A VERA REGINA II

Ainda falando sobre a Vera Regina, minha amiga e personagem da crônica do dia 15 de setembro, não é que ela fosse burra mas, coitada, era muito crédula e desligada. Vivia feliz na sua inocência e se o marido não tivesse largado dela para assumir o romance com a Aline, sua secretária, até hoje as duas teriam a maior amizade.

 Sofreu um bocado com o abandono mas, acabou dando a volta por cima, após ter conhecido, numa boate em Campinas, o Henrique, um arquiteto gaúcho e macho pra cacete. Ela estava na cidade por conta de um curso de preparações para gerentes, chamado "Gestores do Amanhã". Pretendia sair de Brasília e trabalhar em alguma agência do interior de São Paulo.

Quando ela ouviu o nome dele, quase desistiu da paquera: _ Ah, não! Outro Henrique é demais...

Mas, aquele sotaque cantado e másculo a enfeitiçou e ela, enlevada, entrou de cabeça no relacionamento. Veio para São Paulo e assumiu uma gerência no interior.

Descobriu logo que o gaúcho era muito ciumento. De grande ele só tinha a altura e de grosso... só o som da voz. Quando havia reuniões, a gente viajava sempre juntos e além do mais, fomos amigos desde Brasília. Por isso, eu era uma espécie de confidente dela.

Contou-me que assim que se conheceram, foram passar o natal na casa dos pais dele, em Encantado, uma pequena cidade situada às margens do rio Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. O pai dele, um alemão grandão, estava meio esclerosado e quase não se levantava da cama. Conseguia andar, com muito custo e com o auxílio de uma bengala.

 Depois da ceia, enquanto todos dormiam, os dois, meio borrachos, resolveram tomar banho juntos. A Vera, distraída como sempre, esqueceu-se de trancar a porta e apenas puxou a cortina do box, que era de plástico. De repente, ouviram o tóc tóc da bengala e os passos arrastados do velho que entrava no banheiro, rosnando consigo mesmo: _Quem foi o f.d.p que deixou a luz acesa! 

Continuo mais tarde....

O OVÍDIO II

 Ver imagem em tamanho grande Em outra crônica, já falei sobre o Ovídio, um cearense, meu colega de trabalho em Brasília. Para matar a saudade do seu Ceará amado, ele resolveu comprar uma chacrinha em pleno cerrado goiano. A propriedade ficava a mais de cem quilometros do Distrito Federal. Um lugar feio, sem nenhuma infra estrutura mas, para lá ele levava a familia em todos os finais de semana, a fim de assar uma carninha e beber todas...

 Num domingo à noite, bêbado como uma vaca, ele voltava para casa, em seu Opala cor de terra, abarrotado com abóboras, mandiocas, bananas a mais a familia toda. A sogra, Dona Pura, ia no banco de trás com os três netos e a esposa Francisca, grávida de oito meses, seguia no banco da frente. De repente, surge um cavalo, em meio à escuridão da estrada. Não deu para frear...

O pobre animal, colhido pelas nádegas, rolou por cima da capota do carro e foi parar quase no colo da Francisca. Com uma costela quebrada, mais um corte que ia do alto da testa até ao supercílio, Ovídio desceu do carro, meio cambaleante e com a a ajuda da família toda, conseguiu retirar o cavalo de cima do carro. O cavaleiro estava jogado no acostamento, gemendo e bufando de dor. Ao acudí-lo, perceberam que estava completamente bêbado e com uma perna quebrada.

 No final das contas, o único a morrer foi o cavalo _coitado_ sem jamais ter botado uma gota de álcool em sua boca.

Com muito custo, conseguiram chegar à Brasília e ao Hospital Santa Lúcia, bem na entrada da cidade. Os dois foram engessados e ficaram internados, para observação. A Dona Pura teve que voltar para casa em um táxi, com os três netos, já que a Francisca, sentindo fortes dores e contrações, deu à luz naquela mesma noite.

Anos mais tarde, o Ovídio voltou a esse mesmo hospital para uma cirurgia de hemorróidas. O cearense, tão valente, amarelou e não teve coragem de enfrentar o bisturi. Sofreu durante muito tempo e experimentou todos os remédios e simpatias, na tentativa de curar-se do seu mal.

 Certa vez, em férias na terra natal, utilizou-se de um "receita caseira para a cura de hemorróidas" que lhe custou muito caro: baba de bananeira.  Alguém lhe informou que seria a solução final. Cortou o tronco da árvore, até à altura de um banquinho e sentou-se sobre o talo gosmento, esfregando-se várias vezes, para absorver bem a seiva. Coitado! Sua bunda ficou em carne viva...  

 Não pode retornar à Brasilia, pois não conseguia ficar sentado mais que um minuto. Emendou as férias com uma licença e por lá ficou até melhorar um pouco. Aproveitando o descanso forçado, pediu para que o levassem até Juazeiro do Norte, a fim de inplorar a ajuda do santo Padre Cícero.

 De volta ao trabalho, em poucas semanas, estava curado. Comentou comigo que não sabia se foi curado pela gosma da bananeira ou pelo poder do Padim Cicero mas que, por via das dúvidas, voltaria a Juazeiro para agradecer ao padre milagroso. Como é de costume, todos as pessoas que se julgam agraciadas pelos santos e beatos, levam uma réplica do órgão ou membro curado para ser depositada, como testemunho, na sala dos milagres.

E o Ovídio levou...

Levou um conjunto de porca e parafuso, dos grandes, daqueles utilizados em máquinas agrícolas.

Como o assunto foi o Ceará, a receita será com carne seca, ou jabá...

Ver imagem em tamanho grande CARNE SECA COM ABÓBORA: Corte em cubos 1 quilo de carne seca e deixe de molho, em bastante água, de um dia para o outro. Troque a água algumas vezes. Cozinhe, em pressão, a carne com duas folhas de louro e três dentes de alho por, mais ou menos, uma hora ou até ficar bem macia. Deixe escorrer toda a água e desfie a carne. Numa panela ou frigideira grossa, frite duas cebolas, cortadas em tiras, com duas colheres de manteiga e uma colher de azeite de dendê e junte a carne seca. Quando estiver bem fritinha, acrescente uma xícara de coentro ou salsinha picada e cebolinha.

Cozinhe, em água e sal, uma abóbora, daqueles durinhas e verdes [muganga ou jerimum]. Passe-a pelo epremedor, ou liquidificador. Refogue, no azeite, uma cebola batidinha e dois dentes de alho, picados. Acrescente a massa de abóbora, um pouco de pimenta e cozinhe até virar um creme. Sirva, acompanhando a carne seca.

A carne seca pode ser acompanhada, também, de mandiocas cozidas e fritas. 

O OVÍDIO I


 Ovídio é o nome de um antigo colega de trabalho que veio para Brasília com a mulher, Francisca e a sogra, Dona Pura, uma paraibana baixinha, de menos de metro e meio. Teve uma rápida ascensão na Matriz, de escriturário para chefe de seção, de divisão, assessor e quando nos conhecemos, já era chefe de departamento central. 

  Durante esse período a Chiquinha, sua mulher, tivera três filhos: Washington, Jefferson e Roosevelt. Tentou mais um, que seria o Lincoln mas nasceu uma menina, da qual fui padrinho, batizada de Jackeline. Tantos filhos acabou por deformar a silhueta da esposa, que engordou e sem vaidade, "enfeiou-se" (na verdade, parecia um travesseiro amarrado ao meio).

 O Ovídio tinha como secretária uma mineirinha jeitosa e suave chamada Gislaine que acabou conquistando o coração do chefe e o paixão rolou quente, a ponto de meu amigo decidir-se a abandonar mulher, sogra e filhos.

Mas, cadê coragem?! A sogra , viúva, era uma ariranha de tão brava e no fundo, no fundo, ele ainda gostava da Chiquinha, parceira de tantas lutas e conquistas. Mas, após um ultimatum de Gislaine ele resolveu-se, e às vésperas da semana santa levou a mulher e filhos para sua chácara, nos arredores de Brasília.

 A sogra iria com ele no dia seguinte pois tinha que preparar a bacalhoada da sexta-feira. Pela manhã, enquanto meu amigo aguardava ao volante, Dona Pura carregava os apetrechos para o carro e após algumas idas e vindas, a velha voltou a apartamento para pegar a sobremesa: um delicioso bombocado que ela chamava de "Pudim Bãobucado" .

O Ovídio ouviu a sogra bater a porta do carro e achando que ela já estava sentada no banco traseiro, tocou o carro. Durante o trajeto começou a desfiar o rosário para a mulher; confessou tudo, do seu desgosto com o desleixo da esposa, do fim de seu interesse sexual por ela e de Gislaine, sua nova e grande paixão. Como não ouvia nenhum murmúrio ou aparte de sua sogra achou que tivesse exagerado na dose e tentou amenisar falando de sua tristeza pelo fim do casamento, da falta que faria seus filhos, das qualidades da esposa, etc.etc...

Falou tanto que começou a chorar, arrependido de seu desabafo e quando o carro chegou ao destino, ele concluiu que não queria mais abandonar a família mas, e agora? Já tinha confessado tudo para a sogra!

  Parou o carro na porteira e virou-se para trás para suplicar à Dona Pura que não contasse nada à esposa, pois estava arrependido. Entre o espanto e alívio viu que no banco só estavam as batatas e o bacalhau. Demorou para compreender até que caiu na risada, feliz da vida e cheio de amor para dar a sua esposa, baixinha e gordinha mas enfim, a mulher de sua vida!

Para complementar essa história, um pouco longa e verídica, apresento-lhes o pudim da Dona Pura, um verdadeiro manjar...

 BOMBOCADO DE PÃO DURO: Untar uma forma refratária com manteiga, salpicando-a com coco ralado. Colocar fatias de pão duro, sem a casca e espalhar coco ralado por cima. Fazer o creme, batendo no liquidificador: 3 xícaras de leite, 3 xícaras de açúcar e 4 ovos inteiros. Despejar por cima do pão e levar ao forno. Se quizer, sirva com calda caramelada.

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A DONA OLGA

Dona Olga "Peituda" ficou viúva muito cedo e não teve filho algum. Parecia ser bem idosa mas, na verdade, pelo tanto que viveu, deveria ter, então, menos que cinquenta anos. Naquela época, mulheres com essa idade eram consideradas velhas. Hoje em dia, graças às cirurgias plásticas, aos cosméticos milagrosos e aos bailões da vida, podemos ver coroas quarentonas, cinquentonas e até sessentonas bem atraentes. 

 Mas, Dona Olga era feia e a única coisa que chamava a atenção de nossos olhos, eram seus "peitos", enormes e empinados. Seios que nunca amamentaram ficam assim: firmes e desafiantes. Era difícil conversar com ela sem dar uma espiada naqueles gigantescos melões. 

Benzedeira das boas, com suas rezas e infusões miraculosas, curava uma gama de enfermidades, desde a tosse comprida até a impotência sexual, passando pelas enxaquecas e bichas alvoroçadas (lombrigas e solitárias).

 Tinha uma cadelinha pequinês chamada de "Menina" que era sua coqueluche. A bichinha, sempre perfumada, com os pelos escovados e brilhantes, servia-se como uma espécie de captador das energias negativas dos clientes de sua dona. Durante as sessões de rezas e benzimentos, a Menina ficava aconchegada naqueles enormes seios. 

Dona Olga costumava fazer os passes sobre a cabeça e ombros das pessoas e, em seguida, deslizava as mãos sobre os pelos da cachorra. À certa altura, Menina dava um ganido de dor e corria, latindo, para os fundos do quintal. _ Pronto! Agora o "encosto" saiu...

A cachorrinha era virgem, condição essencial para o poder de limpeza espiritualDona Olga vestia-a com uma calcinha de plástico, presa com elásticos e mantinha o portãozinho do jardim sempre trancado, para que nenhum cachorro sem dono profanasse a pureza de sua Menina. Certo tarde, porém, dois acontecimentos simultâneos contribuiram para o descrédito da benzedeira:

 Minha prima Aurora, sentindo-se deprimida, foi até a casa de Dona Olga em busca de energias. Esqueceu-se de encostar o portãozinho e alguns cães entraram pelo jardim,  à procura de Menina. Lá no colo da dona, a cachorra, pressentindo a presença de machos no pedaço, ficou inquieta e na hora de descarregar o encosto, deu a maior mordida na mão da dona.

Algo pulou das mãos de Dona Olga, indo parar no colo de minha prima. Era um pequeno bambuzinho com uma agulha fixada na ponta.

 Aurora percebeu, então, o ardil usado pela benzedeira para fazer a cadelinha gritar e sair correndo mas, nem teve tempo de falar nada pois, lá do jardim chegou até seus ouvidos, a algazarra que os cães faziam.

 Tinha uns três ou quatro em cima da Menina e um deles, bem maior que os demais, encontrara uma folga no elástico da calcinha de plástico e conseguira engatar-se na donzela.

Dona Olga, tentou desenroscar a coitadinha mas, quanto mais batia no cãozarrão, mais firme ficava o engate. Minha prima aconselhou: _ Joga um balde de água pra esfriar a coisa!

Quando o animal recebeu o jato de água fria, pulou o muro para a rua, arrastando a Menina consigo. Dona Olga ainda gritou, com as mãos nos peitos:  _ Ele levou minha Menina de reboque!

Somente a noite a cadelinha voltou para casa, toda arranhada, sem as calcinhas mas, com um olhar brilhante e satisfeito.

Já que falei tanto em peitos, a receita para hoje será:

 PEITO DE FRANGO RECHEADO:  Abra o peito em forma de uma bolsa. Tempere-o com sal, pimenta, alho, cheiro verde, cebola e vinagre (bata o tempero no liquidificador]. Recheie-o com fatias de linguiça calabresa e bacon em fatias, dourados no azeite de oliva. Frite o peito recheado na margarina sem sal e um pouco de azeite. Reserve-o. Na mesma frigideira, coloque um copo de suco de laranjas e deixe engrossar [mexer com uma colher de pau para desgrudar e escurecer]. Acrescente uma colher [de sobremesa] de mostarda. Cubra o peito com esse molho e sirva-o com arroz e batata palha.

A VERA REGINA

Nunca vi pessoa mais distraida em toda a minha vida. Ela trabalhou comigo, em Brasília e, já no primeiro dia, percebi como era desligada! Foi comigo até a loja da SEARS, a fim de ajudar-me a escolher algumas gravatas.

 Andando pela loja, de repente, ela esbarra em um manequim masculino e o derruba ao chão. Pediu desculpas e agachou-se para "acudí-lo". Somente quando tentou ajudar o "rapaz" a levantar-se, é que percebeu: _ Nossa! O braço dele saiu, é um manequim!!! 

 Nossa empresa costumava realizar competições esportivas entre seus empregados. A  cada ano, essa evento era realizado em capitais diferentes, com delegações de vários Estados. Lembro-me que eu e a Vera Regina fizemos parte de uma delas, em Belo Horizonte. Eu para jogar "truco" e ela na equipe feminina de natação.

Já no avião, ela deu vexame: Teve uma tremenda diarréia e ficou quase que o tempo todo no banheiro.

À certa altura do vôo, enfrentamos turbulências e o avião começou a chacoalhar violentamente. A coitada nem teve tempo de suspender direito as calças de moleton e saiu correndo do toillette. Arrastava, atrás de si, um enorme rabo de papel higiênico que ficara enroscado em suas calcinhas.

 Na volta, ao recolhermos a bagagem, ela e outro colega trocaram de malas, que eram idênticas. Quando a mulher do cara abriu a mala para retirar as roupas usadas, deu o maior grito: estava cheia de calcinhas usadas e mal lavadas, maiôs, secador de cabelos, cremes, soutiens, etc., etc. Deu-se o maior quiprocó e foi difícil convencer a esposa ciumenta de que os dois eram inocentes.

Nos intervalos para o almoço, a gente costumava passear pelo Conjunto Nacional de Brasília, vendo lojas e comendo alguma coisa. Um dia ela me disse: _ João, o consultório de meu marido fica aqui mesmo, neste prédio. Vamos até lá que eu tenho que devolver um brinco para a secretária dele e daí, aproveito para apresentá-lo ao Henrique.. 

 O consultório estava fechado e a Vera Regina deduziu que o marido estaria almoçando ou lanchando àquela hora. Descemos até a praça de alimentação e, de longe, ela o avistou: _Olha, lá estão eles, meu marido e a Aline...

A secretária, jovem e bonitinha, estava sentada não de frente mas, bem ao lado do patrão e achei estranha aquela forma íntima de proximidade dos dois. Ao ver-nos chegar, ela levantou-se, toda atrapalhada, e minha amiga foi logo dizendo:

 _ Aline, querida, acho que você perdeu esse brinco! Levei o carro do Henrique para lavar e o cara do lava rápido encontrou-o em baixo do banco. Pensou que era meu mas, como eu já ví você usando um igualzinho, peguei para te devolver. 

A jovem e o Henrique trocaram um rápido olhar de temor que passou desapercebido para a tão distraída criatura. _ Ah, Dona Vera, esse brinco não é meu, não! Eu nem costumo entrar no carro do dr. Henrique.  _ mentiu a moça.

_ Como não?! Ele me disse que sempre dá carona para você!!

Aline, na maior cara de pau, desconversou: _ O que eu posso dizer é que esse brinco não é meu e que não tenho nada parecido com ele!

Na volta ao trabalho eu, maldosamente, comentei com Vera Regina: _ Você percebeu que ela estava mentindo, ?

Num tom de astúcia, ela respondeu-me:

_ É claro que eu percebi, João! A tonta ficou com vergonha de admitir que usa bijuterias de camelô...

 Vendo sua despreocupada ignorância, pensei comigo: _ Santa Maria Bernadete! Deus sabe o que faz...

Lá no Conjunto Nacional tinha um árabe que vendia um delicioso quiche de coalho. Como não sei a receita, vou passar outra, até melhor e bem fácil de se fazer:

 QUICHE DE QUEIJO:

Massa - 1 xícara (chá) de farinha de trigo; 3 colheres (chá) cheias de margarina; 1 colher (café) de sal. Misturar tudo com a mão e estender no fundo de um pirex ou forma redonda não muito grande. 

Recheio: 300 gramas de mozzarella ralada;1 ovo inteiro e 1 caixinha de creme de leite (200grs). Misturar muito bem e espalhar por sobre a massa. Cobrir com uma fina camada de requeijão e salpicar com orégano. Levar ao forno médio, até dourar.

 

A NOEMY

 Certa vez, passei temporada em um Hotel  de Águas de São Pedro/SP, e a proprietária tornou-se minha amiga. Noemy já era coroa e vestia-se de uma forma bem característica, com longas saias de tecido indiano, muitos colares, pulseiras e sandálias de couro cru. Seus compridos cabelos já estavam começando a branquear e eram amarrados numa espécie de coque, propositalmente mal preso.

 Apesar do aparente desleixo, ela era bem perfumada e de maneiras finíssimas. Tinha uma voz doce e melodiosa que encantava a todos. Gostava de organizar, pessoalmente, os entretenimentos para os hóspedes. Cantava, tocava banjo, promovia bailes, jogos  e gincanas, principalmente para os grupos com mais idade.

Batíamos longos papos e um dia perguntei-lhe qual o era o segredo para manter tanta vitalidade e entusiamo. Afinal de contas, pensava eu, era viúva e enfrentara uma barra pesada,  com duas filhas para criar,  além da responsabilidade de manter um hotel.

 Era lá pelas quatro horas da tarde, intervalo em que os hóspedes costumavam tirar uma soneca, para alisar as rugas e ela, então, resolveu contar-me sua hisória. Sentou-se num sofá do Hall, ajeitou os fios de cabelos que teimavam em escapar do coque e confidenciou-me:  _ João, eu não sou viúva... Aliás, não sou viúva, nem casada e nem solteira. Há cerca de vinte anos,  meu marido saiu para comprar um quilo de linguiças e não retornou até hoje! 

 Ver imagem em tamanho grande Enquanto ela retirava os enormes brincos indianos das orelhas, pude observar os rasgos ocasionados pelo uso contínuo daqueles pesados balangandãs. Assim, distraído, perguntei-lhe: _ Mas, ele largou de você, foi isso?

Massageando, delicadamente, os lóbulos vermelhos, ela continuou:

_ Não sei te dizer! Era naqueles tempos da ditadura, de prisões e perseguições e um tio meu, que era militar, procurou por ele até nas dependências do DOI-CODI e... nada de encontrar o homem!. Às vezes penso que juntou-se à alguma seita religiosa ou esotérica e deve estar em algum lugar dos Andes, mastigando coca com as lhamas...

 Querendo esticar conversa, eu voltei a perguntar: _ Mas, por que você pensa assim, ele era espiritualista, hippie?

 _ Mais do que isso, era completamente doido. Quando a gente começou a namorar, eu era bem novinha e fiquei encantada com as loucuras que ele aprontava. Filho único, seu pai era dono deste hotel, com muito dinheiro. O velho tinha o maior desgosto, já que o filho não assumia responsabilidade alguma. Só queria saber de farras e festas, onde a bebida e maconha rolavam soltas.

 Apesar disso tudo, Noemy, definiu-me seu primeiro amor com boas expressões da época: _ Era um pão, um verdadeiro pedaço de mau caminho!

_ Como nossos parentes não queriam nosso casamento, optamos por fugir.  Ele pegou um tanto de dinheiro e a mercedes novinha do pai e lá fomos nós, estrada afora, rumo à São Tomé das Letras. Pelo meio da noite, paramos para descansar e ali, ele esvasiou uma garrafa de gin e fumou vários cigarros de maconha. Quando amanheceu, lá estava eu, desesperada e ele em estado letárgico... até que a polícia mineira chegou e levou-nos para a delegacia.

  Acabaram por se casar, mas os pais não compareceram à Igreja. O sogro dela consentiu em deixá-los morar no hotel, em um pequeno apartamento, todo arrebentado, ao lado da cozinha. No mesmo dia do casamento, enquanto realizava-se a cerimônia religiosa, o velho resolveu trocar algumas telhas do apartamento. Quando os noivos e alguns amigos retornaram ao hotel, encontraram aquela balbúrdia...

_ Meu sogro escorregou do telhado, caiu e quebrou o pescoço. Morreu na hora e nossa lua de mel foi no velório. Assumimos o controle do Hotel, tivemos nossas filhas, vivemos relativamente felizes por oito anos, até que aconteceu o episódio da linguiça.

 Muitos anos depois, conheci o Ariel, numa reunião esotérica, e estamos juntos até hoje. Sou vinte anos mais velha do que ele, mas nos amamos demais!

Mais tarde, ela apresentou-me ao Ariel, um rapaz bem alto, com cabelos lisos e compridos. Usava umas roupas esquisitas, com tiras de couro cru, penduradas no peito. Toda romântica ela perguntou-me: _ Ele não é lindo? Parece até Jesus cristo...

 Olhando para aquele tipo diferente, eu pensei: "Tá mais pra índio comanche..." Em tom de brincadeira, cochichei para ela: _Esse daí nunca foi ao açougue?

Com uma gostosa gargalhada ela respondeu, orgulhosa: _ Que nada! Ele é vegetariano, só come da minha horta...

Falando em horta, vou ensinar como se faz um cabrito assado:

  PERNA DE CABRITO ASSADA:    1 pernil de cabrito novo, com ossos; 1 cebola grande; 2 ramos de alecrim; 3 folhas de louro; salsa e cebolinha desidratadas; 8 dentes de alho; 1copo de azeite de oliva, 1 copo de água; meia garrafa de vinho branco seco; 1 limão grande; 1 vidro de molho inglês; bacon cortado em cubinhos;  3 colheres de manteiga; sal e pimenta do reino.

