhecer?! É ela sim; só falta o batom de puta. Passa batom nela prá ver se melhora essa cara de coruja." A platéia ficou silente (gosto desta palavra) até que um dos parentes conseguiu colocar o Dodô prá fora.
Entrou na outra sala e recomeçou: "Ahá, te achei, sem vergonha! Queria ser enterrada sem me ver, né?" E deu corda à falsa cantilena de desespero até que um dos filhos da Gilda deu um sopapo no homem, vociferando: " Que você veio fazer aqui, seu safado? Já não chega o tanto que explorou minha mãe?!"
O velho pensou um pouco e arrematou: "Olha aqui... eu não gostava dela mesmo e vocês vão todos tomar no c. E... ó, vejam se enterram logo essa velha nojenta que ela morreu sem tomar banho!." Deu as costas e saiu cambetiando, não sem antes levar um pontapé na bunda.
Essa eu assistí e posso confirmar! E a receita de hoje, foi-me dada pela Gilda, num churrasco que fizemos em Passos/MG. É uma farofa super prática e saborosa:
FAROFA FRIA DA GILDA: Misture 2 copos de farinha de mandioca crua; 2 copos de farinha de milho; 1/2 copo de óleo ou azeite; 1/2 copo de limão tahiti; sal e pimenta do reino a gosto. Esfregue com as mãos, até as farinhas ficarem uniformemente misturadas e acrescente: 2 dentes de alho amassados e picados; 1 cebola bem picadinha; azeitonas, tomates e ovos cozidos picados; cheiro verde picado. Não mexer muito.
Conheço a Najla de longa data e apesar da grande diferença de idade, temos uma amizade atuante. Ela foi professora de piano por muito tempo, bastante culta, espirituosa e solteirona. Um dia perguntei-lhe o porquê de não ter se casado. "Sabe, João, acho que sou assexuada pois não gosto muito de homem não. Além de que, sempre fui muito independente e isso assustava os pretendentes da época. Apenas uma vez tive um namorico mais sério que só não resultou em casamento por causa de um repolho..." Meio pasmo, quis saber: "Essa você tem que me contar!" "Bom _ disse-me ela _ faz tanto tempo que já não tenho mais vergonha e vou dizer: Foi logo depois da Grande Guerra; um patrício de meu pai veio do Líbano e se engraçou por mim, com o apoio de meus pais. Achava ele horrível, todo peludo e nariz de batata mas, deixei as coisas rolarem, sem dar grandes esperanças.
Num domingo de Agosto, minha mãe resolveu fazer seus deliciosos "malfufs", uma espécie de charutinhos de folhas de uva mas, como as parreiras tinham sido recém podadas, não encontrou as folhas certas e resolveu fazer os charutos com repolho mesmo. Comi pelo menos uns dez charutinhos.
Enquanto meus pais faziam a sesta eu e minha prima sentamo-nos ao piano e comecei a executar o Requiem de Mozart. Dali à pouco, a fermentação de tanto repolho começou a fazer efeito e desandamos a soltar "puns". A cada "pum" solto, era uma gargalhada que dávamos e a partir daí resolvemos fazer uma adaptação na obra do "Amadeus":
Executava um trecho, fazia uma pequena pausa e eu ou ela acrescentávamos um "pum" e dependendo do timbre e duração, nós denominávamos _ é Flauta de Bico!
Mais um e definíamos _ é Trompete!
O terceiro, mais grave e longo _ É Contra-fagote!
Por fim, conseguimos soltar em uníssono, dois "puns" finos e estridentes que terminaram com um prurururur_ Dueto de cordas com maracas!
Saímos correndo para o banheiro mas paramos, petrificadas, quando vimos junto à porta aberta o meu batrício bretendente, vermelho como um tomate, sem saber se saia ou se entrava. "Jamil, desde quando você está aí?!" gritou minha prima. O rapaz, meio sem jeito e ainda tentando fazer um gracejo disse: "Desde que as duas limpavam o bico da flauta..."
"Trancamo-nos no banheiro e nunca mais quis olhar para o rapaz o qual, por sua vez, também, amarelou..." completou minha amiga.
Está claro que vou ensinar vocês a fazerem os charutinhos. Vamos lá:
CHARUTINHOS ÁRABES: PARA O RECHEIO - 2 xícaras (chá) de arroz lavado (deixe de molho, na água fria, por uns 40 minutos); 500 gramas de carne moída, de primeira; 1 cebola grande ralada; 3 dentes de alho picadinhos; 1 tomate ralado ou picado bem miudinho; folhas de hortelã e de salsinha picadinhas; 2 colheres (sopa) de azeite de oliva; sal e pimenta a gosto e meia nóz moscada ralada. Misture muito bem com as mãos e reserve.
FUNDO PARA AS CAMADAS - 700 gramas de ossobuco (músculo serrado com o osso), temperado com sal, limão, pimenta, louro, molho inglês, alho e cebola batidinhos e três tomates picados.
ENVÓLUCROS DOS CHARUTINHOS - 40 folhas de parreira, das mais novas e clarinhas ou um repolho inteiro (com as folhas lavadas e cortadas ao meio). Retire os talos do centro e dê uma rápida fervura nas folhas (20 a 30 segundos).
Coloque o recheio nas folhas (com a parte mais opaca para cima), dobre as pontas da folha para dentro e enrole, sem apertar muito, pois o arroz vai cozinhar e crescer um pouco.
Numa panela de pressão grande, frite no óleo os pedaços de ossobuco com os temperos e os tomates picados. Acrescente água fervente (1 copo) e feche a pressão por uns 30 minutos. Se a panela de pressão for pequena, passe a carne cozida com o molho que se formou para outra maior. Sobre o ossobuco vá ajeitando os charutinhos, com a dobra para baixo e bem juntinhos para não se abrirem. Tampe (sem pressão) e cozinhe por uns 30 a 40 minutos, pingando água quente aos poucos.