MODO DE FAZER: Com uma faca larga, faça talhos profunfos em todo o pernil. Esfregue por toda a carne, o sal e a pimenta. Bata no liquidificador, o suco do limão, a cebola, os dentes de alho, o louro, a água, o molho inglês, a salsa e a cebolinha. Joque ese tempero batido sobre o pernil. Enfie em cada buraco feito com a faca, um cubo do bacom. Por último, besunte com o azeite e o vinho. Leve ao fogo a manteiga e os raminhos de alecrim e dê uma rápida fritada. Despeje no cabrito e enrole a carne em papel alumínio. Assar por umas duas horas e meia. A cada meia hora, descubra o assado regue-o com o molho que se forma na assadeira.

Sirva com batatas e brócolis, cozidos e ligeiramente dourados em manteiga.

A GENY

O corpo da Geny era gozado! Parecia uma pera: estreito em cima, grande e redondo em baixo... Era diarista, daquelas bem preguiçosas que somente trabalhava quando dava vontade ou quando estava com alguma prestação atrasada. O marido, Divino, carregava sacos em um lavador de batatas.

Antes de se casar, ela ainda era interessante, tipo "boazuda", com a cintura bem fina e quadris largos. Seu apelido era Geny tanajura (aquela formiga bunduda). Por isso, ninguém entendeu quando se casou com o Divino, tão raquítico e sem graça. Com o passar dos anos, seu rosto ainda mantinha algo de beleza, mas o corpo virou aquele brejo, com celulites até no dedão do pé...

Tiveram um filho, bem lourinho, muito embora o casal fosse moreno. O povo comentava coisas, mas o Divino não se importava e foi um bom pai. Seu único defeito era beber demais nos finais de semana.

Ver imagem em tamanho grandePassava o sábado inteiro no bar e aos domingos, bebia todas, enquanto assava alguma coisinha para a família. Acomodava o isopor, com cervejas geladas, sobre o tanquinho da esposa e ali ficava até o final da tarde, grelhando tudo quanto era inho ou inha: asinha, fraldinha, coraçãozinho, linguiçinha, costelinha...

Numa dessas tardes, enquanto ele bebia no quintal e a família assistia ao programa do Sílvio Santos, um ladrãozinho entrou pela janela do quarto. Quando a Geny percebeu o vulto, começou a gritar: _ Divino! Pega o ladrão... Tá levando minha bolsa!

   O pivete passou rente ao Divino, sem que o mesmo desse conta do que estava acontecendo mas, ao pular o muro, enroscou a bermuda no arame, deixando cair um de seus chinelos. Quando a mulher chegou no quintal, avistou o marido enfiando o chinelo no pé do larápio e ajudando-o a pular o muro.

O Divino perdeu o emprego, recebendo bastante dinheiro com a indenização e o Fundo de Garantia. A Mulher comprou um computador e guardou o resto do dinheiro na poupança. A partir de então, enquanto o marido ficava quase todo o tempo no bar, ela navegava na Internete.

Pelas salas de "bate papo", acabou por conhecer um turco, chamado Aziz. Ele ficou interessado pelo rosto da Geny, chamando-a para passar uns dias em seu apartamento. Doida por aventuras, ela sacou todo o dinheiro do marido e num domingo, mandou-se para São Paulo.

Antes de sair com as malas, ainda foi dar uma última espiada no marido, que acendia a churrasqueira. Ele, já bebum, olhou bem para ela e pediu: _ Ô bem, vá fazer um vinagrete, bem caprichado!

O Aziz somente conheceu a Geny do pescoço para cima, pois ela nunca abaixava a Câmera para mostrar o corpo e quando ele abriu a porta, levou o maior susto: _ Você não ser Geny... Aziz non gostar de ser enganada! 

 Além de tarado, o turco era esquizofrênico e sádico. Prendeu a mulher no quarto por uma semana, a pão e água. Com uma faca afiada, ele ameaçava cortar-lhe o nariz e os seios. Toda tarde, ela era amarrada, nua, aos pés da cama e levava a maior sova de chicote:     _ Mulher mentirosa e adúltera, tem que levar chibatada bára abrender!

Ela quase foi morta, em nome de Alah... Numa manhã de domingo, depois de ter torrado todo o dinheiro dela, em um cassino clandestino da Avenida Rio Branco, Aziz colocou-a em um ônibus, de volta às origens. 

Geny chegou em casa, com a mesma roupa no corpo, completamente zonza e debilitada. Ficou mais de uma hora, na esquina, com medo de enfrentar o marido: "Meu Deus, escapei do turco mas, agora, o Divino me mata!"

 Criou coragem e entrou, bem de mansinho. O marido estava lá, da mesma maneira em que ela o viu da última vez: bêbado e assando linguiças. Ele olhou para a esposa, piscou duas vezes e enrolou as palavras: _ Buta que bariu, ainda não fez esse vinagrede!! 

Em vez de torrar as coxinhas de frango na grelha, é melhor fazê-las no forno, crocantes, anote aí que é bem fácil:

 COXINHAS DE FRANGO CROCANTES: tempere as coxinhas (sem as asas) com sal, azeite, molho inglês, pimenta, cebola e alho batidinhos e meio copo de água. Deixe pegar tempero. Disponha as coxinhas na forma, com um pouco do tempero. Espalhe farinha de trigo por cima de todas, e deixe assar, em fogo médio, até ficarm douradas e crocantes.

A TIA II

  Descobri o nome das três morenas da paineira:  Alzira, Elmira e Elvira. A do meio é a Tia.

No último aniversário do Ciro Ney, nós fizemos Tia Elmira tomar quase uma garrafa inteira de cachaça. Até colamos, no rótulo da bebida, um papel escrito: "da Tia". E ela bebeu... a noite toda! Disse-nos que estava chateada pois seu dia havia sido muito complicado, por força das limitações que a idade lhe impunha e pela  incompreensão das pessoas.

Após meia garrafa de cachaça, ela contou-nos a razão de suas mágoas: Naquela manhã ela acordara bem contente, pois iria almoçar na casa do Landão, um antigo amigo. Estranhou o fato de estar sem a dentadura de cima e não se lembrava de tê-la tirado para dormir. Procurou na gaveta do criado mudo, na penteadeira, na pia do banheiro e nada!! Desesperada, ligou para o amigo, mentiu que estava com uma forte enxaqueca e cancelou o almoço: Jamais sairia sem dentadura...

Mais tarde, quando foi arrumar e alisar as cobertas da cama, sentiu algo saliente. Era a dentadura que escapara de sua boca, enfiando-se num buraco do velho edredom. Retornou  para o Landão, confirmando sua presença, "já que a enxaqueca havia passado."

 O amigo serviu feijoada e tomaram várias caipirinhas. A sobremesa foi uma espécie de torta de chocolate, chamada Tiramissú, deliciosa mas que, definitivamente, não combina com feijoada e cachaça!

De repente, a dor de barriga apertou... Percebendo que a "explosão" seria terrível, não quis usar o banheiro de Landão e foi despedindo-se às pressas. Morava no final da avenida mas, já no começo, sabia que não daria tempo de chegar.

Pelo meio do caminho, entrou numa loja das Casas Pernambucanas, mas a balconista ruiva, "com unhas de puta", foi categórica: _ O toilette é só para funcionários!

Percebendo que não adiantava insistir, branca como os lençóis que a balconista dobrava, Tia Elmira saiu da loja, cambaleante:  _ Meu Deus, não vou aguentar!

 Um pouco mais adiante, ela topou com uma jovem, com roupas de enfermeira que saía de sua casa, com as chaves na mão. Enquanto a moça encostava o portãozinho do corredor, a Tia agarrou seus braços, desesperada: _ Filha, pelo amor de Deus! Deixe-me usar teu banheiro?

_ Ah, larga do meu braço sua velha doida! Eu já estou atrasada e não vou abrir a casa para ninguém... A Tia, com as pernas cruzadas e as mãos na barriga, ainda insistiu: _ Por favor, estou quaze fazendo nas calças! A enfermeira respondeu-lhe com a bunda e assim que dobrou a esquina, Tia Elmira empurrou o portãozinho e correu para uma pequena varanda, no fundo do quintal.

Agachou-se e foi aquela pororóca! Sentiu até os pelos dos braços arrepiarem-se de tanto alívio. Como não achou papel, limpou-se com um lençol branco que encontrara no varal. Saindo dalí, retornou à Loja da Pernambucanas e procurou a mesma balconista ruiva que lhe recusara o toillete. _ Pegue para mim dois lençóis brancos, dos mais caros que tiver na loja.

Após a venda, a moça perguntou-lhe: _ A senhora vai usar o crediário?

A Tia, com ar de desdém, respondeu-lhe: _ Não, filha... eu compro com cartões de crédito. Quem usa crediário são as balconistas ou enfermeiras!

 Pediu papel e caneta emprestados, escreveu um bilhete e voltou à casa da enfermeira. Olhou para a varanda e riu-se do estrago que aprontara. Estendeu os dois lençóis novos no varal e deixou, preso ao arame, o seguinte recado: _ Sou velha, mas honesta!!

Tudo bem, não deveria mas...vou deixar a receita da sobremesa italiana:

 TIRAMISSÚ: 4 ovos; 4 colheres de açúcar; 300 gramas de requeijão firme (mascarpone); 1 lata de creme de leite (sem soro); 1 pacote de biscoito champagne; 1 colher (de chá) de baunilha; 1 colher (sopa) de licor de cacau ou brandy; 1 xícara grande de café e 100 gramas de chocolate meio amargo raspado ou chocolate em pó.

Bater as gemas com o açúcar, adicionar o requeijão, o creme de leite e bater mais. Misturar com as claras em neve, até ficar um creme uniforme. Juntar o licor (ou brandy) ao café, molhando os biscoitos nessa mistura. Forrar uma travessa com os biscoitos molhados e espalhar metade do creme por cima. Dispor outra camada de biscoitos e o resto do creme. Alisar bem e espalhar o chocolate (raspado ou em pó). Levar à geladeira.

 

A TIA I

Prá falar a verdade, no momento, esqueci-me do nome dela. Mas é Tia da Marlene, mulher do Ciro Ney, meus amigos. Aliás, nós todos a chamamos por Tia e ela é uma figura ímpar, um verdadeiro barato!

      Muito embora já tenha passado a casa dos setenta, é uma mulher vaidosa e bem bonitona. Não aparenta a idade que tem... Disse-nos que na juventude, ela e as irmãs foram famosas bela beleza. Eram conhecidas como as "morenas da paineira", pois moravam numa chácara, pertinho da cidade e na porteira de entrada, havia uma árvore dessa, bem grande.

Pelo gosto do pai, elas deveriam casar-se com doutores ou fazendeiros e preparou-as para isso. Todas sabiam tocar piano, receberam aulas de etiqueta e falavam o francês fluentemente. Mas, designos do destino... nada disso aconteceu! A mais velha casou-se com um violeiro, a Tia, com um caminhoneiro e a mais nova, tornou-se professora e solteirona.

 A mulher do violeiro ficava acordada, noites e mais noites, à espera do marido, o qual, invariavelmente, chegava bêbado e com a viola fora do saco. E, ai dela, se reclamasse! Levava violada na cabeça... Bebeu tanto, até morrer com cirrose hepática. 

Ver imagem em tamanho grandeO marido da Tia era um romântico e ela, apaixonada, não se cansava de elogiar o maridão. Sujeito trabalhador, passava semanas e semanas na estrada, a fim de trazer conforto para ela e aos filhos! Toda a vez que retornava de Belém do Pará, trazia-lhes pupunha, cupuaçu, açaí e outras frutas típicas daquelas terras.

O que ela não sabia é que quando ele para lá voltava, também levava jabuticabas, uvas, pinhão e goiabada cascão para a família que mantinha em Belém: mulher e dois filhos...

Acabaram contando para ela e a Tia ficou desarvorada, sem saber o que fazer. A irmã solteirona dizia-lhe para abandonar o marido. A viúva, aconselhava: "Fica com ele, pois eu sei o que é solidão... É melhor dividir um bife do que comer agrião!"

Mulher ferida não raciocina e... o homem foi-se embora. A coitada ficou com uma pensão tão merreca, que mal dava para pagar o aluguel. Aos poucos, vendeu tudo o que tinha. De valor, mesmo, só lhe restaram o fusca vermelho e um anel de brilhantes. Já no fim do poço, a irmã deu-lhe a idéia: "Vamos até Aguaí, lá tem um macumbeiro dos bons e com a a ajuda dele, teu marido volta para casa. Foi ele quem fez meu finado parar de beber..."

A Tia estranhou aquele papo: "Mas, se teu marido morreu com cirrose?!" A irmã ponderou: É, morreu... mas, uns dias antes, ele tinha largado da bebida!

  O "pai de santo" afirmou-lhe que o marido voltaria para casa, dentro de três semanas, em troca do anel de brilhante que ela trazia no dedo. Ela concordou e aguardou. Passaram-se duas, três, quatro semanas e... nada! 

De volta à Aguaí, dessa vez, o homem conduziu-as a um ranchinho no quintal, cheio de imagens com chifres e capas vermelhas:  _ É, minha filha, os exús de Belém são bem fortes! A outra mulher fez um trabalho dos grossos, para segurar teu marido. Vai ser preciso muito dinheiro para quebrar as correntes. Quanto você pode pagar?

Acabou deixando o fusca, levando a promessa de que, antes de dois meses, o marido estaria entrando em sua casa:  _ E pela porta da sala!

 Numa tarde, lá pela hora da "Ave-Maria", a Tia viu estacionar à porta, uma perua de resgate. Dois homens entraram pela porta da sala, transportanto o corpo de seu marido. O caminhão, carregado de laranjas, havia tombado numa curva, próxima à Atibaia e o único endereço que encontraram nos documentos do acidentado, foi aquele, o da casa da Tia.

Dessa vez, a macumba deu certo e, naquele momento, veio-lhe à mente, as palavras do "pai de santo": _ Muito cuidado com o que pedes aos espíritos, pois eles poderão atender-lhe...

Acho que aí no texto, eu falei sobre pinhão e então, lembrei-me dessa receita muito boa:

 ARROZ MORENO COM PINHÕES:  2 copos de arroz,  4 colheres (sopa) de óleo, 4 dentes de alho picados, 1 cebola pequena picadinha, sal, água e pinhões (já cozidos e cortados em lâminas bem finas). Lave o arroz e espere secar bem. Frite no óleo a cebola e o alho, até ficarem queimados. Junte os pinhões e frite mais um pouco. Acrescente o sal (pouco) e o arroz. Misture até ficar moreninho. Junte a água fervente, abaixe o fogo e espere secar.

Não tenha medo de queimar, pois o segredo está aí. Use pouco sal, pois o sabor fica a cargo do alho e da cebola queimados.

A GENOVEVA

A Genoveva morava ali por perto de casa. Era até rosada, de tão loira e ninguém sabia, ao certo, a sua idade. Ela ficava muito brava quando alguém lhe perguntava mas, como ela foi colega de trabalho de minha prima mais velha, acho que as duas regulavam de idade.

 Quando moça, ela vivia com o pai, seu Noel e dois irmãos, mais velhos. A profissão de seu Noel, hoje, não existe mais: era capador. Com a maestria de um cirurgião formado, muito requisitado pelos sitiantes e fazendeiros da região, castrava touros, cavalos e porcos. Os touros capados, viravam bois e serviam para puxar carros ou engenhos de cana; os cavalos, ficavam mansos para as selas ou carroças e os porcos, ou cachaços, viravam capados e desandavam a engordar.

Genoveva era uma moça direita e trabalhava, conforme eu disse, com minha prima na fábrica de palha. Ainda me lembro delas, sentadas naqueles montes de palhas de milho, cantando e dando risadas, enquanto trabalhavam. Eram umas 20 mulheres, todas com enormes saias rodadas, blusas com mangas até ao punho e lenços amarrados à altura do nariz, para evitar coceiras ou alergias. 

As palhas de milho eram trazidas das roças, numa caminhonete com grades, dirigida pelo Jorge Lincol, um negro alto, alegre e bem despachado.

Ver imagem em tamanho grande Munidas de canivetes, com lâminas bem largas, elas cortavam as palhas em pedaços regulares, as quais eram alisadas, várias vezes, com as costas das lâminas. Dobrados e empacotados em saquinhos transparentes, esses invólucros eram, posteriormente, comercializados para a confecção de cigarros de palha.

 O chefe delas era descendente de alemães, cabelos e bigodes bem amarelos e por isso, seu apelido era "Pão com Ôvo". Ele era meio tarado e vivia molestando as moças.  Minha prima, inclusive, pediu as contas, num dia em que ele, deixando a porta do mictório meio aberta, balançou o negócio pro seu lado

 

 Depois ela contava para a gente: _ Ainda se fosse grande coisa! Mas o negócio dele mais parecia uma salsichinha coquetel, pendurada em dois caroços de macaúbas...

E ele acabou ficando sem os dois caroços de macaúbas _ tudo por culpa da Genoveva.

 Um belo dia, a familia percebeu que a moça "não era mais moça". Bem que ela tentou esconder a gravidez, apertando a cintura das saias rodadas com um cinto bem largo. Mas, numa manhã em que estava lustrando o assoalho com um escovão daqueles antigos, de ferro e bem pesado, caiu desmaiada. Chamaram o Dr. Durval, que deu o diagnóstico: _ Grávida de seis meses... E se não ficar de repouso, a criança nasce de repente, pois foi muito judiada!

O céu desabou... seu Noel queria matar a filha e só não o fez, porque os filhos levaram Genoveva para Mauá, na casa da irmã mais velha. Sob pressão, confessou aos irmãos que o pai da criança era o "Pão com Ôvo", que havia feito mal pra ela, em cima do monte de palhas.

O alemão que já era casado, negou, com veemência, ser o "estuprador da palha". Mas, coitado! Foi capado assim mesmo e sem anestesia...

Teve os caroços retirados, com precisão cirúrgica. O invólucro foi cuidadosamente costurado e desinfetado com água oxigenada e Lepecit (um desinfetante próprio para ferimentos em animais de grande porte). O Seu Noel ainda deixou-lhe um frasco, com 300 ml do produto, e a profissional recomendação de que fosse aplicado três vezes ao dia.

Desesseis a dezoito anos depois, Genoveva voltou para a cidade, instalando-se na antiga casa que herdara, após a morte do pai. Quando ficou ciente de que o "Pão com Ôvo", também já "batera com as botas", trouxe seu filho para morar com ela. Um baita rapagão, batizado de Jorge Uóxito, alegre, despachado e ... bem mulato!

 Como dizia meu avô: "João de barro, muitas vezes, choca ovos de periquito..."

E a receita, apropriada para hoje, será:

 ENROLADINHOS DE SALSICHAS: juntar e levar ao fogo (só para amornar) os seguintes ingredientes: 1 copo de leite, 1 copo de água, 1/2 copo de óleo, 1 colher (sopa) de açúcar e 1 pitada de sal. Desmanchar 2 tabletes de fermento (30 gramas) nessa mistura morna e acrescentar: 2 ovos, 2 colheres (sopa) de margarina e 1Kg de farinha de trigo (ou o tanto que der para sovar). Deixar crescer até dobrar de volume. Abrir a massa bem fina, com o rolo e cortar em tiras estreitas. Enrolar as tiras em salsichas pequenas ou tiras de queijo mozzarella. Pincelar com gemas e salpicar queijo ralado. Polvilhar a forma com farinha de trigo e levar para assar.

A CREUZA II

ATENÇÃO; Leiam, primeiro,  a CREUZA I

Ainda sobre a Creuza,  seus pais morreram no mesmo dia...

 Era um domingo de feira e Dona Delfina acabara de vender a última galinha, quando caiu aquele toró de arrombar riacho. A Feira era no largo da estação e como eles moravam num bairro próximo, o Augusto Caparrão resolveu voltar para casa, debaixo da tempestade, contrariando a esposa que morria de medo de raios e trovões.

A cada trovoada mais forte, o burro dava um pulo, empinando a carroça. A mulher, apavorada, punha-se a suplicar: _ Me ajude, Santa Bárbra! E a amaldiçoar o marido: _ Mardito, lazarento, freia o burro que eu quero descer!

 Ao chegarem à baixada da Vila Operária, viram que o rio estava vasando por cima da ponte. O Augusto, teimoso como todo português antigo, açoitou, fortemente, o animal, obrigando-o a enfrentar a força das águas.

Dona Delfina ainda tentou arrancar as rédeas das mão do marido mas, levou uma forte cotovelada na boca. Literalmente, deram com o "burro n'água": a correnteza fez tombar a carroça, bem no meio da ponte e quebraram-se os varais que prendiam o burro. Livre do peso, o animal conseguiu safar-se, relinchando morro acima, como doido. 

As pessoas que assistiam à enchente, contam que a mãe da Creuzinha ficou presa, por alguns segundos, no madeiramento da ponte, gritando para os que tentavam salvá-los: _ Deixa o Augusto rodá e acóde eu!!!

De nada valeu aquele último apelo egoístico, que demostrava o grande amor que tinha pelo marido. Horas mais tarde, os dois foram encontrados e velados na mesma noite. Como a sala de dentro era muito pequena, ficaram naquela varanda, onde a Nicota mascava seu fumo e o papagaio cantava seus hinos.

 A voz da velha portuguesa era muito fina e estridente. Lembro-me, direitinho, que durante o velório, enquanto gritava: _ Delfiiiiina, Ah, minha fiiiiilha... que fizeram contiiiigo! _ os perus, lá no galinheiro respondiam, em bando: "gru-gru-gru-gru..." A gente não sabia se ria ou se chorava!

Cá entre nós, acho que a Creuza até ficou aliviada com a morte dos pais. Internou a avó no asilo e as crianças menores na creche. De casa, levou apenas o papagaio, indo morar e trabalhar no bar do Euzébio.

O Euzébio tinha uma clientela fixa, fiel as suas frituras deliciosas. Filés de tilápia, leitoas à passarinho, moelas na páprica picante e o carro-chefe, que era o famoso torresmo pururuca, grande e carnudo, cuja receita ele guardava à sete chaves. No passado, quando o bar era bem maior, sua mãe cuidava das frituras, enquanto ele ficava no balcão.

Era filho único, de mãe solteira e Dona Francisca não queria que o filho se casasse, pois tinha medo de ficar sozinha na vida. Dizem que, para "apagar o fogo" do rapaz, ela misturava salitre na comida e bebida do filho. A estratégia parece que deu certo, pois o Euzébio  nunca namorou ou saiu com mulher alguma... nem com homem. Era completamente assexuado.

 Ele e a creuza deram-se muito bem. Ela convenceu-o a alugar uma daquelas máquinas de músicas e a construir três "reservados" no fundo do bar. O Negócio prosperou tanto que abriram uma filial, o "Euzébio II", na saída da cidade e a clientela dobrou.

Certa noite, enquanto guardava umas caixas de cerveja, o Euzébio teve um mal súbito e foi levado às pressas, para o hospital. Durou poucos dias mas, como prova de reconhecimento, antes de morrer, resolveu-se a casar com a Creuza e, em seu leito de morte, foi oficializado o ato civil.

A amiga herdou não somente os dois bares mas, também, algumas casas e terrenos que o Eusébio possuia e que ninguém sabia. Dizem que, agonizante, ainda teve tempo de passar para a Creuza a receita de seus famosos torresmos. Ela, porém, vendo-se rica, nunca mais quis saber de fritar torresmos. 

 Vendeu o bar da cidade e reformou o "Euzébio II", rebatizando-o de "Blue Moon". No novo estabelecimento, que tornou-se no "point" da população masculina, não se servia mais tilápias grelhadas _ apenas piranhas perfumadas...