Regue com azeite e sirva com fatias de limão. Não tem coisa igual!!!!!!!!
A pata nada, pa-ta-pá, na-da ná; O dado é da Dadá, da-do dá; A macaca é má, ma-ca-ca cá...
Naquele tempo, as crianças entravam para a escola somente após completarem 7 anos. Não existia maternal, prezinho e nem jardim da infância. Era direto para a primeira série e para a Cartilha Sodré, livro de alfabetização muito famoso, à época
A autora dessa obra chamava-se Benedicta Stahl Sodré mas eu sempre pensei que fosse o Abreu Sodré, famoso deputado e governador de São Paulo, da antiga UDN/ARENA...
Dona Elza Zogbi foi minha primeira professorinha, doce de criatura! Ela morava no centro da cidade, numa residência estilo mourisco que hoje percebo, não era tão grande assim. Mas para o menino da época, era um palacete. Pelo meu bom comportamento fui convidado para conhecer sua casa e compartilhar de seu chá da tarde. Mamãe vestiu-me com o terninho branco de linho da primeira comunhão, gravatinha borboleta e "brilhantina glostora" no cabelo (Meu Deus!).
Lá pelas 5 horas da tarde descia eu, sozinho, a rua "do feijão queimado" (por ali passavam todos os enterros e as donas de casa, a pretexto de assistirem à passagem fúnebre, deixavam queimar as panelas).
Havia chovido e pouco antes de chegar à Avenida, escorreguei na calçada de terra e cai sentado numa poça d`água. Fiquei com as mãos enlameadas e a bunda suja de barro. Sem saber o que fazer, começei a chorar (como era fácil chorar!). Não poderia me apresentar assim no chá de D. Elza e se voltasse pra casa, meus amigos que certamente estariam todos na rua àquela hora, iriam gozar de mim, vestido de anjo, sujo e chorando. Desci a Rua Olaia e fui direto para a casa de minha avó Vitta, nos consfins da Rua Riachuelo e quando lá cheguei, a chuva começou novamente.
Menti para minha avó que minha mãe sabia que eu estava na casa dela e à noite viriam buscar-me. A velhinha acreditou e fez para mim chá de erva cidreira com limão e fritou seus deliciosos "bolinhos de chuva com bananas" A chuva apertou e tranformou-se em "toró" com o cair da noite. Fiquei com medo, pois a casa de meus avós era encostada a um córrego e quando dava enchente, a casa ficava inundada. Desandei a chorar, apavorado pela chuva e também pela mentira. Tanto que acabei por adormecer.
Minha "nonna" ajeitou-me no velho bercinho que serviu a todos os seus 11 filhos (inclusive a meu pai) e ficou aguardado meus pais chegarem. E eles chegaram... Furiosos quando me viram, pois já haviam rodado as casas de todos os parentes, inclusive da professorinha, à minha procura. Meu pai Paschoal arrancou-me do berço e quis bater em mim, alí mesmo, mas o "nonno Beponne" não deixou: "Lascia il bambino, Pascuale! Poverino, stà a dormire!"
Mas que nada, levou-me debaixo de chuva mesmo e enfiou-me na Chevrolet 54, ruminando "juras de vingança". Chegando em casa, enquanto meu pai guardava o veículo e fechava o portão, mamãe, apavorada, enfiou-me na cama, cobriu-me com vários travesseiros e jogou por cima um cobertor bem grosso (ainda bem que estava muito frio naquela noite), recomendando: "Cubra a cabeça e grita feito um cabrito toda vez que ele der as pancadas".
O velho entrou espumando, com o relho de "rabo-de-tatu" na mão (era uma espécie de chicote de bater em animais) e iniciou a pancadaria. A raiva era tanta que nem percebeu o subterfúgio armado pela extremosa mãezinha. Salvo uma ou outra fisgada nas orelhas, saí-me ileso mas o susto foi tão grande que acordei de manhã com febre de 40º e como "prêmio", não pude ir à escola por uns três dias.
Nunca mais vesti o maldito terninho de linho mas os bolinhos de chuva de minha avó, eu faço até hoje e copiem aí pois é muito fácil a receita:
BOLINHOS DE CHUVA COM BANANAS: 3 ovos inteiros; 3 colheres (sopa) de açúcar; 1 pitada de sal (1/2 colherinha de café); 1 copo de leite (mais ou menos); 1 colher (chá) de pó royal); 3 bananas bem maduras em rodelas e farinha de trigo até o ponto de pegar com a colher e pingar na gordura quente (ajudando a empurrar com os dedos). Fritar e escorrer. Se preferir, troque as bananas por pedacinhos finos de goiabada.
Salpicar bastante açúcar e canela. Espere chover e sirva com chá ou café.
Dona Natércia aposentou-se do GEIPOT (um órgão público, em Brasília, que servia não sei prá quê) e foi morar em um sítio em Santo Antonio do Descoberto à 3 horas de viagem de Brasília. Literalmente, arrastou seu marido junto e lá foram viver. Seu marido, Lourenço, era um sargento reformado do exército, em plena forma física mas completamente submisso à esposa, goiana forte e decidida.
No sítio tudo era muito tosco mas eles gostavam de viver assim: pé no chão, fogão à lenha, roça de milho, água de mina, sem telefone, queijo caseiro, gerador de eletricidade, etc.
Íamos sempre prá lá nos feriados e finais de semana e a primeira coisa que fazia era ir ao galinheiro pegar um frango e catar pequí para que ela fizesse seu famoso "frango caipira com pequí". Perguntei à ela por que seus frangos eram todos pretos (davam um trabalho para limpar!): "Juão (era assim seu sotaque), pinto branco o gavião enxerga de longe e não sobra um prá contar estória..."
Certo dia, ao chegarmos ao sítio, encontramos uma nova moradora e D. Natércia foi logo apresentando: "Juão, essa aí é a Núbia. A mãe deu ela pra mim pois está numa idade perigosa e os primos já estavam dando em cima dela." Peguei na mão da moça, uma bugrinha de uns 15 a 16 anos muito bonita, de uma cor acobreada e longos cílios pretos. Ao apertar suas mãos senti que elas queimavam e apesar de manter o olhos abaixados, percebi que lançavam faíscas.
Mais tarde comentei com a dona da casa: "D. Natércia, a senhora não tem medo que a menina arrume algum rolo" Ela deu de ombros e falou: "Que nada, eu estou dando salitre pra ela tomar e acalmar o fogo; de mais a mais, por aquí não tem homem pra assanhar ela" Eu redargui, malicioso: "E o Lourenço, não é homem!? Ela fez um muxoxo de escárnio: "Aquele ali, coitado, já é gavião sem bico... se não dá conta nem de mim, como vai aguentar ela mais eu!."
Bem, naquela noite fomos dormir por volta de nove horas, pois lá não existia jornal nacional e nem novelas. Por medida de segurança, a moça dormia num cômodo externo, próximo ao banheiro e durante a madrugada, sentindo vontade de fazer "xixi", fui lá fora. Percebi luz no quartinho da Núbia e ouvi sussurros.
Não resisti à vontade de espiar pelas frestas da velha porta e para minha surpresa, visualizei dois corpos, em pé, agarrados. Pensei, admirado: "Meu Deus, algum dos primos veio pelo faro!" Olhando com mais atenção, vi que o cara ainda estava de cuecas, daquelas tipo "samba canção", compridas, folgadas e de listras azuis e brancas. Como não tenho vocação para voyer, voltei para a cama.
No dia seguinte, enquanto D.Natercia lavava a roupa, eu e o lourenço ficamos na varanda, conversando e observando a mulher trabalhar.
De repente, no varal cheio de roupas recém lavadas percebi a cueca de listras azuis e brancas e, num rompante perguntei: "Lourenço, aquela cueca é tua?" Ele respondeu: "É minha, sim, porquê?" Fiquei meio constrangido mas consegui acrescentar: "Você não tem vergonha de usar uma coisa feia daquela!?" O safado ainda fez um comentário malicioso: "Eu gosto de cuecas bem folgada pois pinto sôrto cresce mais depressa..."
Aprendi a fazer muita coisa com D. Natércia, como queijo cozido com ervas, pão de queijo, broa de fubá, capivara, pratos com pequi, etc e vou passar uma receita bem prática e gostosa:

ROSCA DE NÓZ MOSCADA: Bater, no liquidificador 1 lata de leite condensado; 4 tabletes de fermento fleschman (mais ou menos 60 gr); 1 copo de água morna; 5 ovos inteiros; 1/2 copo de óleo; 1 colher (sobremesa) de sal e 1/2 nóz moscada ralada. Misturar, numa bacia grande com a farinha de trigo (1 kg mais ou menos), aos poucos, até desgrudar das mãos. Sovar bastante para ficar leve e macia. Deixar crescer até dobrar o tamanho (1 hora, mais ou menos). Cortar a massa em 4 porções e dividir cada porção em três, enrolandos-as em forma de cobra e fazendo as tranças (vide foto). Deixar crescer novamente até dobrar de tamanho. Pincelar cada rosca com uma mistura de 2 gemas, 2 colheres de água ou café e 1 colher de açúcar. Polvilhar as roscas com açúcar cristal e levá-las para assar em forno moderado.
O Ivã (com til mesmo) costuma fazer suas caminhadas, ao cair da noite, pelos bairros centrais da cidade, evitando a periferia ou lugares pouco movimentados, com medo de assaltantes. Contou-me ele que certa noite, já com o cooper feito, passou defronte a um restaurante em reformas e avistou, entre telhas e madeiras velhas, uma chapeira (dessas usadas para fazer lanches quentes) .
Estava bem usada mas com um bom trato ficaria perfeita para usar em sua chácara, nos finais de semana. "Mas, como levá-la se estou à pé?", perguntou-se ele. Olhou para um lado, para o outro; a rua estava deserta. Conseguiu destrancar o portão de grades e quando já estava arrastando a chapeira, surgiu um enorme cachorro, latindo e rosnando ameaçadoramente. Ficou petrificado.
De repente, sem mais nem menos, a fera sentou-se sobre as patas e ficou olhando pateticamente para ele, como se dissesse: "Pode levar, não serve para nada mesmo!". O restaurante era vizinho a uma clínica médica, com estacionamento e jardim desertos àquela hora e para os fundos da clínica o Ivã carregou, com muito custo e escondeu, a pesada chapeira.
Já era bem tarde da noite quando ele voltou com sua Saveiro. Parou no estacionamento escuro e tremendo de medo, foi buscar a peça. Qual não foi sua surpresa quando nada encontrou. No lugar onde escondera a chapeira estava apenas um branco cartaz com alguns caracteres, garatujados às pressas:"Ladrão que rouba ladrão, tem 100 anos de perdão". Ficou p.... da vida mas, muito envergonhado, tratou de sair, à socapa, não sem antes ouvir um rosnar meio diferente do cão que, talvez, La Fontaine traduziria como: "Desaforo, né? Se você quizer fazer um Boletim de Ocorrência, pode me chamar como testemunha..."
É claro que o Ivã mudou seu itinerário de caminhadas...
Considerando a chapeira, vou transcrever uma receita, um pouco cara mas deliciosa, de camarão grelhado
CAMARÕES GRELHADOS COM ARROZ À TURCA:
Para o Arroz: 2 copos de arroz lavado; 2 colheres de manteiga ou margarina; 2 colheres de uvas passas pretas; 2 colheres de uvas passas brancas; 4 colheres de castanha de caju torrada e moída e 2 colheres de salsinha picada. Fazer o arroz, normalmente (com óleo, alho e cebola). À parte, derreter a margarina e misturar o restante dos ingredientes. Jogar sobre o arroz pronto, mexer delicadamente e colocar em uma forma de pudim, apertando bem. Desenformar em prato grande.