Se vocês  pensam que vou ensinar o famoso torresmo do Euzébio, esperem sentados, pois que eu não sei... Mas, não deixem de fazer a receita de moelas all sugo, que eu adoro:

  MOELAS ALL SUGO:

1 Kg de moelas de galinha; 6 tomates grandes e bem maduros, 1 colher (sobremesa) de páprica picante, 1 colher (sopa) de extrato de tomate; 3 colheres de azeite, 5 folhinhas de manjericão, 1 folha de louro, 1 colher (sopa) de molho inglês, três dentes de alho, 2 cebolas, 1 copo de água, 1/2 copo de vinho tinto seco (opcional) e sal a gosto.

Limpe bem as moelas, retirando a pele amarela interna e as pelancas externas. Cozinhe em água e sal. Escorra bem e frite-as no azeite, alho picado e meia cebola picada. Junte os tomates picados e sem sementes, refogue bem, acrescentando o copo de água (e o vinho) com os demais ingredientes. No final do cozimento, quando o molho estiver bem encorpado e a moela super macia, acrescente o resto da cebola, cortada à juliana (de comprido).

Sirva com torradas.

POS SCRIPTUM: Ok, já que reclamaram a receita do torresmo, eu perguntei à "Creuza" e ela disse-me que se lembra, mais ou menos assim: Temperar com pouco sal e alho espremido, as fatias bem largas de toucinho, daqueles bem carnudos. Depois, congela-se tudo. Pouco antes de servir, mergulhar as fatias, ainda congeladas, em um tacho com bastante óleo fervente. O Euzébio utilizava aqueles coadores de arame de fritar batatas (não sei o nome).

Vou fazer um experimento e depois digo se fica bom, ok? 

A CREUZA I

Coitada da Creuza... Sofreu tanto na infância e adolescência!

 A mãe, Dona Delfina, tinha um filho atrás do outro e os mais velhos cuidavam dos pequenos pois, a mulher mais parecia uma cabrita arisca _ paria e depois dava coices nos filhotes.

E o pai, então...nem se fale! O Augusto Caparrão era galinheiro e fazia seu comércio pelas ruas e feiras. Tinha uma carroça com um enorme engradado, onde carregava aves de todos os tipos; desde perus, até patos e angolas. Costumava gritar, anunciando seus produtos: _ Tenho ganso, marreco, galinha e peru e só não vendo o danado do urubu!

Às vezes, fazia piadinhas sem graça: _ Eh, Dona Maria, apruveita o ganso, que a muié do Zé Amaro ficou ca gansa...

Era um brutamontes, que vivia batendo nas crianças e na esposa. E o pior, era que a danada da mulher, gostava de apanhar. Um dia, minha tia Beatriz, que era vizinha deles, foi apartar a briga. Mesmo gemendo, sob a sova do marido, a bruaca  teve a coragem de dizer: _ Deixa, Dona Beatriz, eu gosto! 

Na família, tinha, ainda a avó portuguesa, da Ilha das Canárias, chamada Dona Nicota e um papagaio, que foi trazido, ainda pequeno, por um dos irmãos de Creuza. Ao retirar a avezinha do ninho, o moleque acabou por quebrar-lhe uma das pernas. Cresceu com o pé torto e por isso, foi apelidado de mané garrincha.

 A avó só ficava na varanda, mascando e cuspindo fumo. De tanto a velha cantar "Táva na Peneira", uma música de sucesso na época, o papagaio aprendeu o estribilho e, quando ficava excitado, cantava estridentemente, com sotaque português: "Táva na puneira (peneira)ôi, táva puneirando,  (peneirando)..." O irmão mais novo de Creuzinha, que era coroinha de igreja, também ensinou a ave a cantar um hino. 

 Nos dias em que a briga familiar pegava fogo, o "mané garrincha" desandava a gritar, repetidamente: _ No céu, no céu, com minha mãe estareeeei... Táva na puneira, ôi, táva puneirando, ôi....

Era uma loucura! E nessa bagunça toda, a familia nem percebia que a Creuzinha era diferente. Não gostava de lavar pratos, de brincar de casinha e nem de usar vestidos. Passava o dia no meio da molecada, laçando os porcos do chiqueiro, secando bolinhas de barro para matar pardais no estilingue ou trepando em árvores.

  Enquanto as irmãs confeccionavam roupinhas para as bonecas de sabugo, ela juntava lacinhos de fitas coloridas, para amarrar no seu bichinho de estimação _ um leitãozinho, órfão e que ela criava na mamadeira. Batizou-o de Laurinho e andava com o suíno no colo, prá baixo e prá cima. Chorou muito, numa manhã em que o porquinho amanheceu amassado, com o peso de seu corpo. Podem nao acreditar mas, ela dormia com o Laurinho na cama!

 Apesar de terem, no galinheiro, várias aves e ovos, as crianças só comiam carne de frango quando estavam doentes. No lanche da escola, havia sempre a mesma coisa: pão com ovo. Ainda por cima, o ovo era repartido; se um levava a gema, o outro ficava com a clara. A Creuza, em criança, nunca comeu um ovo inteiro... Um dia, ouvi a menina reclamando com a mãe: _ Não tem nada no pão! O que é que eu levo de lanche, mãe?!

Dona Delfina gritou, em resposta: _ Leva pão com merda, sua f.d.p.!

 Ali pelos doze anos, a molecada começou a chamá-la de Creuzinha "sapatão". Nem ela entendia, ainda, as razões de ser diferente das demais meninas. Quando alguém a chamava pelo apelido, virava uma fera e "rolava pelo chão", dando socos e pontapés no desafeto. Numa briga dessas, quebrou o nariz e, como herança eterna, ganhou aquelas feições de boxeador. 

Deixou de ser Creuzinha, após a morte dos pais. Passou a trabalhar em um bar, limpando as mesas e servindo bebidas. Sentiu-se mais feliz, naquele ambiente, mesmo sendo chamada de Creuzona...  

Já que temos ovos na estória, segue a receita de:

 FIOS DE OVOS: Passar 12 gemas numa peneira fina (com o auxílio de uma colher). Fazer uma calda rala, juntando algumas gotas de baunilha, sem deixar ferver. Colocar as gemas em uma bisnaga com bico fino (eu utilizo bisnagas vasias de mostarda). Separar os fios com auxílio de um garfo e assim que estiverem cozidos (meio esbranquiçados), retirá-los da calda, repousando-os numa peneira para escorrerem. Proceder da mesma maneira com o restante das gemas. Se a calda engrossar, acrescentar mais água quente. Colocar os fios de ovos numa compoteira e depejar o restante da calda por cima. Guardar as claras para o pudim de claras, cuja receita está por ai...


DA BAHIA À CORNUALHA - 2ª PARTE

 Foram 25 anos de agonia e êxtase... Sentada num promontório rochoso, selvagem e completamente isolado da pequena urbe, Maria da Paz repassava mentalmente todas as alegrias e tristezas vivenciadas naquele fim de mundo, tão estranho para ela, mesmo depois de tantos anos. 

Ela e a sogra sempe se destestaram mutuamente. O primeiro "pega" deu-se, já, no primeiro dia em que ficou sozinha, naquela casa sombria que abrigara várias gerações da família Hornblower, desde o século XVII. Jan saira com a mãe, a fim de comprar algumas roupas decentes para a jovem. Maria da Paz, sem tem o que fazer e querendo agradar àquela mulher fria e sizuda, começou a arear algumas panelas escuras que encontrara na cozinha.

 Pensando que eram pretas de tanta gordura e fumaça de fogão,  juntou um punhado de areia a uma palha de aço e esfregou que esfregou, até deixar os utensílios brilhando como prata. Quando a sogra viu aquilo, soltou um grito de horror e raiva. Começou a esbravejar para o filho, dizendo que passara vários meses juntando dinheiro e coragem para comprar aquelas panelas caríssimas. Era um conjunto de Teflon negro, recém lançadas no mercado europeu. "E, agora, essa selvagem estragara tudo!"

A baianinha, sem entender nada, desandou a choramingar e a balbuciar, num inglês terrível: "Mas, Jão, passei a tarde todinha areando essas panelas, estou até com a mão dura!"

Afora as oportunidades em que acompanhava o marido em suas viagens mar adentro, sua vida era muito triste e a sogra fazia de tudo para torná-la pior. As duas tiveram que separar a casa ao meio e cada uma tinha seu território.

 Essa divisão deu-se após uma tarde em que, aproveitando-se da ausência da nora, Miss Daphne desmontou o altar dos orixás que a nora mantinha em seu quarto. Destruiu todas as imagens, jogando-as no mar. Para o filho, a mulher justificou-se:" É vodu dos bravos, coisas do demônio!" Em represália, Maria da Paz, armada de um atiçador de lareira, quebrou todas as porcelanas da sogra, salvando-se, apenas, uma chávena de chá "Companhia das Indias", herança da avó ou bisavó de Jan.

E foi através dessa xícara remanescente que, muitos anos depois, Maria da Paz deu o golpe final de desforra sobre a sogra.

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A Internete já havia chegado àquele rincão desolado e na casa havia dois computadores, um para cada mulher.  Foi por essa época, também, que "da Paz" ficou viúva, após o naufrágio de um dos barcos pesqueiros que levou Jan consigo, para o fundo do Canal da Mancha.

A solidão tornou-se insuportável. Já nem se importava mais com a presença da sogra, a qual, aliás, passou a tratá-la com mais suavidade, talvez, com medo de ficar sózinha, caso a baianinha resolvesse voltar para o Brasil. Frequentemente convidava a nora para partilhar de seu chá ou de seus bordados.

As vezes, enquanto Maria da Paz bordava, Miss Daphne entrava na Internete e ali ficava, batendo bapos com outros internautas, usando o pseudônimo de ESTRELA DO ORIENTE. Enquanto teclava, bebericava goles de chá, naquela única xícara que lhe restara.

 Foi então, que surgiu a idéia maquiavélica: De seu computador, Maria da Paz acessou a mesma sala de bate papo que a sogra frequentava e com o apelido de TUAREG, começou a "paquerar" a ESTRELA DO ORIENTE. Dizia ser um advogado, aposentado e viúvo. Morando em Londres, com um único filho, sentia-se tão solitário quanto ela. Em poucos dias, Miss Daphne estava apaixonada e dizia para a nora que o tal de TUAREG, profundo conhecedor da alma feminina, conseguira reimplantar em seu coração, aquele sentimento que há décadas não mais sentia...

Desenvolveu-se o namoro on-line, até o ponto em que marcaram um encontro para se conhecerem. Miss Daphne contratou faxineiras para deixar a casa brilhando e preparou um jantar especial para compartilhar com o amado. Porém, terminou a noite sorvendo xícaras e mais xícaras de chá,  frente ao computador, tentando encontrar o amado e saber o por quê do "cano".

Passaram-se semanas de silêncio até que o TUAREG deu o ar da graça, dizendo que estivera na UTI, vitimado que fora por três infartos seguidos. Escreveu ainda que se o pior acontecesse, ela seria notificada, através de seu filho.

Certa noite, Miss Daphne, aborrecida com o desaparecimento misterioso de sua xícara de chá, recebeu um e-mail, do "filho" de TUAREG, comunicando-lhe o falecimento do pai. Na mensagem, solicitava que a mulher informasse seu endereço pois que o pai, em seus últimos momentos, pedira que fosse-lhe enviada sua foto, com um presente_ um objeto pessoal que ele estimara muito.

 Dias depois, sob o olhar curioso e malévolo da nora, Miss Daphne abriu uma linda caixa, recebida pelo "Express Postal Service", contendo um xícara idêntica à que perdera e mais a foto de um anão, com uma "dedicatória" de TUAREG...

Já que falei tanto em chá, seguem umas dicas básicas de chás (sempre na forma de infusão) e suas propriedades medicinai.

 CHÁS -  Carqueja (digestivo); Erva Cidreira (gases, calmante); Alecrim (insônia e depressão); Hortelã (máu hálito, insônia e calmante); Louro (dor de estômago); Sálvia (dor de garganta e resfriado); Endro (espasmos digestivos); Poejo (má digestão, arrotos); Funcho (calmante e asma); Malva (bexiga); Losna (cólica, diarréia e náuseas); Boldo (indigestão) e Alfazema (enxaqueja e indigestão).

DA BAHIA À CORNUALHA

 A Costa do Dendê, situada entre o Recôncavo Baiano e o Rio das Contas, no litoral sul da Bahia, era ocupada pelos indios Tupinambás, quando do descobrimento. Essa tribo foi dizimada pela varíola, abrindo espaço para os Aimorés e, posteriormente, para os jesuítas portugueses que a colonizaram.

 Bem próxima à Costa, está situada Boibeba, uma ilha deslumbrante, distante 100km de Salvador, com um clima excelente e praias luxuriantes. O povoado, apesar de pequeno, é um dos locais de colonização mais antigos da Bahia (1537).

E foi ali que nasceu Maria da Paz. Criada e crescida no meio dos mangues, a catar siris e caranguejos, que seus pais vendiam aos turistas, num boteco à beira mar.

 Ali pelos dezesseis anos, Maria da Paz foi-se embora para Salvador, a trabalhar como faxineira diarista, por um tempo e, posteriormente, como garçonete. Dava um duro danado, mas jurava nunca mais voltar ao povoado natal: "Não nascí prá aquilo", dizia ela.

 A Cornualha é um condado britânico, com pouco mais de 500 mil habitantes, situada ao extremo sul da Inglaterra. Uma inóspida região, açoitada pelos ventos costeiros e referendada como sendo a lendária terra perdida de Lyonesse, nas aventuras do rei Arthur e seus cavaleiros da távola redonda. Tem em seu nome _Cornwall_ antiga origem galesa da palavra "corno". 

 Numa ponta da península, avançando pelo Canal da Mancha, situa-se a pequena cidade de Land's End (traduzindo-se para um bom português, "cu de Judas"). A cidadezinha medieval, no topo das escarpas rochosas, quase que se debruça sobre  mar revolto e violento.

E foi alí que nasceu Jan Hornblower, criado e crescido no meio de peixes, já que seu pai era dono de uma pequena frota de barcos pesqueiros. 

 Aos 21 anos, após a morte do pai, o rapaz assumiu o comando da frota, o que o obrigava a ficar longas semanas distante de casa, numa solidão tremenda. Uma vez por ano, costumava viajar para lugares bem distantes, preferencialmente exóticos e diversos de sua triste terra natal.

  Nos finais de semana, Maria da Paz fazia questão de não trabalhar, alegando que era o único tempo disponível que tinha para achar seu futuro. Com esse intento, ficava horas na praia, fingindo ler um volumoso romance e tostando-se ao sol. Sem coragem de usar biquini, "da Paz" vestia, sempre o mesmo maiô, tipo "arrastão", com duas peças e uma espécie de redinha que unia a parte de cima com a parte de baixo, deixando, apenas, uma visualização do umbigo.

 Foi vestida assim que, na Praia do Forte, Jan Hornblowar a conheceu. Ela, uma mulata alta, sangue mestiço, pernas bem longas e cabelos da cor do carvão. Ele, um britânico alto, puro sangue celta, pernas bem longas e cabelos da cor do milho.

Em férias no Brasil, já estava meio enjoado das presas fáceis que encontrara pelas praias do nordeste, porém, encantou-se com aquela trigueirinha de sorriso espontâneo, dentes brancos e corpo de deusa. Cheia de dengos e fazendo-se de difícil, em poucos dias, Maria da paz conquistou o coração do gringo.

De volta à terra, Jan chorava a separação, medindo com o coração as longas cinco mil milhas que o separava da amada. Após muitas cartas e telefonemas, capitulou ante à paixão e para lá chamou nossa baianinha, após um apressado casamento por procuração.

 Como Jan lhe contara que Land's End era cercada por mar, levou na mala, dentre quase nada, seu maiô arrastão, duas "piranhas" de prender o cabelo e um pote de "Hené Maru" para alisar as caraminholas. Não se esqueceu dos patuás e nem das imagens de seus orixás protetores. Desceu em Londres, numa manhã fria e brumosa, quase em pânico. Deu um grito quando avistou seu amado "Jão", como ela o chamava. Correu a abraçá-lo, tascando-lhe um beijo, daqueles de desentupir pia, sem ao menos perceber que Jan estava acompanhado de uma senhora alta, extremamente branca e ainda bonita.

 Era a sogra, Miss Daphne Hornblowar que, vestida num longo manteau preto, a tudo assistia, dando claros sinais de reprovação, ante àqueles arroubos, para ela incabíveis.

Com os olhos brilhantes, Maria da Paz abriu ali mesmo, um pequeno isopor, lotado de acarajés, fritos e acondicionados há mais de vinte horas atrás. Entregou o pacote ao rapaz, dizendo: _O que você mais gostou na Bahia, alem "de eu"...

O saguão do aeroporto ficou impregnado pelo forte odor do dendê. A sogra tapou o nariz com um lencinho de seda e ordenou ao filho que jogasse aquilo no lixo.

Foi antipatia mútua e instantânea.

  ACARAJÉ: 1 Kilo de feijão fradinho (aquele que tem um "olhinho" na barriga); 3 cebolas grandes; 3 dentes de alho; 300 gramas de camarões secos; sal e 1 litro de azeite de dendê. Deixe o feijão de molho de um dia para o outro. Esfregue-os e lave-os em várias águas, para soltar a casca. Passe em moedor ou processador, juntamente com a cebola e 300 gramas de camarão seco e bata, com colher de pau, até ficar uma massa leve (Quanto mais bater, mais leve fica). Tempere com o sal (cuidado), pimenta e dendê. Coloque o azeite de dendê em frigideira bem quente e frite às colheradas, virando-os apenas uma vez. Abra os acarajés e sirva bem quente, recheado com vatapá ou com o seguinte molho de camarão: Refogar em uma xícara de azeite de dendê, 3 cebolas, alho a gosto e 700 gramas de camarão defumado sem casca, cheiro verde e pimenta a vontade.

 

...E LA NAVE VA!

 É hoje!  Não deu para fugir... Bem que fiquei acordado até de madrugada, a fim de esticar meus 56 anos mas, amanheceu e completei 57. A solução, então, é preparar a festa e deixar  o barco seguir ...

Nasci a 10 de junho de 1952, logo após o término de duas  guerras miseráveis (Guerra Mundial e da Corea). Era parte da "geração pós guerra", cheia de esperança em um futuro de paz, mas  ainda assombrada pelos relatos das grandes tragédias que assolaram o planeta, nas primeiras décadas do século XX. As duas grandes guerras, mais a gripe espanhola, literalmente, dizimaram a população jovem da face da terra (quase duzentos milhões de vítimas).  Então, fazia-se filhos com muito prazer, pelo nobre objetivo de repovoar a terra...

 Lá em casa não foi diferente e a família era grande. Dormíamos em cinco no mesmo quarto e somente  minha irmã, por ser mulher, tinha o privilégio de um cômodo separado. Era uma confusão danada, onde ninguém dormia sossegado, pois toda noite acontecia um show pirotécnico de roncos, tosse, espirros e puns. Para piorar a situação, um de meus irmãos era sonâmbulo.

 Costumava conversar e andar pela casa, dormindo. Frequentemente, acordávamos com seus tapas e o que era pior: às vezes, desandava a "matar aranhas" com nossos chinelos. Era engraçado ouví-lo repetir, à noite, as lições de geografia e história que aprendia, à tarde, na escola: "Falésias são formações rochosas, moldadas pela erosão dos ventos e das marés... O infante D. Henrique foi quem fundou a Escola de Sagres... Após a morte de César, Marco Antônio procurou vingá-lo..." E assim por diante.

Sem mais nem menos, levantava-se da cama e ia direto para a cozinha; abria a geladeira e enchia um prato com as guloseimas que minha mãe guardava. Sentava-se à mesa, comia...comia e depois voltava para o quarto. No dia seguinte, não se lembrava de nada!

Resolvemos esconder as chaves da casa, após uma noite em que ele saiu pela rua, somente de cuécas, indo parar na casa da namorada, dois quarteirões abaixo. Por sorte, atolou os pés numa poça d'água e despertou, antes de apertar a campaínha.

  Ainda, numa noite, meu querido irmão foi "co-participante" de uma tentativa de assalto ao nosso barracão do quintal, onde eram guardadas as bicicletas, a moto, o carro e vários outros objetos. Acordamos com um vento frio, vindo da janela. Ele, com as venezianas escancaradas e em transe sonambulístico, acenava para alguém no quintal, dizendo: "Vocês vão cair daí...é melhor pegarem a chave do cadeado que está no buraco do muro!"

  Os caras, que tentavam entrar pelo telhado, ficaram assustados e trataram de descer às pressas. Um deles, bem azarado, quebrou uma perna, mais algumas costelas. Foi preso em flagrante e levado numa maca!

Hoje, meu irmão é médium de centro espírita e vive num transe constante...

Vai aí, uma receita, super saborosa, que minha mãe fazia em noites de inverno: Sopa de inhame; esse tubérculo milagroso que além de fortalecer nosso sitema imunológico, elimina as toxinas e impurezas do organismo, servindo-se, ainda, como excelente moderador dos sintomas de TPM das mulheres.

 SOPA/CREME DE INHAME: Descascar e cortar em pedaços 3 a 4 inhames. Cozinhar em panela de pressão, por uns 40 minutos, com 1 litro de água, sal, 3 dentes de alhos e 2 cebolas cortadas ao meio. Bater tudo, em liquidificador e voltar ao fogo. Acrescentar um ou dois tabletes de caldo de legumes, deixar engrossar até ficar um creme liso e servir bem quente, com torradas.

Variações: A) Pelo meio do cozimento, antes do liquidificador, acrescente alguns pedaços de abóbora madura; B) Depois de quase pronto, acrescentar 1 lata de creme de leite, sem deixar ferver; C) Quase no final, juntar couve picadinha; D) Já no prato, salpicar queijo ralado ou bacon picadinho e frito., etc...etc...

A GLORINHA

 A Glória Regina foi minha amiga de infância e estudamos juntos até o colegial. Ela era muito romântica e sonhava com o casamento, à moda antiga: igreja florida, grinalda de pérolas, músicas românticas e um príncipe valente à sua espera, no altar. Desde adolescente, começou a preparar seu enxoval; a maioria das peças confeccionadas e bordadas por ela mesma.

Lembro-me, perfeitamente, dela costurando umas bananas gorduchinhas, de feltro amarelo, num pano de prato alvíssimo e com pregas xuleadas nas beiradas. Em outro pano ela havia bordado as palavras: "Felis o Homem Que Tem Uma Esposa Prendada". Obriguei-a a refazer o bordado para corrigir o Feliz...

 As peças prontas, eram, cuidadosamente, guardadas num móvel enorme, chamado de "mala de pau". No meio das roupas, ela juntava algumas bolinhas de naftalina para espantar as traças e duas caixas dos sabonetes "Alma de Flores", para perfumar. 

Depois disso, Glorinha mudou-se para um sítio e nao soube mais dela. Voltamos a nos encontrar, há pouco tempo e pude constatar, com tristeza, como as folhas do calendário foram cruéis com minha amiga... Daquela menina tão meiga e suave no passado, nada restou. Deparei-me, apenas, com uma mulher embrutecida, cabelos sem brilho, gorda e com o pescoço grosso.

 Conversa vai, conversa vem e inevitavelmente, começamos a relembrar de nosso passado feliz. Lembrei-lhe de seu enxoval, do bordado que corrigira, das bananas amarelas e ela acrescentou, com amargura: "Pois é, perdi tudo e daquela merda não sobrou nada... Ai, João! Você nem imagina, mas se eu fosse contar minha vida para um carroceiro, acho que até o burro ia chorar!"

Aguçei meus ouvidos, pois pressenti que dali ia sair prosa boa. Dai, contou-me que sua mãe tinha uma gata que não saia da cozinha e num belo dia, a bichinha sumiu, aparecendo uma semana depois, magra e com as tetinhas cheias. A mãe comentou: "Essa gata deu cria em algum lugar, precisamos encontrar os filhotes!" Procuraram no paiol, no forro da varanda, no curral, dentro do forno a lenha e ...nada. Vigiando mais de perto, perceberam o animal entrando pela janela do quarto da Glorinha.