Para o Camarão: 24 camarões dos grandes (VG) limpos e temperados com sal, pimenta, 2 dentes de alho picadinhos e 4 colheres de azeite de oliva. Deixe pegar tempero (enquanto faz o arroz). Colocar os camarões e um pouco de azeite em chapeira muito quente (ou frigideira grande) para grelhar por 4 minutos, virando de lado. Arrumar os camarões em volta do aro de arroz e regá-los com o seguinte molho de ervas: Derreter 2 colheres de manteiga e juntar casquinha ralada de 1 limão pequeno e ervas aromáticas (sálvia, tomilho, páprica, manjericão, etc). Dá para 5 ou 6 porções.
Voltando ao Luizinho (leia antes os dois posts abaixo), para completar uma trilogia sobre sua vida: Quando adolescente, lá em Borda da Mata/MG, ele recebeu o apelido de "cano curto" por conta de seus diminutos dotes sexuais. Morria de complexo e por isso não tomava banho e nem fazia "xixi" perto de ninguém. Os colegas, impiedosos, faziam a maior gozação e as poucas garotas com quem mantinha contatos mais íntimos fugiam dele e ainda espalhavam para as outras: "Coitado, não faz nem cócegas!"
À época ele ainda mantinha dúvidas sobre sua identidade sexual e por isso, tentou namorar uma menina bem "inocentezinha", de cabelos compridos, evangélica e recatada. Ele raciocinou: "Se ela é pura mesmo, nunca viu um e não sabe que existem maiores..." Depois de alguns meses de namoro e muitas tentativas de contatos sensuais, conseguiu, nervosamente, colocar "o negócio" na mão dela.
Imediatamente a moça largou aquilo e meio que enojada declarou: "Espingardinha ruim essa tua, hein?!" Foi sua última tentativa hétero e logo em seguida, meu amigo mudou-se para São Paulo e virou "Luiza Felpuda"
Bem, depois do episódio do casaco de antílope, fiquei uns trinta anos sem ver o Luizinho até que o encontrei numa festa de confraternização de nossa empresa em Piracicaba. Foi aquele auê: "Joãozinho, há quanto tempo, você continua do mesmo jeeeito!" (mentiroso!!).
Percebi que ao seu lado estava um senhor de barbicha branquinha que me olhava curiosamente. Perguntei: "E você, meu caro, continua aprontando?" _Que nada, tô sossegado, aliás, deixe-me apresentar-lhe o Cabritas, estamos juntos há quase trinta anos... _ Ao cumprimentar o cara e ouvindo seu forte sotaque luzitano, veio-me à mente a estória: "João, ele é linnndo e virá para São Paulo na próxima temporada..." Deixei escapar o assombro: "Meu Deus, esse é o garçon linndo do Funchal?!" Ele respondeu meio que se desculpando: "Ele mesmo, os anos passam, né..."
Olhando para o cara ainda refleti: "Pode ter sido bonito, mas agora tá mais prá bode velho do que para cabritas..."
E de tanto falar em antílopes, bodes e cabritas, para ficar no clima, vou ensiná-los a fazer o melhor carneiro à caçadora do mundo! (Essa receita também serve para coelho e cabrito).
CARNEIRO À CAÇADORA : Para o cozido - 3 Kg de carneiro, cabrito ou coelho novos (8 meses, mais ou menos) em postas; 2 latas de ervilhas (prefiro pacotes de ervilhas semi congeladas); 1 kg de batatas (cortadas em 4), 1/2 kg de cenouras em rodelas; 1 kg de tomates (sem sementes) cortados em 4; 12 mini cebolas inteiras; 2 pimentões em cubos e azeitonas pretas. Se quizer, pode acrescentar favas cozidas e escorridas.
Para o tempero - Tempere os pedaços de carne com sal, azeite e algumas folhinhas de alecrim. Deixe a carne de molho (de um dia para o outro) na seguinte marinada, batida no liquidificador : 3 cebolas grandes; 1 cabeça de alho; 1 galhinho de manjericão; folhas de hortelã, de sálvia; 3 folhas de louro; 1 molho de salsa e cebolinha; 1 copo de vinho branco seco; 1 copo de água; 1 copo de vinagre branco; 1/2 vidro de molho inglês ou shoyo e pimenta a gosto. No outro dia, frite as postas de carne numa panela grande, até ficarem bem douradinhas. Escorra o excesso de gordura (importante!) e cozinhe, acrescentando água fervente, aos poucos e até ficarem bem macias. Junte os tomates, as mini cebolas, os pimentões e as azeitonas. À parte, cozinhe em água sal as batatas e as cenouras. Junte esses legumes, mais as ervilhas, à panela e misture tudo, de leve para não desmanchar os legumes. Sirva com arroz branco.
Ainda sobre mu amigo gay, o Luizinho do post abaixo, numa de suas férias, resolveu fazer um cruzeiro marítimo. Vendeu suas licenças-prêmio, juntou com o 13º salário e se mandou para Buenos Aires, à bordo do "Funchal", velho e suntuoso navio português.
Viajou durante uma semana e voltou radiante pelo passeio maravilhoso, pelo namorado português que arrumou (um garçon do navio de sobrenome Cabritas) e pelo casaco de pele de antílope "ca-rís-si-mo" que comprou. Disse-me ele: "Ái, Joao! Ele tem uns 35 anos, peludo e linnndo!!" Eu perguntei, malicioso: "Quem, o casaco?" Ele bateu os pés e respondeu: "Não, o Cabritas! Ele é separado da mulher e disse-me que na próxima temporada, vem a São Paulo para ficar uns temos comigo. Dei prá ele um casaco igualzinho ao meu, cor de tabaco."
Depois do incidente com o furto do Roskopf (vide post anterior) ele resolveu esconder o casaco de antílope na estufa do velho fogão DAKO que tinha. Estufa é uma espécie de gaveta que os fogões mais antigo possuiam, logo abaixo do forno. E lá ficou o casaco, até que numa bela manhã de sábado ele resolveu assar um bolo mineirinho. Acendeu o forno e foi tomar banho.
Ao sair do chuveiro, sentiu um cheiro de borracha queimada: "Acho que a ducha queimou" pensou ele... mas da sala, o cheiro estava mais forte ainda e ele apavorou-se. Enrolou a toalha abaixo das axilas (macho que é macho, enrolaria a toalha abaixo da cintura) e saiu, corredor afora, gritando: "Genten, o COPAN tá pegando fogo!!"
Como estava recente, ainda, na memória ds paulistanos as tragédias de incêndio com os edifícios Andralls e o Joelma, os vizinhos sairam dos apartamentos assustados. Ao lado de Luizinho, morava seu amigo, também do ramo que gritou para ele: "Amiga, porquê você está gritando feito uma gazela ferida?!" O Luizinho rebateu, histérico: "Mona, você não está sentindo o cheiro? É incêndio!!!"
O amigo, com as duas mãos no coração, avisou: "Bicha, a fumaça tá saindo do seu A.P.!" Para lá acorreram todos e antes mesmo de encontrar o foco do incêndio, meu amigo já adivinhara:"Meu Deus, queimei o meu antílope..." _ Esse cara é doido!", pensaram, "...será que está assando um antílope?!.
O casaco, cor de tabaco que era, virou cinzas calcinadas... E, segue a receita do "Bolo Mineirinho"
BOLO MINEIRINHO: 1 XÍCARA (CHÁ) DE MILHO VERDE; 1 XÍCARA (CHÁ) DE AÇÚCAR; 1/2 XÍCARA (CHÁ) DE MANTEIGA OU MARGARINA; 2 OVOS INTEIROS; 1 XÍCARA E MEIA (CHÁ) DE FARINHA DE TRIGO; 1 COLHER (SOPA) CHEIA DE PÓ ROYAL ; 1/2 XÍCARA (CHÁ) DE LEITE E 1 PIRES DE QUEIJO RALADO. TRITURE O MILHO COM O LEITE NO LIQUIDIFICADOR E RESERVE. BATA O AÇÚCAR COM A MANTEIGA NA BATEDEIRA, ATÉ ESBRANQUIÇAR. JUNTE OS OVOS E BATA BEM. ACRESCENTE O MILHO BATIDO, A FARINHA E O PÓ ROYAL. BATA ATÉ FORMAR UMA MISTURA HOMOGÊNEA E MISTURE O QUEIJO RALADO. ASSE EM FORMA INGLESA (DE BURACO NO MEIO) UNTADA E ENFARINHADA POR MAIS OU MENOS 30 MINUTOS, EM FOGO ALTO.
Quando trabalhei em São Paulo, tinha um amigo "gay" (quem nunca teve um, que atire a primeira pedra!). O Luizinho morava no Edifício COPAN, no centro de São Paulo e trabalhava comigo na Seção, de "Informações Gerais". Enquanto eu ficava na mesa, dando informações mais detalhadas, ele ficava em pé num balcão em forma de ferradura, ouvindo música (era o tempo das fitas K-7 BASF) e dando informações sem emitir uma palavra: se o cliente perguntasse onde era o Caixa, ele apontava para a esquerda, com sua caneta BIC; O Jurídico? ele apontava para a direita. E assim era o dia todo.
Suas noitadas eram quentes e por isso estava sempre sonolento no trabalho. Prá se ter idéia, seu apelido no prédio era "Luíza Felpuda" pois era bastante hirsuto (procure o dicionário...) e morava em plena boca do pecado (esquina da Av Ipiranga com a São Luiz, tendo a praça da República ao lado). Tinha a mania de colecionar relógios antigos e gastava todo seu salário na compra dessas antiguidades e no pagamento dos "bofes" (rapazes de programa, da época).
Economizava nas roupas e comida, sendo suas refeições, invariavelmente, lanches e salgadinhos vendidos na Praça da Sé ou então os famosos macarrõezinhos "MIOJO" (recém lançados).
Certa manhã, chegou ao trabalho bastante triste e nervoso e desabafou comigo: "João, ontem dormi com um cara que acabou levando meu roscófe embora!" Achei que era brincadeira obscena dele mas ao mesmo tempo fiquei na dúvida, já que estava tão nervoso. Perguntei-lhe: "Mas como é possível alguém levar o roscófe da gente?! Por acaso o teu é removível?" Ele foi ríspido na resposta: "Não vem com brincadeira não, estou puto da vida pois aquele relógio era de 1883, caríssimo e com mostradores de ouro!"
Foi daí que ele me explicou que "ROSKOPF" era a marca de um famoso relógio suiço, inventado por um alemão chamado Georges Roskopf.
E já que stamos falando em invenções de alemão, vou passar uma receita de Torta Alemã finíssima, para grandes ocasiões:
TORTA ALEMÃ: Recheio: 2 pacotes de bolachas ao leite (Maizena); 6 gemas; 2 xícaras (chá) de açúcar; 500 gr. de margarina cremosa (sem sal); 4 latas de creme de leite (sem o soro); 300 gr. de uvas passas.