 Olharam em baixo da cama, do guarda roupa, da penteadeira mas nenhum sinal à vista. Resolveram empurrar a mala de enxovais e notaram que havia um buraco no fundo de madeira compensada. Ao abrirem o móvel, aquela surpresa! A gata resolvera dar cria alí dentro e todas as peças do enxoval estavam irremediavelmente perdidas com as sujeiras e xixi da felina e de sua ninhada. " Chorei muito, mas a partir daquele momento, jurei que só me casaria se o cara fosse um milionário para me dar todo o enxoval do mundo e uma vida de rainha!"

 "Putz!"_ exclamei, eu_ mas você casou-se? Encontrou seu príncipe valente, afinal?" Com as mão cruzadas sobre o colo, ela disse:

"Um só, não...encontrei três! Meu primeiro marido era um fazendeiro de Casa Branca, muito rico. Tinha fazendas aqui, em Goiás, várias casas e caminhões. Parecia ser um homem muito bom e eu casei-me apaixonada. Mas, com o tempo, descobri que era um frouxo, ruim de cama. Ficava semanas em Goiás e me deixava sozinha, até que nos separamos. Fiquei com uma fazenda, duas casas e três caminhões.

O segundo, inventou de criar búfalos em Goiás e torrou a fazenda e os animais nos puteiros de Goiânia. O terceiro era vinte anos mais novo que eu e acabou com o resto dos meus bens comprando carros, motos caras e cocaína, além de bater em mim... Peguei nojo de homem!"

 Fiquei sem palavras, ante tanta desgraça e só consegui comentar:     "Êta vida mardita! Mas como você está agora?" Ela respondeu-me que estava feliz e que finalmente encontrara a metade de sua laranja. Curioso, perguntei-lhe quem era o príncipe da vez, ao que ela esclareceu-me, toda radiante:

"É uma princesa... Finalmente, conheci a Denise, que conseguiu fazer-me feliz!"

Realmente, dos panos de prato à Denise, foi uma longa trajetória que transformou o destino de uma vida... tudo por culpa da gata!

  GELÉIA DE LARANJAS COM MAÇÃS: 1 litro de suco de laranjas (pera ou baiana); 1/2 kilo de açúcar; 2 ou 3 maçãs verdes (ácidas). Ferver o suco até reduzir à metade. Juntar o açúcar e as maçãs, sem a casca e cortadas em filetes. Cozinhar, em fogo baixo por mais ou menos 1 hora ou até ficar com a consistência pastosa. Guardar, na geladeira, em potes esterilizados.

MAMÃE FAZ 90 ANOS

Mamãe nasceu em 1919 e foi a caçula dos cinco filhos do casal lisboeta José Maria e Adelaide. Perdeu a mãe aos sete anos e o pai, aos quinze. Foi criada pelas irmãs mais velhas, doces de criaturas e pela cunhada Marina, uma portuguesa brava e neurótica que só atazanava a vida da família. No entanto, eu que convivi com essa tia, depois de velha, gostava muito dela. Contou-me ela que por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932, o sítio onde moravam foi palco de refregas entre soldados paulistas e mineiros. Meu tio e meu avô, que ainda era vivo, proibiram as mulheres de sairem da casa, com receios de balas perdidas ou, talvez, dos soldados que viviam de tocaia nos matos. Minha tia Marina ficou encarregada de vigiar as meninas.

 Certa noite, o tiroteio foi particularmente intenso e até de madrugada ouvia-se aquela barulhada tremenda. O fogo cruzado foi tão forte que, pela manhã todos sairam à procura de mortos ou feridos.  Mas, para a alegria de todos e infelicidade de minha mãe, o único cadáver encontrado foi o de sua égua, por ela batizada, carinhosamente, de estrela. Aprontou o maior berreiro e virou uma fera quando ouviu sua cunhada comentando: "Bem feito...pelo menos é um animár a menos prá tratá!"

Mais à tardinha, minha mãe saiu às escondidas, a fim de recolher os cartuchos de balas vasios, espalhados pelos pastos. Conseguiu encher uma latinha, até ser encontrada pela furiosa cunhada! Foi levada de volta para casa, aos safanões e já na cozinha, para fazer pirraça, jogou o conteúdo da latinha no braseiro do fogão, onde a tia Marina cozinhava o jantar.

 Parece mentira, mas não é que ainda havia dois cartuchos intactos e a explosão foi tão grande que até as trempes de ferro do fogão voaram longe! Apesar do estrondo, a única que saiu machucada foi minha mãe, mais pelas mordidas de ódio que a cunhada lhe aplicou...

 Hoje, mamãe faz 90 anos! Fiz para ela, um bolo de 6 formas mais dois corações, todo confeitado, super brega, mas lindo... Depois de uma solenidade na Igreja, faremos um churrasco para 90 convidados, no sítio de meu sobrinho. A velha está animada e já pensa em guardar o vestido para os 100º aniversário! Depois da ressaca, volto para contar...

... Então, curado da ressaca, posso dizer que a festa foi uma maravilha! Na igreja, foi emocionante: O tenor tinha uma voz divina e até o padre dançou ao som da música! 

 Minha mãe estava linda! Com um vestido longo, cor "rosa velha"; uma elegante écharpe fúcsia (!!!), caindo pelos ombros; sandálias douradas; colar e brincos de pérola... parecia a rainha da Inglaterra. Meu bolo fez maior sucesso e dançamos até a noite, ao som de um conjunto musical muito bom e uma sanfoneira animadíssima...

Voltando ao bolo do aniversário, fiz três recheios diferentes: 1º) Doce de leite com nozes; 2º) Creme de leite com manteiga e chocolate branco; 3º) Creme de maizena com doce de abacaxi. Vou ensinar o terceiro:

 Fazer um creme de maizena com 1/2 litro de leite; 1 gema (desmanchada no leite frio);4 colheres (sopa) de açúcar; 4 gotas de baunilha. Quando estiver quase fervendo, acrescente 2 colheres (cheias) de maizena, previamente diluída em leite frio. Espere engrossar.

À parte, fazer o doce com 1 abacaxi bem maduro; 1 xícara de água e 2 xícaras de açúcar. Bater no liquidificador e levar ao fogo até ficar pastoso e douradinho. Misturar ao creme de maizena.

O "ZÉ BODINHO"

 Obsequioso demais, bajulador demais... Sabem aquele tipo puxa-saco, grudento que nos vigia o dia todo com o olhar, esperando a primeira oportunidade para demonstrar o quanto é indispensável? Durante os longos anos em que fui gerente, chefe disso, chefe daquilo, convivi com vários desse tipo; posso até dizer que em todas as agências e departamentos por onde trabalhei, tive o desgosto de identificar, ao menos, um deles.

De todos, com certeza, o que ficou com o troféu foi o José Ronaldo, apelidado de "Zé Bodinho", por conta de seu bigodinho obsceno e cuidadosamente aparado com tesourinha de nenén. Magro e inquieto, de uma jovialidade falsa e insidiosa, mexia com meus nervos, tanto pelos rapapés e salamaleques com que me brindava, como pelos alertas sub-reptícios e maledicentes que tentava repassar-me a respeito dos demais colegas.

 Deplorava tais atitudes e imaginava que assim deveriam ter sido os dedos duros e alcaguetes nos tempos da Resistência francesa ou italiana, do MacCarthismo americano ou mesmo da nossa ditadura.

 A Agência era pequena e ficava difícil isolar-me de seu olhar ardiloso. Portanto, aloquei-o para o Caixa. Atendendo à fila imensa, ele não teria tempo de causar maiores males, pensava eu.

  Pelo movimento intenso, ocorria, às vezes, de perdermos o horário da perua que transportava o malote para a central de processamento, distante uns 100 km de nossa cidade. Toda vez, o Zé Bodinho prontificava-se a levá-lo: "Pode deixar que eu levo, chefe...dexá comigo!" Normalmente recusava sua oferta, pois não queria ficar devedor de uma pessoa que só me inspirava desconfiança.

 Porém, certo dia, particularmente cansado, aceitei a sua ajuda e lá foi ele, estrada afora em seu Chevetti verde.

 No meio do caminho, resolveu dar carona a duas "senhoras" pertencentes à confraria do "lavou tá novo". Safado do jeito que era, foi logo pedindo à mais nova que sentasse no banco da frente. Conversa, vem, conversa vai e logo está ele, peladinho, peladinho no meio de um canavial com as duas mulheres. Jogou suas roupas para colo da mais velha, que estava no banco de trás, enquanto fazia estrepolias com a parceira da frente.

 De repente, seu êxtase transformou-se em agonia, pois sentiu algo apertando seu pescoço. Estava sendo estrangulado pelo próprio cinto, de couro inglês, que a mais velha retirara de suas calças. Do banco de trás ela laçou-lhe garganta, disposta a matá-lo sufocado: "Não tem um tostão na carteira, seu miserável! Pois agora vai morrer aqui mesmo..."

 Ele tanto se contorceu que acabou por se livrar do cinto mas, quando estava para abrir a porta do carro, sentiu o cano frio em sua nuca. Dessa vez era aquela doce criatura que segundos antes lhe acariciava e agora rosnava, ameaçadora: "Fica quieto, seu f.d.p., ou estouro teus miolos aqui mesmo!"

 Tinha pouco a perder e resolveu arriscar tudo. Deu uma cotovelada na "boca do estômago" da mulher, ao mesmo tempo em que jogou o peso do corpo contra a porta. Rastejando, completamente pelado, conseguiu rolar o barranco da estradinha. As folhas de cana cortavam seu corpo porém, mais afiadas eram as balas que silvavam rente as suas pernas e orelhas. Correu a esmo, até reencontrar a pista de asfalto e mais um pouco, um posto da Renovias.

No Boletim de Ocorrência, fez constar que os assaltantes eram homens mas, quando no final da noite as mulheres foram caçadas _ nem notaram que o malote estava no porta malas _ o vexame veio à tona. E olha que o Zé Bodinho era casado!

Falando em cana, lembrei-me de açúcar mascavo e daí hoje a receita é de:

 PÃO DE MEL -  1 xícara (chá) de açúcar mascavo; 1 xícara de leite; 1 xícara de mel; 3 xícaras de farinha de trigo, 2 ovos; 1 colher (sopa) de pó royal; 1 colher (sobremesa) de bicarbonato, 1 colher (chá) de canela moída; 1 colher (chá) de cravo da Índia moído. Misture o leite, ovos e o mel e bata na batedeira com os demais ingredientes. Asse em forma untada e enfarinhada, por cerca de 20 minutos ou até dourar.  

Cobertura:1 lata de creme de leite e 1 barra de chocolate meio amargo. Derreta o chocolate em banho-maria, misture o creme de leite e aplique sobre o pão de mel ainda quente.

A OFÉLIA

   A Ofélia Lang, uma velha amiga da família, solteirona e sempre virgem, era dona de uma voz de contralto que fazia sucesso no coro da Igreja de Nsª Srª do Perpétuo Socorro. Naquele tempo, as missas eram totalmente rezadas e cantadas em latim e eu, ainda uma criança, ficava embevecido ao ouví-la cantar, em solo, o “Tanto Ergun” (Tanto Ergun,  saacraameeento, ve-ne-rê-mus neste altar...).

 Anos mais tarde, já bem adulto, trabalhei em Poços de Caldas, na serra mineira, e às vezes no ônibus em que eu viajava, seguia também nossa amiga. Pressentia sua presença assim que eu subia no veículo, por conta do perfume que exalava, forte e doce. Ela sempre reservava a poltrona a seu lado para mim.Um suplício, pois, além do forte perfume, era convocado para ajudá-la a rezar seu terço diário: "Joãozinho, eu rezo as Ave Marias e você fica com a Salve Rainha."

 Certo dia, não agüentando mais, perguntei-lhe: “Ofélia, que raio de perfume é esse que você usa?!”  Ela, meio que ofendida respondeu: “Não é perfume não, é o talco  Casmére Boquéti! Não pude segurar o riso ante a forma engraçada dela pronunciar a marca do famoso cosmético Cashmere Bouquet e tentei explicar-lhe, sem muito sucesso, a forma correta da pronúncia (algo próximo a “caximir buquê”).

Ela era muito solitária, sem parentes ou grandes amigos e resolveu eleger-me seu confidente. Acabou por confessar que tinha um namorado em Poços de Caldas: "Sabe João, namoramos faz muito tempo mas é só amor platônico... Afinal, o Norberto é, bem mais velho que eu." Naquela idade, ela ainda ficava toda ruborizada ao falar sobre seu namoro escondido! "Ningúém sabe mas, quando eu não apareço em Poços, ele liga para mim, todo preocupado, achando que eu estou doente..."

"Ou morta!", emendei eu, só para chateá-la.  Ela corria a me dar um tapinha, gritando: "Credo, João...vire essa boca prá lá!"

 Boca perigosa a minha, pois não é que dali uns dias ela resolve morrer, sem avisar ninguém! Faleceu sem dar um pio, numa linda manhã de sábado, sentada no vaso sanitário. Só descobriram na segunda-feira; isso porque uma visinha estranhou o fato de ouvir, por várias vezes, o telefone de Ofélia a tocar desesperadamente...

Além de cantora e rezadeira ela era também uma ótima doceira e dentre as muitas receitas que me passava no ônibus, transmito para vocês o delicioso

 BOLO DE FUBÁ DA OFÉLIA: 4 ovos; 1copo grande de leite fervendo; 1 pitada de sal (1/2 colherzinha de café); 2 copos de açúcar; ½ copo de óleo; 1 copo de fubá mimoso; 1 copo de farinha de trigo e 1 colher (sopa) de fermento em pó.

B   Bater as claras em neve, misturar as gemas e ir acrescentando os demais ingredientes aos poucos, misturando bem. Assar em forma de buraco no meio, untada com margarina e farinha, em forno médio. Depois de desenformado, espalhar açúcar e canela por cima. Se gostar, ponha erva-doce na massa.

O DR. BRÁULIO

 Aprendi a dançar muito cedo e eu e minha esposa somos considerados exímios dançarinos. Já recebemos vários troféus de dança e até na Argentina, certa vez, fomos premiados. Adoro o ambiente de um salão bem decorado e uma orquestra afinada que não toque apenas o "Besame mucho"(bom, bororóm...). Estamos sempre acompanhados por algum ou outro casal de amigos.

Nos tempos em que morávamos em Poços de Caldas, o casal da vez era o Dr.Bráulio  e sua namorada Bernadete (a esposa legítima morava em Belo Horizonte, para onde ele ia somente no Natal).

 O salão do Palace Hotel, para quem não conhece, é uma maravilha. Construção quase centenária, com decorações e lustres caríssimos e lá aconteciam os Bailes de Gala que frequentávamos, tudo muito chic. Numa ocasião em que a Bernadete havia brigado com o namorado, fomos a um desses bailes e nossa amiga sentou-se conosco em mesa de pista.

O Dr. Bráulio também compareceu com outra mulher, uma viúva rica e elegante, cujo nome quero declinar-me de dizer. Ela vestia num traje longo e suntuoso, todo esvoaçante, com uma alça que saindo de seu braço direito, era presa às saias. Nos rodopios que dava, a alça levantava o tecido fino, dando a impressão que a dama ia levantar vôo. A Bernadete ficou "fula" de raiva e despeito vendo o casal dançando todas as seleções, desde o samba até a rumba e o chá-chá-chá.

Perto da meia noite a orquestra começou a tocar valsas e poucos foram os casais que se aventuraram nesse rítmo muito difícil mas a coroa foi... A fim de provocar a rival, fez questão de rodopiar bastante quando se aproximava de nossa mesa.

 Num desses corrupios, ao som da valsa "A Bela Adormecida" de Tchaicovsky,  algo caiu por debaixo das saias da dançarina e fez "ploft" no chão: era um fraldão que a pobre viúva usava, pois sofria de incontinência urinária. O pano, todo ensopado, foi deslizando e parou quase aos pés de nossa amiga, que deu um grito de surpresa.

 Os casais pararam de dançar e Bernadete aproveitando aquele momento divino, chutou o fraldão de volta e gritou para o ex: "Ei, Dr. Bráulio, põe o tampão na véia que ela tá vazando!!!!" A viúva correu para o toilete, chorando de vergonha, só saindo após o Baile acabar.

Quando Bernadete completou 40 anos, fizemos um jantar para ela; num mês de Junho e o frio era tão intenso que os convidados compareceram enrolados até em mantas e cobertores. Preparei um cassoulet (espécie de feijoada branca) bem caprichado, do qual passo e garanto a receita:

 CASSOULET: 1 kg de frango (sobre-coxas e peito); 300 gramas de bacon; 1/2 kg de linguiça calabreza; 1 ou 2 paios; 1 kg de costelinhas de porco frescas; 1 lombinho defumado; 1 kg de feijão branco; 1/2 kg de tomates ou molho de tomates; louro, salsa, cebolimha, alho, cebola, mangerona ou manjericão, tomilho; sal; caldo de galinha e pimenta (a gosto).

Deixe o feijão de molho de um dia para o outro. Cozinhe-o com o bacon, paio, calabreza, louro e o caldo de galinha. Quando estiver quase cozido mas ainda firme, acrescente as costelinhas (temperadas com sal e limão e fritas previamente), o frango cru (também temperado da mesma forma) e deixe cozinhar tudo junto. Quando estiver quase pronto, bata os tomates no liquidificador com um pouco do caldo do feijão; refogue esse molho à parte com cebola, alho e sal e junte-o à panela do cassoulet. Verifique se está bem de sal, acrescente a pimenta e os temperos verdes. Sirva cm arroz e batatas-palha.

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O FRANCISCO

 Não sei...mas hoje  veio-me à cabeça a palavra "escroto". De repente _ acho que é coisa da idade _ deu-me um branco e  eu não conseguia me lembrar a origem da palavra! A única conecção que me ocorreu foi com indivíduo chato, nerd ou grosseiro. Procurei o dicionário e encontrei: saco que envolve os testículos. Começei a rir, sozinho...como fui esquecer isso!!! 

Partindo dessas profícuas meditações, lembrei-me de meu amigo Francisco, já falecido. Aliás, foi um dos grandes amigos que tive...bem mais velho que eu mas, companheiro de verdade! Ele vivia tendo problemas com o saco... acho que era comprido demais e isso atrapalhava o pobre coitado.

 Uma vez, ele e a esposa acompanharam-nos num cruzeiro marírimo e durante uma festa, com cerveja à vontade, ele ficou completamente bêbado. Numa de suas idas e vindas ao banheiro, voltou com a calça toda molhada. Quando a esposa ficou brava, ele explicou que ao fazer xixi, tirou o saco para fora pensando que era a outra coisa e molhou-se todo.

 Doutra vez, fizemos um churrasco em minha casa e lá vai o Francisco, novamente, para o banheiro. Era um WC na área de serviço, pouco usado por nós. De repente, ouvimos um uivo e em seguida vimos nosso amigo sair gritando de dor e pedindo um litro de álcool. Não é que um casal de marimbondos inventou de fazer seu ninho bem dentro do vaso, pendurado na beirada interna e quando ele sentou-se... foi aquela ferroada! Ficou um bom tempo com o embornal inchado.

 A gente ia muito para uma fazenda em Minas Gerais, situada aos pés da Serra da Canastra e certa vez, ao apanhá-lo em sua casa para uma ida dessas, ele entrou na Saveiro, com um bermudão bem largo e sentou-se, pesadamente, no banco. Deu um grito e um pulo para cima, batendo a cabeça no capô. Vendo ele gemer, eu exclamei: "Tá louco Francisco...Que gritaria é essa?!" Com uma mão na nuca e a outra no meio das pernas, ele respondeu: "Aiii, cara, sentei em cima do saco e ainda por cima, quase destronco o pescoço!"  

 Parece mentira minha mas não é não... e ainda tem mais! Chegamos ao nosso destino jà noite fechada e o pessoal preparava-se para ir a uma Festa do Divino, em outra fazenda, bem no alto da serra. Nem bem descemos da Saveiro e já partimos, montanha acima... uns 15 quilômetros de subida. Pelo caminho íamos contando as cruzes fincadas na beira da estradinha (ainda é costume, lá em Minas) indicando os locais onde ocorreram desastres com mortes.

 O frio era inacreditável mas a festa estava animada, com muita comida, bebida, sanfona e pandeiro. Já de madrugada, meu amigo tirou-me do baile e pediu para irmo-nos embora: "Tista, tô com a maior dor de barriga e aqui não tem banheiro e nem papel!" Interrompi, de chofre: "Pode ir tirando teu cavalinho da chuva, pois vou esperar amanhecer; nem morto eu deço essa ribanceira no escuro! Vá no corguinho..."   Hoje eu sinto remorso mas, o coitado foi, naquele frio danado e agachou-se no pequeno córrego, pouco distante da casa. Eu fiquei vigiando para ninguém ali chegar e ouvindo ele xingar: "Lazarento! a água tão gelada que vai acabar trincando meu saco!!!"

Eu jurei que não contaria para ninguém mas, infelizmente, agora tanto faz...

Meu amigo, também, era um excelente cozinheiro e fazia a melhor dobradinha do mundo; vou tentar passá-la para vocês.

 Dobradinha do Francisco:  2 kg de bucho bovino, cortado em pequenas tiras; 1 paio; 1/2 kg de costelinhas defumada; 1 linguiça portuguesa; 300 gr de bacon; 3 tomates bem maduros; 1 colher (sopa) de extrato de tomate; 1 colher (sopa) de páprica picante; 2 cebolas; 5 dentes de alho; 2 folhas de louro; algumas azeitonas pretas; salsa e cebolinha; azeite; sal e tutano bovino para engrossar o caldo.

Limpe o bucho e esfregue as tiras no caldo dos limões. Deixe de molho na água com limão por umas duas horas. Lave novamente e afervente duas vezes, em bastante água. Cozinhe na panela de pressão em água com sal, 3 dentes de alho e 1 folha de louro.

À parte, faça o molho: frite, no azeite, a cebola e 2 dentes de alho picadinhos. Junte os tomates sem sementes, 1 folha de louro, o extrato de tomate e a páprica e refogue um pouco. Junte 1 copo de água quente e as azeitonas. Quando o molho estiver apurado, coloque o bucho pré-cozido, o bacom em pedaços, a costelinha, o paio e a linguiça cortados em rodelas. Junte, aos poucos o tutano até engrossar o molho da dobradinha. Depois de pronta, desligue a panela e junte a salsa e cebolinha. Espalhe queijo parmesão ralado e sirva com arroz branco e couve, bem fininha e refogada.

Se não encontrar o tutano pronto, tem que preparar bem antes: compre ossos da canela bovina, cozinhe até o tutato desprender dos ossos. Passe o tutano por uma peneira fina ou bata no liquidificador e estará pronto para o uso.

 

A RAINHA DO CONGO

 Quando lhe perguntei seu nome, ela respondeu, destacando sílaba por sílaba: "Ma-ri-lan-di..." Apesar do stress do momento, não consegui segurar o riso.

Tentei explicar que Maryland era um Estado norte-americano mas, daí, ela ficou mais brava ainda: "O senhor não venha mangando com meu nome! Não tenho nada de americano, só puro sangue negro!" Apontando o indicador para o meu nariz, ela completou: "E viemos aqui para saber quais providências o senhor vai tomar para resolver nossos problemas..."

n_<b>Conjunto</b> <b>Habitacional</b> Fazenda  ... Já pela manhã, um funcionário me alertara: "Sr. João, a coisa tá feia lá no conjunto habitacional, choveu muito ontem à noite e foi um estrago só! Tem barrancos desmoronados, casas rachadas, lama pra todo lado e... a turma vem marchando para cá!" Pouco mais que dez horas, o banco acabara de abrir, quando aquela turba de mulheres invadiu a agência e subiu as escadas, rumo a minha mesa. Eram moradoras do "Jardim Veneza", um conjunto habitacional com cerca de 300 casas, financiadas por nossa empresa e construídas, sem muitos cuidados, aos pés de um morro. 