Cobertura: 1 lata de creme de leite (sem soro) e 5 colheres (sopa) de Nescau. Levar ao fogo até dar o ponto de brigadeiro e reservar. Forrar o fundo e os lados de uma forma de aro e fundo removível com as bolachas umedecidas no soro do creme de leite. Na batedeira, bater as gemas e o açúcar até obter uma massa esbranquiçada. Acrescentar a margarina e bater bastante, obtendo uma massa cremosa. Colocar as 4 latas de creme de leite gelado e bater rapidamente. Por último, misturar as uvas passas, colocar o recheio na forma, cobrir com restante das bolachas umedecidas e levar ao congelador até ficar bem firme. Desenformar a torta (retirando o aro) espalhar a cobertura de chocolate. Enfeitar com cerejas.
Bem, mas com relação ao Sr. Avelino da quitanda, referido no post abaixo, queria dizer que sua mulher, D. Amélia, foi doente durante muitos anos. Segundo seu marido, "... a coitada era assim, porque sofria dos nervos". Não aparecia na quitanda e nem saia à rua, limitando-se a ficar "de cotovelos" no muro do jardim, apreciando o vai e vem dos transeuntes. Não cumprimentava ninguém e ficava semi amoitada dentre as folhagens de uma primavera e de vários outros arbustos ali existentes.
Quando alguém a cumprimentava ou tentava dialogar, ela meio que se afastava a fim de se esconder. Por esse motivo nós a apelidamos de Dona Amélia "capivara".
O Sr. Avelino, pelo contrário, era um português forte e exuberante que gostava de dirigir gracejos maliciosos a todas as freguesas ( hoje, diríamos dar cantada) e tinha a mania de chamar todo mundo de amiguinho:
"Ô amiguinha, não vai levar cenoura, hoje? Tá bem durinha!; Mandioca boa tem que ser mais velha, as novas são aguadas, amiguinha!"... e coisas do gênero. Quando algum marido enciumado vinha tirar satisfações, ele levava na conversa: "Mas amiguinho, pode confiar na patroa, ela é uma santa mulher e eu respeito muito ela!", e coisa e tal... Dentre tantas mulheres carentes, pelo menos uma caiu na conversa dele e todo mundo ficou sabendo, de maneira muito engraçada:
D. Angelininha que de "inha" não tinha nada (era uma viúva saudável, de carne dura e seios ainda firmes), começou a ter um caso com o quitandeiro e como naquela época não existiam motéis na cidade, eles se encontravam no mato mesmo (no jargão popular, Chão de Estrelas).
Daí, então, certa noite, a polícia percebeu uma perua Kombi verde parada numa estradinha, perto do ribeirão dos porcos e a identificou como sendo do dono da quitanda pois tinha, estampado nas laterais o slogan do negócio "Quitanda do Amiguinho". Ao se aproximar de uma pequena clareira, deparou-se com o Sr. Avelino arriando as calças, tendo aos seus pés a Dona Angelininha, nua. O policial questionou, asperamente: "Sr. Avelino, onde já se viu um homem de respeito como o senhor fazendo essas coisas!?"
"Fazendo o quê? _ desafiou o safado, botando as calças no lugar _ eu estava apertado e parei aqui prá fazer "xixi". O guarda rebateu: "Ah, é, então que faz essa mulher pelada aí no chão?!"
O Sr. Avelino olhou para baixo e na maior cara de pau, ainda tentou: "Pôxa, Amiguinho, se você não me avisasse ia acabar mijando em cima dela!!!
É lógico que a estória espalhou-se para além das fronteiras de meu bairro... E como falei em verduras, mandiocas, etc, vou dar duas receitas de pãezinhos que são um sucesso:
PÃEZINHOS DE CEBOLA: Bater no liquidificador: 1 cebola grande ou 2 médias; 1 xícara (chá) de leite; 1 xícara (chá) de óleo; 1 pitada de açúcar; 2 colheres (café) de sal; 3 ovos inteiros; 50 gramas de fermento fleschmann (fermento de pães). Misturar tudo numa bacia acrescentando farinha de trigo até dar o ponto de enrolar com as mãos. Enrolar, deixar crescer (1 hora)e assar em forno médio.
PÃEZINHOS DE MANDIOQUINHA (OU BATATA-BAROA): 1/2 kilo de farinha de trigo; 1 colher (sopa) de gordura vegetal (Saúde); 1 colher (sopa) de margarina; 100 gramas de fermento fleschmann (de pão); 1 xícara (chá) de açúcar; 1 xícara (chá) de leite morno; 2 pitadas de sal; 2 ovos inteiros; 1/2 kilo de mandioquinhas (ou batatas baroa) cozidas, amassadas e passadas na peneira. Desmanchar o leite em um pouco de leite morno, acrescentar 1 colher de açúcar e 1 xícara de farinha. Misturar até formar uma pasta. Deixar fermentar pr uns 10 minutos. Acrscentar os demais ingredientes sendo que a farinha e o leite são misturados aos poucos até dar o ponto de enrolar as bolinhas (do tamanho de uma bolinha de ping-pong). Deixar crescer na forma (1 hora) e assar em forno moderado. Se quizer, antes de assar, pincele-as com 1 gema desmanchada em 1 colherinha de café.
Muito se fala dos crepúsculos de nossa cidade. É, verdadeiramente, um espetáculo deslumbrante, prêmio divino! A partir de meu sítio, têm-se uma visão privilegiada, já que não existe nenhum prédio embaçando a paisagem.
Infelizmente, toda vez que se faz crepúsculo, sinto uma leve sensação de pânico e a vontade de estar, sempre, no aconchego de minha casa, nesse momento.
Vem-me à mente, longínqua tarde de verão em que fiquei fechado dentro do cemitério, distraído que estava lendo os nomes e fotos das lápides nos túmulos. Tinha sido o enterro da mulher do Sr. Avelino, dono da quitanda de meu bairro, com pouca gente. Logo o cemitério esvaziou-se e os portões foram fechados, sem que eu me desse conta do horário.
Até os anjos, que durante o dia transmitiam imagens de paz e mansuetude, naquela noite se me apresentavam como figuras tétricas, ameaçadoras e pareciam me dizer: "Oh, criatura insana...Que fazes tu neste local de morte?"
Lá fiquei eu, assombrado pois nosso maravilhoso crepúsculo dava lugar à noite que descia, rapidamente. Tentei alcançar os muros mas não dei conta de sua altura, gritei por ajuda mas somente o eco respondia... Dei a volta por todo o cemitério e não encontrei nenhuma brecha.
Numa forma de proteção, procurei ficar próximo aos jazigos de meus parentes: "Ao menos, são espíritos conhecidos!", pensei.
Já era noite fechada quando ouvi vozes e ví uns três "espectros" sentados num túmulo em forma de igrejinha. Fiquei inteiramente arrepiado e minhas pernas travaram-se (é interessante perceber como os pelos do corpo, literalmente, ficam em pé, arrepiados).
Enconstados à parede como em meditação, eles passavam de um para o outro, algo parecido como uma brasa incandescente. De repente, um aroma doce e enjoativo chegou até minhas narinas e daí _ lembrando-me das muitas vezes que vi, nas forquilhas dos arbustos, caixas contendo palitos de fósforo queimados _ caíram-me as fichas: "Maconha!"
Fiquei mais com medo deles do que de fantasmas pois àquela época, "maconheiros" eram raros e viviam isolados nas sombras da noite, tal qual vampiros à procura de sangue.
Meio perdido, olhei para o muro do fundo e percebi que eles havia deslocado uma grade de ferro que servia para escoamento de enxurradas e por alí entraram, Por ali, também, saí eu, sorrateiro e tremendo mais que "gelatina Royal"...
Bem, neste "post" pretendia contar pra vocês uma passagem engraçada envolvendo o Sr. Avelino, "viúvo da morta" mas parei nos maconheiros. Noutro dia voltarei ao assunto e já que falei de anjos e gelatina, vou passar a receita de uma espécie de mousse de maracujá, mais incrementada:
PÉ-DE-ANJO DE MARACUJÁ: 1 lata de leite condensado; a mesma lata com suco de maracujá; 1 xícara (chá) de leite de coco; 1/2 xícara (chá) de coco ralado; 1 envelope de gelatina em pó sem sabor e 2 claras em neve.
Bater, em liquidificador, o leite condensado, o leite de coco, o suco de maracujá e o coco ralado. Misturar a gelatina (previamente desmanchada em uma xícara de água fervente) e bater mais um pouco. Por último, misturar, levemente, as claras em neve, até formar uma mistura homogênea. Despejar em forma de pudim ou pirex untado com uma fina camada de óleo (só um pouco) e levar à geladeira por 4 horas ou de um dia para o outro. Servir enfeitado com cerejas em calda.
O vigário Thomáz era famoso por sua ojeriza ao comunismo e às religiões evangélicas: "...Ambos, obras do demônio!" Naquela época, acho que uns 90% da população era de católicos praticantes e suas sentenças, peremptoriamente proferidas em inflamados sermões, tinham força de Lei. Naaquela paróquia não existia uma casa sequer que abrigasse famílias evangélicas pois, as poucas que se aventuraram, foram perseguidas pela frieza e intolerância dos fiéis seguidores do Pe. Thomaz.
Andava pelas ruas como um senhor feudal; se sentia fome, parava em qualquer casa e comia; se sentia sono, tomava a primeira cama que encontrava e dormia; se era frio, pegava o melhor casaco que lhe ofereciam e não devolvia mais... Adorava promover procissões suntuosas, quando, ricamente paramentado, seguia à frente da multidão como a um rei guiando seu exército de cruzados para o combate aos mouros.
A "procissão do encontro" ou "das velas" que ocorre anualmente, pouco antes da quaresma, é um dos eventos mais bonitos que a Igreja Católica promove. Aliás, são duas procissões, saindo de bairros diferentes: uma só de mulheres com o andor de Maria e outra só de homens, com o andor de Cristo, todos com velas acesas nas mãos. Em determinado lugar da cidade as duas se encontram e é rezada uma missa com todos os fiéis.
Pois é, numa dessas procissões, o padre Thomaz conduzia a procissão das mulheres e à certa altura (ou melhor, baixada pois a procissão passava pela "Baixada do Cubatão", um bairro com casas bem humildes), deu-lhe uma dor de barriga tremenda, difícil de segurar e ele murmurou baixinho: "maldito torresmo!"
Dirigindo-se à confrade mais próxima ele gemeu: "Irmã, segura a vela que eu tô apertado!". Segurando a barriga, ele adentrou na primeira casa que encontrou aberta e logo na sala percebeu que alí moravam evangélicos pois não havia uma imagem sequer de santo nas paredes; a mulher que o olhava, assombrada, tinha os cabelos compridos, enrolados em coque e saia abaixo das canelas. Hesitou por uns instantes mas conseguiu perguntar: "Onde é o banheiro, pelo amor de Deus?!" A mulher apontou para os fundos e nem deu tempo dele ouvir ela dizer: "...mas, está ocupado!"
O molequinho estava sossegado fazendo "xixi" e cantarolando baixinho um dos hinos de sua igreja: "a Tenda de Jesus jamais me faltará, jamais me faltará no cora..." quando sentiu o forte impacto da porta na sua cabeça. Ficou meio abobado mas quando viu aquele homem corpulento, todo vestido de roxo, saiu correndo, a gritar: "Mãe, o satanás tá aquiiiiii!!!"
Quando o padre conseguiu, finalmente, sentar-se ao vaso, foi aquele show pirotécnico que até da rua se ouvia. Após o alívio, percebeu que seu martírio não havia terminado pois não encontrou papel e a descarga estava quebrada... "Minha senhora, não tem água!" Da cozinha a mulher respondeu secamente:"Tem que carregar com o bárde, leva o bárde prá ele, Moiséis e mostra onde é o tanque!"