 Mariland era a lider do movimento. Chamando-a de lado, com muito jeitinho, consegui convencê-la a ficar só com duas"auxiliares", dispersando-se as demais. Obrigaram-me a ir com elas até ao bairro e chegando lá, compreendi porque o conjunto foi apelidado de"Veneza": tudo alagado, água e brejo por todo lado... até dentro das casas. Dava pena de se ver!

 Após a vistoria, fui à casa da Mariland, quartel general do bairro, a fim de anotar as reinvindicações. A moradia ficava na esquina da praça e notei, com espanto, que era toda pintada de verde e rosa. O muro, um escândalo; em faixas largas e alternadas, também com as mesmas cores. Ela foi logo explicando: "São as cores da Mangueira, a maior Escola de Samba do mundo!"

O rapaz, deitado num sofá maior que a sala, nem olhou para nós, quando passamos por ele, em direção à cozinha. Como aparentava ser bem mais jovem que ela, perguntei, distraidamente: "É teu filho?" Ela respondeu com um muxoxo de desprezo: "É meu amigado, mas já estou dispensando ele... É um porco que nao gosta de tomar banho e quando entra no chuveiro, tem a mania de mijar no box."

Enquanto comíamos um Quibebe (de véspera e requentado), as "auxiliares" iam anotando as providências que pretendíamos tomar para resolver os problemas do bairro: falar com o prefeito sobre a construção de muros de arrimo nos barrancos e canalização das águas; falar com a construtora responsável para a reforma das casas trincadas; conseguir, junto à Matriz de minha empresa, condiçoes especiais para renegociação das prestações em atraso, já que a inadimplência, então, era muito alta (mais de 45%). 

 A duras penas conseguimos tudo isso e em poucos meses os muros foram construídos e as casas consertadas. Com a ajuda inestimável de Mariland e das amigas do bairro, renegociamos todos os contratos e a inadimplência do Conjunto baixou para menos de 3%.

Organizou-se uma grande comemoração no Centro Comunitário do Jardim Veneza. O churrasco foi patrocinado pela construtora e prefeitura (era ano eleitoral) e a música ficou por conta do novo "amigado" de Mariland, um pagodeiro dos bons. As autoridades foram chegando e a certa altura, interrompi a música para chamar ao palanque a "mais importante figura do evento".

 Ao som de um samba enredo da Mangueira, ela subiu ao palco vestida de baiana; no peito trazia um broche enorme de pedras azuis que prendia uma capa cor de rosa, longa e esvoaçante. Olhando para mim ela perguntou: " bonita, Seu João?" Com o microfone na mão eu respondi, emocionado:

"Tá mais linda que a Rainha do Congo!"

O barracão quase veio abaixo de tantos aplausos e ovações. Mais tarde, ela comentou que esse foi o momento mais sublime de sua vida e a partir daí, passou a ser conhecida pelo apelido que eu inventei.

 QUIBEBE DA MARILAND: 1 kilo de carne seca (jabá); 3 cebolas grandes; 6 dentes de alho picadinhos; 1 abóbora jerimum (daquelas de casca grossa); 3 colheres (sopa) de azeite de oliva; 2 colheres (sopa) cheias de manteiga ou margarina sem sal; 1 folha de louro; salsinha e pimenta cumari a gosto; 1 lata de creme de leite e 1 pacotinho de queijo parmezão ralado.

Corte a carne seca em cubos e deixe de molho por 12 horas (troque a água umas três vezes). Cozinhe-a na pressão, com bastante água, o louro e 2 dentes de alho, por 1 hora, mais ou menos. Escorra e desfie a carne. Frite no azeite duas cebolas em tiras (à juliana) e 2 dentes de alho picados. Quando murcharem, acrescente a carne desfiada e deixe fritar.                      Noutra panela, frite na manteiga, 1 cebola e 2 dentes de alho picadinhos. Acrescente a abóbora, sem casca nem sementes, cortada em cubos. Junte um pouco da água que cozinhou a carne seca e deixe refogar, em fogo baixo. Amasse a abóbora com uma colher grande até virar um purê, junte a pimenta, o creme de leite e o queijo ralado. Misture bem e desligue o fogo. Sirva com a carne seca, espalhando por cima a salsinha picada.

O SÍLVIO LUIS

 Olha, eu pensei muito se falaria sobre o Sílvio, meu ex-amigo e chequei à conclusão que vou falar sim, já que ele foi bem sacana, tanto para os colegas quanto para a família, enganando a todos... 

 Era um cara muito alto, gordo e branquelo. Tinha os cabelos avermelhados e parecia mais um porco "duroc" daqueles bem grandes. 

 Muito educado, tinha a mansuetude de um cordeiro e religiosidade irritante. Era evangélico dos roxos e cheio de compromissos com a Igreja dele. No início tentou, em vão, me converter, presenteando-me com fitas cassetes contendo discursos do pastor e palavras do evangelho. Logo percebeu que se ele era crente fanático, eu também era firme em minhas crenças e convicções. Deixou-me em paz, alegando que nao tinha mais salvação.

 Ficava "fulo" de raiva quando eu criticava os adesivos que ele grudava no seu Vectra com aquelas mensagens piegas, do tipo: "Sou apenas motorista, o proprietário é JESUS". 

 Nós trabalhávamos em uma cidade de Minas e almoçávamos juntos todos os dias, num restautante self-service. Ele sempre me punha à frente, pedindo: "João, você que conhece bem as coisas de cozinha, mostre-me o que é carne de porco pois eu não posso comer, a Igreja não permite!" 

Sou contrário a todos os dogmas radicais, de qualquer espécie que seja e assim, defronte a uma bandeja com suculentos bifes de lombinho de porco, eu dizia: "Pode comer, Sílvio, é peito de frango grelhado". E ele comia e até lambia os beiços, pois que era muito guloso. 

 Um dia, meio envergonhado, ele veio pedir-me conselhos: "João, você que é um cara bem vivido, pode dar-me algumas dicas?" Titubeou um pouco mas continuou: "Sabe, minha mulher não tem mais atração por mim... As vezes, ligo a TV e fico só de cuecas na cama, esperando ela sair do banho mas, faz tanta onda que quando vem se deitar, eu já estou roncando. Ontem, enquanto ela estava no chuveiro, eu entrei na banheira, peladão, mas ela ficou brava e saiu logo do banheiro! O que você acha que eu devo fazer? "  

Meu Deus, o que eu poderia dizer para um cara desses?! Optei por ser cruel e repondi assim:

 "Sílvio, se você já é feio com roupa, imagine-se pelado numa banheira: deve parecer um suíno na lama! Não se mostre, nunca, sem roupa para ela... Fique no escuro, por baixo das cobertas e espere ela dormir. Depois você vai se achegando de mansinho para ela pensar que está sonhando, daí, quem sabe, dá certo!"

Ele ficou na dúvida se eu estava falando sério ou brincando mas nunca mais tocou no assunto.

Certo dia, após suas férias, o Sílvio não voltou mais para o trabalho e nem para sua casa. Passadas algumas semanas, foi descoberto que ele, utilizando-se da senha de um outro colega de trabalho, fez uma série de falcatruas com empréstimos e transferências de numerários. Fugiu para os Estados Unidos, levando uma bolada de dinheiro nas malas. Para a mulher, deixou apenas um bilhete e penso eu, ela deve ter dado graças a Deus.

 Com o passar do tempo, ouvi dizer que ele havia alugado uma garagem em Mont Vernon/NY e para sobreviver, "pregava a palavra de Cristo" a uma comunidade de brasileiros.

Baita safado!!

Muita gente vai torcer o nariz mas para quem mora em sítio, como eu, talvez seja interessante a receita de minha avó Vitta para conservar carne de porco...

 CARNE DE PORCO NA GORDURA:  Tudo bem, não vou pedir para você matar e limpar o porco! Portanto compre no açouque alguns kilos de toucinho, outros kilos de pernil desossado e cortados em cubos grandes, costelas cortadas em pedaços (uns 7 cm) e bastante suã (lombo com a vértebra). Tempere as carnes (menos o toucinho) com sal, bastante alho espremido, louro e pimenta (cumari ou do reino) e reserve. Frite os pedaços de toucinho, com pouco sal, num tacho ou panela bem grande até ficarem amarelinhos. Coe, numa peneira grande e esprema um pouco o torresmo, separando-o da gordura. Volte a gordura ao tacho e frite os pedaços de carne até amarelarem bem. Eu guardo a carne, submersa na gordura em baldes grandes de plástico (manteiga) ou de de folha de Flandes (óleo) que eu compro nas padarias ou confeitarias. Proceda da mesma forma com o torresmo. Assim conservados, a carne e o torresmo duram por vários meses. Na hora de servir, é só dar uma leve fritura....delícia!

Quero ver quem se habilita!!

A MERCEDINHA

 O “Beco dos Pães”: Ah, que saudade daqueles tempos... Viejos tiempos!  Jovem, bonito e bom dançarino, eu era muito requisitado pelas garotas e coroas nos bailes dos clubes da cidade. Mas na hora de ir embora, nenhuma ficava comigo, pois meu único veículo era o guarda-chuva. Tinha inveja do Amadeu, com seu Jeep, do Jair com seu Sintra Gordini do Zé “Areia Branca” com sua perua Kombi, do Oscarzinho com seu Karmanguia ou mesmo do Vagner “Pássaro Preto”com seu fuscão azul cobalto.

 Eles, apesar de não terem meu charm, tinham um perfume que endoidecia as poucas meninas “dadivosas” da época: a gasolina.

 

 Era uma meia dúzia só, para atender a rapaziada  toda. Num tempo em que não existiam motéis nas redondezas, era na estrada do Gerivá, ou do Bairro Alegre ou nas “praias” do rio Jaguarí chamadas de Paradouro e Areião, que os programas aconteciam. Quando a menina voltava para o salão, com capim nos cabelos, era porque já tinha estado numa das estradinhas. 

 

Se as barras das calças estivessem sujas de areia, o motel teria sido uma das “praias”. Ocorria muitas vezes de vermos alguma com as duas coisas e isso era sinal que já saíra mais de uma vez . Aconteceu até de uma delas, de longos cabelos pretos, voltar com palhas de arroz enroscadas nas melenas.

 

 Bem, eu só tinha vez quando estava com meu amigo Zé “Areia Branca”. Sua perua kombi, que durante o dia era utilizada para entregar pingas e refrigerantes, tinha, por assim dizer, dois ambientes e um casal não atrapalhava o outro. Fora isso, ia embora sozinho, de madrugada, balançando o guarda-chuva (peguei tanto trauma disso que hoje em dia ninguém me faz sair com um deles; prefiro me molhar).

 

 Mas, tornando ao “Beco dos Pães” do início da conversa, certa madrugada chuvosa, após ter dançado num baile de gala (a orquestra chamava-se Sylvio Mazzuca ), encontrei a Mercedinha saindo da padaria com duas baguetes debaixo do braço. Não era lá muito bonita mas, quase vizinha de casa, vivia me paquerando e me provocando. Já com bastante “Cuba Libre” e Steinhaeger na cabeça, dei uma cantada nela e fomos para um beco que existia, encostado à padaria,

 

GuardachuvaJoguei o paletó nas costas dela e começamos o “frege” mas, não tínhamos onde enfiar o guarda-chuva, a sombrinha, os pães, enfim, onde enfiar nada! Colocamos os pães dentro do guarda-chuva fechado e o depusemos em cima do muro.

Ao final do “entrevero”, já quase amanhecendo, cadê o guarda-chuva? Cadê os pães? Escorregaram para o terreno vizinho e ali, meu guarda-chuva foi completamente dilacerado e os pães da Mercedinha devorados pelo pastor alemão, cão de guarda do padeiro.

 

A menina, toda molhada, começou a chorar: E agora, minha mãe me mata! Como vou chegar sem os pães?!

Meditei um pouco e ponderei: “Bem, pelo menos você não perdeu a sombrinha e vou dar um jeito de arrumar outros pães”.

 

 Naquele tempo, todo mundo era honesto no bairro. As famílias mantinham uma conta-caderneta na padaria e os pães, entregues nos domicílios. Eram depositados, ainda quentinhos, nos embornais (pequenas sacolas de pano) que ficavam pendurados nos trincos das portas externas.

 

Ninguém roubava ninguém, mas eu roubei... Roubei minha própria mãezinha!

A coitada, assim que se levantou da cama, deu por falta dos pães: “Estão faltando dois!”

Enquanto ela foi até a padaria reclamar, tomei um banho bem quente para não me resfriar e caí na cama, dormindo o sono dos justos...

 

Tudo o que se faz com pães fica gostoso e econômico. Aprendi com D. Judite, minha querida vizinha, essa farofa que recomendo:

 FAROFA DE PÃO: Frite uma cebola, bem batidinha em uma colher (sopa) de manteiga. Quando murchar, acrescente um punhado de presunto picadinho. Refogue com um tomate grande, sem pele , picado. Ponha o sal e pimenta a gosto. Tire a casca grossa de dois ou três pãezinhos e deixe de molho em um pouco de leite, Esfarele bem esse pão amolecido e misture-o ao refogado. Junte umas seis ameixas pretas picadas e um maço de salsinha miudinha. Retire do fogo,  bata duas gemas e misture ao refogado quente,

"'CHÉIRO ÓBSCENO NO AIRE"

 Amanhã o País todo ficará impregnado pelo afrodisíaco aroma do bacalhau. Apesar dos preços proibitivos, em quase todo lar brasileiro o peixe estará presente à mesa. Houve um tempo, porém, em que o bacalhau era muito, muito barato. Havia até um dito popular que dizia: "Para quem é, bacalhau basta!", uma forma de depreciar alguém.

 Nos "empórios" ou "Vendas", espécies de supermercados d'outrora,  vendia-se de tudo um pouco: farinha, arroz, fumo, querozene, mortadela, pinga, peneiras, jacás, panelas, botinas, sardinhas, bacalhau, etc...etc...) e as mantas de bacalhau ficavam penduradas,aos montes, sobre o balcão ou do lado de fora das portas dos empórios.

Minha mãe costumava contar às suas comadres a centenária piadinha do ceguinho que ao passar defronte a um empório, sentindo o cheirinho do bacalhau, educadamente, levantava seu chapéu e cumprimentava: " Boa Tarde, minhas senhoras!"

Prá quem nao entendeu, vale explicar que nossas adoráveis avozinhas, imigrantes italianas, portuguesas ou espanholas não eram muito chegadas ao banho. Era uma vez por semana e olha lá! 

Pois, pois... minha avó portuguesa, Adelaide, tinha um irmão - o Manoel Mendes de Oliveira - que trazia de Portugal caixas e mais caixas de bacalhau, sardinhas e tonéis de vinho. No início, ele vinha uma vez por ano e depois, mais amiúde. A mulher dele, Maria Cardoso, ficava lá em Coimbra com os dois filhos adolescentes, enquanto ele aqui se esbaldava, vendendo suas mercadorias e se divertindo com as raparigas do bordel "Castelões", situado na rua Riachuelo.

 Numa dessas, ele apaixonou-se por uma mulata cujo apelido era "Rita do Cubatão" e montou casa para ela. Passou a estar mais tempo no Brasil e quando a amante ficou grávida, foi morar com ela numa casa de colonos na Fazenda Capituba ("Peituva", como ele dizia). Após o nascimento do "trigueirinho", ele voltou mais duas vezes para Portugal e depois não deu mais notícias para a família d'além mar.

 Passados dois ou três anos, Maria Cardoso com os dois filhos à tiracolo, aportou ao Brasil e munida do endereço de minha avó, veio dar com as caras em nossa cidade. Cientificada do paradeiro do marido, não teve dúvidas: com a ajuda dos filhos, deu uma surra na Rita e escorraçou-a da fazenda, juntamente com seu rebento. A familia, assim reunida, instalou-se numa casa no "Largo das Cabritas", perto da Igreja do Rosário e ali montou um empório de "secos e molhados". Enquanto ela e o marido ficavam no balcão, os filhos encarregavam-se de trazer mercadorias, de São Paulo e de Lisboa.

Juntou uma boa grana, durante alguns anos de dura labuta, nunca se esquecendo da traição do português. Certo dia, limpando as burras do dinheiro aquinhoado com o comércio, partiu com os dois filhos para São Paulo, sem dizer adeus e nem sequer o endereço.

Nunca mais voltou e o coitado do Manoel acabou seus dias morando com uma tia minha, já que nem a mulata o quis mais, amigada que estava com um fazendeiro da cidade.

Desses parentes de minha mãe, nunca tivemos notícias, restando-nos apenas uma foto da robusta Maria Cardoso, ao lado de um de seus filhos.

Para quem não tem condições de comprar o bacalhau ou seja sovina demais, vai aí uma receita de um peixe de forno que fica até mais saborosa:

Filés de Merluza (ou de Pescada) ao Forno:  1 Kg de filés, 1 Kg e meio de batatas, 6 tomates médios, 1 cebola grande picada, 1 copo de leite, azeitonas, louro, 1 colher (de sopa) de azeite de dendê,1 pacote de creme de cebola (em qualquer supermercado tem), azeite de oliva, nós moscada ralada, queijo parmezão ralado e 1 vidro de leite de coco.

Fritar a cebola, acrescentando os tomates e o louro. Refogar até desmanchar os tomates.

À parte, desmanchar o creme de cebola com o leite e o leite de coco, juntando à panela. Acrescentar o dendê, a pimenta, o cheiro verde e as azeitonas, mexendo até o creme dar a consistência. Por último acrescentar a nóz moscada ralada (1 colherinha de café bem rasa). Desligar o fogo e reservar.

Em uma forma ou pirex grande, dispor camada de fatias grossas de batatas, camada de peixe (temperado previamente com sal, limão e alho), camada do creme, camada de batatas e o restante do creme. Levar ao forno quente até cozinhar e secar um pouco a água que sempre surge.Espalhar queijo parmezão ralado por cima e levar novamente ao forno apenas para gratinar.

APOSENTEI-ME

 Tô meio zonzo ainda pois, é difícil acreditar que hoje foi o últimos dos 12.775 dias trabalhados em estabelecimento bancário! Foram 1.413 dias como escriturário em São Paulo, 4.015 como assessor de diretoria em Brasília e 7.351 como gerente geral em várias cidades.

Vocês conseguem imaginar o que vem a ser isso? Durante a inquietante carreira, fui transferido por 14 vezes. É melhor nem comentar já que nenhuma forma de escrita poderia descrever tudo o que passei de bom ou de ruim. Só posso dizer que a única coisa que fiz ao sair hoje do Banco, foi entrar na primeira Igreja que encontrei e ficar lá, sozinho, agradecendo a Deus pelas oportunidades por mim recebidas através de Sua vontade.

 Carreira bem sucedida mas, também passei por muitas "dores de barriga", no sentido figurado. No sentido real, lembro-me de duas que foram decisivas na minha vida profissional. A primeira aconteceu em 1973, quando fui prestar o concurso para ingresso na empresa. As provas seriam realizadas em Poços de Caldas/MG, bem próximo a minha cidade, porém, antes de embarcar no ônibus, uma forte diarréia deixou-me prostrado no banheiro da Rodoviária, sem chances de seguir viagem...

Dois anos depois houve outro concurso e desta vez realizei as provas, conseguindo uma boa classificação. Faltavam os exames médicos, psicológicos e de laboratório que seriam feitos em São Paulo, na manhã de uma segunda-feira.

 Na véspera partimos para a capital, eu e o Lúcio, um amigo meu, meio matusquela e completamente gago que também era candidato. Hospedamo-nos na casa de uma tia dele que morava no Brás, famoso bairro de italianos da cidade. Na noite de domingo a coroa levou-nos a uma cantina, onde nos fartamos com pizzas e vinho. Ao final da ceia, ela inventou de furtar os talheres da mesa enfiando-os no bolso das calças do sobrinho. 

 O que ela não sabia e nem ele se lembrou, era que o bolso estava furado e ao sairmos da cantina, só se ouvia o tinir dos garfos e facas quicando no chão... Foi aquele vexame! Fomos arrastados para a cozinha e só nao deu cadeia porque a tia convenceu a italianada que o sobrinho tinha problemas mentais ( pelo jeitão dele, era fácil acreditar)

 Fiquei tão assustado que não consegui dormir e pela manhã, tínhamos que "colher o material" para os exames de laboratório. O xixi eu consegui encaçapar na garrafinha mas o outro "material" eu não conseguia fazer.

 Mais de uma hora com a latinha de Pomada Minâncora vasia nas mãos e ... nada! Acho que tanta pizza, vinho e o susto da véspera me deixou ressecado. O Lúcio, com a lata cheia, ficava na porta do banheiro, gaguejando, apressado: "Anda Jo-jo-joão, vamos perder a ho-o-o-ora!" Ficava mais nervoso ainda e daí que nao conseguia mesmo...Apesar de meio bobo, meu amigo teve a brilhante idéia: "O-o-olha, dá aqui-qui tua lati-tinha que eu vou cu-cu-cuidar disso." Saí do banheiro e ele, munido de um palito de sorvete, repartiu o conteúdo de sua latinha, meio a meio, comigo.

Na mesma manhã fizemos todos os exames, inclusive a entrevista com uma psicóloga. Voltamos pra nossa cidade e uns dez dias depois, saiu o edital com o resultado do concurso. O Lúcio foi o primeiro a ler e ligou, muito triste, para mim: "Jo-joão, eu fu-fui repra-provado!" Eu, egoisticamente pensei: "Nussa, se ele não passou nos exames, devo ter dançado também!"

Disfarçando minha ansiedade, fingi solidariedade e comentei: "Ô, meu amigo, que pena! Mas, porque você não passou?" Com voz envergonhada ele respondeu: "Fui ba-barrado no per-perfil ps-ps-psi-cológico."

Aliviado, não consegui segurar meus pensamentos: "Ufa! ainda bem que não foi por causa da me-merda..."

Bom, depois dessa, nem sei que receita colocar mas, acho que vou passar para vocês a receita de uma massa de pizza que minha mãe fez durante toda nossa infância:

 PIZZA DA DONA ALZIRA: 1 colher (sopa) de fermento biológico; 1 ovo inteiro, 1 colher (chá) de sal; 1 colher (café) de açúcar, meio copo de óleo; meio copo de água morna e farinha de trigo até o ponto de sovar (desgrudar das mãos). Misture tudo e amasse bastante com as duas mãos. Espere crescer e estique a massa com um rolo até formar um disco de mais ou menos 30 cm, deixando as bordas mais grossas (pode ser um retângulo, também).

Cobertura de carne-seca: pique a carne em pequenos cubos e deixe-a de molho na água por umas 12 horas (troque a água pelo menos umas três vezes). Cozinhe-a em bastante água. Espere escorrer e desfie totalmente a carne. Refogue-a no azeite de oliva, com bastante cebola, alho, tomates picados, pimenta a gosto e cheiro verde. Espalhe sobre a massa da pizza e cubra-a com azeitonas pretas e mozzarella ralada. Asse em forno quente.

A cobertura pode ser, também, com calabresa moída, atum ralado, sardinhas ou peito de frango cozido e desfiado. Refoga-se da mesma forma acima, acrescentando orégano, palmito e ervilhas.

 

LUBIANA

 Ela trabalhou lá em casa por um bom tempo. Chegou, aos quinze anos, diretamente de uma roça do interior de Goiás, recomendada por sua irmã, que era babá dos filhos de nossa vizinha, lá em Brasília. Não sabia ler e nem escrever e morria de medo das pessoas... tão xucra que dava dó!

Para se fazer uma idéia, já no primeiro dia, a minha esposa foi ensiná-la a lavar o vaso sanitário e quando apertou o botão da descarga, a garota saiu correndo e gritando, assustada. Nunca tinha visto uma privada em sua vidinha de sertaneja goiana...

 Quando pedimos para que fosse até a padaria comprar pão para cachorro quente, ela deu um sorriso, meio que envergonhada: "Mas, Dona Heliana, o homem vai rir de mim... além do mais a senhora nem cachorro tem!"

 O primeiro salário foi totalmente utilizado na compra de mantimentos para a família (pai, mãe e mais oito ou nove irmãos menores). O sítio ficava a uns 150 km de Brasilia e o ônibus chegava até certo ponto. A partir dalí ela tinha que caminhar mais uns 10 km até a casa dos pais. Como a compra era grande, ela amoitou tudo sob uns arbustos e durante a noite, veio de carroça, com o pai para buscar os mantimentos... não achou mais nada pois haviam roubado tudo!

 Fiquei com dó e na segunda-feira fiz outra compra, voltando com ela, no meu carro. A estrada era intransitável e não houve condições de eu chegar até ao sítio. Ela, novamente, seguiu a pé enquanto o "tonto aqui" ficou esperando com as compras no carro, debaixo do sol escaldante de Goiás e morrendo de medo. Jurei nunca mais fazer esse tipo de caridade!

 O tempo foi passando e a Lubiana, que por sinal era bem bonitinha, começou a ficar inquieta, querendo passear à noite. Lá em Brasília não existe isso de uma menina sair sozinha, a pé, para passear. Não tem como... somente de carro! Daí ela pegou amizade com outra empregada do prédio e nos finais de semana iam para a casa da mãe da moça, numa das cidades satélites próximas à Brasília. No início elas voltavam juntas e depois, a Lubiana começou a voltar de táxi. Só que o motorista era sempre o mesmo...

 Eu ainda comentei com minha esposa: "Nesse samburá tem truta! Ela não tem dinheiro para pagar tantas corridas..." Alertamos a irmã dela e o que ouvimos foi: "Não tem perigo não, é um namorado que ela arrumou lá no Sotoró (Setor Ó, um bairro afastado de Brasília) e toda vez que eles saem, eu dou uma pílula para ela tomar..."

 Quando a barriga começou a crescer, chamamos novamente a irmã que dessa vez afirmou, tranquilamente: "Deve ser fibroma... eu já tirei um, enorme, do útero!" Passados alguns meses, o "fibroma" nasceu, com quase 4 kilos e o motorista do "Sotoró" não quis assumir nada, pois já era casado.

 Lubiana retornou para a casa dos pais, foi obrigada a casar-se com um viúvo, 40 anos mais velho que ela e nunca mais saiu da roça. As maiores emoções que a pobrezinha teve em sua vida foram: assustar-se com a descarga de uma privada e andar de táxi.

 GALINHADA GOIANA (com meu retoque):  Cortar em pedaços 1 galinha caipira e desprezar o pescoço. Temperar com sal, vinagre, alho, cebola, azeite, salsa, 1 folha de louro (ou sálvia) e 1 colherinha (café) de molho de pimenta cumari (ou dedo de moça). Levar ao fogo juntando 3 a 4 caroços de pequi (fruto típico de Goiás) ou, na falta deste,  1 colher (sopa) de açafrão. Refogar a carne em óleo e alho até ficar douradinha. Juntar 3 tomates picados, sem sementes e cozinhar, acrescentando água fervente, aos poucos. Quando estiver quase no ponto, acrescentar 2 cenouras em rodelas, 5 batatas (cortadas em quatro) e 3 xícaras de arroz lavado e escorrido. Acrescentar mais água fervente (uns dois dedos acima do refogado) e 1 pacote de ervilhas frescas, semi congeladas, (ou 1 lata em conserva). Verificar o sal, tampar a panela e terminar o cozimento em fogo baixo. Espalhar cheiro verde por cima e servir bem quente e úmido, acompanhado de salada de folhas.

 2º ANIVERSÁRIO DE MEU BLOG! NÃO PENSAVA EM CHEGAR TÃO LONGE...

OBRIGADO A TODOS...

TISTA

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LADY

 Lady, a faxineira da casa de meu sítio é uma mulher muito "chic"que adora bailões, roupas extravagantes, brincos e sapatos bonitos. Tem umas unhas bem compridas e outro dia desandou a chorar porque quebrou uma delas ao abrir uma lata de cera. Há algum tempo separou-se do marido e foi morar com um rapaz bem mais novo que ela, boa pinta e trabalhador.

Sossegou o facho, está feliz mas morre de ciúmes do novo amor. Acha que todas as mulheres vizinhas estão a fim do maridão, principalmente a Beth, a cabelereira que tem um salão encostado a sua casa. Por força dessa desconfiança, não dá tréguas prá ele na cama: "Não quero que sobre nada prá ninguém".

  Lá no sítio nós criamos toda a espécie de aves (avestruz, pavão, faisão, perus, cisnes, galinhas, patos, angolas, marrecos e gansos exóticos). Toda vez que morre alguma ave, sem motivo aparente, eu costumo congelá-la para que o veterinário faça sua análise, nas visitas semanais, a fim de diagnosticar o motivo do óbito.

Há poucas semanas atrás, morrreram alguns filhotes de pavão, já grandinhos e eu congelei dois deles, numa sacolinha de supermercado. Naquela mesma semana, dei para a Lady um pernil de porco caipira que estava no freezer e também uma sacolinha com os pés do suíno para que cozinhasse no feijão. 

   Só que ela retirou do freezer a sacolinha errada, que continha os pavãozinhos congelados e levou para casa, toda contente com a ceia que iria preparar. Guardou a sacolinha no congelador, descongelou e temperou o pernil. Dias depois, esquecida dos pés de porco, estranhou aquela sacolinha no congelador e foi abrí-la. Levou o maior susto: "Julianoooo, tem macumba na geladeira! Olha aqui, duas pombinhas mortas!"

 O bom rapaz, sem saber o que dizer, gaguejava: "Quem será que colocou isso aí!?" A coitada da cabelereira levou a culpa e a Lady, com as mãos na cintura sentenciou: "É claro que foi aquela safada da Beth, ela sempre esteve a fim de você, elogiando tuas pernas e tudo o mais. Ela veio aqui hoje e trouxe a macumba prá lhe conquistar ... Vou jogar esses bichos lá dentro do salão dela!"

  Juliano mais pacato ponderou: "Se é macumba mesmo, é melhor jogarmos tudo em água corrente." Durante a noite foram os dois, pé ante pé, até um córrego próximo e virados de costas, jogaram a "macumba" na água, não sem antes se benzerem.

Hoje, segunda-feira, foi dia de faxina no sítio e pedi a ela para descongelar e limpar o freezer. Fazendo isso, ela descobriu os pés de porco que alí ficaram e de repente começou a dar risadas sozinha: "Sr. João, o que é que tinha naquela sacolinha azul que levei na semana passada?" Esclarecido o conteúdo, ela contou-me da palhaçada que aprontou e demos boas gargalhadas juntos. 

Não poderia deixar de colocar essa em meu Blog mas fica difícil manter minha tradição de sempre colocar uma receita ligada à crônica e por isso vou ensiná-los a fazer o cordeiro que assei no dia de Ano Novo, cujas sobras a Lady também levou para casa.

 PERNIL E PALETA DE CORDEIRO:  Bem, primeiro é preciso explicar que cordeiro é um carneiro bem novo, sem muita gordura. Tempere-o com sal e azeite (esfregue em toda a carne) e deixe por dois dias na seguinte marinada: Bater no liquidificador 3 cebolas grandes, 1 cabeça de alho, um maço de cheiro verde, 2 folhas de louro, um ramo de manjericão ou manjerona, um ramo de hortelã, 1 vidrinho de molho inglês, pimenta, 1 copo de vinho branco seco, 1 copo de vinagre branco, 1 copo de água e 1 copo de suco de laranja azeda. Cubra e deixe na geladeira, virando por umas duas vezes. Asse em formas separadas o pernil e a paleta, cobertos com papel laminado, acrescentando água na forma de vez em quando. Depois de umas duas horas, descubra a carne para que fique dourada. Regue com o molho que ficou na forma. Sirva com farofa, arroz  e batatas cozidas. Prepare um molho (servido à parte) com 3 colheres de mel (ou Karo), 3 colheres de azeite, suco de 3 limões tahiti, um pouco de água e folhas de hortelã picadinhas.

Para meu gosto, esse é o melhor assado que existe!

LÔLA III

(para melhor compreensão, leiam a LÔLA I e LÔLA II)

 O espírito da Dona Neiva (aquela que foi chifruda, em vida) era criterioso em sua missão naquele lar e afirmava, com toda a convicção: "Lôla, o bode, teu marido, continua a lhe  trair. Precisamos fazer um bom despacho e dessa vez, será com um vaso de comigo-ninguém-pode.

Minha amiga, receosa, disse, num tom agoniado: " Ai, Dona Neiva, da última vez a senhora encheu tanto minha cabeça que eu quase morri sufocada naquele carro... Não quero que isso aconteça novamente e de mais a mais, essa planta é muito venenosa!"

 A entidade tanto insistiu que a Lôla acabou por fazer o despacho recomendado: Pegou uma cueca usada do marido e pisou nela por sete vezes, com o pé esquerdo. Colocou a cueca no fundo de um vaso, juntamente com uma vela vermelha, quebrada ao meio, dois bulbos (batatas) da planta e completou com terra. Enquanto regava a terra, repetia as palavras cabalísticas:

"Que o vaso lhe guarde os bulbos;

Que o pano lhe embrulhe a mandioca;

Que a água lhe regue a terra, mas

Que não lhe molhe a minhoca."

"Pronto, disse o espírito, o negócio está feito! Se o comigo-ninguém-pode brotar e enquanto tiver folhas, teu marido não mais lhe trairá... É tiro e Queda!"

 As folhas brotaram e cresceram viçosas. Até que um dia, o Adroaldo percebendo o vaso, exclamou: "Nussa! Essa planta é muito venenosa e se os cachorros comerem dela, vão morrer na certa..." Sem falar nada com a esposa, comprou uma muda de outra planta, chamada pau-da-felicidade, para a substituição e quando desterrou o vaso, foi aquele fuzuê danado!

No dia seguinte, Lôla, com um olho roxo, desabafou com a entidade: "Olha, Dona Neiva, acho melhor que não apareça mais... eu só levo fubeca com seus conselhos e o Adroaldo ainda vai acabar me matando. Prefiro continuar chifruda do que morta, como a senhora!"  O espírito retrucou, de pronto: "Eu já lhe disse uma vez e vou repetir: só vou-me embora quando teu marido parar com as fornicações dele. É minha missão..."

 Bem, passados alguns meses, meu amigo aposentou-se, finalmente e resolveu viajar com a esposa, para conhecer o mundo.

Estavam eles em Manhattan/NY, numa tarde gelada de Janeiro, quando Lôla avistou aquela mulher com o indefectível vestidinho preto e avental de algodão beige. Dona Neiva lhe acenava, amigavelmente, enquanto atravessava a 5ª Avenida, em meio aos carros. Lôla comentou baixinho: "Que louca... vai ser atropelada!"

Adroaldo, que estava arroxeado de tanto frio, perguntou: "Quem?"

Ela respondeu: "A Dona Neiva."

 Alcançando o casal, o espírito foi logo comentando: "Nossa, o trânsito está horrível! Isso aqui mais parece uma Sao Paulo melhorada..."Olhando para o Adroaldo ela alertou: "Lôla, começe a gritar...o bode vai ter um treco!" Enquanto Adroaldo ia amontoando-se na neve, com as mãos no peito, sua mulher começou a gritar: " Socorro...Socorro, meu marido está tendo um infarto!"

Dona Neiva, friamente, esclareceu: "Aqui não é socorro! Você tem que gritar  é help! "

 O resgate acudiu em poucos minutos e enquanto seguiam para o hospital mais próximo, Lôla ainda avistou, pela janela do veículo, a figura escura do espírito de Dona Neiva. De princípio, em forte contraste com o a neve e aos poucos, desvanescendo-se... até desaparecer por completo.

Por consequência do infarto, José Adroaldo ficou sexualmente impotente. O ciúme de Lôla não tinha mais razão de ser e a tal de Dona Neiva, tendo sua missão cumprida, pode descansar em paz.

Já que falei em New York, vou ensinar a vocês o feijão a minha moda. Os brasileiros que por lá habitam adoram e sempre que vou para NY, eles pedem o meu feijão com arroz.

 FEIJÃO NOSSO DE CADA DIA:  Lavar dois copos de feijão carioquinha ou rosinha. Colocar na panela de pressão com água (três dedos acima dos grãos); 3 a 4 pedaços de bacon; três dentes de alho inteiros; 1 folha de louro (ou manjerona) e 1 colher (sopa) de extrato de tomates (daquela latinha antiga). Tampar a pressão e deixar cozinhar por uns 15 minutos ou até ficar macio, sem desmanchar. Noutra panela ou frigideira, frite meia cebola batidinha em 3 colheres de óleo; acrescente uma concha de feijão com água do cozimento e 1/2 colher ( sobremesa) de sal. Amasse um pouco os grãos e junte à panela do feijão. Espere engrossar e sirva. O arroz eu faço com bastante alho picadinho, água fervente (dois dedos acima), sal e 1 colher de suco de limão (que é para ficar bem branquinho).

LÔLA II

      (para melhor entendimento, leiam a LOLA I -13/02)

 

 No final das contas, o Adroaldo não conseguiu morar sozinho por muito tempo. Era um relaxado assumido, a casa de Alphaville virou um pardieiro e não conseguia arrumar empregadas. O Condomínio era muito chic mas longe de tudo. Chegou à conclusão que se a vida era ruim com a Lôla, sem a Lôla era pior. Ciumenta, não sabia cozinhar, mas em matéria de limpeza, não havia outra igual.

 

Ver imagem em tamanho grande Ainda por cima, havia os cachorros que sentiam muito a falta da dona.

Capitulou, por fim e trouxe a mulher para São Paulo mas com as seguintes condições: cenas de ciúme nunca mais e  quanto ao espírito da tal de D.Neiva, que fosse enterrado de vez.

Passou-se um tempo de relativa tranqüilidade e o Adroaldo, ainda trabalhando, chegava sempre tarde em casa, devido à distância entre a Avenida Paulista e Alphaville. Daí, o danado do ciúme recomeçou a corroer o coração da esposa, perturbando seu raciocínio lógico.

 Por essa época, numa triste manhã de inverno, estava o casal à mesa do café, quando os cachorros começaram a latir, inquietos. Lôla acudiu à porta para ralhar com os animais e ao abrí-la, deu de topo com o espírito de Dona Neiva (aquela que em vida fora muito traida). Soltou um gemido de surpresa: “Ah, meu Deus! Ela está aqui...” 

Voltando-se para o marido, acrescentou, em tom de lamúria: “Eu não tenho culpa...”

Já irritado, Adroaldo perguntou: “Culpa do quê? Quem está aí?”

Lôla respondeu, baixinho: “A Dona Neiva!”

Sem pensar no que dizia, o marido gritou: "Quem mandou você dar o novo endereço para ela!"

Lôla ainda perguntou para o espírito: "Por quê a senhora voltou, o Adroaldo não pode nem ouvir falar em teu nome..."

A entidade, ajeitando o decote do vestidinho preto, respondeu: "Enquanto você tiver razões para ter ciúme dele, eu não vou embora: essa é minha missão!"

 Num sábado de verão, o marido levantou-se muito cedo e começou a vestir-se para sair. Lôla, anda na cama, estranhou o fato e comentou: "Por quê essa roupa? Hoje é sábado!" Adroaldo, já prevendo a cena de ciúmes, rosnou-lhe: "Olha, não dê palpites pois eu já estou com o saco cheio por ter que trabalhar hoje... é que os técnicos vão mudar as máquinas e eu preciso estar presente para ver se tudo vai dar certo."

É lógico que Lôla nao acreditou, ainda mais pelo fato de que, lá do espelho do closed, a Dona Neiva fazia provocações, com os dois dedos na testa, em forma de chifres. Enquanto José Adroaldo dava ração e água para os cães, ela meteu-se, ainda com camisolas, dentro do porta malas do Chevrolet Opala do marido (era daqueles que tinham uma tampa interna). Ficou quietinha alí espremida, enquanto o carro rodava São Paulo adentro. Apesar do desconforto, ela já antevia o momento da desforra..."Hoje eu pego essa bruaca".

 Quando o carro, finalmente, estacionou, ela levantou uma fresta da tampa do porta-malas e qual não foi sua surpresa quando percebeu que estava no estacionamento externo da empresa e que o marido já conversava com alguns técnicos que estavam à espera. Sem coragem de sair do veículo, pois estava de baby-doll, ela ali ficou, trancada o dia todo. Sol escaldante e o calor era insuportável. Bem tarde, quando Adroaldo voltou para o veículo, encontrou a esposa em seu interior...desmaiada.

Dessa vez, ela só não apanhou porque foi levada, às pressas para o pronto-socorro.

 

Dona Neiva ensinou Lôla a fazer um bolo chamado "Prende Marido", o qual, como o próprio nome indica, serve para amarrar de vez o coração de infiéis, com a recomendação de ser servido na cama, enquanto a vítima ainda estiver com roupas íntimas. 

É melhor anotarem, mesmo aqueles que não tenham o problema de minha amiga, pois fica muito bonito e saboroso.

  BOLO PRENDE MARIDO

Fazer duas receitas de bolo, um amarelo e outro negro com os seguintes ingredientes:

Bolo Amarelo - Bater bastante no liquidificador: 2 cenouras com 1/2 xícara (chá) de óleo e 1/2 xícara de leite. Misturar numa tigela com 3 ovos inteiros; 2 xícaras e meia de farinha de trigo; 2 xícaras de açúcar e 1 colher (sopa) de pó Royal. Assar em forno médio e reservar.

Bolo Negro   - Misturar: 2 xícaras (chá, cheias) de açúcar; 2 xícaras (cheias) de farinha de trigo; 1 xícara (cheia) de chocolate em pó; 4 ovos inteiros; 1 xícara (mal cheia) de óleo e uma pitada de sal. Por último, juntar 1 xícara de água fervente; 1 colher (sopa) de pó Royal e 1 colher (café) de bicarbonato. Bater bem, com colher de pau. Assar em forno moderado e reservar.

MONTAGEM: Corte cada bolo em 10 tiras iguais, no sentido horizontal. Passe doce de leite cremoso ou goiabada nas laterais de  cada tira. Em cores alternadas, vá grudando uma tira na outra. Faça duas camadas e para a camada de cima, besunte as superfícies das tiras com o doce e proceda da mesma maneira, sempre alternando as cores para formar um xadrez. Cubra com glacê de claras ou de chocolate.

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LOLA I

 

 Então... a Lôla era uma pessoa extremamente ciumenta.

O marido dela, José Adroaldo, foi diretor em nossa empresa e  já estava quase para se aposentar quando nos conhecemos.

Os dois brigavam muito pois ela achava que ele era-lhe infiel e que saía com todas as colegas de trabalho.

Quando se referia às mulheres que com ele trabalhavam, ela sempre usava a expressão "as piranhas do gabinete".

 Ao marido ela apelidou de bode e era muito engraçado quando ia lá em casa contar suas mágoas para minha mulher:

"Sabe,  Heliana, ontem o bode chegou as dez da noite em casa! Veio com a desculpa que depois da reunião da diretoria ele e a Gecylda, ficaram revisando os assuntos e fazendo a ata do que foi discutido."

Batendo os punhos fechados no joelho ela rosnava raivosa: "Mentira, aqueles dois estão de caso, tenho a certeza!"

Minha mulher, ouvindo com toda paciência,  procurava, em vão, acalmar a amiga.

"Mas tem uma coisa _ continuava ela _ hoje eu só apareço em casa à noite e se ele quiser almoçar, que coma merda pois dei folga até para a empregada."

 Lôla era altamente espiritualizada. Achava que era médium clarividente, sempre rodeada de espíritos, e até conversava com alguns.

A mais chegada das entidades era uma tal de Dona Neiva, cujo espírito batia longos papos com ela.

Essa senhora, em vida, fora muito traída pelo marido e por isso dava-lhe frequentes conselhos...

Certa manhã, bem cedo, instigada por Dona Neiva, ela ligou para o escritório do marido e a secretária atendeu: "Diretoria de Programas, Gecylda, bom dia!"

Fora de si, Lola começou a gritar: "É você sua piranha? O que está fazendo ai a essa hora, você não entra às dez?"

 A secretária respondeu com toda a polidez: "É a Dona Lola? Um momento que vou passar para o Dr. Adroaldo. Ele está no..."

Foi interrompida pelos berros do outro lado da linha: "Eu sei onde ele está sua p...; você é quem não deveria estar no escritório  a essa hora. Estou indo até ai e se te encontrar, vou rachar a tua cara!"

Desligou o telefone e falou para o espírito: "Vamos comigo, quero testemunhas!"

Em poucos minutos, a esposa endoidecida irrompia no gabinete do marido e ao ver que a pobre secretária ainda estava lá, desandou a esmurrar a moça, sem piedade.  Arrancou o telefone dos fios, jogou o vaso de flores na parede e qual "ninja assassina", começou a chutar a porta da sala do marido.

Adroaldo que estava em outro andar, numa reunião com o presidente da empresa, foi avisado e veio correndo, escadas abaixo.

"Para com isso, Santinha (esse era o meigo apelido que ela tinha em casa), que escândalo horrível!" E tentava, debalde, segurar as garras da esposa que já fizera estragos no rosto da rival.

 O que Lôla nao sabia era que, na verdade, a bela Gecylda mantinha um "caso" com o presidente da empresa e não com seu marido.

Tempos antes, para não dar muito na vista, o "chefão" havia transferido a moça para a diretoria do Adroaldo com a função de secretária e o meu amigo era cúmplice do romance.

Em fim, o que resultou da tragédia foi que, o presidente, com medo de sobrar para ele também e não querendo prejudicar o José Adroaldo, transferiu-o para uma Superintendência em São Paulo.

Ele foi morar sozinho, numa grande casa em Alphaville, deixando Lôla a ver navios.

A Lôla nunca fritou um ovo em sua vida e quando estavam sem empregada, só comiam marmitex ou em restaurantes. Por isso, não tenho nenhuma receita dela mas vou ensinar uma rosca deliciosa que eu fazia muito lá em Brasília e da qual minha amiga gostava muito. (Putz, esta receita está em meu caderno desde  ABRL 1980!!! - tô ficando velho rsrsrs):

 ROSCA DE NOZ - MOSCADA-1 lata de leite condensado; 4 tabletes de fermento fleshmann (60 gramas); 1 copo de água morna; 5 ovos inteiros; 1/2 copo de óleo; 1 colher (sobremesa) rasa de sal; 1/2 noz - moscada ralada; farinha de trigo que dê o ponto de enrolar as roscas (pouco mais de 1 kg)

Bater tudo no liquidificador (menos a farinha) e despejar sobre a farinha de trigo, em uma bacia grande. Misturar bem com as duas mãos. Sovar bastante (socar com raiva mesmo).

Deixar crescer, dentro do forno, coberta com algum pano grosso. Cortar em 4 partes (4 roscas). De cada pedaço, fazer três cobras e enrolar em forma de trança. Deixar crescer, novamente, até dobrar de tamanho.

Pincelar com gema e polvilhar com açúcar cristal. Assar em forno médio (duas roscas em cada forma) e comer.... (nao deixe de mandar uma para a vizinha, pois o aroma vai chegar até a casa dela).