O pobre homem ficou com vergonha de sair até o tanque e resolveu encher o balde na pia do banheiro mesmo. Com o peso da água, o precário lavatório desprendeu-se do encanamento e a água jorrou forte. Todo sujo e ensopado o padre implorou à mulher: "Irmãzinha, não conte isso para ninguém e olhe... mande arrumar tudo isso; até a descarga e peça ao encanador para receber de mim lá na paróquia. A partir desse dia, nunca mais falou dos evangélicos em seus sermões.
A receita que vou colocar chama-se Fatias Húngaras mas como se parecem com aqueles turbantes que os árabes usam, vou rebatizá-la de:
CHAPÉU DE MOURO: 2 colheres de fermento Flexhman; 2 ovos inteiros; 1 copo de leite morno; 3 colheres (sopa) de açúcar; 1 colher (sopa) de manteiga; 1 pitada de sal e farinha até o ponto de amassar. Sovar bastante a massa e deixar crescer por 1 hora. Cortá-la em 4 porções e abrir cada uma delas com o rolo até ficarem retangulares. Besuntar cada porção com manteiga e espalhar coco ralado e açúcar. Enrolar como rocambole, apertando bem. Cortar as rosquinhas em fatias, deixando-as crescer até dobrar de tamanho (na forma já untada). Assar em forno brando e quando começarem a amarelar, regá-las com a seguinte calda: Levar ao fogo 2 copos de açúcar; 2 copos de leite e 4 gotas de baunilha. Ferver por 5 minutos. Voltar as rosquinhas ao forno (por poucos minutos). São deliciosas!!!
Hoje, dia 11/09/2007, faz 6 anos que Osama bin Ladem deixou o mundo embasbacado com o maior atentado terrorista da história e que resultou num saldo de 3234 mortos mais 24 pessoas desaparecidas. Lembro-me de nosso desespero até conseguirmos contato com nossa filha, genro e neta que moram em mamaroneck/NY, à uma hora de Manhattan. Depois do incidente estive ainda por lá umas três vezes e ouvi muitos casos tristes referentes a pessoas que foram protagonistas da tragédia como vítimas ou como sobreviventes.
Dentre os "casos" de sobreviventes, escutei uma estória que se não verdadeira, é bem provável: trata-se do primeiro divórcio de um casal americano no pós atentado, por culpa de Bin laden. Naquela manhã, Jimmy Mansfield, executivo de uma financeira, com escritório instalado num dos mais altos andares da "North Tower" estava em Newark/NJ, bem próximo dali, no apartamento de sua secretária Pamela (Pam, para os íntimos), com quem mantinha um relacionamento extra-conjugal.
Sua esposa, Olivia, e os filhos Steve e Peter encontravam-se na residência do casal, em Greenwich/CT, quando ouviram as primeiras manchetes e notícias sobre a tragédia. Desesperada, a mulher ligou para o celular do marido, mesmo sabendo que as chances dele atender eram mínimas, a julgar pela dimensão dos estragos. Quando Steve atendeu ela deu um grito de alívio e alegria: "Obridada, meu Deus!... Jimmy, onde você está, meu amor?!"
Do outro lado, receoso, o marido respondeu: "Como, onde estou! Estou no escritório, preparando material para uma áudio conferência que faremos logo mais." A mulher ficou muda por alguns instantes, desorientada: "...Jiiiimy, você está mentindo!"
"Como mentindo... estou no escritório sim, inclusive a Pam está a meu lado, fale com ela!" A secretária-amante tomou do aparelho e disse, profissionalmente: "Hello, Miss Manfield! Linda manhã, não?"
A mulher desatou a gritar, histérica: "Sua vagabunda! Se tiver algum aparelho nesta espelunca onde vocês estão trepando, ligue nos noticiários, agoooraaaaa!" A moça passou o telefone para o Jimmy e meio zonza, correu ligar a TV.
O marido, sem entender a extensão da tragédia, gaguejava" "Meu amor, não estou compreendendo; há algo que eu deva explicar?" A mulher rebateu: "Vá explicar para meu advogado seu filho da p..., suma de nossa vida, finja-se de morto, enfie-se nos escombros, etc...etc..." Levantando os olhos para a TV, Jimmy compreendeu...
Perdoem-me os leitores mais sensíveis pelo humor negro mas a irreverência é uma de minhas características e como neste "post" também não cabe qualquer receita, hoje vou apresentar uma tabela de equivalência entre pesos e medidas, necessária quando não se tem balança na cozinha:
TABELA DE EQUIVALÊNCIA DE PESOS/MEDIDAS: 1 litro equivale a 1 kg ou 1000gr.; 1 xícara (chá) corresponde a 250 gr. de líquido; 2 xícaras (chá) corresponde a 1/2 litro; 1 xícara (chá) de farinha corresponde 115 gr.; 1 xícara (chá) rasa de açúcar equivale a 120 gr.; 1 xícara (chá) rasa de manteiga equivale a 160 gr.; 1 colher (sopa) de manteiga contém 50 gr.; 1 colher (sopa) cheia de açúcar contém 45 gr; 1 colher rasa de açúcar contém 20 gr.; 1 colher (sopa) cheia de farinha contém 60 gr.; 1 colher (sopa) rasa de farinha contém 15 gr.; 1 pitada de sal, açúcar ou pimenta contém 2 gr.; 1 clher (chá) rasa de sal ou de fermento contém 4 gr.; 1 litro contém 6 xícaras (chá) ou 4 copos de água; 3 colheres (chá) equivale 1 colher de sopa; 8 colheres (sopa) é igual a 1/2 xícara (chá); 12 colheres (sopa) corresponde a 3/4 de xícara (chá) e 1 copo (comum) de água é igual a 250gr. (UFAAAAA!)