J0ÃO MAVERICK

  O João de Mello tem, mais ou menos, a idade de meus irmãos mais velhos (José e o Roberto). Eram muito amigos e deles recebeu o apelido de  “João Maverick” pois que possuía um automóvel dessa marca, amarelo e cheio de enfeites. 

O carro era horrível, enorme e estava sempre sujo de barro de tanto rodar pelas roças da redondeza, levando seu dono, um exímio sanfoneiro, muito requisitado para animar os bailes e forrós da zona rural.

 

 Certa vez, numa exposição de gado leiteiro, ocorrida em Goiás, os três amigos compareceram, levando cerca de 40 cabeças de vacas “girolandas” com a finalidade de vendê-las em leilão. Ficaram hospedados em dois cômodos alugados, nos fundos de um restaurante gaúcho.

 

 Os proprietários, gaúchos parrudos e grandões, eram casados e uma das esposas, uma goiana bonita e fogosa, engraçou-se com o João, tanto pelos seus dotes artísticos quanto pelo porte espigado que o mesmo apresentava, já que media quase dois metros de altura.

 

 Já estavam por lá há quase uma semana, sem vender uma rês sequer e o João não conseguira nem uma chance de ficar a sós com a mulher. Até que numa sexta feira armou-se o maior barraco no restaurante com os dois gaúchos brigando e as mulheres se arranhando. No meio da confusão, enquanto os casais rolavam pelo chão, João, fingindo apartar a briga, puxou a goiana para o fundo do quintal e “deu um trato” nela, meio às pressas.

 

 Acalmado os ânimos, confidenciou aos amigos que a mulher iria encontrar-se com ele após fechar o restaurante e para tanto, teria que ficar sozinho no quarto. Meus irmãos ficaram meio despeitados e armaram uma vingança: Enquanto o Roberto ficou com o João, bebendo umas e outras, o José foi até ao pequeno quarto do companheiro com a desculpa de trasladar seus pertences para o outro cômodo.

 

 Trocou o estrado da cama por algumas varas de bambus, bem frágeis, recolocando o colchão no lugar. Não satisfeito, encheu uma lata de água e ajeitou-a cuidadosamente sobre o batente superior e a porta semi aberta.

 

Logo depois que o gaúcho foi dormir, sua mulher fechou o restaurante e veio, pé antepé com o João que já antevia,com prazer, a noite de farra que rolaria. Com a mulher à frente, foi abrindo devagarzinho a porta do quarto e deu-se aquela gritaria quando a lata de água fria caiu sobre a coitada...

Trancaram a porta e ficaram ali assustados, no aguardo de algum movimento externo. Não havendo manifestações, a mulher tirou a roupa  molhada e começaram as carícias.

 

 O golpe final veio quando os dois procuraram a cama... Os bambus ainda agüentaram o peso da amante mas quando o João  partiu pra cima dela, vestido apenas com as cuecas “samba canção”... foi aquele estrago!

Histérica, a mulher desandou a esmurrar nosso amigo. Saiu do quarto, com as roupas na mão, não se preocupando nem com a possibilidade de o marido ter percebido algo. 

Os três tiveram que fugir, de madrugada, levando consigo as vacas não vendidas mas, nem por isso, a amizade entre eles se acabou...

 

Já que falamos em vacas leiteiras, hoje a receita será de docinhos de leite,feitos à moda antiga, com puro leite, não industrializado:

 

 DOCE DE LEITE DA DONA LURDES: 

 2 litros de leite in natura; 6 copos americanos (aqueles de bar) de açúcar; 2 colheres (sopa) de manteiga; 1 pitada de sal; amendoím ou leite de coco.

Levar ao fogo em panela grossa (menos o amendoim ou leite de coco). Mexer, sem parar, com uma colher de pau, até dar o ponto de desgrudar da panela (demora bastante). Um pouco antes de dar o ponto, acrescente o amendoim ou o leite de coco. Desligue o fogo e bata bastante até ficar vidrado. Despeje na pia untada de manteiga. Espere esfriar e corte-o em pequenos retângulos.

OBS: para melhor verificar o ponto, despeje um pouco do doce numa xícara com água fria; se ficar duro, desligue o fogo.

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"SEU" PEDRO FARINHEIRO II

(para melhor entendimento, leiam a 1ª parte, dia 13/10/08

 Após a tentativa frustrada de suicídio, Pedro tornou-se outro homem: passou a valorizar a vida, a abraçar árvores, a sorrir para as flores e até mesmo a gostar de si mesmo. Apesar de ter ficado sem um pedaço da orelha e de ter que usar o velho par dAe óculos de uma perna (ou braço?!) só, não se sentia mais um injustiçado por Deus. 

 

A partir de então, quando ia à cidade entregar lenha, seguia conversando, alegremente, com a mula recentemente adquirida e batizada de Serafina:

“Vamos ligeiro, minha amiga! Quem sabe não será hoje que conhecerei a mulher de minha vida.”

 

 Passou a reparar nas pessoas, a ficar falante e a “tirar linha” com as mocinhas da cidade. Percebeu que algumas delas “davam corda” e isso  fazia o jovem sentir-se como um Rodolpho Valentino ou um John Barrymore, galãs da cinematografia d’antão. Usava sempre o chapéu meio que do lado, um tanto para dar pinta de herói e mais para esconder a orelha mutilada.

 

Seu Joanicão, dono da casa de moagem e torrefação de farinhas, tinha uma filha chamada Helena. Filha única, já pela casa dos vinte e tantos mas ainda solteira. Pedro começou a cortejá-la de longe. 

 Não era muito novinha, devia até ser mais velha do que ele, mas era uma “mocetona”, de corpo grande e forte, bonita de se ver!

 

 As noites do rapaz  passaram a ser povoadas de sonhos inquietantes sendo que, muitas vezes, acordava no meio da noite com o “coração na boca”,  peito palpitante e o corpo suado. Estava apaixonado...

 

Mais afoito ficou quando percebeu que sua paixão fulminante estava sendo correspondida, de leve a princípio e mais forte a medida em que os olhares iam perdendo o pundonor inicial. Fugidia que era, a moça foi-se deixando levar ao sabor daquele enlevo e toda a vez que ouvia o trotear compassado de Serafina, corria à janela, com as faces afogueadas e as pernas bambas.

 Enquanto seu pai ajudava a descarregar a carroça, a embarcar sacos de farinha ou de fubá em troca da lenha, os dois jovens cruzavam olhares cúmplices e maliciosos.

 

 Numa manhã, pela ausência do pai, Helena teve que atender ao enamorado. Pedro seguiu-a até ao moinho de fubá, meio anestesiado pela emoção, e enquanto ele segurava o saco de aniagem, ela, munida de uma concha grande, de alumínio batido, recolhia o fubá de um caixote baixo para o saco. 

 

Vendo o abaixar-se e o levantar-se contínuo da moça, Pedro ficou extremamente  excitado e num rompante de insensatez, grudou-se nos quadris da amada. Helena, tensa que estava, deu um berro assustado e numa reação automática, meteu a concha de ferro na cabeça do rapaz, cortando-lhe um pedaço da outra orelha, a que era perfeita...

 

Quando seu Joanicão chegou e viu a filha curando a orelha de Pedro, quis saber a razão e a explicação que ouviu foi que ao apertar a cinta “barrigueira” da mula, o rapaz levou um coice certeiro do animal. Pedro ainda acrescentou: “Pois é, seu Joanicão, essa mula é uma desgraça de brava e traiçoeira!”

 

 “A Mula não é brava não _ replicou Helena, com toda a calma maliciosa _ Você é que pegou ela no susto...”

 

Anos mais tarde, sempre que alguém lhe questionava o porquê de usar sempre um gorro "atolado" na cabeça, ele dizia para a esposa: "Conta ai, Helena!"

A gorda senhora, em entremeios a sonoras gargalhadas, não se cansava de repetir a mesmas estórias, decisivas na vida do marido..

 

O receituário para o fubá é extenso, principalmente na cozinha mineira e escolhi para hoje uma receita, que aprendi quando morei em Poços de Caldas/MG, de broinhas mineiras que não é qualquer um que tem "saco" para fazer e lanço o desafio:

 BROINHAS DE FUBÁ: (Usar como medida um copo grande) - 1 copo de leite; 1 copo de água; 1/2 copo de gordura vegetal; 1 copo de fubá; 1 copo de farinha de trigo; 1/2 copo de açúcar; 2 pitadas de sal; 1 colher (sopa) de erva-doce; 1 colher (sobremesa) de fermento em pó e 6 ovos inteiros. Levar ao fogo uma panela com o leite, a água e a gordura. Quando levantar fervura, acrescentar os demais ingredientes (menos os ovos). Mexer (colher de pau) vigorosamente, até desgrudar do fundo da panela. Tirar do fogo e deixar amornar. Juntar o fermento em pó e misturar bem. Por último, acrescentar os ovos, um a um, misturando com as mãos. Umedecer uma xícara (chá), de fundo arredondado, com água e polvilhá-la com fubá. Jogar porções de massa na xícara e agitá-la até formar pequenas bolas. Despejar cada bola em tabuleiros untados e enfarinhados. Assar em forno quente. Sirva com café preto da hora.

 

"DAIDE"

  ''Vamos Falar de saudade, que eu hoje estou prá chorar...” 

Assim cantava Nora Ney, grande sucesso do final dos anos 50 e inicio dos 60.

 

E é dessa época que me veem as melhores lembranças de minha querida irmã,  Maria Adelaide, cuja vida, na semana passada, foi tragicamente ceifada sob as rodas de um veículo qualquer.

 

Lembro-me dela cuidando de nós, seus irmãozinhos mais novos, de uma forma extremamente carinhosa e alegre. Sempre cantando e sorrindo, dando-nos o banho diário, penteando nossos cabelos, vestindo-nos e levando-nos à Igreja ou para passeios.

 

Recordo, nitidamente, o dia em que me levou ao “Foto 5 minutos” para “tirarmos” o retrato que ilustra esta crônica. Para frustrar sua intenção, eu peguei uma tesoura e cortei um pedaço de minha franja (reparem o detalhe na foto), mas não houve desculpas e fui contrariado. Saí de cara feia, ainda mais por que ela não quis comprar-me um sorvete, alegando que  poderia sujar a camisa nova: _Só depois da foto!

 

Lá em casa, era chamada de “Maria Força e Luz” e ganhou esse apelido após ter subido em um banquinho para tentar consertar uma luminária da cozinha. Levou o maior choque, estatelando-se no chão, sob a vaia de todos os irmãos.

 

Após a adolescência, seus problemas começaram: Acometida de uma enfermidade auditiva, sofreu muito com as dores e seqüelas das cirurgias pelas quais passou. Casou-se com o único namorado que teve, separou-se ainda nova e voltou para casa com os três filhos pequenos, já com os transtornos que a atormentaram por muitos anos e que tanto fizeram sofrer, também a nós, que a amávamos tanto.

 

Não obstante seus males, os quais, muitas vezes, deixavam-na alienada da própria existência, era um ser humano maravilhoso e bondoso a ponto de doar tudo o que tinha para os mais necessitados. Fazia visitas diárias aos asilos, velórios, enfermos e  amigos. Pela cidade toda, levava a alegria de seu grande coração.

 

Sua religiosidade não tinha nada das convenções impostas e professava a espiritualidade de uma maneira própria e eclética, freqüentando, com a mesma fé, tanto as igrejas católicas como as evangélicas ou espiritualistas. Onde tinha hinos e orações, a Daide estava presente!

 

Foi, nesta vida, uma presença marcante para nós e para seus amigos, e creio que sua missão maior foi cumprida: três filhos e netos, exemplares e honrados, que nos deixou para engrandecer ainda mais seu nome e suas lembranças.

Em fim; ela não nos abandonou...apenas foi na frente!

 

Perdoem-me os leitores mas, pelo menos desta vez, não tenho crônicas divertidas para publicar pois só me ocorrem os versos que a Nora Ney cantava...

"SEU" PEDRO FARINHEIRO

 O  “Seu” Pedro Maturano era míope de muitos graus e até onde vão minhas lembranças, sempre usou um gorro enfiado nas orelhas e o mesmo par de óculos “fundo de garrafa”, meio esverdeado. O peso da armação era tanto que lhe deixara uma marca profunda no nariz e as lentes estavam sempre embaçadas de pó amarelo, visto que era um “farinheiro” (moia e torrava farinha de milho e fubá).

 

 Nasceu e foi criado na roça, perto da Fazenda Santa Helena. A família vivia dos parcos recursos que conseguia “catando” e rachando lenhas, vendidas para as padarias, olarias e  fecularias da cidade.

 

 Pedro, rapaz ainda, era encarregado de levar para a cidade os paus de lenha, numa carrocinha puxada por uma égua de uns três anos, chamada Esmeralda. O animal era muito bonito e saudável e as pessoas, na cidade, sempre ofereciam bom dinheiro para a compra da égua; ofertas prontamente recusadas por Pedro, que alegava não ser seu dono. 

 Um dia porém ele capitulou ante a quantia oferecida pelo dono da Padaria Estrela: vinte contos de réis! Voltou para casa com o volumoso pacote de notas no bolso e puxando, ele mesmo, a carroça. Pelo caminho vinha pensando no quanto seu pai ficaria feliz com aquele dinheiro: “dava para comprar duas mulas!”, meditava ele.

 

Seu pai, espanhol  de Málaga e “bravo como o capeta”, ao saber da venda de Esmeralda, deu-lhe uma sova de chicote, obrigando-o a voltar à cidade a fim de desfazer o negócio. Pedro, envergonhado até à alma, implorou ao comprador para devolver a égua mas que nada... “Negócio feito era sagrado!”

 

 O velho espanhol comprou outro animal mas, a partir daí, era Pedro quem catava e trazia a lenha dos matos, puxando a carroça, qual um burro de carga. A mula comprada servia-se apenas para a entrega da mercadoria aos comerciantes.

 

Trabalhava como um "asno de engenho"e não podia freqüentar o jardim ou ir ao cinema pois não tinha tempo nem dinheiro. Além disso, por achar-se feio e “cegueta”, não cogitava em arrumar namorada.

 

 Lá pelos seus 23 anos, decidiu acabar com a miséria de vida que levava: Numa manhã de segunda feira, saiu com a velha garrucha espanhola, herança do avô e começou a maquinar seu suicídio. Enquanto caminhava, antevia, com certo prazer amargo, o desgosto e remorso que sua morte iria causar a seu pai. Já de caso pensado, levou consigo um comprido barbante que lhe seria útil para a consecução do ato final.

 

Numa grota não muito distante da colônia, ele enroscou o cano da cartucheira num feixe de lenha, amarrou o barbante no gatilho e postou-se a alguns metros, bem na mira da arma. Primeiramente, resolveu “ensaiar” o suicídio e para tanto, amarrou a outra ponta do barbante no dedão do pé, o qual serviria como acionador da engrenagem.

 Ao flexionar a perna direita, ele desequilibrou-se e enquanto tombava para um lado, o gatilho disparou vindo a bala passar rente a sua cabeça, arrancando-lhe o pedaço superior da orelha.

 Quando os colonos acudiram, ele estava meio que desmaiado, com a cara toda preta e ensangüentada. Ficou surdo do ouvido direito e por muito tempo usou óculos com uma “perna só”, amarrada com elástico mas... nunca mais pensou em suicídio!

 

E como o assunto hoje é farinha, segue aí uma receita de farofa, deliciosa e muito simples para acompanhar os churrascos da vida:

 FAROFA FRIA DA ROSALI:  2 copos de farinha de milho torrada; 2 copos de farinha de mandioca crua; 1/2 copo de óleo ou azeite; 1/2 copo de limão Tahiti; sal e´pimenta a gosto. Esfregue com as mãos até as farinhas ficarem uniformemente misturadas. Acrescente 2 dentes de alho picadinhos; 1 cebola bem picada; azeitonas; tomates; ovos cozidos picados e cheiro verde batidinho. Não mexer muito. 

A BASSAM

  Certo dia cheguei na casa de minha sogra em Paracatu e a encontrei atendendo um consulente. Era um japonês miudinho, muito cortês e sorridente, chamado Mario Okamura.

Enquanto ela traduzia os sortilégios e premonições das cartas, ele gravava tudo num pequeno aparelho portátil. 

O japonês, ou nissei, dizia ter uma fazenda no município e estava pensando em trazer seus pais e irmãos, que moravam em uma chácara em Jaboticabal. Enquanto ele falava, não tirava os olhos da Carla, filha mais nova de minha sogra e solteira ainda. O baralho foi cortado, por três vezes até que  as cartas começaram a falar:“Você deve trazer apenas teus pais, se os irmãos vierem também, vão trazer-lhe infelicidades!”

 

 Enquanto a Carla servia um cafezinho, o japonês perguntou, ruborizado: “A Bassam quer trazer uma moça que gosta de mim, pra casar, veja nas cartas se vai dar certo. Cybelle, percebendo a paquera cerrada entre a filha e o rapaz, perguntou quem era a Bassam.“É minha mãe, ela acha que já passei do tempo de arranjar uma esposa e quer trazer a Mieko pra cá...” 

Mais  uma vez as cartas foram embaralhadas e abertas sobre a mesa: “Diga à dona Bassam que teu casamento está próximo e não será com japonesa e nem descendente. Vai ser com moça daqui mesmo.”

 

Quando o japonês foi-se embora eu ainda disse, intrigado: “Mas Cybelle, dessa vez você exagerou...Olha que o rapaz gravou tudo!” Minha sogra fez um muxoxo e afirmou: “Fica tranqüilo que eu sei o que estou fazendo.”

 

 Daí a alguns dias, o Mario voltou meio preocupado dizendo que os bezerros da fazenda estavam doentes, com umbigos inflamados e diarréia e queria que ela fosse até a propriedade para benzer os animais. No dia seguinte lá foi ela mais a Carla na boléia da caminhonete do japonês, levando consigo seus ungüentos milagrosos . 

Enquanto ela fazia as rezas secretas, o retireiro esfregava a solução de ervas nos animais. Carla e Mario saíram para conhecer a propriedade e quando voltaram já estavam de mão dadas e sorridentes.Mais uns dias de visitas e o namoro estava consolidado, com o maior apoio de minha sogra.

 

Quando Mario resolveu-se a buscar seus pais, minha cunhada foi junto, voltando de ônibus-leito, em companhia da futura sogra. Lá para o meio da noite, a dona Bassam sentiu vontade de fazer xixi mas, quando, com muito custo, abriu a porta do minúsculo banheiro, deu um gritinho envergonhado e voltou, apressada, para a poltrona: “Tem outra japonesa lá dentro, né! E eu não agüento segurar, né!” 

 Percebendo o desassossego da mulher, minha cunhada acompanhou-a de volta ao WC. A porta estava apenas encostada e lá dentro não tinha ninguém; apenas um grande espelho que ia do teto ao chão. Mirando as duas imagens refletidas, Carla perguntou: ‘É aquela a japonesa que a senhora viu?”Meio abobada a senhora balbuciou: “Nossa, eu confundi eu com eu mesma, né?!”

 

Aquilo serviu de piada por muitos anos e pouco tempo antes de se casar, minha cunhada descobriu que o Mario era apenas o administrador da fazenda de outros japoneses ricos. Mesmo assim o casamento se consumou e eles tiveram duas filhas lindas, mistura de sangue japonês com espanhol e italiano. 

Em fim: O japonês mentiu mas “as cartas não mentem jamais...”

 

Cybelle ensinou-me a fazer pão aromático de batatas muito saboroso.Vale a pena conferir.

 

 PÃES DE BATATAS E MANJERICÃO:  1 ½ kg de farinha de trigo; 50 gramas de fermento; 4 colheres de manteiga derretida; 1 colher (sopa) rasa de sal; 2 colheres (sopa) cheias de açúcar; 3 ovos inteiros; 1 kg de batatas (ou mandiocas), cozidas e amassadas ou espremidas; 2 colheres (sopa) de manjericão fresco, picado e leite morno (suficiente para dar o ponto de amassar o pão). Desmanchar o fermento em meia xícara de leite morno. Misturar com 1 colher de açúcar e 1 xícara de farinha. Deixar fermentar por uns 10 minutos. Acrescentar os demais ingredientes, aos poucos, sendo que o manjericão deve ser previamente misturado na manteiga derretida e morna. Amassar e sovar muito a massa, até ficar homogênea e leve. Deixar crescer por 1 hora. Enrolar os pães e deixar crescer até dobrar de tamanho. Pincelar com gemas ( 2 gemas desmanchadas em 1 colher de água). Assar em forno não muito quente.

"MADAME ZOHRA"

 Minha sogra, quando morou em Paracatu/MG, abriu um restaurante num grande posto de gasolina da saída da cidade. Lembro-me que o fogão era enorme, com oito bocas e ficava no centro da cozinha. Além do restaurante ela alugava alguns quartos, contíguos ao posto, para os inúmeros viajantes que por ali passavam, rumo à Brasília, Goiânia ou Unaí. Era uma vida muito dura, ganhava um bom dinheiro mas levava bastante calotes, também.

 

 Eu, que morava em Brasília, distante uns 200 km, adorava passar os finais de semana na casa dela; uma casa antiga dos tempos coloniais. Aliás, a cidade toda é um verdadeiro museu a céu aberto com casario e igrejas dos áureos tempos da mineração. Gostávamos de ir até as margens do rio Paracatu e seus pequenos afluentes para bater peneiras ou bateias.

 

 Nosso intento não era pegar peixes e sim tentar “garimpar” pó de ouro, metal ali abundante nos século XVIII e XIX,  tempos de Ana Jacinta de São José, a famosa Dona Beija, sua mais ilustre moradora. Ainda guardo um pequeno frasco cheio do valioso pozinho dourado, fruto de nossas aventuras garimpeiras.

 

Minha sogra resolveu fechar o restaurante após ter levado calote de um cearense muito alegre e falante que “levou a velha no bico” e por ali ficou por mais de um mês, comendo, bebendo e dormindo. Fugiu sem pagar a conta, deixando umas sacolas no quarto onde dormia e quando minha sogra foi “confiscar seus bens”, só encontrou duas redes velhas e várias bermudas e camisetas sujas.

 

 Passou a fazer bolos doces e salgadinhos para festas, pois não queria sair da cidade e muito menos morar conosco em Brasília. A bem da verdade, eu dava graças a Deus pois sempre fui partidário daquela máxima que ensina: “a sogra não deve morar tão longe a ponto de vir com malas e nem tão perto a ponto de vir só de chinelos...”

 

 Para complementar sua renda, passou a ler sorte e eu fui o causador dessa transmutação da excelente cozinheira que era para uma esperta “Buena Dicha”...Ela era descendente de espanhóis, da Catalunha, e sua sala era lotada de objetos  relacionados à Espanha: touros, castanholas, dançarinas de flamenco, leques e quadros de toureiros.

 

Olhando tudo aquilo, certo dia, tive a brilhante idéia: “Cybelle; já que você está nesse aperto danado, porque não começa a ler sorte. É só arrumar um baralho de tarô, decorar o significado das figuras e fazer cenas de mistério”. Ela adotou a idéia na hora, lembrando-se de que sua avó, Assunción Mariño, sabia ler as cartas.

 

 Comprei-lhe os apetrechos, inclusive um livro que ensinava os segredos da quiromancia. Em poucos dias ela estava “afinada”na leitura das mãos e no tarô. No início, anotava nas costas das cartas a primeira letra dos presságios: Nas costas do valete de copas ela escrevia “A” de amor ou amante apaixonado. Na dama de espadilha, era a letra “R” de rival; no reis de ouro era o $, de marido rico; no reis de espada, o “V” de vingança ou marido ciumento e assim por diante.

 

Resultado disso tudo foi que durante anos, com o pseudônimo de Madame Zohra, ela ganhou seu dinheiro na maciota e foi uma cartomante de sucesso até o fim da vida. Criou e manteve os sonhos de muita gente e falando em sonhos, vou transcrever uma receita dela que é  uma doçura:

 

 SONHOS DA CYBELLE:  2 colheres (sopa) de margarina ou manteiga; 2 colheres cheias de fermento (ou 3 tabletes); 20 colheres de açúcar; 2 ovos inteiros; 1 copo de leite morno; 1 pitada de sal e farinha que dê para amassar. Enrolar os sonhos e cobrir com um pano grosso, para crescer. Ponha uma bolinha da massa em um copo com água:quando subir, pode fritar os sonhos em óleo nao muito quente. Espalhar açúcar por cima e rechear com geléia ou com CREMINHO DE MAIZENA (meia lata de leite condensado, meia lata de leite comum; meia lata de creme de leite 1 gema e 1 colher de maizena, levar ao fogo até engrossar). 

A 1ª DAMA E O MENDIGO

  Em outra ocasião tive a oportunidade de falar sobre Elza Camacho, a mulher do prefeito de um município vizinho, muito aloprada mas perfeitamente atuante nos eventos e festas promovidos na cidade.

 

 Por ocasião do Natal, ela agitava a cidade inteira, arrecadando dinheiro e doações junto aos empresários e fazendeiros do município. O produto da arrecadação era, integralmente, utilizado na decoração das ruas e prédios públicos da cidade, bem como na compra de brinquedos para presentear as crianças carentes dos bairros de periferias.

 

  Semanas antes do Natal, ela tomava a perua da prefeitura e seguia, somente com o motorista para São Paulo a fim de comprar os brinquedos diretamente nas fábricas e alguns dos materiais que seriam utilizados nas decorações. Saiam de madrugada e só voltavam bem tarde da noite com a “Komby” abarrotada.

 

 Numa dessas ocasiões, após ter comprado todos os brinquedos, o motorista deixou-a na Rua 25 de Março para comprar veludos e poás para a roupa do Papai Noel, enquanto ele seguia até o posto de gasolina mais próximo para abastecer o veículo. Por infelicidade, numa das esquinas da Baixada do Glicério, a perua foi violentamente abalroada e arrastada por um troleybus . O pobre motorista, inconsciente, foi levado para o Hospital das Clinicas e ali ficou por horas, até recobrar os sentidos.

 

 Terminadas as compras, já bem no final da tarde, Dona Elza seguiu em direção ao “mercadão”, local onde o motorista combinara de esperá-la. Passada as 5 horas, passada as 6,  chegada as 7 e nada de a perua aparecer. Lojas fechadas, nenhum transeunte para socorrê-la; a coitada ficou apavorada, refugiando-se na marquise de um dos vetustos prédios da região sinistra.

 

 Ali pelas 8 da noite aproximou-se dela um mendigo, com várias sacolas na mão, que foi logo lhe dizendo: “Olha, Dona, esse lugar é meu...Se a senhora quiser se acomodar, ajeita o outro canto pois neste aqui é onde eu estendo meu cobertor!”

 

Dona Elza, assustada e meio nauseada com o forte cheiro acre/rançoso que exalava do mendigo, encolheu-se do outro lado, junto com suas sacolas. Quase chorando, não sabia se rezava ou se amaldiçoava o motorista. O mendigo arrancou da sacola um marmitex, todo amassado e perguntou , com voz enrolada: “Quer dividir a comida? O rango é pouco mas parece que a senhora não comeu nada ainda hoje... tá com o zóio fundo!”

 

 Realmente, ela estava morta de fome pois não comera nada , por conta do corre-corre das compras. Quando, mais tarde, o homem sacou de dois pãezinhos e algumas bananas, ela não agüentou e aceitou o sanduíche de pão com banana. A noite ia avançada e fria, quando ela começou a chorar baixinho.

 

Lá pelas dez horas da noite, horário previsto de chegada, os parentes de Dona Elza começaram a preocupar-se com a demora. Ao celular que ficara na Perua, ninguém atendia e daí começaram a ligar para a polícia, necrotérios e hospitais até que descobriram o paradeiro do motorista, já consciente mas completamente “zureta”, não se lembrando de nada.

 

 Resumindo a ópera, a primeira dama somente foi resgatada por volta das 5 da matina, dormindo, sentada no cobertor do mendigo e enrolada nos veludos do Papai Noel. Foi uma noite do cão mas, reconhecida pela bondade do companheiro, levou-o consigo para sua cidade, convencendo o marido/prefeito  a contratá-lo em “serviços gerais” no pátio da prefeitura.

 

 Naquele Natal, o Papai Noel foi um mendigo resgatado das ruas de São Paulo.

 

E já que falei em Papqi Noel e Natal, vou passar uma receita de rabanadas de minha tia Olívia:

 

 RABANADAS:  Uma bengala de pão amanhecida de 3 dias e cortada em fatias; 1 litro de vinho tinto seco; 1/2 kg de açúcar; 2 colheres (de chá) de canela em pó. Misturar tudo e passar as fatias de pão neste melado (dos dois lados). Fritar numa panela ou frigideira tefall (dos dois lados). Colocar, em camadas, numa travessa e espalhar por cima açúcar e canela. Com o vinho que sobrou, apurar uma calda rala, esperar amornar e despejar sobre as rabanadas. Levar à geladeira. 

IRENE E SEU CASAMENTO

 

 Depois do incidente do circo, a mãe da Irene “deu ela para a madrinha”. Em troca de casa e comida, ela, já adolescente, limpava a casa e lavava a louça. A madrinha que era professora, ensinou bons modos e religião para a menina.

 

 Aos domingos ela tinha o direito de ir à matinê do único cinema existente na cidade e o dinheiro recebido da madrinha dava para o ingresso e mais uma pipoca ou sorvete. Conta ela que as luzes do cinema não se apagavam nem na hora da exibição da película, para evitar “sem vergonhices” dos casais de namorados.

 

Na igreja, era ela quem passava a sacolinha das ofertas e num domingo aprontou o maior escândalo em pleno ofertório, quando um rapaz mais afoito, fingindo depositar o dinheiro na sacola, roçou as mãos em seus peitinhos de menina moça. 

 O padre, chamando a madrinha, avisou:  “Se a menina não usar soutiens, não poderá mais ajudar na missa!” Foi daí que ela ganhou seu primeiro soutien, azul claro, de bojo, costurado com pontos em espiral.

 

Num domingo de carnaval, estava ela a varrer a calçada da madrinha, quando passou um caminhão, cheio de pessoas animadas cantando músicas carnavalescas, ao som de tambores, pandeiros e cuícas. “Eu mato...eu mato...quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato!” (música sucesso dos carnavais no início dos anos setenta).

 

 O caminhão parou bem ali em frente. O que chamou a atenção de Irene foi um negrão de quase dois metros de altura  que cantava, acenando para ela: “...minha cueca tava lavada...foi um presente que eu ganhei da namorada!” Cantando esse refrão, o rapaz fingia que ia abaixar as bermudas, mostrando partes de suas cuecas.

 

Irene ficou doidona...Jogou a vassoura longe e pulou para a carroceria do caminhão, ajudada pelo morenão provocante. Voltou somente na quarta-feira de cinzas, exausta mas feliz e de mãos dadas com o novo namorado, falando em casar-se.

 A madrinha ficou desesperada:  “Mas ele é negro, Irene...você tem que se casar com um branco!”

 “Que branco, que nada...sou neta de índios e quero povoar essa terra de cafuzos!”.

E assim, cumpriu-se o seu destino, três filhos, segundo suas palavras “cor de cabaça”, os quais lhe trouxeram muitas alegrias na vida.

Irene disse-me que ela não podia servir-se nas panelas pois, tinha que aguardar o prato feito pela madrinha. pegou trauma e nunca comeu em restaurante com serviço "a la carte". Só se sente bem comendo em self-service ou churrascaria. Deu-me uma receita de costela empanada que é uma delícia!

 COSTELA DE PORCO EMPANADA:  Compre uma manta inteira de costela de porco. Quebre-a no sentido horizontal, sem cortar a carne. tempere com sal, limão, alho, azeite, pimenta e molho inglês. Coloque para assear em forma forrada com papel alumínio. Espalhe por cima farofa de mandioca pronta e temperada. Bata bem com as mãos para empaná-la (como bife à milanesa). Vire-a e proceda da mesma maneira. Cubra com papel alumínio e leve ao forno quente. Retire o papel, depois de 1 hora e deixe dourar por mais ou menos 1 hora, até ficar crocante.

IRENE E AS MÃOS DO MORTO

 Morando na beira da cidade, Irene expandiu seus horizontes! Coisa rara naquela época era a televisão mas uma família vizinha comprou um daqueles aparelhos pequenos com duas antenas que pareciam dois chifres de ET. A menina, em troca de lavar a louça para a família, era autorizada a assistir aos programas da tarde e começo de noite porém, não tinha autorização para sentar-se no sofá. Levava de sua casa uma das latas de mantimentos da mãe para servir de banquinho.

 Seus programas favoritos era a série "Alô Doçura", com Eva Vilma e John Herbert (na época, marido e mulher, ainda jovenzinhos) e a novela mais comprida da estória da televisão: "O Direito de Nascer" de Félix Caignet. Voltava para casa com os olhos inchados e nariz escorrendo de tanto chorar ante o drama da Mamãe Dolores, Izabel Cristina e Albertinho Limonta.

 O barraco da família era de taipa (bambus trançados e preenchidos com uma mistura de barro, esterco de vaca e cal) e era pintada com água e cal para evitar proliferação do bicho barbeiro. O chão, de terra batida, também recebia uma camada de esterco e cal que era sempre respingado de água antes de ser varrido, para não levantar poeira. Se não tinha um bom aroma, pelo menos era bem fresquinha.

Dividida ao meio por uma parede bem mais baixa que os caibros sustentadores do telhado permitia que fosse ouvido tudo o que se dizia de um lado ou do outro. A família de Irene morava em dois cômodos e no outro cômodo um senhor solteirão e já bem velhinho, chamado Azarias. 

  Era um benzedor dos bons que, invocando São Cosme e são Damião, curava de tudo, menos a própria tosse comprida e irritante que não deixava os vizinhos de parede dormirem. Numa tarde muito fria de Julho, o velho arrebentou-se de tanto tossir e morreu! Quando os vizinhos deram por conta, o defunto já estava duro e com os braços esticados e por isso, não conseguiram cruzar suas mãos. Foi velado assim mesmo.

 Irene percebeu que na dispensa do vizinho havia várias latas cheias de mantimentos e como a carestia em sua casa era muito grande, resolveu surrupiar todo o suprimento. Bolou que bolou até que surgiu a idéia: durante a noite, enquanto o pessoal estava na cozinha esquentando-se no borralho do fogão à lenha, ela e mais dois irmãos amarraram ambas as mãos do defunto com uma linha de anzol bem fina. Passaram as linhas, com carretel e tudo por de cima da parede baixa.

Na manhã seguinte, enquanto todos rezavam o terço da despedida, Irene preparou-se para a "grande performance de sua vida". Aos pés do esquife ficou atenta e quando os irmãos, do outro lado da casa, começaram a puxar as linhas do anzol, levantando as mãos do morto, ela deu um grito de horror:

 " Ah... geeeente, o morto tá vivo!".

Foi aquele frejo danado e o barraco quase veio abaixo... A porta da sala era tão pequena que mal cabia uma pessoa mas o desespero era tanto que conseguiram sair de dois a três ao mesmo tempo. Irene, tranquilamente, escolheu o que quis na cozinha e com a ajuda dos irmãos trasladou tudo para sua casa. Até os vidros de pimenta cumari que o velho temperava para vender, não foram poupados.

E já que falei em cumari (erroneamente chamada de cumbari) vou ensiná-los a temperar um molho de pimenta que dura anos e anos, sem perder o sabor ou se deteriorar:

 PIMENTA CUMARI:

De picância média a forte, a cumari ( capsicum baccatum) é muito encontrada, em forma silvestre, nos pastos dos estados do sul e sudeste do Brasil. Além de servir-se como excelente tempero para carnes, molhos e feijão, medicinalmente ela tem a funcão de antioxidante e bactericida. Dependendo de seu estado de maturação, ela pode ser encontrada nas cores verdes, alaranjadas ou vermelhas. Eu prefiro as verdes pois duram mais e são mais mansas. Depois de colhidas elas devem ser lavadas, sem os cabinhos verdes, e bem enxutas ao sol ou com um pano limpo. Devem ser colocadas em potes de vidro, até à metade do vasilhame e completada com pinga pura e sal. Não acrescentar mais nada pois, assim temperadas elas duram décadas, sempre muito saborosas. À medida que o líquido for se acabando, misture mais cachaça e um pouco de sal.

 

IRENE E SEUS DESMAIOS

 A Irene foi, durante um bom tempo nossa copeira, lá no Banco. Era uma batalhadora e criou os três filhos sozinha. Botou o marido para fora, ao saber que ele tinha outra mulher e a partir daí, não quis mais saber de "bicho homem". Quando criança, Irene não gostava de andar com meninas e esse negócio de brincar de casinha ou nanar bonecas não era com ela. Como presente de natal, a mãe confeccionou-lhe uma boneca  com um sabugo de milho, saias de palha e colou na cabeça os cabelos do milho cobertos com um lencinho.

 

 

 Quando as amigas viram aquilo começaram a zombar dela e a vergonha foi tanta que ela jurou nunca mais brincar de bonecas e nem com meninas. Passou a brincar com os moleques, jogando bola, biroscas, apostando corridas, pescando, soltando papagaio e trepando em árvores.

 

  Numa tarde de verão, após ter jogado umas duas partidas de futebol com a molecada, ela chegou em casa morta de sede. Não tinha água na moringa de barro, teria que ir até à mina para beber.  Foi então que ela avistou um copo sobre a mesa, cheio de guaraná e num gole só, sorveu todo o líquido. Quando percebeu que aquilo era puro querosene, já era tarde demais.

 

Quase morreu envenenada e a partir desse dia, passou a ter desmaios e a sofrer convulsões. Sempre que ficava muito agitada ou nervosa, a coitada desmaiava ou tinha ataques. Muitos de seus ataques eram fingidos, para fugir de alguma surra ou repreensão e a mãe nunca tinha certeza se podia bater ou não. Teve uma vez que ela não conseguiu enganar a mãe e foi assim:

 

 Eles moravam numa tapera de um sítio próximo à cidade. A dona da propriedade chamava-se Abadia e criava porcos num cercado enorme que era chamado de “mangueirão”. Além dos chiqueiros, havia várias árvores frutíferas, inclusive umas três ou quatro mangueiras. Aquele local também era utilizado como privada, já que naquele tempo eram poucas as residências que tinham banheiros.

 

 Numa manhã de dezembro, Irene e um amigo estavam trepados numa das árvores, chupando mangas, quando avistaram a dona do sítio agachada,  segurando as saias, a fazer xixi. As crianças começaram a jogar caroços do fruto na mulher e um deles acertou bem na bunda branca da velha. A pobre senhora era míope e tentava, sem sucesso, enxergar o autor da arte. Até que Irene gritou: “Bom dia, Dona Abadia! Ta fritando toicinho!” (quem já fez xixi direto na terra sabe que o barulhinho é idêntico ao frigir do torresmo em óleo quente). E desataram a rir sem parar...

 

 Reconhecida a voz, dessa vez não houve desmaios que a salvassem e Irene apanhou muito. Como conseqüência da diabrura feita, a família toda teve que se mudar do sítio, indo morar num casebre na beira da cidade.

A fim de compensar a parca refeição que servia para os filhos, a mãe de Irene costumava fazer sempre fígado e tutano de vaca, bem como espinafre e brócoli como fonte de ferro e vitaminas. Por isso, a receita de hoje será à base de brócolis.

 ARROZ COM BRÓCOLIS: 

Fritar bacom bem picadinho em azeite de oliva. Juntar alho e cebola batidos até murchar e em seguida, misturar pimentão verde em pedacinhos. Por último, acrescentar o brócoli (pré-cozido em água e sal) picado bem fininho. Experimentar o sal e deixar fritar mais um pouco. Misturar, levemente, ao arroz já cozido.

IRENE E SUAS FUGAS

 Contou-me, a Irene que sua mãe era descendente de índios e teve vários filhos, com pais diferentes. Para criar os bacurizinhos, ela "recebia" homens em sua casa. Apesar disso, Irene tinha muita pena da mãe a ponto de, certa noite, defendê-la de um freguês mais embriagado. A menina queimou as nádegas do homem com um tição em brasas (um toco de madeira grosso) que pegou do fogão à lenha. Como as calças do marmanjo eram de tergal (um tecido sintético), as brasas incandescentes ficaram grudadas no tecido, deixando a bunda dele em chagas.

 Eram muito pobres e a medida em que cresciam, os irmãos iam dispersando-se pelo mundo, ficando apenas as mulheres. Apesar de ter pena da mãe, a Irene tentou fugir de casa várias vezes. Aos sete anos, refugiou-se numa casa de órfãos, dizendo que não tinha pais e quando a mãe descobriu seu paradeiro, escondeu-se dentro do grande caldeirão de sopa, cobriu-se com a tampa e ficou ali quietinha, até a mãe ir-se embora.

  Doutra feita, escondeu-se num vagão de trem e foi parar lá em Tanquinhos, uma estação ferroviária próxima à Campinas. Caminhou por mais de vinte quilômetros até chegar ao sítio onde morava uma conhecida de sua mãe. A mulher acolheu a menina e enquanto a distraía com agrados, mandou avisar sua mãe, por intermédio do maquinista.

 Em poucos dias, a policia apareceu no sítio levando-a de volta para casa. 

    Seu sonho era ser contorcionista,  e desde pequena vivia fazendo malabarismos para uma platéia seleta de irmãos e amigos.  Por ocasião da chegada de um circo de variedades na cidade, Irene fez amizade com a filha do dono do circo, Kátia Elaine,  a qual, por uns três meses, estudou em sua classe (as escolas eram, ou ainda são, obrigadas a aceitarem as crianças circenses em qualquer época do ano).  Sabedora dos sonhos de Irene, a amiguinha mambembe ajudou-a na montagem de uma carta de autorização, com a assinatura falsificada da mãe . Numa segunda-feira, de madrugada, a garota foi-se embora com o circo.

 Ficou uns dois meses rodando com a troupe circense,  mas o máximo que conseguiu foi ajudar a levantar as lonas e puxar cordas para armar o circo. Até que um dia, em Poços de Caldas/MG, enquanto o pessoal esticava a lona que estava presa somente ao mastro central, Irene e Katia Elaine treinavam "salto estrela" (essa acrobacia consiste em dar um salto para trás, apoiar as mãos no chão e impulsionar o corpo para cair em pé). Na primeira tentativa, Irene foi de encontro ao mastro central que chocou-se, violentamente, na "forquilha" de suas pernas. Com hematomas na periquita e duas costelas quebradas, foi levada, mais uma vez, de volta para sua mãe.

 

Irene não pode ver carne-seca na frente; não suporta nem o cheiro te tanto que comeu durante sua infãncia mas eu adoro e vou ensinar como é que se faz um delicioso croquete de carne-de-seca:

 CROQUETES DE CARNE-SECA:  500 gramas de carne seca; 1 xícara (chá) de leite; 1 colher (sobremesa) de farinha de trigo; 2 ovos; sal e salsa picada; 1 colher (café) de fermento em pó e farinha de rosca.

Deixe a carne seca de molho por 12 horas (trocando a água várias vezes) para tirar o excesso de sal. Leve ao fogo, com bastante água, para cozinhar em panela de pressão. Escorra a água e desfie a carne seca. À parte, leve ao fogo brando, o leite, a farinha de trigo e o sal, cozinhando tudo até encorpar. Retire do fogo e espere amornar um pouco, misturando em seguida 01 ovo, a salsa, o fermento e a carne seca. Modele os croquetes com as mãos untadas com margarina ou óleo. Passe-os no outro ovo (batido com 1 colher de água) e na farinha de rosca, duas vezes. Frite em óleo bem quente. Dá uns 30 croquetes.

A MARLENE

Noutras ocasiões, (dias 16 e 22 /02 /08 ) pude falar sobre o meu amigo Ciro Ney; de seu nascimento, casamentos e outras acontecimentos. Surgiu, agora, outra oportunidade de fazê-lo protagonista de meu Blog, junto com sua terceira mulher, a Marlene.

 Num desses sábados, eu e minha esposa fomos com o casal a um baile numa cidade vizinha. Era baile de casais, com orquestra, pouca luz e tudo o mais. Dançamos e bebemos cuba-libre a noite toda e lá pelas tantas, avistamos um conhecido nosso, Ruberval, sentado em uma mesa mais afastada do salão, acompanhado da mulher. Acenamos de longe e logo depois ele veio a nossa mesa para bater um papo com o Ciro Ney e a Marlene.

A Marlene estranhou o fato de a esposa do outro não ter vindo cumprimentá-la também e ainda comentou: "Como a Neide é antipática..." Minha mulher emendou: E o marido está bem bonitão... Acho que é por isso que ele bota chifres nela!" Daí a Marlene arrematou: "E você reparou como ela emagreceu! Até parece outra pessoa..." 

 E assim continuaram naquela conversa viperina que só as mulheres detêm o domínio, dançamos mais um pouco e lá pelas 3 da matina resolvemos ir-nos embora. O casal de conhecidos continuou no salão.

 Pelo meio do domingo o Ney ligou para minha casa dizendo que o Ruberval havia sido acometido de um AVC (derrame cerebral) e estava na UTI. Ficamos impressionados com o incidente porém, já na terça-feira, ele tinha se recuperado bem e saído da UTI para o quarto do hospital, apto a receber visitas. O Ciro e a Marlene, mais chegados na amizade, foram visitá-lo.

Encontraram-no, semi deitado, com um babador no peito, tomando sopa de mandioquinhas. Sua dedicada esposa tentava administrar-lhe o caldo com cuidados para que o mesmo não escorresse por seu queixo, sem muito sucesso, já que o AVC o deixara com a boca torta.

 Minha amiga, percebendo que a esposa do Ruberval, ao contrário do que pareceu-lhe na véspera, continuava gordinha como sempre, pensou com seus botões: ""Amanhã mesmo vou ao oculista!"  O Ciro Ney, olhando o estado do amigo, também pensou, não sem uma ponta de despeito: "Bonitão, bonitão mas está aí com a boca torta!"

Então, a Marlene escorregou na banana e deu o grande fora de sua vida... Com as feições contritas e a mão nos peitos, disse:"Ai, Neidinha, como foi acontecer isso?! No sábado vocês estavam tão bem lá no baile... o Ruberval até veio a nossa mesa para bater um papinho com a gente e estava tão alegre!"

A mulher que estava com a papinha a meio caminho da boca do marido, socou a colher de uma só vez na goela dele e esclamou: "Que mesa? Que baile?! Faz anos que este lazarento não me leva a um baile!"

A Marlene ficou muda e o Ciro que já é meio rosado, ficou rubro... E mais pasmos ficaram quando a mulher, amaciando o tom da voz, sussurrava maquiavelicamente: " Ah, meu amorzinho, então você levou tua mulherzinha ao baile, né? Toma a sopinha, toma!" E batia, histericamente, com a colher nos dentes cerrados do marido. "Abra a boquinha, néném, abra!!"

 Num rompante, Neide levantou-se da cadeira e jogou o prato na cara do Ruberval, gritando: Morra, seu f.d.p., pois nem em teu velório eu vou!" E saiu do quarto, espumando de ódio.

Resumindo: O garanhão voltou para a UTI e desta vez, o AVC veio forte!

Normalmente, a Marlene não costuma ser fofoqueira. É uma dona de casa bem resolvida e que sabe cozinhar como ninguém. Vou passar uma de suas receitas: